{"id":33388,"date":"2020-05-29T17:01:25","date_gmt":"2020-05-29T19:01:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33388"},"modified":"2020-05-29T17:01:25","modified_gmt":"2020-05-29T19:01:25","slug":"resgatar-os-ensinamentos-do-maio-frances","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/05\/29\/resgatar-os-ensinamentos-do-maio-frances\/","title":{"rendered":"Resgatar os ensinamentos do Maio Franc\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><em>Quando o Maio Franc\u00eas \u00e9 abordado na m\u00eddia, a tentativa \u00e9 de caricaturar os eventos vividos nesse pa\u00eds como &#8220;ut\u00f3picos&#8221; e pouco realistas. No entanto, \u00e9 um dever resgatar o processo revolucion\u00e1rio da juventude e das massas trabalhadoras, suas organiza\u00e7\u00f5es autogestionadas, a combatividade nos enfrentamentos nas ruas, tra\u00edda por dire\u00e7\u00f5es da CGT.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Luis Alvarado<br \/>\nUma experi\u00eancia que continua nos ensinando a desafiar o poder dos ricos, que continua at\u00e9 hoje.<br \/>\n<strong>O contexto em que se situa<\/strong><br \/>\nEm fevereiro de 1968, acontecia o primeiro bombardeio norte-americano contra o Vietn\u00e3, e se multiplicavam os protestos em Washington contra a Guerra e contra o racismo aos negros. Em abril se proliferam os enfrentamentos em Nova York, confrontos com a pol\u00edcia em Chicago e, no mesmo m\u00eas, Martin Luther King \u00e9 assassinado. Junto com isso h\u00e1 um grande movimento contra o imp\u00e9rio norte-americano no Jap\u00e3o. Em Berlim &#8211; a capital alem\u00e3 \u2013 se concretiza um atentado contra o estudante Rudi Dutschike, morte causada por um fan\u00e1tico nazista, com protestos em todo o pa\u00eds.<br \/>\nO movimento de protesto se estende \u00e0 Europa, na Holanda violentos confrontos com a pol\u00edcia, na It\u00e1lia movimentos da juventude com Roma paralisada \u200bpor estudantes contra as reformas educacionais.<br \/>\n<strong>A g\u00eanese do maio franc\u00eas<\/strong><br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a n\u00e3o estava favor\u00e1vel aos setores populares e \u00e0s maiorias assalariadas, vinham h\u00e1 anos enfrentando pol\u00edticas que aprofundavam a precariedade da vida de milhares. Baixos sal\u00e1rios, juventude desempregada, reformas na educa\u00e7\u00e3o com \u00f3bvias inten\u00e7\u00f5es de privatiz\u00e1-la, reformas na seguridade social, um governo de Gaulle autorit\u00e1rio e repressor. Mas \u00e0 ele gradualmente se opunham as lutas geralmente isoladas, e que iam tomando for\u00e7a, tendo um alto impacto as mobiliza\u00e7\u00f5es do movimento estudantil contra as pol\u00edticas coloniais dos EUA com a guerra do Vietn\u00e3.<br \/>\n<strong>A juventude na linha de frente<\/strong><br \/>\nCom esse panorama de contesta\u00e7\u00e3o, entre mar\u00e7o e maio houve uma infinidade de protestos e ocupa\u00e7\u00f5es de faculdades de diferentes universidades do pa\u00eds, com debates pol\u00edticos em cada centro de estudos, abordando diferentes \u00e1reas da sociedade. A faculdade de letras de <em>Lamperre<\/em> foi a converg\u00eancia do movimento estudantil que organizou mobiliza\u00e7\u00f5es nas ruas em rep\u00fadio \u00e0s reformas de Gaulle, produzindo um aumento da repress\u00e3o e da resist\u00eancia, com seu ponto mais alto em 3 de maio, onde a pol\u00edcia de choque tentou desalojar a hist\u00f3rica Universidade de Paris, a Soborna, que foi o epicentro de confrontos e mobiliza\u00e7\u00f5es, assim como no <em>Bairro Latino<\/em>, <em>Denfert<\/em> e <em>Halle-auVins<\/em>.<br \/>\nA partir desses conflitos, v\u00e1rios ativistas e estudantes foram presos e processados, causando maiores mobiliza\u00e7\u00f5es, estudantes presos e expulsos do pa\u00eds como &#8220;Dani o Vermelho&#8221;, protestos e confrontos da juventude com a pol\u00edcia, com barricadas, dando in\u00edcio ao Maio Franc\u00eas. Os estudantes declaravam greve por tempo indeterminado.<br \/>\nDesenvolveu-se um forte movimento pol\u00edtico, art\u00edstico e cultural que se rebelou contra o eixo do sistema capitalista.<br \/>\n<strong>A classe trabalhadora entra em cena<\/strong><br \/>\n&#8220;A noite das barricadas&#8221;; a batalha noturna do dia 10 de maio contagiou de rebeldia o movimento oper\u00e1rio, for\u00e7ando as dire\u00e7\u00f5es da Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (CGT) a convocar uma greve nacional em 13 de maio. Mas longe de ser uma greve geral como a dire\u00e7\u00e3o da CGT queria, a classe trabalhadora eclodiu revolucionariamente e saiu em massa \u00e0s ruas, passando por cima de chefes e patr\u00f5es, as ruas lotadas em todos os cantos do pa\u00eds.<br \/>\nSurgiram experi\u00eancias como as revoltas nos cont\u00eainers da Maerks; a f\u00e1brica de Rh\u00f4ne-Poulenc de Vitr afirma: &#8220;Estudantes e oper\u00e1rios, a mesma luta&#8221;; maci\u00e7as greves nos locais de trabalho como na Thomson (Bagneux e Gennevilliers [Hauts-de-Seine]) onde o n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o foi de 60 a 65%. No Centro de Energia At\u00f4mica (CEA) em Saclay (Essonne), a participa\u00e7\u00e3o foi massiva, assim como na Chausson (90%), na sucursal da Rh\u00f4ne Poulenc de Vitry (Valde-Marne), na f\u00e1brica da Peugeot em Sochaux (Doubs), na f\u00e1brica da Renault de Cl\u00e9on (Seine-Maritime), na empresa de materiais agr\u00edcolas Claas em Woippy (sub\u00farbios de Metz, leste da Fran\u00e7a), na Sociedade BTP [Obras P\u00fablicas], Duc et Mery de Toulouse, em Paris na f\u00e1brica f\u00e1brica da La Villette, da Nouvelles Messageries, da Presse Parisienne (NMPP).<br \/>\nNo per\u00edodo de maio e junho, houve cerca de 10 milh\u00f5es de trabalhadores que estiveram em greve e mobiliza\u00e7\u00f5es, muitas f\u00e1bricas foram tomadas, em muitos casos os gerentes e diretores foram feitos ref\u00e9ns. Nesse contexto surgiram v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es autogestionadas, para organizar e coordenar as a\u00e7\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es por acordos coletivos, questionando o poder patronal em cada local de trabalho.<br \/>\nHouve 600.000 manifestantes em Paris, 150.000 em Marselha, 40.000 em Toulouse, 35.000 em Lyon, etc. Em todos os lugares, as delega\u00e7\u00f5es haviam reunido oper\u00e1rios e estudantes. As concentra\u00e7\u00f5es eram promovidas &#8220;sob a biruta&#8221;.<br \/>\nCom o passar dos dias, n\u00e3o apenas estavam a classe trabalhadora, o movimento estudantil e a juventude, como tamb\u00e9m se uniram mais setores em luta, tendo at\u00e9 v\u00e1rios quart\u00e9is de soldados a favor das reivindica\u00e7\u00f5es do povo trabalhador franc\u00eas.<br \/>\n<strong>A trai\u00e7\u00e3o da CGT<\/strong><br \/>\nCom um aumento dos sal\u00e1rios, limitou as reivindica\u00e7\u00f5es a dire\u00e7\u00e3o da CGT e de outras centrais sindicais, que conversaram com o governo de Gaulle, encurralado pelas massas,. Nessas reuni\u00f5es, os sindicatos conseguiram um aumento de 12%, uma redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e outras migalhas, a fim de acabar com as mobiliza\u00e7\u00f5es. Uma vez que o acordo foi fechado, a CGT desmobilizou os setores mais atrasados, mas continuava uma linha de frente da classe trabalhadora e da juventude que estava disposta a ir muito mais longe.<br \/>\nO acordo com as dire\u00e7\u00f5es da CGT e de outras centrais sindicais foi fechado, embora alguns setores mantivessem a luta viva. De Gaulle come\u00e7ou a repress\u00e3o mais brutal, atingindo cada universidade, f\u00e1brica, locais de trabalho e bairros populares (como o Bairro Latino) onde as mobiliza\u00e7\u00f5es estavam vivas, deixando mortos, feridos, detidos e presos.<br \/>\nNo final de junho, o governo de De Gaulle fechou a crise, com elei\u00e7\u00f5es que deram ao PS e ao PC uma maioria no Congresso, mas Gaulle n\u00e3o p\u00f4de sobreviver mais do que um ano depois do Maio Franc\u00eas, j\u00e1 que mais tarde foi deposto em um referendo, e por outro lado, a classe trabalhadora, a juventude e as massas populares n\u00e3o apenas persistiram em sua luta, mas deram um exemplo que se espalhou por toda a Europa e o mundo.<br \/>\n<strong>Li\u00e7\u00f5es de uma luta \u00e9pica<\/strong><br \/>\nApesar da derrota, o Maio Franc\u00eas mais uma vez demonstrou <strong>a for\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es e a combatividade da classe trabalhadora e de seus aliados,<\/strong> como <strong>a juventude, os jovens universit\u00e1rios e secundaristas<\/strong>, e confirmou novamente que \u00e9 necess\u00e1rio livrar-se de dirigentes traidores quando as massas trabalhadoras e populares querem derrotar o governo e come\u00e7ar a derrubar o capitalismo.<br \/>\nO Maio Franc\u00eas demonstra a necessidade de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que esteja \u00e0 altura da coragem das massas, nascidas dos setores da classe assalariada, das mulheres e do povo pobre, que arranque o controle sindical de dirigentes conciliadores e amigos \u200b\u200bdo grande empresariado e do governo dos capitalistas. E uma juventude que esteja a servi\u00e7o da luta dos explorados e oprimidos. Pois \u00e9 a\u00ed que pode ser constru\u00eddo um futuro, negado pelo capitalismo, um futuro livre de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, em que se possa desfrutar da vida plenamente.<br \/>\n<strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nAs greves na Fran\u00e7a, durante maio e junho de 1968, Bruno Asterian.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Tae Amaru<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o Maio Franc\u00eas \u00e9 abordado na m\u00eddia, a tentativa \u00e9 de caricaturar os eventos vividos nesse pa\u00eds como &#8220;ut\u00f3picos&#8221; e pouco realistas. 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