{"id":33632,"date":"2020-06-12T09:40:26","date_gmt":"2020-06-12T11:40:26","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33632"},"modified":"2020-06-12T09:40:26","modified_gmt":"2020-06-12T11:40:26","slug":"meus-herois-nao-viraram-estatua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/06\/12\/meus-herois-nao-viraram-estatua\/","title":{"rendered":"Meus her\u00f3is n\u00e3o viraram est\u00e1tua"},"content":{"rendered":"<p><em>O brutal assassinato de mais um negro pela racista pol\u00edcia dos EUA provocou uma espetacular onda de protesto pelo mundo contra o racismo. Nos \u00faltimos dias, a indigna\u00e7\u00e3o atingiu tamb\u00e9m s\u00edmbolos do colonialismo com a derrubada da est\u00e1tua de um traficante de escravos em Bristol e a destrui\u00e7\u00e3o de duas est\u00e1tuas de Colombo nos EUA. Nada mais natural, o racismo e a explora\u00e7\u00e3o dos povos s\u00e3o os s\u00edmbolos do colonialismo. A luta contra a opress\u00e3o e o racismo tamb\u00e9m se expressam na disputa pela mem\u00f3ria. Aqui no Brasil tamb\u00e9m assistimos em passado recente manifesta\u00e7\u00f5es semelhantes, colocando em xeque monumentos de exalta\u00e7\u00e3o da ordem colonial, que ao contr\u00e1rio de uma vis\u00e3o id\u00edlica ainda muito disseminada, foi na realidade um processo de destrui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e africana.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Rodrigo Ricupero, professor de Hist\u00f3ria do Brasil-USP e presidente da Adusp<br \/>\nO Brasil foi constru\u00eddo ou conformado, em primeiro lugar, a partir da destrui\u00e7\u00e3o das sociedades ind\u00edgenas existentes no territ\u00f3rio que foi paulatinamente conquistado. Estas sociedades ind\u00edgenas n\u00e3o eram \u201cOutro Brasil\u201d, eram, podemos dizer, o \u201cN\u00e3o Brasil\u201d.<br \/>\nO processo de conquista militar do territ\u00f3rio foi central na conforma\u00e7\u00e3o da nascente sociedade colonial, permitindo a transforma\u00e7\u00e3o dos \u00edndios antes livres em escravos e a apropria\u00e7\u00e3o das terras transformada em propriedade privada. Esse processo, que em outro trabalho chamei de \u201cacumula\u00e7\u00e3o primitiva colonial\u201d, aproveitando-me da famosa express\u00e3o de Marx, tamb\u00e9m n\u00e3o teve nada de id\u00edlico e permitiu a montagem de uma sociedade extremamente desigual e escravista.<br \/>\nA conquista da \u00e1rea litor\u00e2nea entre os atuais Estados de S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Norte durante o s\u00e9culo XVI foi uma enorme derrota para a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. As doen\u00e7as trazidas pelos europeus, as guerras empreendidas e a explora\u00e7\u00e3o do trabalho ind\u00edgenas foram respons\u00e1veis por uma verdadeira hecatombe, descrita na documenta\u00e7\u00e3o do per\u00edodo. Simplificando um pouco o processo, os \u00edndios escravizados, literalmente mo\u00eddos nos engenhos de a\u00e7\u00facar, foram sendo substitu\u00eddos pelos escravos africanos a partir do final do s\u00e9culo XVI nas \u00e1reas mais importantes da col\u00f4nia em grande medida, mas n\u00e3o apenas, pela dificuldade crescente na obten\u00e7\u00e3o de novos \u00edndios escravos.<br \/>\nO processo de explora\u00e7\u00e3o violenta da m\u00e3o de obra ind\u00edgena prosseguiu em ritmos diferentes pelas variadas \u00e1reas que foram sendo conquistas ao longo dos s\u00e9culos, associando-se tamb\u00e9m, em maior ou menor medida, com a destrui\u00e7\u00e3o destas mesmas popula\u00e7\u00f5es at\u00e9 os dias de hoje.<br \/>\nA consolida\u00e7\u00e3o da sociedade colonial no litoral permitiu o surgimento de um setor \u201cespecializado\u201d, digamos assim, na entrada pelo interior do territ\u00f3rio e na captura de \u00edndios. Tais figuras que posteriormente ficariam conhecidas como bandeirantes n\u00e3o eram exclusividade da vila de S\u00e3o Paulo, mas foi em torno desta regi\u00e3o que tal setor encontrou terreno mais f\u00e9rtil para se desenvolver no s\u00e9culo XVI e especialmente no XVII, perdendo import\u00e2ncia no s\u00e9culo seguinte.<br \/>\nA conquista de novos territ\u00f3rios e a descoberta de metais preciosos, t\u00e3o destacadas pela historiografia tradicional, n\u00e3o podem ser separadas das expedi\u00e7\u00f5es de captura de \u00edndios, do ataque aos quilombos (o famoso Palmares, por exemplo) e da destrui\u00e7\u00e3o das miss\u00f5es jesu\u00edticas no Paraguai, para citarmos apenas os \u201cfeitos\u201d mais conhecidos.<br \/>\nOs bandeirantes n\u00e3o s\u00e3o simplesmente os \u201cvil\u00f5es\u201d da \u00e9poca, eles eram apenas a face mais vis\u00edvel da viol\u00eancia fundamental que marcava aquela sociedade e junto com os homens ligados ao tr\u00e1fico de escravos africano foram pe\u00e7as fundamentais para a forma\u00e7\u00e3o e para a reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade escravista. Eram, por assim dizer, o outro lado da moeda dos senhores de engenho, dos mineradores, dos grandes mercadores e do pr\u00f3prio Estado portugu\u00eas no Brasil, da mesma maneira que hoje a tropa de choque da PM \u00e9 simbolicamente a outra face dos banqueiros, empreiteiros e do agro-neg\u00f3cio.<br \/>\n<strong>Devemos fazer t\u00e1bula rasa do passado?<\/strong><br \/>\nAs manifesta\u00e7\u00f5es a favor dos ind\u00edgenas, que recorrentemente tem tingido de vermelho o monumento \u00e0s bandeiras de Victor Brecheret, reacendem a tamb\u00e9m a discuss\u00e3o sobre a luta pela mem\u00f3ria. Devemos derrubar todos monumentos que glorificam os opressores de qualquer tempo?<br \/>\nA disputa pela mem\u00f3ria \u00e9 um aspecto da luta ideol\u00f3gica e pol\u00edtica mais geral. A direita brasileira sabe bem isso, n\u00e3o \u00e0 toa destru\u00edram o monumento em homenagens aos oper\u00e1rios mortos pelo ex\u00e9rcito em 1988 na invas\u00e3o da CSN em Volta Redonda. N\u00f3s, por outro lado, ainda apenas estamos come\u00e7ando a luta para retirar os nomes dos ditadores e torturadores das ruas brasileiras.<br \/>\nQuanto aos monumentos, n\u00e3o me parece que a resposta seja \u00fanica, \u00e9 preciso avaliar cada caso. Coloquemos abaixo uns, como as est\u00e1tuas dos ditadores que ainda estiverem em p\u00e9, e mudemos o significado de outros.<br \/>\nNo caso do monumento \u00e0s bandeiras de Brecheret, mais interessante do que uma pequena vingan\u00e7a da hist\u00f3ria com sua destrui\u00e7\u00e3o, \u00e9 dar-lhe um novo sentido, preservando no meio da cidade a lembran\u00e7a que a nossa sociedade foi constru\u00edda tamb\u00e9m sobre a explora\u00e7\u00e3o brutal da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Mais ainda, transformar o monumento na lembran\u00e7a concreta dessa nossa ferida aberta que \u00e9 a forma criminosa que a sociedade e os todos os governos t\u00eam tratado a quest\u00e3o ind\u00edgena.<br \/>\nSe \u201cmeus her\u00f3is n\u00e3o viraram est\u00e1tua\u201d, para utilizar o feliz t\u00edtulo do trabalho do historiador Pedro Puntoni, transformemos as est\u00e1tuas dos nossos \u201cn\u00e3o her\u00f3is\u201d em s\u00edmbolos de luta, assim, enquanto a remanescente popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o tiver garantida condi\u00e7\u00f5es dignas de vida, em especial com a demarca\u00e7\u00e3o de suas terras, que os \u00edndios e todos que os apoiam nessa causa pintem regularmente o monumento de vermelho, para lembrar nossa ferida aberta que ainda sangra.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O brutal assassinato de mais um negro pela racista pol\u00edcia dos EUA provocou uma espetacular onda de protesto pelo mundo contra o racismo. 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