{"id":33599,"date":"2020-06-10T10:46:13","date_gmt":"2020-06-10T12:46:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33599"},"modified":"2020-06-10T10:46:13","modified_gmt":"2020-06-10T12:46:13","slug":"o-que-e-ser-antirracista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/06\/10\/o-que-e-ser-antirracista\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 ser antirracista?"},"content":{"rendered":"<p><em>O assassinato de George Floyd fez explodir um conjunto de revoltas negras de costa a costa dos Estados Unidos. N\u00e3o s\u00f3 isso! Proporcionou levantes raciais e sociais em muitos pa\u00edses da Europa e Am\u00e9rica. Na Inglaterra derrubaram e destru\u00edram a est\u00e1tua de um traficante de escravizados, iguais a muitas est\u00e1tuas de escravistas e assassinos que existem espalhadas pelo territ\u00f3rio brasileiro, como \u00e9 o caso das homenagens a Duque de Caxias.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: \u00a0Rosenverck Estrela Santos, do PSTU Maranh\u00e3o, Quilombo Ra\u00e7a e Classe e vocalista do grupo de Rap G\u00edria Vermelha<br \/>\nEssas revoltas ganharam apoio e solidariedade de muitos setores e movimentos sociais. Um que ganhou destaque foi o movimento antifascista: os Antifas, principalmente quando o presidente norte-americano \u2013 Donald Trump \u2013 os chamou de terroristas. N\u00e3o tardou para a c\u00f3pia rasurada desse presidente no Brasil \u2013 Bolsonaro \u2013 replicar essas mesmas alus\u00f5es em nosso pa\u00eds.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pg-5-george-floyd-signs-25.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-33601\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pg-5-george-floyd-signs-25.jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pg-5-george-floyd-signs-25.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pg-5-george-floyd-signs-25-300x188.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pg-5-george-floyd-signs-25-150x94.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/a><br \/>\nAs buscas no Google por antifascismo tiveram um crescimento astron\u00f4mico. Muitos querendo entender os seus s\u00edmbolos e o que significava ser antifascista. Mesmo com pouco ou nenhum entendimento, viralizou a campanha antifascista, inclusive, secundarizando em alguns momentos o verdadeiro significado da luta negra norte-americana: o antirracismo. Os movimentos virtuais e as\u00a0hashtags\u00a0ampliaram-se de tal forma no Brasil que criaram distor\u00e7\u00f5es, como alguns grupos e movimentos que se autodenominam antifascistas, mas que na organiza\u00e7\u00e3o de atos buscam impedir a participa\u00e7\u00e3o de bandeiras e partidos pol\u00edticos de esquerda. A falta de entendimento hist\u00f3rico \u00e9 t\u00e3o grande que reproduzem a mesma pr\u00e1tica do fascismo e das ditaduras militares na Am\u00e9rica latina que cassavam e proibiam partidos pol\u00edticos. N\u00e3o obstante esses setores, o movimento antifascista \u00e9 importante e fundamental no mundo todo.<br \/>\nVoltando ao centro de nosso texto, as revoltas negras fizeram explodir tamb\u00e9m uma linda frase atribu\u00edda a \u00c2ngela Davis segundo o qual:\u00a0\u201cn\u00e3o basta n\u00e3o ser racista, \u00e9 preciso ser antirracista\u201d.\u00a0Mas, o que \u00e9 ser antirracista?<br \/>\n<strong>Racismo e antirracismo: algumas reflex\u00f5es<\/strong><br \/>\nAntirracista significa assumir e condenar a exist\u00eancia do racismo? Significa lutar contra o racismo e exigir igualdade de direitos e oportunidades? Significa ser solid\u00e1rio \u00e0 causa negra? Assumir que tem privil\u00e9gios, enquanto pessoas n\u00e3o negras? Antirracismo significa se empoderar? Significa construir o afro-empreendedorismo ou o\u00a0black Money?\u00a0\u00c9 poss\u00edvel ser antirracista sem ser anticapitalista? \u00c9 poss\u00edvel ser antirracista querendo apenas reformas na sociedade capitalista e adaptar-se a ela como faz o empoderamento negro, o\u00a0Black Money<a name=\"_ftnref1\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>\u00a0e o afro-empreendedorismo?<br \/>\nN\u00e3o queremos negar, inclusive, a import\u00e2ncia para a luta antirracista de algumas dessas formas de luta e consci\u00eancia, todas a seu modo, contribuem para o combate \u00e0s pr\u00e1ticas racistas e desigualdades na sociedade brasileira. No entanto, temos que aprofundar esse debate e ter mais consist\u00eancia do que significa a luta antirracista, porque sen\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que achamos estar fazendo, acabaremos por refor\u00e7ar e reproduzir as condi\u00e7\u00f5es que mant\u00e9m e robustecem o racismo.<br \/>\nAt\u00e9 que ponto essas formas de antirracismo podem ser integradas ao sistema capitalista e, sendo \u00fateis \u00e0 classe dominante, remediar alguns problemas conjunturais das forma\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas do capital; e, at\u00e9 que ponto elas podem ser importantes no amadurecimento das contradi\u00e7\u00f5es do Capitalismo e do desenvolvimento da consci\u00eancia de classe e \u00e9tnico-racial da popula\u00e7\u00e3o negra?<br \/>\nEm nossa opini\u00e3o, o movimento negro e a luta antirracista n\u00e3o podem ser caracterizados como uma a\u00e7\u00e3o exclusivamente racial, identit\u00e1ria ou pol\u00edtica. Os fatores pol\u00edticos, identit\u00e1rios n\u00e3o podem ser apartados dos determinantes socioecon\u00f4micos. Assim, igual \u00e0 classe e consci\u00eancia de classe, o racismo e a identidade racial s\u00e3o partes fundamentais da din\u00e2mica hist\u00f3rico-social e devem ser analisados dentro do quadro dos conflitos sociorraciais e seus determinantes complexos.<br \/>\nO racismo, a partir da metodologia marxista, n\u00e3o pode ser caracterizado sem a apreens\u00e3o de seu dinamismo hist\u00f3rico e conex\u00e3o estrutural com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.\u00a0 Isolar o racismo da totalidade complexa do qual faz parte \u00e9 um erro ideol\u00f3gico, hist\u00f3rico e metodol\u00f3gico. O racismo \u00e9 econ\u00f4mico, \u00e9 pol\u00edtico, \u00e9 ideol\u00f3gico, \u00e9 cultural, \u00e9 subjetivo, pois faz parte de um todo complexo e interligado empregado para explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra. Querer, a t\u00edtulo de exemplifica\u00e7\u00e3o, que o combate ao racismo seja no campo pol\u00edtico da identidade e n\u00e3o do econ\u00f4mico; ou no campo econ\u00f4mico desconsiderando o pol\u00edtico e a identidade \u00e9 um equ\u00edvoco de compreens\u00e3o da historicidade e realidade social da popula\u00e7\u00e3o negra, pois n\u00e3o percebe que esta se encontra posicionada desigualmente tanto nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, como nas rela\u00e7\u00f5es de consumo; tanto no campo econ\u00f4mico, quanto nas manifesta\u00e7\u00f5es da superestrutura pol\u00edtica, educacional, cultural, jur\u00eddica, etc. Portanto, os nexos hist\u00f3ricos do racismo, desde a compreens\u00e3o de sua g\u00eanese at\u00e9 as formas espec\u00edficas conjunturais, s\u00e3o importantes no entendimento da desigualdade da quest\u00e3o negra, bem como das medidas necess\u00e1rias para sua supera\u00e7\u00e3o, ou seja: o antirracismo.<br \/>\nDiante dessas reflex\u00f5es, qual deve ser o objetivo do movimento antirracista? Qual deve ser o objetivo proposto na consigna igualdade racial? Se concordarmos que a igualdade social e a emancipa\u00e7\u00e3o humana \u2013 e seus mecanismos, pr\u00e1ticas e ideologias de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o como o racismo, o machismo, etc. \u2013 passam pela extin\u00e7\u00e3o das classes e das condi\u00e7\u00f5es de desumaniza\u00e7\u00e3o impostas pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista no todo complexo do antagonismo estrutural, como a popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e1 localizada no interior dessa ant\u00edtese?<br \/>\nSabemos que a popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o \u00e9 toda a classe trabalhadora, mas ao mesmo tempo n\u00e3o podemos definir a classe trabalhadora brasileira sem a presen\u00e7a maci\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o negra. Ent\u00e3o, como o movimento negro pensa a igualdade social para a popula\u00e7\u00e3o negra? Sabendo localiz\u00e1-la no interior da classe trabalhadora e, assim sendo, conectando seus objetivos ao conjunto dessa classe ou pensando em propostas policlassistas que desmembram a popula\u00e7\u00e3o negra da classe trabalhadora e a concebem para al\u00e9m das classes? \u00c9 poss\u00edvel ter igualdade racial e igualdade social no Brasil ou em qualquer parte do mundo, onde as condi\u00e7\u00f5es raciais s\u00e3o imperativas, demandando propostas e objetivos policlassistas ou supraclassistas e mantendo as condi\u00e7\u00f5es de desumaniza\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista?<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que a constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia racial, por meio da identidade \u00e9tnico-racial \u00e9 uma conquista fundamental e important\u00edssima num pa\u00eds que nega os referenciais negros. Por outro lado, a pol\u00edtica identit\u00e1ria n\u00e3o pode ser um fim em si mesma, sob o risco de apenas \u201cbeneficiarem de cargos burocr\u00e1ticos e espa\u00e7os abertos para os membros qualificados de uma \u00ednfima classe m\u00e9dia branqueada\u201d\u00a0<a name=\"_ftnref2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>. Durante a administra\u00e7\u00e3o do PT, por exemplo, n\u00e3o foi dif\u00edcil observar in\u00fameros militantes do movimento negro assumindo cargos pol\u00edticos comissionados e adotando o discurso do governo federal, como tamb\u00e9m da l\u00f3gica do mercado para a popula\u00e7\u00e3o negra.<br \/>\nCl\u00f3vis Moura introduz em seu brilhante livro \u2013 Sociologia do negro brasileiro \u2013 uma breve discuss\u00e3o sobre os anseios e desejos da classe m\u00e9dia negra brasileira que introjeta valores e objetivos da sociedade burguesa. Relata o caso de um soci\u00f3logo negro que num simp\u00f3sio que ambos participavam declarava a necessidade de preparar a popula\u00e7\u00e3o negra para assumir a dire\u00e7\u00e3o de multinacionais.<br \/>\nDescrevemos abaixo um texto de Cl\u00f3vis Moura que consideramos ilustrativo dessa discuss\u00e3o:<br \/>\nEsta falta de perspectiva que impede ver-se a ponte entre o problema negro e os estruturais da sociedade brasileira, isto \u00e9, supor-se que o negro, atrav\u00e9s da cultura poder\u00e1 dirigir uma multinacional, bem demonstra a aliena\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica e o racioc\u00ednio de quem exp\u00f4s o problema dessa forma. O problema do negro tem especificidades, particularidades e um n\u00edvel de problem\u00e1tica muito mais profundo do que o trabalhador branco. Mas, por outro lado, est\u00e1 a ele ligado porque n\u00e3o se poder\u00e1 resolver o problema negro, a sua discrimina\u00e7\u00e3o, o preconceito contra ele, finalmente o racismo brasileiro, sem atentarmos que esse racismo n\u00e3o \u00e9 epifenom\u00eanico, mas tem causas econ\u00f4micas, sociais, hist\u00f3ricas e ideol\u00f3gicas que alimentam o seu dinamismo atual. Um negro diretor de uma multinacional \u00e9 sociologicamente branco. Ter\u00e1 de conservar a discrimina\u00e7\u00e3o contra o negro na divis\u00e3o do trabalho interno da empresa, ter\u00e1 de executar suas normas racistas, e, com isto, deixar de pensar como negro explorado e discriminado e reproduzir no seu comportamento empresarial aquilo que um executivo branco tamb\u00e9m faria.\u00a0<a name=\"_ftnref3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a><br \/>\nSe a tarefa da popula\u00e7\u00e3o negra que sofre racismo \u00e9 destruir as condi\u00e7\u00f5es que a fazem alvo do racismo, que condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas? Em nossa an\u00e1lise, as condi\u00e7\u00f5es capitalistas de reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade social est\u00e3o na base dos mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade racial. Ra\u00e7a e classe, no Brasil e em diversos pa\u00edses do mundo \u2013 como nos Estados Unidos \u2013 n\u00e3o podem ser dissociados, sob pena da luta antirracista ser apenas parcial.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/porto_alegre2-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-33602\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/porto_alegre2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"522\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/porto_alegre2-1.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/porto_alegre2-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/porto_alegre2-1-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>Algumas interpreta\u00e7\u00f5es do antirracismo no Brasil<\/strong><br \/>\nComo foi pensado o antirracismo por alguns dos intelectuais brasileiros? Antonio S\u00e9rgio Guimar\u00e3es\u00a0<a name=\"_ftnref4\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>, por exemplo, disse que a luta antirracista assumiu quatro diferentes formas no Brasil: as duas primeiras s\u00e3o a cren\u00e7a racialista na exist\u00eancia biol\u00f3gica das ra\u00e7as, e a aceita\u00e7\u00e3o das ra\u00e7as sociais como categorias que organizam a estrutura social. Nessas perspectivas n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de supera\u00e7\u00e3o das ra\u00e7as na humanidade, seja biol\u00f3gica ou social e, nesse sentido, o que se pode fazer \u00e9 melhorar as rela\u00e7\u00f5es sociais, a cidadania, a igualdade de tratamento e oportunidades de direitos. Em nossa an\u00e1lise, essa postura \u00e9 defendida por maior parte dos movimentos negros defensores das pol\u00edticas de promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial, e, em especial, dos governos que a empreenderam, durante as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI.<br \/>\nA terceira e quarta formas de luta antirracista provocariam a supera\u00e7\u00e3o da ideia de ra\u00e7as e, segundo Ant\u00f4nio Guimar\u00e3es, a terceira, se estrutura em torno da concep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso avan\u00e7ar na elimina\u00e7\u00e3o do conceito de ra\u00e7a para destruir o racismo. Sendo assim, a educa\u00e7\u00e3o teria um papel essencial, pois ao serem educadas da n\u00e3o exist\u00eancia de ra\u00e7as, as pessoas mudariam suas a\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es racistas.<br \/>\nEssa ideia, em nossa opini\u00e3o, se baseia em uma compreens\u00e3o distorcida de educa\u00e7\u00e3o como salvadora e redentora dos problemas da sociedade. Percebemos que essa compreens\u00e3o \u00e9 muito comum no senso m\u00e9dio da sociedade e, tamb\u00e9m, muito presente na opini\u00e3o geral que professoras e professores t\u00eam sobre o racismo, pois ao conceberem apenas como uma ideologia de discrimina\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, no campo moral, acreditam que com uma educa\u00e7\u00e3o antirracista seria poss\u00edvel elimin\u00e1-lo.<br \/>\nA quarta forma de luta antirracista, na qual se filia o autor que estamos citando, acredita que a supera\u00e7\u00e3o das classifica\u00e7\u00f5es raciais pode ocorrer a partir de dois sentidos: o reconhecimento da inexist\u00eancia de ra\u00e7as biol\u00f3gicas e da den\u00fancia da constante mudan\u00e7a da ideia de ra\u00e7a, pois ela assume diferentes formas ao longo do tempo. Com efeito, diz ele: \u201cprecisaremos ainda usar a palavra\u00a0ra\u00e7a\u00a0de um modo anal\u00edtico, para compreender o significado de certas classifica\u00e7\u00f5es sociais e de certas orienta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o informadas pela ideia de ra\u00e7a\u201d.<br \/>\nDesta feita, para este autor, o movimento antirracista no pa\u00eds deve \u2013 na reelabora\u00e7\u00e3o do conceito de ra\u00e7a reconhecer a import\u00e2ncia da ideia de ra\u00e7a para legitimar as desigualdades de direitos; reafirmar o car\u00e1ter inexistente da ra\u00e7a biol\u00f3gica e identificar como a ra\u00e7a determina o perfil e caracter\u00edsticas das classes sociais.<br \/>\nEvidente que todas as formas de antirracismo tiveram ou t\u00eam sua import\u00e2ncia, mas ser\u00e1 que conseguiremos superar a ideia de ra\u00e7a e o racismo a partir dessas quatro formas de luta antirracista que Ant\u00f4nio Guimar\u00e3es traz \u00e0 discuss\u00e3o?<br \/>\nConseguiremos a emancipa\u00e7\u00e3o e igualdade da popula\u00e7\u00e3o negra, com o fim da desigualdade racial e do racismo, por meio de mais direitos sociais, igualdade de oportunidades e tratamento, mais acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para povo brasileiro e consequente esclarecimento da n\u00e3o exist\u00eancia do conceito de ra\u00e7as biol\u00f3gicas, bem como a utiliza\u00e7\u00e3o consciente e consequente da ideia de ra\u00e7a social? Ser\u00e1 poss\u00edvel a emancipa\u00e7\u00e3o e igualdade da popula\u00e7\u00e3o negra sem discutir as formas capitalistas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o?<br \/>\nCerta vez, em um debate que estive na Universidade Federal do Maranh\u00e3o, com uma lideran\u00e7a de uma entidade negra em S\u00e3o Lu\u00eds, eu problematizava justamente essa ideia da necessidade da luta contra o Capitalismo. Em sua fala essa pessoa retrucou dizendo que o problema do movimento negro n\u00e3o era o Capitalismo, mas o racismo, ou seja, a luta antirracista e, por conseguinte, do movimento negro era uma luta priorit\u00e1ria contra o racismo e o Capitalismo n\u00e3o era preocupa\u00e7\u00e3o principal. Em outro evento, com outra lideran\u00e7a negra, agora de outro estado, eu ouvi que ele preferia ser \u201cchicoteado\u201d por um negro, do que por um branco. Se era pra ter um branco de ultradireita e fascista no poder, ele preferia que fosse um negro de ultradireita no poder. Que estava cansado de \u201capanhar\u201d de branco e, se era para \u201capanhar\u201d, que fosse de um negro no poder. Ou seja, n\u00e3o importa a ideologia, a condi\u00e7\u00e3o de classe, desde que seja negro.<br \/>\nNeste pensamento, toda a luta antirracista torna-se uma luta n\u00e3o contra as condi\u00e7\u00f5es materiais e intelectuais que reproduzem o racismo, mas t\u00e3o somente contra \u00e0queles que difundem ou s\u00e3o privilegiados por ele. Voc\u00ea combate o \u201cagente\u201d do racismo, mas deixa intactas as condi\u00e7\u00f5es que o sustentam. O antirracismo se torna uma luta subjetiva entre brancos e negros; entre quem pode nos atacar e quem n\u00e3o pode nos atacar. Os pretos no poder podem atacar, explorar, oprimir o conjunto da popula\u00e7\u00e3o negra, mas os brancos est\u00e3o proibidos. A explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o ficam intocadas em suas condi\u00e7\u00f5es materiais e intelectuais de exist\u00eancia.<br \/>\nTodo mundo se assusta com as ideias proferidas pelo atual presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares. Mas justamente, uma ideia distorcida e parcial de antirracismo produziu um pensamento que todos os brancos s\u00e3o nossos inimigos e todos os pretos s\u00e3o nossos aliados. Retirava-se completamente a condi\u00e7\u00e3o de classe e a condi\u00e7\u00e3o racial se tornava \u2013 \u00fanica e exclusivamente \u2013 a ideia-for\u00e7a-pr\u00e1tica da luta contra o racismo. Mesmo que isso n\u00e3o fosse dito com todas as letras, construiu-se um \u201csenso comum\u201d no qual falar de \u00c1frica e da popula\u00e7\u00e3o negra era quase falar de uma regi\u00e3o ou de um povo sem antagonismo de classe e conflitos sociais. Parecia que viv\u00edamos entre n\u00f3s, uma harmonia social e cordialidade que s\u00f3 racismo euroc\u00eantrico e culturalistas constru\u00edram.<br \/>\nQuem n\u00e3o se lembra da Ministra dos Direitos Humanos do governo de Michel Temer \u2013 Luislinda Valois \u2013 quando disse que esse presidente criminoso representava as mulheres negras do Brasil? Era uma ju\u00edza negra empoderada que tinha consci\u00eancia do racismo e de sua negritude.\u00a0 Na \u00e9poca, li textos que diziam que a ministra tinha se embranquecido, assumido a ideologia branca e, infelizmente, tinha perdido sua consci\u00eancia racial. Esses setores que faziam essa an\u00e1lise, apenas sob o prisma racial, n\u00e3o conseguiam entender que Luislinda Valois n\u00e3o tinha perdido consci\u00eancia racial e identidade negra \u2013 como \u00a0S\u00e9rgio Camargo \u2013 mas sim, assumido um lado de classe: o lado da burguesia brasileira (em sua maioria branca, \u00e9 certo).<br \/>\nOutro autor que escreveu sobre o antirracismo no Brasil \u2013 Jacques d\u2019Adesky<a name=\"_ftnref5\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a>\u2013 afirmou que a luta antirracista n\u00e3o gera explos\u00f5es raciais em virtude de sete fatores: o primeiro tem a ver com diferentes contextos hist\u00f3ricos da luta do movimento negro \u2013 os anos 1930 da Frente Negra brasileira; os anos posteriores ao Estado Novo, em 1945, com o Teatro Experimental do negro; e a \u201capatia relativa\u201d da luta contra o racismo nos anos da Ditadura Militar \u2013 que determinaram uma estrat\u00e9gia de mobiliza\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a luta armada ou conflitos diretos. O segundo fator diz respeito \u00e0 divis\u00e3o do movimento negro nos anos 1980 e 1990 que trouxe \u00e0 discuss\u00e3o as t\u00e1ticas de negocia\u00e7\u00e3o e luta direta e fizeram o movimento negro se dividir \u2013\u00a0grosso modo \u2013\u00a0em dois grupos: a corrente moderada e a corrente radical. Uma querendo negociar com Estados e governos e que foi a corrente vitoriosa do movimento negro, e, outra, n\u00e3o aceitando essas negocia\u00e7\u00f5es. \u201cA\u00a0primeira corrente, considerada integracionista, tomou a frente, com o correr dos anos, sobre a corrente radical. [\u2026]. \u00c9 formada, em sua maioria, por intelectuais e militantes pr\u00f3ximos dos poderes p\u00fablicos, conta com o apoio dos principais pol\u00edticos negros [\u2026]\u201d.<a name=\"_ftnref6\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a>\u00a0O terceiro fator, estaria ligado \u00e0s quest\u00f5es econ\u00f4micas e sociais; o quarto, a fragilidade de articula\u00e7\u00f5es do movimento negro; o quinto fator seria a aliena\u00e7\u00e3o cultural; o sexto, o ideal de branqueamento; e o s\u00e9timo, a democracia racial e a cordialidade das representa\u00e7\u00f5es do racismo e do antirracismo. Para al\u00e9m de este autor estar correto ou n\u00e3o \u2013 tenho muitas cr\u00edticas \u2013 as suas an\u00e1lises trazem uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es importantes para se pensar a atua\u00e7\u00e3o do movimento antirracista.<br \/>\nLembrou-me as conclus\u00f5es de Cornel West<a name=\"_ftnref7\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[7]<\/a>\u00a0nos EUA. Para este autor, depois das conquistas dos direitos civis, nos anos 1960, com a pol\u00edtica de a\u00e7\u00f5es afirmativas e o projeto de empoderamento negro, gerou-se uma classe m\u00e9dia e elite negra norte-americana que se distanciou do conjunto da massa da popula\u00e7\u00e3o negra que passou a ser alvo de toda forma de viol\u00eancia, genoc\u00eddio e encarceramento. A nova lideran\u00e7a negra estava baseada \u201cem sua capacidade de atuar com intermedi\u00e1ria entre o mundo empresarial, os estabelecimentos pol\u00edticos e os pobres confinados nos guetos\u201d.<a name=\"_ftnref8\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[8]<\/a>\u00a0Nesse sentido, para Cornel West, \u201ca verdadeira crise da lideran\u00e7a negra \u00e9 que a pr\u00f3pria ideia de lideran\u00e7a negra est\u00e1 em crise\u201d\u00a0<a name=\"_ftnref9\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftn9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[9]<\/a>.<br \/>\nIsso nos faz pensar se um dos problemas centrais que faz com que as demandas da popula\u00e7\u00e3o negra e o antirracismo n\u00e3o sejam levadas at\u00e9 as \u201c\u00faltimas consequ\u00eancias\u201d n\u00e3o seja justamente o seu problema de dire\u00e7\u00e3o. Parte do movimento negro e algumas lideran\u00e7as, em contextos de f\u00f4lego e de crescimento da luta negra preferiram o di\u00e1logo com o Estado, as classes dominantes e a manuten\u00e7\u00e3o da ordem, n\u00e3o obstante a resist\u00eancia e mobiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra. Isso \u00e9 ilustrativo na aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Igualdade racial que foi todo desfigurado em um acordo com o partido de direita DEM e outros setores conversadores. Ou mesmo a pol\u00edtica de cotas que se transformou de cotas raciais para cotas sociais em manobras de concilia\u00e7\u00e3o dentro do parlamento entre governo, setores do movimento negro e grupos conservadores. Apesar de toda sua import\u00e2ncia as pol\u00edticas de cotas foram atacadas por negocia\u00e7\u00f5es que trazem problemas at\u00e9 hoje como podemos ver nas in\u00fameras fraudes.<br \/>\nA luta antirracista no Brasil, principalmente no per\u00edodo republicano, assumiu um car\u00e1ter reformista e de combate \u00e0s formas revolucion\u00e1rias. Durante os anos 1990 quando estava me formando em Hist\u00f3ria e tinha os primeiros contatos com o marxismo, in\u00fameras vezes entrei em debate e ouvi ataques por parte de grupos do movimento negro e professores \u2013 como acontece at\u00e9 hoje \u2013 ao marxismo e as ideias socialistas. \u00c9 preciso alertar que eram setores e n\u00e3o todo o conjunto do movimento negro, pois este era um debate muito vivo no interior de nossas organiza\u00e7\u00f5es. Durante a d\u00e9cada de 1990, tamb\u00e9m, in\u00fameros professores que se tornaram p\u00f3s-modernistas transformaram-se em anti-marxistas e anti-socialistas de carteirinha e ajudaram a formar uma gera\u00e7\u00e3o de profissionais conservadores cujos efeitos sentimos hoje. A pr\u00f3pria historiografia sobre a escravid\u00e3o e as resist\u00eancias da popula\u00e7\u00e3o negra passou a privilegiar a negocia\u00e7\u00e3o, em detrimento ao conflito e a rebeli\u00e3o, numa inequ\u00edvoca adapta\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica \u00e0s ideias neoliberais em voga.<br \/>\nO antirracismo assumiu a caracter\u00edstica reformista, de luta por dentro da ordem capitalista, e por essa raz\u00e3o ainda tem dificuldade em pensar o antirracismo para al\u00e9m da sociedade de classes e ra\u00e7as. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es tamb\u00e9m \u2013 n\u00e3o a \u00fanica, \u00e9 evidente, pois a discuss\u00e3o de ra\u00e7a foi fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de nossa identidade \u2013 porque a luta antirracista centrou-se toda da discuss\u00e3o de ra\u00e7a e desconectou-a o m\u00e1ximo que podia da condi\u00e7\u00e3o de classe, fazendo cr\u00edticas a todas as teorias e movimentos que buscavam a supera\u00e7\u00e3o da ordem capitalista, por meio do socialismo. Em sentido contr\u00e1rio, um setor consider\u00e1vel agarrou-se em perspectivas culturalistas, racialistas, empreendedoras que, exclusivamente, buscavam valorizar a heran\u00e7a cultural negra e a identidade \u00e9tnico-racial como fundamentos centrais, sen\u00e3o \u00fanicos, da luta antirracista. O combate ao racismo virou um fim em sim mesmo e n\u00e3o um meio para se atingir uma outra forma de sociabilidade no qual ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o do ser humano n\u00e3o existissem mais. Dessa forma, exercendo uma a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua para eliminar esses fen\u00f4menos de hierarquiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria emancipada da humanidade.<br \/>\nN\u00e3o se est\u00e1 advogando o fim imediato da consci\u00eancia e identidade racial e da problematiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o racial como elemento fundamental da luta negra contra a desigualdade. Longe disso! O que estamos afirmando \u00e9 que esta consci\u00eancia \u00e9 fundamental para a luta cujo objetivo final deve ser a elimina\u00e7\u00e3o dessa mesma consci\u00eancia e todas as condi\u00e7\u00f5es materiais de desigualdade. Isto \u00e9, a consci\u00eancia racial \u00e9 pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o da extin\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais que a fazem existir, baseadas na explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra, enquanto classe trabalhadora.<br \/>\n<strong>O que \u00e9 ser antirracista?<\/strong><br \/>\nPor essas raz\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel ser antirracista, sem ser anticapitalista? \u00c9 poss\u00edvel ser anticapitalista, sem ser antirracista? Para mim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser antirracista sendo reformista, aceitando o Capitalismo com fim da hist\u00f3ria e buscando se adaptar aos seus mecanismos de domina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser antirracista aceitando o Capitalismo como sociabilidade poss\u00edvel de exist\u00eancia. Acreditar que \u00e9 poss\u00edvel reformar e humanizar o Capitalismo, no sentido de combater o racismo, empoderando a popula\u00e7\u00e3o negra e criando uma gera\u00e7\u00e3o de empreendedores afros \u00e9 desconhecer as origens e formas de reprodu\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o racial.<br \/>\nPor essa raz\u00e3o, ser antirracista \u00e9 lutar contra o racismo e, ao mesmo tempo, lutar contra a condi\u00e7\u00e3o material e intelectual que corrobora na g\u00eanese e reprodu\u00e7\u00e3o do racismo, qual seja: o capitalismo. Isso vale, para o anti-capitalistas e para os socialistas. Acreditar que depois de uma Revolu\u00e7\u00e3o Socialista, num passe de m\u00e1gica, o racismo ir\u00e1 se desfazer por conta pr\u00f3pria \u00e9 desconhecer a origem e os mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo e das formas de sociabilidade baseadas na desigualdade.<br \/>\nA consci\u00eancia racial e o antirracismo \u00e9, portanto, condi\u00e7\u00e3o fundamental para a destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e constru\u00e7\u00e3o de uma humanidade emancipada e em igualdade social. Diversidade, identidade, consci\u00eancia \u00e9tnico-racial e consci\u00eancia de classe, tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio e imprescind\u00edvel, mas insuficientes se as condi\u00e7\u00f5es da sociedade permanecerem desiguais.<br \/>\nN\u00e3o adianta a popula\u00e7\u00e3o negra empoderada, com sua negritude afirmada, se esta mesma popula\u00e7\u00e3o continuar vivendo em condi\u00e7\u00f5es desumanas socioeconomicamente. Assim como a igualdade social pressup\u00f5e o fim das classes e da propriedade privada; a igualdade racial pressup\u00f5e o fim das ra\u00e7as e da propriedade privada. Nossa luta n\u00e3o \u00e9 para a destrui\u00e7\u00e3o de um poder monocrom\u00e1tico branco e colocar em seu lugar um poder monocrom\u00e1tico negro ou uma diversidade colorida mantendo-se a desigualdade social para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira, que \u00e9 negra.<br \/>\nO projeto antirracista, portanto, \u00e9 um projeto de igualdade social e emancipa\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 projeto de sociedade onde as classes e ra\u00e7as n\u00e3o existam enquanto condi\u00e7\u00f5es e marcadores de desigualdade. Uma sociedade no qual a humanidade plena seja realizada e a verdadeira hist\u00f3ria humana possa iniciar sem distin\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie: ra\u00e7a, classe, g\u00eanero. Por isso, a luta antirracista \u00e9 t\u00e3o perigosa para a classe dominante. Por isso que \u00e9 essa classe busca disputar a dire\u00e7\u00e3o e o significado de ser antirracista. Quem n\u00e3o entende isso, apesar de dizer o contr\u00e1rio, s\u00f3 est\u00e1 refor\u00e7ando o poder embranquecido da burguesia brasileira.<br \/>\nNesse sentido, \u00e9 fundamental desvelar as determina\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero na estrutura\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e da produ\u00e7\u00e3o da pobreza. Esta \u00e9 uma tarefa que cabe a todos os movimentos sociais, pois a unidade da classe trabalhadora deve ser uma unidade concreta que leve em conta as realidades diferenciadas de homens, mulheres, negros e brancos no Brasil. O que a burguesia faz de tudo para esconder, n\u00f3s devemos escancarar como forma de luta e desestrutura\u00e7\u00e3o das bases ideol\u00f3gicas do Capitalismo. Fazendo isso, n\u00f3s conseguiremos unir a exemplo de muitos momentos da hist\u00f3ria brasileira \u2013 como foram os quilombos \u2013 os explorados e os oprimidos numa a\u00e7\u00e3o conjunta contra o capital e seus instrumentos de domina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRecentemente me foi perguntado se eu acreditava realmente que poderia existir um levante negro e social no Brasil. Eu disse que sim! Pois, numa sociedade absolutamente desigual, onde as tens\u00f5es est\u00e3o sempre no limite, a qualquer hora a bomba humana de explorados e oprimidos vai explodir. Nessa hora, esteja do lado certo! Parafraseando Trotsky, n\u00f3s aprendemos o ritmo da hist\u00f3ria. Sempre soubemos nadar contra a corrente convictos de que ela mudar\u00e1 seu rumo, convictos de que o novo movimento hist\u00f3rico nos conduzir\u00e1 \u00e0 vit\u00f3ria!<br \/>\n<a name=\"_ftn1\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>\u00a0Existe at\u00e9 um movimento estruturado de empres\u00e1rios nessa l\u00f3gica que busca conectar \u201cempreendedores\u201d e \u201cconsumidores negros\u201d, numa l\u00f3gica neoliberal n\u00e3o disfar\u00e7ada da ideologia do empreendedorismo, do individualismo e da competi\u00e7\u00e3o. Cria-se a ilus\u00e3o aterradora de que \u201cvender coxinha\u201d e se tornar um empregado flexibilizado e sem direitos \u00e9 ter autonomia e se tornar um empres\u00e1rio. Distorcem, inclusive, o contexto e a frase de Steve Biko: \u201cNegro, voc\u00ea esta por sua pr\u00f3pria conta\u201d<br \/>\n<a name=\"_ftn2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>\u00a0MOURA, Cl\u00f3vis.\u00a0Sociologia do negro brasileiro.\u00a0S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1988, p.10.<br \/>\nO termo \u2013 branqueada \u2013 n\u00e3o se refere \u00e0 cor da pele, mas a uma concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que se vincula a quem est\u00e1 no poder e em conson\u00e2ncia com a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade de classes.<br \/>\n<a name=\"_ftn3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a>\u00a0(MOURA, 1988, p.10)<br \/>\n<a name=\"_ftn4\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>\u00a0GUIMAR\u00c3ES, Antonio S\u00e9rgio Alfredo.\u00a0Classes, Ra\u00e7as e Democracia.\u00a02\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2012.<br \/>\n<a name=\"_ftn5\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a>D\u2019ADESKY. Jacques.\u00a0Pluralismo \u00e9tnico e multiculturalismo:\u00a0racismo e anti-racismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2009.<br \/>\n<a name=\"_ftn6\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a>\u00a0D\u2019ADESKY. Jacques, p.168<br \/>\n<a name=\"_ftn7\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[7]<\/a>\u00a0Apud CASTELLS, Manuel.\u00a0O Poder da identidade.\u00a0S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1999.<br \/>\n<a name=\"_ftn8\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[8]<\/a>\u00a0(CASTELLS, Manuel. p.73)<br \/>\n<a name=\"_ftn9\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-que-e-ser-antirracista\/#_ftnref9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[9]<\/a>\u00a0(Apud CASTELLS, Manuel, p.79)<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assassinato de George Floyd fez explodir um conjunto de revoltas negras de costa a costa dos Estados Unidos. N\u00e3o s\u00f3 isso! Proporcionou levantes raciais e sociais em muitos pa\u00edses da Europa e Am\u00e9rica. Na Inglaterra derrubaram e destru\u00edram a est\u00e1tua de um traficante de escravizados, iguais a muitas est\u00e1tuas de escravistas e assassinos que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":33600,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3519,8,3501,1018],"tags":[5498,258,5485],"class_list":["post-33599","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-eua","category-historia","category-negras-os","category-racismo","tag-antirracismo","tag-racismo","tag-rosenverck-santos"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/maxresdefault.jpg","categories_names":["Brasil","Estados Unidos","Hist\u00f3ria","Negras\/os","Racismo"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33599\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}