{"id":33391,"date":"2020-05-30T15:35:33","date_gmt":"2020-05-30T17:35:33","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33391"},"modified":"2020-05-30T15:35:33","modified_gmt":"2020-05-30T17:35:33","slug":"a-recessao-ja-chegou-e-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/05\/30\/a-recessao-ja-chegou-e-depois\/","title":{"rendered":"A recess\u00e3o j\u00e1 chegou. E depois&#8230;?"},"content":{"rendered":"<p><em>A economia mundial entrar\u00e1 oficialmente em recess\u00e3o no final de junho. \u00c9 o resultado do impacto das medidas adotadas para combater a pandemia do coronav\u00edrus. Mas esse impacto atingiu uma parede que j\u00e1 estava profundamente fraturada<\/em>.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Alejandro Iturbe<br \/>\nDefine-se uma recess\u00e3o quando o PIB (Produto Interno Bruto) de um pa\u00eds, de uma regi\u00e3o ou do mundo sofre uma redu\u00e7\u00e3o pelo menos em dois trimestres consecutivos. Isso j\u00e1 aconteceu durante o primeiro trimestre de 2020 e tudo indica que isso se repetir\u00e1 no segundo. Vejamos alguns dados das economias mais importantes o mundo:<br \/>\nNos <strong>Estados Unidos<\/strong>, o PIB de janeiro a mar\u00e7o caiu 1,2% em rela\u00e7\u00e3o a dezembro de 2019 (ap\u00f3s todo um per\u00edodo de crescimento), o que acabaria gerando um retrocesso anual de 4,8%. Alguns economistas estimaram que a queda real no 1T [primeiro trimestre] foi de 4% [1]. O que aconteceu desde o final de mar\u00e7o indicaria que essa din\u00e2mica se manteve e, inclusive, se agravou.<br \/>\nNa <strong>China,<\/strong> o PIB caiu 6,8%, a primeira redu\u00e7\u00e3o desde 1992 e a pior desde 1976 durante a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, na \u00e9poca em que o pa\u00eds ainda era um Estado oper\u00e1rio.<br \/>\nNa <strong>Europa<\/strong>, as autoridades alem\u00e3s divulgaram uma previs\u00e3o de recess\u00e3o anual de 6,3%. A Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Espanha (na ordem decrescente do tamanho do PIB) divulgaram n\u00fameros oficiais para o 1T deste ano com contra\u00e7\u00f5es de 5,8%, 4,7% e 5,2%, respectivamente, no \u00faltimo trimestre de 2019. No final de abril passado, Christine Lagarde, presidente do BCE (Banco Central Europeu) afirmou que <em>\u201co <u>colapso econ\u00f4mico da Uni\u00e3o Europeia<\/u> ter\u00e1 uma amplitude e uma velocidade sem precedentes em tempos de paz\u201d.<\/em><br \/>\nPor sua vez, o <strong>Jap\u00e3o<\/strong> (a terceira economia do mundo em 2019) j\u00e1 tinha sofrido uma queda acentuada no \u00faltimo trimestre de 2019 (-7,3%) e manteve essa din\u00e2mica em 2020. Os analistas estimam que neste ano haver\u00e1 um recorde de redu\u00e7\u00e3o do PIB. Segundo Izumi Devalier, economista-chefe do Jap\u00e3o do <em>Bank of America-Merrill Lynch<\/em>: <em>\u201ccom o coronavirus, a economia japonesa entrou em choque em uma posi\u00e7\u00e3o muito d\u00e9bil\u201d<\/em>.<br \/>\nOs chamados <strong>\u201cpa\u00edses emergentes\u201d <\/strong>(como \u00c1frica do Sul e Turquia) j\u00e1 vinham com uma din\u00e2mica ruim. O Brasil ainda n\u00e3o divulgou os dados do primeiro trimestre de 2020, mas desde o in\u00edcio do ano, ocorreu a maior fuga de capitais de toda sua hist\u00f3ria. A economia argentina j\u00e1 estava em recess\u00e3o e \u00e9 esperada uma queda de 6,5% para este ano [2].<br \/>\n<strong>De novo a \u201cajuda\u201d dos governos<\/strong><br \/>\nSe esta din\u00e2mica continuasse, a recess\u00e3o se transformaria em <strong>depress\u00e3o<\/strong>, que alguns economistas definem como uma queda do PIB superior a 10%, e outros por sua dura\u00e7\u00e3o (uma recess\u00e3o muito prolongada sem sintomas de melhora).<br \/>\nPara tentar evitar esta din\u00e2mica, as burguesias e os governos apelaram mais uma vez, como na crise iniciada em 2007\/2008, a pacotes de \u201cajuda\u201d gigantescos, mudando, em muitos casos, suas pol\u00edticas anteriores. O governo de Donald Trump (com apoio un\u00e2nime das duas c\u00e2meras do Congresso) votou um pacote de 2,2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares [3]. A Alemanha definiu um plano de 1,1 trilh\u00f5es de euros (um ter\u00e7o do PIB), e assim por diante. A maior parte dessa \u201cajuda\u201d \u00e9 destinada \u00e0s empresas, com algumas medidas menores para os trabalhadores: nos Estados Unidos, representam apenas 10% do total; na Alemanha, menos de 5% ser\u00e1 para ajudar aos desempregados.<br \/>\nEssas pequenas medidas acontecem no contexto de um ataque feroz aos trabalhadores em todo mundo por parte das burguesias e dos governos: demiss\u00f5es, suspens\u00f5es, redu\u00e7\u00f5es salariais, modifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e ataques a velhas conquistas como f\u00e9rias remuneradas, 13\u00b0 sal\u00e1rio, acordos coletivos, etc. [4].<br \/>\n<strong>O que acontecer\u00e1 a partir de agora?<\/strong><br \/>\nPara analisar as perspectivas mais imediatas \u00e9 necess\u00e1rio considerar elementos contradit\u00f3rios. Por um lado, a economia mundial j\u00e1 vinha com uma din\u00e2mica de recess\u00e3o antes do efeito da pandemia, que acelerou e acentuou essa din\u00e2mica, mas n\u00e3o a criou. Ao mesmo tempo, isto ocorre no \u00e2mbito do que chamamos s\u00e9rie descendente dos ciclos econ\u00f4micos, iniciada em 2007\/2008, e contradi\u00e7\u00f5es muito profundas do capitalismo imperialista em sua decad\u00eancia [5].<br \/>\nNo sentido contr\u00e1rio contr\u00e1rio, h\u00e1 o efeito de al\u00edvio na queda causado pelos grandes \u201cpacotes de ajuda\u201d que aplicaram os governos. De qualquer forma, seu efeito no PIB ser\u00e1 menor que sua magnitude, pois as empresas aproveitam parte dessa ajuda, n\u00e3o para investir na produ\u00e7\u00e3o, mas para se capitalizar financeiramente. E, centralmente, a suspens\u00e3o das quarentenas e restri\u00e7\u00f5es (com datas e ritmos ainda imprecisos e que variam entre os pa\u00edses) que impulsionar\u00e1 uma recupera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do consumo. V\u00e1rios analistas consideram que este fator j\u00e1 come\u00e7ar\u00e1 a atuar na segunda metade deste ano.<br \/>\nA tabela, abaixo, elaborada pelo FMI em abril de 2020 mostra uma compara\u00e7\u00e3o dos PIBs de 2019 com as estimativas para 2020 e 2021[6].<br \/>\n<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/economia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-33392\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/economia.jpg\" alt=\"\" width=\"630\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/economia.jpg 630w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/economia-185x300.jpg 185w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/economia-150x244.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/economia-300x488.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 630px) 100vw, 630px\" \/><\/a><br \/>\nEm geral, o FMI caracteriza-se por fazer progn\u00f3sticos \u201cotimistas\u201d que breve ser\u00e3o corrigidos para cifras piores. Nesse caso, parece apostar em uma forte recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-quarentena (ou com sua diminui\u00e7\u00e3ogradual no segundo semestre de 2020), com forte \u00eanfase nas economias asi\u00e1ticas e, especialmente, na China (cujas estat\u00edsticas s\u00e3o altamente questionadas).<br \/>\nMas mesmo se considerarmos esses n\u00fameros, vemos que, na maioria dos casos, a recupera\u00e7\u00e3o de 2021 ser\u00e1 menor que \u00e0 queda de 2020. Essa \u00e9 uma das situa\u00e7\u00f5es analisadas por Trotsky em 1923: <em>\u201cSe a crise, que significa destrui\u00e7\u00e3o, ou em todo caso contra\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas, ultrapassa em intensidade o auge correspondente, de modo que obtemos como resultado uma contra\u00e7\u00e3o da economia\u201d<\/em>, caracter\u00edstica de uma curva geral descendente [7].<br \/>\nA din\u00e2mica atual da economia amea\u00e7a fazer explodir e se ver ainda mais potencializada pela \u201cdefla\u00e7\u00e3o\u201d ou a explos\u00e3o de v\u00e1rias bolhas especulativas pr\u00f3prias do momento atual do capitalismo imperialista. Em particular, pelo do \u201cendividamento global\u201d, devido \u00e0 soma das d\u00edvidas dos Estados, as empresas e as fam\u00edlias [8]. Nesse caso, seria a \u201ctempestade perfeita\u201d da economia mundial.<br \/>\nSeja na sua perspectiva mais atenuada ou mais catastr\u00f3fica, seremos os trabalhadores os que pagaremos seu custo. Por isso, devemos nos organizar e lutar contra isso agora, e nos prepararmos para lutas muito mais duras.<br \/>\nNotas:<br \/>\n[1]\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/04\/economia-dos-eua-cai-48-no-1o-tri-o-maior-tombo-desde-a-grande-recessao.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/04\/economia-dos-eua-cai-48-no-1o-tri-o-maior-tombo-desde-a-grande-recessao.shtml<\/a><br \/>\n[2]\u00a0<a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/mundo\/noticia\/2020\/05\/05\/argentina-preve-recuo-de-65percent-no-pib-de-2020-o-maior-desde-2002.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/valor.globo.com\/mundo\/noticia\/2020\/05\/05\/argentina-preve-recuo-de-65percent-no-pib-de-2020-o-maior-desde-2002.ghtml<\/a><br \/>\n[3]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/es\/trump-firma-gigantesco-paquete-de-ayuda-para-rescatar-peque%C3%B1as-empresas\/a-53241149\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dw.com\/es\/trump-firma-gigantesco-paquete-de-ayuda-para-rescatar-peque%C3%B1as-empresas\/a-53241149<\/a><br \/>\n[4]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/economia\/un-presente-muy-duro-y-un-futuro-aun-peor-para-los-trabajadores\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/economia\/un-presente-muy-duro-y-un-futuro-aun-peor-para-los-trabajadores\/<\/a><br \/>\n[5] Veja neste aspecto:\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/?s=las+dos+pestes\">https:\/\/litci.org\/es\/?s=las+dos+pestes<\/a><br \/>\n[6] Tirado de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/es\/Publications\/WEO\/Issues\/2020\/04\/14\/weo-april-2020\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.imf.org\/es\/Publications\/WEO\/Issues\/2020\/04\/14\/weo-april-2020<\/a><br \/>\n[7] \u201cA curva do desenvolvimento capitalista\u201d em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1923\/junio\/21.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1923\/junio\/21.htm<\/a><br \/>\n[8]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/el-desinfle-de-las-burbujas-especulativas\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/el-desinfle-de-las-burbujas-especulativas\/<\/a><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economia mundial entrar\u00e1 oficialmente em recess\u00e3o no final de junho. \u00c9 o resultado do impacto das medidas adotadas para combater a pandemia do coronav\u00edrus. 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