{"id":33580,"date":"2020-06-08T10:21:44","date_gmt":"2020-06-08T12:21:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33580"},"modified":"2020-06-08T10:21:44","modified_gmt":"2020-06-08T12:21:44","slug":"notas-sobre-a-questao-negra-na-revolucao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/06\/08\/notas-sobre-a-questao-negra-na-revolucao-brasileira\/","title":{"rendered":"Notas sobre a quest\u00e3o negra na Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira"},"content":{"rendered":"<p><em>1- O Brasil nasceu como parte de um\u00a0empreendimento capitalista\u00a0(a forma\u00e7\u00e3o do mercado mundial), dominado por portugueses, depois ingleses e norte-americanos. Na aus\u00eancia de uma classe assalariada, o capitalismo, na sua fase mercantil, foi obrigado a utilizar formas pr\u00e9-capitalistas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, como a escraviza\u00e7\u00e3o afro-ind\u00edgena. No in\u00edcio, essa escraviza\u00e7\u00e3o foi a base do capitalismo comercial e, posteriormente, foi parte integrante do capitalismo industrial europeu.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Nazareno Godeiro<br \/>\n2- 350 anos de\u00a0escraviza\u00e7\u00e3o\u00a0e\u00a0resist\u00eancia\u00a0de negros e negras africanas enxertou o DNA negro na hist\u00f3ria, na economia, na pol\u00edtica e na cultura brasileira. O Brasil que existe hoje foi\u00a0constru\u00eddo\u00a0pelo suor, sangue e l\u00e1grimas de mais de 4 milh\u00f5es de negros e negras escravizadas e sua descend\u00eancia.<br \/>\n3- Vindos de diversas regi\u00f5es do continente africano, em especial de Angola, Guin\u00e9, Costa do Marfim, Congo e Mo\u00e7ambique, reunidos em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es e etnias, aqui foi forjado como um\u00a0povo-classe.<a href=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/notas-sobre-a-questao-negra-na-revolucao-brasileira\/#sdfootnote1sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1<\/a>\u00a0Durante s\u00e9culos, negros e negras eram, junto com os sobreviventes ind\u00edgenas,\u00a0a\u00a0classe trabalhadora brasileira.<br \/>\n4- Nos engenhos de cana-de-a\u00e7\u00facar, ind\u00fastrias capitalistas com tecnologia mais avan\u00e7ada da \u00e9poca e financiada por banqueiros europeus, no caf\u00e9 e outros produtos prim\u00e1rios, na cria\u00e7\u00e3o de animais e nas minas de ouro, diamante e prata, se forjou como\u00a0classe.<br \/>\n5- Na resist\u00eancia se forjou como\u00a0povo. De 1600 a 1900, tivemos milhares de quilombos, com cerca de 500 mil negros rebelados e 38 insurrei\u00e7\u00f5es negras, que cumpriram um papel revolucion\u00e1rio no Brasil. Os quilombos eram territ\u00f3rios sitiados, acampamentos de guerra que fundiu, no combate, o povo negro brasileiro. Lutadores negros tiveram papel importante nas revoltas e revolu\u00e7\u00f5es brasileiras, como a Cabanagem, Balaiada, Cabanada, Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, Revolta dos Mal\u00eas, Revolu\u00e7\u00e3o dos Alfaiates, Revolta da Chibata, entre outras tantas.<br \/>\n6- Esse ascenso negro, com suas especificidades, era parte do levante revolucion\u00e1rio negro que\u00a0atingiu todo o continente americano\u00a0entre 1630 e 1880, onde ocorreram 75 grandes revoltas dirigidas por negros africanos escravizados, cujo \u00e1pice foi a revolu\u00e7\u00e3o haitiana de 1798-1804.<br \/>\n7- As insurrei\u00e7\u00f5es afro-ind\u00edgenas no continente americano eram elos da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa mundial, se constituindo na sua parte\u00a0espec\u00edfica nos pa\u00edses coloniais e semicoloniais americanos.\u00a0Em v\u00e1rios pa\u00edses, foram\u00a0detonantes\u00a0das revolu\u00e7\u00f5es de liberta\u00e7\u00e3o nacional e ajudaram a impulsionar o mundo moderno como conhecemos hoje.<br \/>\n8- O ascenso revolucion\u00e1rio negro continental e a guerra civil dos Estados Unidos, iniciada em 1861, que derrotou o Sul escravista, foram os elementos\u00a0determinantes\u00a0para o fim da escraviza\u00e7\u00e3o negra africana no continente e n\u00e3o o mito \u201cabolicionista\u201d dos ingleses e seus agentes locais, que institucionalizaram a luta abolicionista para evitar a revolu\u00e7\u00e3o negra.<br \/>\n9- At\u00e9 1850, aproximadamente, apenas negros e negras, tendo como aliados ind\u00edgenas e camponeses pobres, lutaram no Brasil pelo fim da escravid\u00e3o no pa\u00eds e terminaram\u00a0vitoriosos, apesar desta vit\u00f3ria ter sido arrebatada pelos ingleses, pela princesa branca e pelos intelectuais abolicionistas. O fator decisivo para o fim da escravid\u00e3o no Brasil foi a insurrei\u00e7\u00e3o dos escravos, na forma de quilombos e insurrei\u00e7\u00f5es urbanas durante dois s\u00e9culos e meio e, em meados do s\u00e9culo XIX, a fuga de escravizados, precedidos com a queima das propriedades dos ricos.<br \/>\n10- A explica\u00e7\u00e3o deste fato \u00e9 que a classe dominante brasileira\u00a0n\u00e3o cumpriu um papel revolucion\u00e1rio\u00a0em nenhum momento da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Aliada aos dominadores estrangeiros, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o impulsionou como enfrentou sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o, que explodiu regionalmente e terminou sendo dirigidas por negros, ind\u00edgenas e camponeses pobres. Revolu\u00e7\u00f5es regionais que foram afogadas em sangue, com l\u00edderes enforcados e degolados, depois esquartejados e expostos em pra\u00e7a p\u00fablica, para \u201censinar\u201d o povo brasileiro a n\u00e3o se levantar contra o sistema.<br \/>\n11- O medo da burguesia brasileira diante do ascenso negro continental e o exemplo do Haiti, onde escravizados africanos fizeram uma revolu\u00e7\u00e3o que expulsou os colonizadores brancos, levou-a a diminuir o papel do negro na economia do pa\u00eds, importando assalariados pobres europeus. Uma pol\u00edtica de embranquecimento da sociedade com o objetivo de tornar o negro minoria da popula\u00e7\u00e3o e assim\u00a0evitar as insurrei\u00e7\u00f5es negras. Uma pol\u00edtica racista de embranquecimento do Brasil, incluiu invisibilizar o papel econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico dos negros e negras na constru\u00e7\u00e3o do Brasil. Nova cara da ideologia racista, que foi uma cria\u00e7\u00e3o da burguesia, para justificar a escraviza\u00e7\u00e3o do negro africano e para torn\u00e1-lo uma mercadoria. A \u201cteoria\u201d da mesti\u00e7agem (democracia racial) foi a cobertura ideol\u00f3gica para a dissolu\u00e7\u00e3o do povo-classe negro na popula\u00e7\u00e3o pobre em geral.<br \/>\n12- Esse medo da burguesia ao povo negro foi t\u00e3o profundo que, \u00e0 diferen\u00e7a do Haiti ou dos Estados Unidos, ela\u00a0impediu o surgimento de uma burguesia ou pequena-burguesia negra\u00a0no Brasil, ao negar a distribui\u00e7\u00e3o de terras aos negros na Lei de Terras de 1850. Ser negro se transformou em sin\u00f4nimo de trabalhador ou pobre. A isso se somou a propaganda racista que mostrava o negro como ser inferior para se tornar trabalhador livre assalariado. O imperialismo europeu exigiu a utiliza\u00e7\u00e3o do seu excedente populacional, uma legi\u00e3o de camponeses pobres, para ser utilizado como m\u00e3o-de-obra assalariada no Brasil em detrimento do povo negro. O imigrante pobre europeu era considerado \u201cdescendente das ra\u00e7as civilizadas\u201d.<br \/>\n13- A \u201crep\u00fablica\u201d brasileira n\u00e3o deu terra aos camponeses nem trabalho digno para negros e negras. Por isso, eles foram empurrados para os arredores das cidades, realizando os trabalhos mais prec\u00e1rios e de menor remunera\u00e7\u00e3o. Um imenso ex\u00e9rcito industrial de reserva que serviu para diminuir o sal\u00e1rio geral e remunerar o capital internacional e nacional. Ao mesmo tempo criou uma legi\u00e3o de camponeses sem-terra. Hoje, esse imenso ex\u00e9rcito de reserva, composto por 78 milh\u00f5es de trabalhadores (entre desempregados, subempregados ou \u201caut\u00f4nomos\u201d), \u00e9 de maioria negra e\u00a0duplamente invisibilizado, como negro e como trabalhador.<br \/>\n14- Por tudo isso, recuperar a hist\u00f3ria do\u00a0povo-classe negro brasileiro\u00a0\u00e9 vital para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. \u00c9 preciso recuperar o orgulho de ser negro e negra. Essa \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o importante para recuperar a confian\u00e7a da classe trabalhadora nas suas pr\u00f3prias for\u00e7as. Da mesma forma \u00e9 importante recuperar a hist\u00f3ria da resist\u00eancia negra e ind\u00edgena nos seus 500 anos de motins, revoltas e revolu\u00e7\u00f5es que a burguesia tenta esconder, espalhando o mito de que o povo brasileiro \u00e9 \u201cfraco\u201d.\u00a0Recuperar esta tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o in\u00edcio da prepara\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria\u00a0que se avizinha e que, muito provavelmente, ter\u00e1 os trabalhadores negros e negras na vanguarda revolucion\u00e1ria.<br \/>\n15- O sistema capitalista mundial s\u00f3 existe hoje porque se assentou no\u00a0maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria. Exterminou 70 milh\u00f5es de ind\u00edgenas na Am\u00e9rica, de uma popula\u00e7\u00e3o de 90 milh\u00f5es que habitavam o continente americano quando os invasores europeus chegaram aqui. Ademais, restaurou a escraviza\u00e7\u00e3o de mais de 10 milh\u00f5es de negros e negras africanas na Am\u00e9rica, tornando este com\u00e9rcio de seres humanos no neg\u00f3cio mais lucrativo do mundo naquele momento. Com a partilha do continente africano entre os invasores imperialistas europeus, de 1860 a 1900, o imperialismo dizimou 55 milh\u00f5es de africanos, de uma popula\u00e7\u00e3o de 150 milh\u00f5es. Portanto a riqueza do capitalismo mundial se assentou numa montanha de cad\u00e1veres: o capitalismo nasceu jorrando sangue por todos os poros, como falou Karl Marx. Uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica de\u00a0exterm\u00ednio\u00a0da classe trabalhadora negra, especialmente da sua juventude, que continua at\u00e9 hoje, de forma generalizada. N\u00e3o podemos esquecer que o racismo (e a pol\u00edtica de exterm\u00ednio por parte do Estado) surgiu com o capitalismo e continuou tanto no regime democr\u00e1tico-burgu\u00eas quanto com o ditatorial.<br \/>\n16- A riqueza da Europa e dos Estados Unidos foi roubada da \u00c1frica, \u00c1sia e da Am\u00e9rica, dos povos n\u00e3o-brancos e dos povos origin\u00e1rios americanos. Assim nasceram os grandes bancos Barclays, Baring, Rothschild, Rockfeller e suas ind\u00fastrias multinacionais. Hoje, apenas 147 grandes conglomerados transnacionais dominam toda economia mundial e cinco pa\u00edses imperialistas dominam mais de 180 pa\u00edses coloniais e semicoloniais.<br \/>\n17- A invas\u00e3o do branco europeu ao continente americano teve uma\u00a0express\u00e3o sexual: o estupro da ind\u00edgena e da negra africana. Nosso \u201cdescobrimento\u201d foi uma invas\u00e3o. Nossa \u201cmiscigena\u00e7\u00e3o\u201d foi uma viola\u00e7\u00e3o (estupro, viol\u00eancia sexual). Por isso, \u00e9 uma falsidade completa a teoria da democracia racial no Brasil, onde o povo brasileiro seria resultado da \u201cfus\u00e3o harm\u00f4nica\u201d entre as tr\u00eas ra\u00e7as (branca, ind\u00edgena e negra). A viol\u00eancia sexual foi um componente importante do genoc\u00eddio afro-ind\u00edgena e deve ser real\u00e7ada pois continua at\u00e9 hoje no estupro trivializado e no feminic\u00eddio generalizado, principalmente de mulheres negras.<br \/>\n18- A responsabilidade pela\u00a0repara\u00e7\u00e3o, portanto, recai sobre o capitalismo imperialista. Ele \u00e9 que deve pagar por este sofrimento secular. Os povos origin\u00e1rios e o povo negro t\u00eam direito ao\u00a0territ\u00f3rio\u00a0(inclusive \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional, se assim desejarem e decidirem democraticamente em uma regi\u00e3o quilombola), ao\u00a0trabalho\u00a0(e seus direitos b\u00e1sicos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, aposentadoria etc.), e \u00e0\u00a0soberania nacional, uma verdadeira independ\u00eancia nacional, com a expuls\u00e3o dos invasores imperialistas. Tudo isto s\u00f3 pode ser conquistado na luta contra a burguesia mundial imperialista e seus capit\u00e3es-do-mato locais. A repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ao povo afro-ind\u00edgena se tornou uma\u00a0ponte\u00a0para a revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional porque a repara\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa da classe trabalhadora contra a burguesia\u00a0mundial, j\u00e1 que une os povos afro-ind\u00edgenas de diferentes continentes e \u00e9 uma\u00a0reivindica\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria\u00a0que parte das necessidades imediatas dos povos oprimidos e se conecta diretamente com a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria internacional. O exterm\u00ednio e a superexplora\u00e7\u00e3o dos povos afro-ind\u00edgenas est\u00e3o marcados no DNA dos pa\u00edses coloniais e semicoloniais americanos e isto deve\u00a0determinar\u00a0a din\u00e2mica da revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. Resumindo:\u00a0\u201crepara\u00e7\u00e3o rima com revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\n19- Por isso, a bandeira\u00a0de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ao povo negro deve ser utilizada de forma revolucion\u00e1ria e n\u00e3o reformista. As pequenas conquistas democr\u00e1ticas dos negros (como as cotas na universidade, por exemplo), n\u00e3o t\u00eam um fim em si mesmo. S\u00e3o apenas alavancas para exigir tudo que o povo negro, setor mais explorado e oprimido da sociedade, tem direito. A burguesia e seus agentes no interior do movimento prolet\u00e1rio v\u00e3o tratar de utilizar as conquistas parciais afro-ind\u00edgenas, produtos da luta de classes, para transform\u00e1-las em pol\u00edticas assistenciais com o objetivo de perpetuar o capitalismo. O governo \u201cnegro\u201d na \u00c1frica do Sul e o governo \u201cind\u00edgena\u201d na Bol\u00edvia s\u00e3o express\u00f5es da orienta\u00e7\u00e3o da burguesia para dividir os de baixo, cooptando l\u00edderes provenientes da classe trabalhadora, para perpetuar o capitalismo. Com isso, divide a classe trabalhadora e o movimento afro-ind\u00edgena. Por um lado, mostra que o imperialismo maneja as aspira\u00e7\u00f5es das massas, mutilando-as, utilizando suas ilus\u00f5es constitucionais e o atraso da consci\u00eancia de classe, para desviar as revolu\u00e7\u00f5es para o terreno gangrenado da democracia burguesa. Por outro lado, mostra a potencialidade revolucion\u00e1ria da quest\u00e3o afro-ind\u00edgena na atualidade. A classe trabalhadora, unida com o movimento afro-ind\u00edgena, deve utilizar as conquistas parciais como\u00a0alavancas\u00a0de transforma\u00e7\u00e3o social, como\u00a0meios de mobiliza\u00e7\u00e3o permanente. Visto assim, a quest\u00e3o negra torna-se uma\u00a0ponte\u00a0para a revolu\u00e7\u00e3o socialista, que necessariamente temos que cruzar para instalar uma ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado.<br \/>\n20- A repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ao povo negro brasileiro n\u00e3o pode ser efetivada pelo sistema capitalista. A recupera\u00e7\u00e3o das terras, da riqueza criada em 520 anos, da exist\u00eancia do pr\u00f3prio pa\u00eds que foi constru\u00eddo pelo povo negro, do direito a uma vida digna, s\u00f3 pode ser garantido pela\u00a0ditadura do proletariado. Isso n\u00e3o justifica adiar a luta em defesa do povo negro para depois da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o justamente porque esta luta pode e deve se converter no\u00a0estopim e alavanca\u00a0da revolu\u00e7\u00e3o brasileira e mundial. Por isso, torna-se\u00a0obrigat\u00f3rio, para os revolucion\u00e1rios, vincular a luta pela liberta\u00e7\u00e3o negra \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista.<br \/>\n21- Quem separa e op\u00f5e as\u00a0tarefas democr\u00e1ticas\u00a0que a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa n\u00e3o realizou (a luta contra todo tipo de opress\u00e3o, a independ\u00eancia nacional nos pa\u00edses semicoloniais, o direito ao territ\u00f3rio, a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica aos povos afro-ind\u00edgenas) das\u00a0tarefas socialistas, termina por n\u00e3o resolver nenhuma demanda democr\u00e1tica justamente porque a burguesia n\u00e3o vai realizar a democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade. S\u00f3 o proletariado \u00e9 uma classe verdadeiramente revolucion\u00e1ria. Por isso, a luta negra deve estar\u00a0entrela\u00e7ada\u00a0com a luta socialista, uma completando a outra.<br \/>\n22- A demonstra\u00e7\u00e3o da tese anterior se revelou na revolu\u00e7\u00e3o haitiana de 1798-1804. Como a burguesia atuou ao lado da contrarrevolu\u00e7\u00e3o, negros escravizados africanos assumiram a luta e se tornaram a\u00a0for\u00e7a motriz\u00a0da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa vitoriosa. Por\u00e9m, como o proletariado ainda estava engatinhando como classe, impossibilitou o avan\u00e7o ao socialismo e o pa\u00eds retrocedeu. A solu\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o negra no Haiti resultaria da luta prolet\u00e1ria pelo socialismo internacional.<br \/>\n23- Por outro lado, se o proletariado n\u00e3o assume para si a luta afro-ind\u00edgena e a dirige, em unidade com os pobres do campo e da cidade, a burguesia ou a pequena-burguesia reformista se apropriar\u00e3o da luta contra as opress\u00f5es, tratar\u00e3o de dividir a classe trabalhadora entre homens e mulheres, negros e brancos, ind\u00edgenas e negros, heterossexuais e LGBTs, imigrantes e nativos, trabalhadores diretos e terceirizados, etc. para com isso enfrentar uns aos outros e derrotar a todos.\u00a0Dividir para reinar \u00e9 o lema hist\u00f3rico da burguesia, que aprendeu a usar este m\u00e9todo vitoriosamente na Am\u00e9rica, desde 1492. Essa \u00e9 a \u00fanica forma de conseguir manter-se no poder, j\u00e1 que ela representa 1% da popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o poderia governar sem atrair um setor da classe trabalhadora para seu lado. Por ser uma classe extremamente minorit\u00e1ria, ela utiliza os intelectuais e dirigentes negros, de extra\u00e7\u00e3o social pequeno-burguesa ou de classe m\u00e9dia, para dividir os trabalhadores negros dos trabalhadores brancos atrav\u00e9s do racialismo, diluindo a natureza de classes desta sociedade. Utiliza-se tamb\u00e9m de concess\u00f5es formais para cooptar os setores burgueses e pequeno-burgueses do movimento e a repress\u00e3o violenta aos setores pobres e mais radicais do movimento. Sistema bastante eficaz onde\u00a0a opress\u00e3o de uns \u00e9 utilizada para aumentar a explora\u00e7\u00e3o de outros.<br \/>\n24- Por tudo isso, a\u00a0quest\u00e3o negra se tornou vital para a revolu\u00e7\u00e3o mundial\u00a0e ocupar\u00e1 um papel de primeira grandeza na revolu\u00e7\u00e3o brasileira, junto com a luta pelo territ\u00f3rio, pelo trabalho e pela liberta\u00e7\u00e3o nacional diante do dom\u00ednio imperialista. Ela n\u00e3o pode ser resolvida no capitalismo a n\u00e3o ser\u00a0muito\u00a0parcial ou formalmente, fato que empurrar\u00e1 os negros para uma a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Nossa luta \u00e9 para que eles se convertam na\u00a0vanguarda\u00a0da luta revolucion\u00e1ria. A queda do apartheid e a subida de um governo negro de \u201cesquerda\u201d na \u00c1frica do Sul demonstrou que a quest\u00e3o negra n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o no sistema capitalista.<br \/>\n25- A burguesia brasileira tratou de invisibilizar o papel do povo negro na constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e na luta de classes, com o objetivo de dividir a classe trabalhadora, arraigar o racismo nas outras camadas de trabalhadores e com isso, isolar, humilhar, superexplorar e derrotar negros e negras.\u00a0Ganhar os trabalhadores n\u00e3o negros para lutar contra a opress\u00e3o racial \u00e9 uma tarefa fundamental para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<br \/>\n26- Portanto, a revolu\u00e7\u00e3o socialista brasileira ter\u00e1 um componente muito importante de\u00a0ra\u00e7a. A periferia das grandes cidades brasileiras s\u00e3o barris de p\u00f3lvora prestes a explodir. S\u00e3o 78 milh\u00f5es de desempregados e subempregados, sofrendo todo tipo de viol\u00eancia diariamente. Este ex\u00e9rcito de desempregados e subempregados \u00e9 maior que a popula\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, quase uma Alemanha, sete Chiles e dez Haitis. Sua explos\u00e3o ser\u00e1 uma onda revolucion\u00e1ria feroz que, se n\u00e3o for dirigida contra o sistema capitalista, ser\u00e1 usada para dividir os trabalhadores e perpetuar o capitalismo. Diluir ou menosprezar a quest\u00e3o negra levar\u00e1 \u00e0 derrota da revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 que a burguesia se aproveitar\u00e1 das divis\u00f5es no interior da classe trabalhadora para ati\u00e7ar os \u00f3dios entre trabalhadores, como tenta instigar o \u00f3dio dos trabalhadores nativos contra os imigrantes ou dos sulistas contra os nordestinos.<br \/>\n27- Por isso, \u00e9 vital\u00a0ganhar os trabalhadores n\u00e3o negros para lutar contra a opress\u00e3o\u00a0e o racismo. A quest\u00e3o racial s\u00f3 pode encontrar uma sa\u00edda positiva no socialismo, \u00fanico sistema que acabar\u00e1 com toda divis\u00e3o de classes na sociedade, tornando iguais todos os seres humanos, incorporando as diferen\u00e7as de ra\u00e7a, nacionalidade, credo, g\u00eanero ou orienta\u00e7\u00e3o sexual para evitar que tais diferen\u00e7as se convertam em desigualdades. Por isso, comete um erro grave o racialismo ou o nacionalismo negro, que busca organizar todos os negros independente da classe social, separado dos outros trabalhadores. Quem op\u00f5e a luta de ra\u00e7a \u00e0 luta de classes est\u00e1 inviabilizando tanto uma quanto a outra.<br \/>\n28- A desigualdade do processo hist\u00f3rico de conforma\u00e7\u00e3o do capitalismo mundial, no continente americano, originou uma combina\u00e7\u00e3o particular de tarefas aparentemente contradit\u00f3rias, mas que s\u00e3o combinadas: apoiar o direito \u00e0 repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica afro-ind\u00edgena (que deve incluir o\u00a0direito\u00a0ao territ\u00f3rio na forma em que creiam conveniente) \u00e9 a\u00a0condi\u00e7\u00e3o\u00a0para realizar a unidade nacional e internacional da classe trabalhadora. \u00c9 natural que, por sua composi\u00e7\u00e3o social, a revolu\u00e7\u00e3o no Equador, Bol\u00edvia, Guatemala, Peru etc. tenha como elemento galvanizador a quest\u00e3o ind\u00edgena assim como a revolu\u00e7\u00e3o no Haiti, Brasil, Jamaica etc. tenha como estopim a quest\u00e3o negra.<br \/>\n29- Na agita\u00e7\u00e3o que realizamos no proletariado n\u00e3o negro-ind\u00edgena, defendemos o direito dos povos negro-ind\u00edgena-imigrantes-coloniais a autodetermina\u00e7\u00e3o, a auto-organiza\u00e7\u00e3o, inclusive a separa\u00e7\u00e3o, caso seja essa a sua vontade decidida democraticamente. Debater isso no interior da classe trabalhadora em geral, o direito espec\u00edfico afro-ind\u00edgena \u00e0 repara\u00e7\u00e3o e o fim de toda opress\u00e3o no interior da nossa classe, tratando de explicar pacientemente a ideia de Marx que \u201cn\u00e3o pode ser livre um povo que oprime outro\u201d.\u00a0Aqui prevalece o direito dos povos e setores oprimidos decidirem seu destino.<br \/>\n30- Debater no interior do movimento negro-ind\u00edgena-imigrantes-coloniais o\u00a0dever de unir com o proletariado, contra a burguesia e o imperialismo.\u00a0A quest\u00e3o afro-ind\u00edgena s\u00f3 ter\u00e1 solu\u00e7\u00e3o se for direcionada contra o imperialismo, o sistema capitalista e a burguesia. Os setores oprimidos, isolados da classe trabalhadora, por mais importante que sejam, n\u00e3o tem a pot\u00eancia de mudar o sistema de conjunto. Em sua alian\u00e7a com todos os trabalhadores \u00e9 que adquire a for\u00e7a que pode derrubar o sistema capitalista. Portanto, reconhecendo que existem ind\u00edgenas, negros e imigrantes burgueses, realizamos uma delimita\u00e7\u00e3o de classe,\u00a0subordinando (sem diluir ou menosprezar) a luta negra e ind\u00edgena \u00e0 luta de classes pelo socialismo, que una os povos n\u00e3o brancos ao proletariado.<br \/>\n31- Em qualquer circunst\u00e2ncia, o apoio e a defesa dos movimentos afro-ind\u00edgenas que lutam contra o capitalismo e o imperialismo n\u00e3o podem comprometer a\u00a0independ\u00eancia pol\u00edtica\u00a0e organizativa do proletariado.<a href=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/notas-sobre-a-questao-negra-na-revolucao-brasileira\/#sdfootnote2sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2<\/a><br \/>\n32- A quest\u00e3o negra, com toda a import\u00e2ncia que tem, n\u00e3o abarca todas as contradi\u00e7\u00f5es da sociedade brasileira. A revolu\u00e7\u00e3o aqui pode ter\u00a0outros detonantes, como a domina\u00e7\u00e3o estrangeira sobre o pa\u00eds, a mis\u00e9ria e o desemprego generalizados, o feminic\u00eddio, a viol\u00eancia estatal contra os pobres, a corrup\u00e7\u00e3o generalizada etc.<br \/>\n33-\u00a0Concluindo,\u00a0por mais importante que seja, a quest\u00e3o negra est\u00e1 subordinada \u00e0 luta pelo socialismo.\u00a0Separar a luta negra da luta pelo socialismo, levar\u00e1 a uma capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia, que dividir\u00e1 a classe trabalhadora pela cor da pele e derrotar\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o. Postergar a luta negra para um futuro indeterminado, argumentando uma suposta unidade de classe, como fez o\u00a0stalinismo,\u00a0atrav\u00e9s dos partidos comunistas, \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o aos interesses do conjunto do proletariado.<br \/>\n34- Assim, dirigindo a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, o antigo povo-classe negro reencontrar\u00e1 sua identidade, antes de dissolver-se na classe trabalhadora em geral. Por\u00e9m, antes disso, passar\u00e1, necessariamente, por sua afirma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da\u00a0ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado com maioria negra,\u00a0verdadeira democracia da classe trabalhadora, que impedir\u00e1 a volta de todo tipo de opress\u00e3o.\u00a0Isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel se, desde hoje, combatemos o racismo dentro da classe trabalhadora.<br \/>\n35- O trotskismo, o marxismo-leninismo do s\u00e9culo XXI, deve ser a express\u00e3o consciente da\u00a0repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica afro-ind\u00edgena, unindo em uma s\u00f3 luta dois continentes: a \u00c1frica e a Am\u00e9rica! Trotsky afirmou que as ra\u00e7as n\u00e3o brancas ter\u00e3o a \u00faltima palavra no desenvolvimento da humanidade, por isso nosso\u00a0dever\u00a0\u00e9 de empunhar e levantar bem alto a bandeira da repara\u00e7\u00e3o.<br \/>\n36- A desigualdade e a combina\u00e7\u00e3o do processo hist\u00f3rico empurraram o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o internacional para a\u00a0periferia\u00a0do sistema (\u201celos d\u00e9beis da cadeia imperialista\u201d, segundo L\u00eanin), unindo a luta de classes \u00e0 luta nacional e afro-ind\u00edgena num feixe s\u00f3. As revolu\u00e7\u00f5es dos povos coloniais e semicoloniais, com forte composi\u00e7\u00e3o afro-ind\u00edgena, devem iniciar pela quest\u00e3o racial-nacional, por\u00e9m se completar\u00e3o como revolu\u00e7\u00f5es de classe contra o capitalismo. Dever\u00e3o come\u00e7ar como revolu\u00e7\u00f5es de independ\u00eancia nacional na periferia do sistema, mas se completar\u00e3o nos pa\u00edses imperialistas, como revolu\u00e7\u00e3o mundial. Ser\u00e3o\u00a0estopins da revolu\u00e7\u00e3o internacional, \u00fanica que pode derrotar\u00a0definitivamente\u00a0o imperialismo.<br \/>\nNotas:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/notas-sobre-a-questao-negra-na-revolucao-brasileira\/#sdfootnote1anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1<\/a>\u00a0Ver conceito, relacionado ao povo judeu, em livro de Abraham Leon,\u00a0Concep\u00e7\u00e3o materialista da quest\u00e3o judaica.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/notas-sobre-a-questao-negra-na-revolucao-brasileira\/#sdfootnote2anc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2<\/a>\u00a0\u201cA Internacional Comunista deve colaborar provisoriamente com o movimento revolucion\u00e1rio das col\u00f4nias e pa\u00edses atrasados, e at\u00e9 mesmo formar uma alian\u00e7a com ele, mas n\u00e3o deve se misturar com ele; deve manter incondicionalmente a independ\u00eancia do movimento prolet\u00e1rio, mesmo se estiver apenas em um est\u00e1gio embrion\u00e1rio.\u201d Teses sobre a quest\u00e3o nacional e colonial, do segundo Congresso da Internacional Comunista, 1920.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1- O Brasil nasceu como parte de um\u00a0empreendimento capitalista\u00a0(a forma\u00e7\u00e3o do mercado mundial), dominado por portugueses, depois ingleses e norte-americanos. Na aus\u00eancia de uma classe assalariada, o capitalismo, na sua fase mercantil, foi obrigado a utilizar formas pr\u00e9-capitalistas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, como a escraviza\u00e7\u00e3o afro-ind\u00edgena. 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