{"id":492,"date":"2008-06-19T00:00:00","date_gmt":"2008-06-19T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/litci.org\/pt\/2008\/06\/19\/os-descaminhos-da-africa-do-sul-do-apartheid-a-xenofobia\/"},"modified":"2008-06-19T00:00:00","modified_gmt":"2008-06-19T00:00:00","slug":"os-descaminhos-da-africa-do-sul-do-apartheid-a-xenofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2008\/06\/19\/os-descaminhos-da-africa-do-sul-do-apartheid-a-xenofobia\/","title":{"rendered":"Os descaminhos da \u00c1frica do Sul: do Apartheid \u00e0 xenofobia"},"content":{"rendered":"<p class=texto style=\"MARGIN: 0cm 0cm 12pt; TEXT-ALIGN: justify\" align=justify><span style=\"FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Georgia; mso-ansi-language: PT-BR\">As \u00faltimas semanas de maio foram marcadas, na \u00c1frica Sul, por uma onda de ataques xen\u00f3fobos, ou seja, contra imigrantes estrangeiros. O r\u00e1pido crescimento do n\u00famero de mortos e feridos (negros de pa\u00edses como o Zimb\u00e1bue, Mo\u00e7ambique, Som\u00e1lia, Eti\u00f3pia e Angola) exp\u00f4s as terr\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias das pol\u00edticas adotadas pelo Congresso Nacional Africano (CNA) desde que chegou ao poder, atrav\u00e9s de Nelson Mandela, em 1994.<\/p>\n<p>A onda de f\u00faria deixou mais de 50 mortos e provocou a fuga desesperada de cerca de 100 mil estrangeiros. A enorme maioria \u00e9 de um miser\u00e1vel e tumultuado pa\u00eds que faz fronteira com a \u00c1frica do Sul, o Zimb\u00e1bue, governado pela sanguin\u00e1ria ditadura de Robert Mugabe.<\/p>\n<p>Todos negros, evidentemente, como tamb\u00e9m eram negros e miser\u00e1veis os milhares de sul-africanos que provocaram esse lament\u00e1vel epis\u00f3dio, utilizando-se, inclusive, de um m\u00e9todo relacionado \u00e0 luta contra o Apartheid: a execu\u00e7\u00e3o de pessoas queimadas vivas com pneus ao redor do corpo.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a extremamente importante \u00e9 que, na \u00e9poca da luta contra o regime racista, os pneus eram usados para eliminar traidores e colaboradores do sistema, principalmente os negros que faziam parte das for\u00e7as policiais e militares. Ou seja, ardiam na luta, sem tr\u00e9guas (como tinha que ser) pela liberdade.<\/p>\n<p>Agora, no entanto, o alvo dos ataques s\u00e3o trabalhadores em busca de emprego, homens, mulheres, crian\u00e7as, jovens e velhos. Gente vitimada pela &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; do desemprego, do corte de direitos, da superexplora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, do aumento da mis\u00e9ria, provocado, tamb\u00e9m, pelos desastres ecol\u00f3gicos causados pela gan\u00e2ncia sem fim dos &#8220;senhores do mundo&#8221;. Gente, em suma, que s\u00f3 tinha uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria daqueles que os atacaram: eram estrangeiros.<\/p>\n<p>Reflexo distorcido e, conseq\u00fcentemente, ainda mais absurdo, de cenas j\u00e1 vistas em pa\u00edses europeus ou na fronteira dos Estados Unidos com o M\u00e9xico, a onda xen\u00f3foba entre os sul-africanos mascara, contudo, os verdadeiros inimigos que se encontram por tr\u00e1s dos olhos desesperados daqueles que, aos milh\u00f5es, todos os dias, deixam suas terras e se espalham pelo mundo em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida: as pol\u00edticas neoliberais e imperialistas e a covarde submiss\u00e3o das elites e governos de pa\u00edses, mundo afora.<\/p>\n<p><b>Da trai\u00e7\u00e3o a um &#8220;novo&#8221; Apartheid<\/b><\/p>\n<p>Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2 de julho, o professor sul-africano Loren Landau, da Universidade de Witwatersrand, foi certeiro ao apontar as raz\u00f5es por tr\u00e1s da onda de ataques: <i>&#8220;Os sul-africanos continuam t\u00e3o pobres quanto h\u00e1 15 anos, ap\u00f3s o Apartheid (&#8230;). O fracasso do governo em cumprir as promessas que fez em 1994 \u00e9 a verdadeira causa da revolta. A frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 tanta que a popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 conseguiu express\u00e1-la pela viol\u00eancia&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Uma frustra\u00e7\u00e3o que, de fato, s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 maior do que eram as expectativas dos negros e negras que sofreram com o Apartheid ou que possa ser comparada com os in\u00fameros e her\u00f3icos esfor\u00e7os e sacrif\u00edcios feitos durante o longo processo de luta contra o regime racista que, apesar de ter sido oficialmente institucionalizado em 1948, j\u00e1 vigorava desde o final do s\u00e9culo 19, mantendo legalmente uma total separa\u00e7\u00e3o entre os 90% dos negros e a poderosa minoria branca.<\/p>\n<p>O fato de que os ataques xen\u00f3fobos tenham explodido agora, depois de 14 anos de governos do CNA, e de forma t\u00e3o violenta, tem que ser visto como mais um infeliz resultado da trai\u00e7\u00e3o de Mandela e seus companheiros, pois foi exatamente no momento em que a maioria do povo via reais possibilidades de n\u00e3o s\u00f3 derrubar o Apartheid, mas tamb\u00e9m os que mais se beneficiavam com a opress\u00e3o, que o CNA desvios as lutas para o beco sem sa\u00edda da concilia\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<p>Foi exatamente na virada da d\u00e9cada de 1980, quando greves, manifesta\u00e7\u00f5es e protestos generalizados minavam a estrutura do sistema, que o CNA abandonou a luta direta contra o regime e partiu para uma vergonhosa negociata com os dirigentes racistas.<\/p>\n<p>O acordo, expresso em sucessivos governos formados em alian\u00e7a com a velha elite capitalista e racista sul-africana, resultou na extin\u00e7\u00e3o das bases legais do Apartheid, mas \u00e0s custas da manuten\u00e7\u00e3o de toda estrutura econ\u00f4mica que garantia \u00e0 minoria branca o poder para superexplorar a maioria negra.<\/p>\n<p>O regime de colabora\u00e7\u00e3o de classes &#8211; que, hoje, tamb\u00e9m causa estragos no Brasil e outros tantos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina &#8211; originou novas e complexas contradi\u00e7\u00f5es na \u00c1frica dos Sul p\u00f3s-Apartheid, mas, na ess\u00eancia, manteve a maioria negra do pa\u00eds na mais absoluta mis\u00e9ria. Uma situa\u00e7\u00e3o em muito agravada pela canina submiss\u00e3o do CNA ao receitu\u00e1rio do FMI. E os resultados n\u00e3o poderia ser outro: aumento do desemprego, perda de direitos e a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de trabalho cada vez mais opressivas. <\/p>\n<p><b>Uma di\u00e1spora sem fim<\/b><\/p>\n<p>Apesar de um \u00edndice de desemprego que atinge a casa dos 40%, a \u00c1frica do Sul ainda \u00e9 vista como um o\u00e1sis de oportunidades para as massas dos pa\u00edses vizinhos, onde a combina\u00e7\u00e3o de saque imperialista, a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de governos corruptos, epidemias e guerras resultou em situa\u00e7\u00f5es ainda mais catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 bom lembrar, que n\u00e3o tem nada a ver com uma suposta &#8220;incapacidade&#8221; dos africanos em se autogovernarem (como muitos j\u00e1 defenderam), mas que tem suas origens na barb\u00e1rie provocada por s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o e, principalmente, pela destrui\u00e7\u00e3o provocada por todos absurdos que cercaram a escravid\u00e3o e a di\u00e1spora (dispers\u00e3o) de negros e negras ao redor do mundo. <\/p>\n<p>Exemplo disto \u00e9 o Zimb\u00e1bue, pa\u00eds que isoladamente &#8220;contribuiu&#8221; com tr\u00eas dos cinco milh\u00f5es de pessoas que migraram para a \u00c1frica do Sul. S\u00f3 se pode descrever o pa\u00eds de uma forma: um total caos. O desemprego atinge 80% da popula\u00e7\u00e3o. A infla\u00e7\u00e3o \u00e9 a maior do mundo: inacredit\u00e1veis 165.000%. O resultado n\u00e3o poderia ser outro: em muitas de suas regi\u00f5es (como no resto do continente) a expectativa de vida mal beira os 30 anos, enquanto a mortalidade infantil ganha propor\u00e7\u00f5es genocidas.<\/p>\n<p>\u00c9 fugindo de situa\u00e7\u00f5es como essas que africanos de v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o est\u00e3o sendo obrigados a dar seq\u00fc\u00eancia \u00e0 indesejada di\u00e1spora iniciada por seus ancestrais. E como acontece em todos os cantos do mundo, ao imigrarem para o vizinho mais rico da regi\u00e3o, esta massa de desesperados submete-se a todos os mecanismos de superexplora\u00e7\u00e3o decorrentes da &#8220;ilegalidade&#8221;: sal\u00e1rios de fome, condi\u00e7\u00f5es de trabalho que beiram a escravid\u00e3o, absoluta falta de acesso a direitos m\u00ednimos, como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o e nenhuma assist\u00eancia por parte do governo de Thabo Mbeki.<\/p>\n<p>Uma massa de refugiados que, contudo, aos olhos dos explorados sul-africanos, \u00e9 equivocadamente vista como respons\u00e1vel pelo aumento das filas de desempregados e pela crescente criminalidade que se espalha pelo pa\u00eds. Da\u00ed at\u00e9 serem transformados em alvo de furiosos ataques, foi uma quest\u00e3o de tempo. <\/p>\n<p><b>F\u00faria anunciada<\/b><\/p>\n<p>O criminoso descaso do governo do CNA ficou escancarado na postura adotada pelo presidente Mbeki, que s\u00f3 se dignou a comentar o assunto mais de vinte dias depois do in\u00edcio dos ataques. <\/p>\n<p>Antes disto, contudo, ele teve tempo e disposi\u00e7\u00e3o para mandar o Ex\u00e9rcito prender mais de mil pessoas, reprimir violentamente os refugiados, o que acabou &#8220;respingando&#8221; na popula\u00e7\u00e3o em geral (houve pelo menos um jovem sul-africano morto pelas tropas, em um bairro de Johannesburgo), fazendo aumentar ainda mais a f\u00faria popular. <\/p>\n<p>Enquanto Thabo Mbkei se silenciava, fam\u00edlias inteiras eram for\u00e7adas para fora de vilarejos e milhares de outros eram obrigados a buscar ref\u00fagio nas escolas, igrejas ou qualquer outro lugar que lhes abrisse as portas. A viol\u00eancia nas cidades sul-africanas tamb\u00e9m ecoou nas regi\u00f5es vizinhas. N\u00fameros oficiais d\u00e3o conta de 19.850 mo\u00e7ambic<br \/>\nanos que lotaram os campos de refugiados instalados na fronteira do pa\u00eds e no aeroporto da capital Maputo e na pr\u00f3pria capital. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o demorou para vir \u00e0 tona que a trag\u00e9dia j\u00e1 estava anunciada h\u00e1 muito tempo. Al\u00e9m do evidente clima de insatisfa\u00e7\u00e3o nas ruas, o governo j\u00e1 havia sido advertido por embaixadores de v\u00e1rios pa\u00edses, fato admitido pelo pr\u00f3prio governo Mbeki.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas \u00e0 forma como o governo lidou com a situa\u00e7\u00e3o abalaram ainda mais a credibilidade do j\u00e1 enfraquecido presidente, Thabo Mbeki, ao ponto de que um dos jornais de maior circula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, The Sunday Times tenha estampando a manchete <i>&#8220;Senhor presidente: por favor, renuncie agora&#8221;<\/i>. <\/p>\n<p><b>Socialismo, a \u00fanica sa\u00edda<\/b><\/p>\n<p>Mesmo que evidentemente alinhado com a l\u00f3gica da elite dominante, que tamb\u00e9m come\u00e7a a questionar a capacidade de Mbeki em controlar a insatisfa\u00e7\u00e3o popular, o jornal aponta num caminho que j\u00e1 compartilha com a simpatia de setores significativos dentre os trabalhadores e jovens sul-africanos.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o poucos os que, apesar de ainda reconhecerem seus antigos dirigentes na luta contra o Apartheid nas figuras que, hoje, est\u00e3o instaladas no poder, j\u00e1 percebem que eles nada t\u00eam a ver com seu passado de gl\u00f3rias. <\/p>\n<p>Se n\u00e3o bastassem os sucessivos ataques disparados pelo governo, h\u00e1 muito \u00e9 imposs\u00edvel mascarar o fato de que, enquanto a enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o negra continua vivendo amontoada nos miser\u00e1veis <i>townships&#8221;<\/i> (as favelas locais), a nata do governo, seus funcion\u00e1rios (muitos deles ex-combatentes da luta contra o Apartheid) e seus parceiros, agora, dividem a vizinha com a elite branca, quando n\u00e3o se trancafiaram nos seguros condom\u00ednios constru\u00eddos para a nova classe m\u00e9dia negra.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles os verdadeiros respons\u00e1veis pelo escandaloso caso de xenofobia que manchou a hist\u00f3ria de um pa\u00eds que abriga um dos povos que mais lutou no s\u00e9culo passado. Foi o governo do CNA, sob a tutela do imperialismo internacional e em cumplicidade com seus corruptos parceiros instalados no poder em todo continente africano, que deu origem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0s b\u00e1rbaras cenas.<\/p>\n<p>Esse sentimento, inclusive, tamb\u00e9m foi expresso pelos milhares de manifestantes que, apesar e contra a vontade pol\u00edtica do governo, sa\u00edram \u00e0s ruas para protestar contra a opress\u00e3o xen\u00f3foba. Em meio \u00e0s passeatas, em cidades como Durban, Cidade do Cabo e Johannesburgo n\u00e3o faltaram faixas e protestos exigindo mais empregos, sal\u00e1rios dignos e o fim do programa neoliberal do governo.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, \u00e9 preciso n\u00e3o somente denunciar esta situa\u00e7\u00e3o, estendendo nossa solidariedade aos imigrantes dispersos pela \u00c1frica, como tamb\u00e9m conclamar o povo africano a dirigir sua justificada f\u00faria contra os reais causadores da mis\u00e9ria e das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida em que vivem. <\/p>\n<p>E, para tal, \u00e9 necess\u00e1rio reconstruir organiza\u00e7\u00f5es independentes do governo, reorganizar os movimentos sindicais, estudantis e popular para reconstruir a luta por uma \u00c1frica do Sul, n\u00e3o-racista e socialista. O \u00fanico caminho, tamb\u00e9m, para o resto do continente.<?xml:namespace prefix = o ns = \"urn:schemas-microsoft-com:office:office\" \/><o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00faltimas semanas de maio foram marcadas, na \u00c1frica Sul, por uma onda de ataques xen\u00f3fobos, ou seja, contra imigrantes estrangeiros. 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