{"id":33285,"date":"2020-05-21T12:00:26","date_gmt":"2020-05-21T14:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33285"},"modified":"2020-05-21T12:00:26","modified_gmt":"2020-05-21T14:00:26","slug":"um-breve-resgate-sobre-a-historia-do-movimento-lgbt-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/05\/21\/um-breve-resgate-sobre-a-historia-do-movimento-lgbt-no-brasil\/","title":{"rendered":"Um breve resgate sobre a hist\u00f3ria do movimento LGBT no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>O presente texto tem como objetivo fazer uma breve relato do movimento homossexual no Brasil, bem como de seu hist\u00f3rico nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. Apontar fatos relevantes e not\u00e1veis para as lutas de L\u00e9sbicas, Gays, bissexuais e Transg\u00eaneros (LGBTs) se faz necess\u00e1rio at\u00e9 mesmo no que diz respeito ao entendimento das condi\u00e7\u00f5es dos oprimidos em pleno contexto de ofensiva neoliberal.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Alessandro Furtado<br \/>\nAtualmente, com as explos\u00f5es de movimentos insurrecionais na Am\u00e9rica Latina, o protagonismo dos estudantes, das mulheres, dos \u00edndios, negras, negros e LGBTs se destaca como for\u00e7a propulsora de uma avalanche de lutas que tem seu embri\u00e3o, obviamente, em movimentos sociais. Assim, faz-se necess\u00e1rio realizar um recorte hist\u00f3rico \u2013 compreendido entre o Brasil dos anos de 1970 e in\u00edcio dos anos 2000 \u2013 para que sejam compreendidos at\u00e9 mesmo momentos que ora podem se caracterizar como refluxos de lutas.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio compreender que a hist\u00f3ria da luta homossexual no Brasil coincide com a \u00e9poca da ditadura militar. O movimento homossexual no Brasil ocorre concomitante aos movimentos da juventude que , a partir dos anos 1960, passam a questionar valores burgueses relacionados \u00e0 fam\u00edlia e ao comportamento social. A repress\u00e3o advinda do autoritarismo do governo incomodava os setores mais explorados e tamb\u00e9m silenciados na sociedade. A censura levava compositores de m\u00fasica popular \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de letras metaf\u00f3ricas, que expressavam detalhadamente os horrores da ditadura. Dessa forma, estudantes e intelectuais se reuniam em espa\u00e7os clandestinos, isolados, onde podiam discutir temas que eram alvos de persegui\u00e7\u00e3o da, ent\u00e3o, Lei de Imprensa , postula\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria da ditadura militar, que impedia a divulga\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias atentat\u00f3rias \u00e0 \u201cmoral e aos bons costumes\u201d.<br \/>\nEm 1976, um grupo de homossexuais masculinos se re\u00fane em S\u00e3o Paulo, com a inten\u00e7\u00e3o de realizar discuss\u00f5es sobre sexualidade, assim como tamb\u00e9m reagir \u00e0 repress\u00e3o. A recusa por neologismos caracteriza esta fase de desenvolvimento de lutas LGBts e o apoio ao jornal\u00a0Lampi\u00e3o da Esquina\u00a0descrevem importantes marcos que avan\u00e7am no sentido de politizar a cultura homossexual restrita, at\u00e9 ent\u00e3o, aos guetos. Assim, diante de encontros e discuss\u00f5es prof\u00edcuas, com a inten\u00e7\u00e3o de unir o debate pol\u00edtico ao debate contra opress\u00f5es, nasce, em 1979, o grupo\u00a0SOMOS: Grupo de Afirma\u00e7\u00e3o Homossexual.\u00a0A princ\u00edpio, este grupo estabelece suas ra\u00edzes no movimento brasileiro, que j\u00e1 havia se despontado em outros setores \u2013 o Movimento Negro Unificado (MNU) e os movimentos feministas<br \/>\nApesar de os apontamentos que se destacavam no grupo\u00a0SOMOS\u00a0reivindicarem quest\u00f5es que se irradiavam por v\u00e1rios setores que sofriam (e sofrem) com a opress\u00e3o e com a discrimina\u00e7\u00e3o, tal grupo tem sua forma\u00e7\u00e3o inicial predominantemente composta por homossexuais masculinos. De acordo com James Green (2019, p.70) \u201cHavia apenas uma mulher, Leila M\u00edccolis, dentre os colaboradores e a linha editorial dava relativamente pouco espa\u00e7o para l\u00e9sbicas.\u201d Talvez este dado seja mesmo um sintoma da dificuldade enfrentada pelos variados grupos diante de ideologias que apregoavam o medo e terror, o que dificultava as pessoas a se assumirem publicamente para entoar suas lutas.<br \/>\nA emin\u00eancia de politiza\u00e7\u00e3o do movimento homossexual se fazia importante e tais pessoas, ao se reunirem, tinham como pauta o enfrentamento \u00e0 ideologia anti-homossexual premente nos anos de ditadura militar. Tais lutas coadunam-se ent\u00e3o com o movimento presente nas artes, que adquiria cada vez mais um car\u00e1ter comunitarista e libert\u00e1rio. Assim, debates pol\u00edticos aconteciam com frequ\u00eancia, at\u00e9 mesmo em concilia\u00e7\u00e3o com o car\u00e1ter de sociabilidade que o grupo tamb\u00e9m adquiria. O pr\u00f3prio nome do grupo traduzia n\u00e3o apenas uma proposta social, mas tamb\u00e9m apontava \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Destarte, desse projeto inicial, subtende-se seu car\u00e1ter de defesa de uma pauta democr\u00e1tica, contudo com um plano de a\u00e7\u00e3o orientado para o ativismo. Centenas de participantes passaram pelo SOMOS,\u00a0e toda a sua organiza\u00e7\u00e3o se configura como um modelo para futuros grupos homossexuais os quais, depois, assomam durante os anos de amplia\u00e7\u00e3o do movimento.<br \/>\nA entrada de mulheres no grupo SOMOS\u00a0se d\u00e1 ap\u00f3s debate que ocorre na USP diante de uma tem\u00e1tica sobre movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o de grupos discriminados. Ent\u00e3o, catalisar o debate sobre homossexualidade traz consequ\u00eancias positivas, de forma que quest\u00f5es v\u00eam \u00e0 tona, iniciativas surgem e a polariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m come\u00e7a a ocorrer junto aos membros, a partir de aspectos que eram tratados, com o aprofundamento dos debates . A a\u00e7\u00e3o protot\u00edpica do SOMOS\u00a0\u00e9 bastante relevante diante das condi\u00e7\u00f5es que exigia de seus membros: todos que se agrupavam deviam se identificar como homossexuais, era necess\u00e1rio esvaziar o car\u00e1ter pejorativo dos termos \u201cbicha\u201d e \u201csapat\u00e3o\u201d, al\u00e9m de haver diverg\u00eancias com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 acep\u00e7\u00e3o da bissexualidade.<br \/>\nA voz dos homossexuais \u00e9 entoada nesse per\u00edodo da hist\u00f3ria pela publica\u00e7\u00e3o do jornal Lampi\u00e3o da Esquina,\u00a0j\u00e1 citado anteriormente. \u00c9 relapso discutir sobre lutas LGBTs no Brasil sem tocar no nome desse jornal, que circulou por tr\u00eas anos aproximadamente e contou com 37 publica\u00e7\u00f5es. A equipe do tabloide contava tamb\u00e9m com homossexuais masculinos e suas reportagens eram destinadas n\u00e3o somente a esse p\u00fablico, como tamb\u00e9m trazia artigos sobre travestis, mulheres l\u00e9sbicas, temas raciais. O preconceito contra o jornal foi marcado por atos de intoler\u00e2ncia, com dados de viol\u00eancia praticados por um grupo paramilitar, que soltava bombas em bancas em que eram vendidos exemplares do jornal. A cria\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento do SOMOS\u00a0tem sua hist\u00f3ria vinculada ao Lampi\u00e3o\u00a0e atos de coragem e resist\u00eancia s\u00e3o observados em conjunto quando se observa fatos descritos nessa \u00e9poca.<br \/>\nA divis\u00e3o do SOMOS\u00a0traz aspectos pol\u00edticos evidentes, quando um n\u00famero de ativistas n\u00e3o aceita participar de atos em S\u00e3o Bernardo do Campo, durante uma greve geral em 1\u00ba de maio de 1980. Dois grupos j\u00e1 se faziam notar dentro da mesma organiza\u00e7\u00e3o: alguns membros destacavam a import\u00e2ncia de unir homossexuais aos outros trabalhadores, enquanto membros divergentes acreditavam que a esquerda controlava o\u00a0SOMOS\u00a0atrav\u00e9s de sindicalistas que, muitas vezes, eram nitidamente homof\u00f3bicos. Dessa forma, a ruptura da primeira organiza\u00e7\u00e3o homossexual brasileira acontece, deixando membros dissidentes espalhados em grupos que n\u00e3o apresentaram a mesma relev\u00e2ncia, assim como se destacam tamb\u00e9m, nessa \u00e9poca, outras organiza\u00e7\u00f5es \u00f3rf\u00e3s, com pouca orienta\u00e7\u00e3o para a continuidade do movimento.<br \/>\nA dissid\u00eancia entre membros do SOMOS desencadeou consequ\u00eancias inclusive entre outros grupos que j\u00e1 se firmavam com posi\u00e7\u00f5es assertivas em plena era de ditadura militar. Em S\u00e3o Paulo, o Grupo\u00a0Outra Coisa: A\u00e7\u00e3o Homossexualista\u00a0se desenvolve por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s posturas pol\u00edticas junto a dirigentes sindicais, assim como as l\u00e9sbicas do\u00a0SOMOS\u00a0se unem e formam uma entidade independente, o\u00a0Grupo L\u00e9sbico-Feminista, depois de v\u00e1rios debates em que se evidenciavam acusa\u00e7\u00f5es de machismo, quando as organiza\u00e7\u00f5es iniciais se aglutinavam em debates junto a outros grupos e partidos pol\u00edticos. A ruptura traz um n\u00edtido car\u00e1ter pol\u00edtico, com ares de discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito por parte de alguns membros. At\u00e9 mesmo o Lampi\u00e3o da Esquina\u00a0tem suas publica\u00e7\u00f5es comprometidas nesta \u00e9poca, com significativa queda de vendas. A publica\u00e7\u00e3o do tabloide tem seu t\u00e9rmino em meados de 1981 e, nos anos seguintes, a maioria dos grupos que se afirmava a favor do movimento homossexual tamb\u00e9m se dissipa.<br \/>\nO contexto dessa \u00e9poca, que coincide com o fim da ditadura militar no Brasil, imprime ares de democracia e de abertura de discuss\u00f5es, com a fal\u00e1cia de que novos espa\u00e7os haviam de ser formado com a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Possibilitava-se discuss\u00e3o de forma mais intensa sobre a sexualidade e a imprensa abria as portas para que algumas figuras homossexuais se expressassem. Esta falsa ilus\u00e3o de uma supera\u00e7\u00e3o do preconceito se estende mesmo para o com\u00e9rcio, que desenvolve um mercado amplo para homossexuais, j\u00e1 que se constituem enquanto um grupo que se insere num mercado \u00e1vido por consumidores. Assim, essas distor\u00e7\u00f5es terminam por significar no imagin\u00e1rio social uma falta de espa\u00e7o para organiza\u00e7\u00f5es de ativismo homossexual, pois tal p\u00fablico havia supostamente conquistado uma condi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<br \/>\nOs anos 1980 se caracterizaram como a d\u00e9cada em que grande n\u00famero de homossexuais esvaziam o movimento diante do advento da AIDS, considerada como uma doen\u00e7a t\u00edpica de homossexuais masculinos. Todas as a\u00e7\u00f5es que se mostraram anteriormente como defensoras de uma abertura sexual, agora apresentam a marca de certa reserva e cautela em tratar sobre o tema, uma vez que a AIDS trazia um estigma de poss\u00edvel falta de cuidados com a vida sexual. A liberdade sexual que estava sendo debatida por homossexuais agora dava sinais de preocupa\u00e7\u00e3o: como prevenir uma doen\u00e7a que era pouco conhecida e que se manifestava , a princ\u00edpio, em um p\u00fablico de homossexuais masculinos? Dessa forma, muitos ativistas voltam sua aten\u00e7\u00e3o para propostas de entendimento maior sobre o tema da AIDS, o que acarreta certo refluxo ao movimento LGBT que se mostrou com ares de consolida\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada anterior.<br \/>\n\u00c9 importante caracterizar que o advento da AIDS tamb\u00e9m traz como consequ\u00eancia uma aten\u00e7\u00e3o maior \u00e0s pessoas LGBTs, j\u00e1 que catalisa maiores debates a respeito da sexualidade e, principalmente, sobre a homossexualidade. Assim, mesmo que houvesse uma volta da milit\u00e2ncia homossexual para compreens\u00e3o de um novo fen\u00f4meno, \u00e9 mantida a visibilidade sobre quest\u00f5es do meio homossexual. A milit\u00e2ncia homossexual ganha ares introspectivos nesta \u00e9poca, o que acarreta algum esvaziamento das figuras LGBTs em lutas. Por\u00e9m, por outro lado, faz-se necess\u00e1rio dar aten\u00e7\u00e3o ao comportamento sexual de alguns grupos sociais, diante de uma doen\u00e7a que se apresenta como uma amea\u00e7a real.<br \/>\nA d\u00e9cada de 1990 se caracteriza com uma ressurg\u00eancia do ativismo LGBTs, por\u00e9m com configura\u00e7\u00f5es diversas. Se a d\u00e9cada anterior denota um enfraquecimento do movimento, diante do surgimento da AIDS e de uma volta para quest\u00f5es de sa\u00fade, deixando o movimento enfraquecido, a d\u00e9cada de 1990 traz perspectivas diferentes, no tocante \u00e0 pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o das pessoas que se juntavam \u00e0s discuss\u00f5es sobre homossexualidade. Essa d\u00e9cada n\u00e3o se manifesta com grandes atos de rua, nem mesmo com propostas de enfrentamento ao governo vigente, at\u00e9 por causa de uma maior visibilidade que os governos e as diversas m\u00eddias passam a conceder \u00e0s pessoas LGBTs. As organiza\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o com express\u00f5es diferentes em seus diversos movimentos, buscam realizar encontros (que j\u00e1 ocorriam desde a d\u00e9cada de 1980) em que pessoas de partes diferentes do pa\u00eds se aglutinavam. A redemocratiza\u00e7\u00e3o da sociedade passa a adicionar o tema da homossexualidade em suas mesas de debate, determinadas a\u00e7\u00f5es que possu\u00edam car\u00e1ter antiautorit\u00e1rio enfraquecem ou s\u00e3o simplesmente desmobilizados e, por conseguinte, determinadas quest\u00f5es sobre a homossexualidade deixam de transparecer na ordem do dia. Naquele momento, fazia-se necess\u00e1rio criar uma imagem p\u00fablica sobre a homossexualidade.<br \/>\nVale ressaltar que o fim da ditadura militar d\u00e1 in\u00edcio ao processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o social no Brasil. Esta \u00e9poca hist\u00f3rica traz consigo maior abertura para discuss\u00f5es pol\u00edticas e , concomitantemente, temas que eram censurados anteriormente, ganham maior expressividade em debates. Alguns grupos que possu\u00edam outrora aspectos antiautorit\u00e1rios, agora se esmaecem por conta de estar sendo possibilitada a discuss\u00e3o at\u00e9 mesmo de forma p\u00fablica. Assim, debates sobre sexualidade nos anos 1980 j\u00e1 encerram em si caracter\u00edsticas de publiciza\u00e7\u00e3o mais ampla, uma vez que se tornam mais democr\u00e1ticos. Ent\u00e3o, os grupos LGBTs que se constru\u00edram em d\u00e9cada anterior, no momento citado precisam adequar-se ao contexto. O enfraquecimento dos movimentos LGBTs comunitaristas exige, assim, uma adapta\u00e7\u00e3o aos preceitos vigentes na \u00e9poca. A diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de grupos \u00e9 percept\u00edvel e os grupos que se constituem a partir de ent\u00e3o, devem estar contextualizados \u00e0 \u00e9poca.<br \/>\nDessa forma, atos e movimentos de rua com pessoas LGBTs parecem ter sa\u00eddo de cena no Brasil da d\u00e9cada de 1990 e outro tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o desponta para organizar pessoas LGBTs. Os Encontros Brasileiros de Homossexuais (EBHO), depois designados Encontros Brasileiros de L\u00e9sbicas e Homossexuais (EBLHO), debatem precipuamente quest\u00f5es de sa\u00fade para os homossexuais, ainda com aten\u00e7\u00e3o dirigida ao tema da AIDS e tamb\u00e9m trazem \u00e0 baila a necessidade de fortalecer o movimento. O car\u00e1ter desses acontecimentos se traduz com uma crescente aglutina\u00e7\u00e3o de grupos de diversas partes do Brasil, o que pode ser comprovado nas localidades em que ocorrem os encontros. Segundo Fachini (2003), S\u00e3o Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Aracaju e Curitiba foram algumas das capitais que sediaram esses eventos e o n\u00famero de grupos que se mobilizavam acompanhava um crescimento no decorrer da d\u00e9cada, de maneira que em 1995 foram 85 grupos presentes no evento sediado em Curitiba.<br \/>\nAo se estudar a hist\u00f3ria dos movimentos sociais no Brasil, com \u00eanfase ao per\u00edodo da ditadura militar, \u00e9 n\u00edtido perceber a presen\u00e7a de grupos homossexuais que se despontam com tarefas organizativas. Derrotar o autoritarismo que se manifestava na imprensa e em v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es sociais, nessa \u00e9poca, \u00e9 importante at\u00e9 mesmo para afirmar os homossexuais como agentes de mobiliza\u00e7\u00e3o . O governo autorit\u00e1rio impedia discuss\u00f5es que pudessem romper com a ordem moral burguesa. Desse modo, a tem\u00e1tica homossexual nunca deve estar presente na imprensa, nem mesmo em quaisquer setores da sociedade.<br \/>\nCom o agravamento da censura, pautas relacionadas \u00e0 democracia v\u00eam \u00e0 tona exatamente com a inten\u00e7\u00e3o de provocar discuss\u00f5es frente ao autoritarismo. Assim, as organiza\u00e7\u00f5es homossexuais ganham express\u00e3o, com base em modelos que se despontam em outros lugares no mundo. Ocorrem debates sobre sexualidade em outros pa\u00edses e grupos homossexuais surgem no Brasil, ao mesmo tempo em que publica\u00e7\u00f5es alternativas objetivam dar destaque para os grupos oprimidos na sociedade. Assim, as organiza\u00e7\u00f5es surgem com car\u00e1ter combativo e se inserem na din\u00e2mica da luta de classes, com envolvimento em movimentos sindicais e com refer\u00eancias pol\u00edticas importantes.<br \/>\nA inclus\u00e3o da tem\u00e1tica homossexual \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica demonstra o car\u00e1ter que o movimento dos oprimidos se afirma tamb\u00e9m no Brasil, enquanto j\u00e1 ocorria em outros lugares no mundo. A organiza\u00e7\u00e3o de lutas LGBTs no Brasil desenha um car\u00e1ter de luta de classes nos anos 1970, diante de uma conjuntura que apresenta aspectos de intoler\u00e2ncia e repress\u00e3o \u00e0 express\u00e3o de ideias e costumes. As artes decodificam o di\u00e1logo entre os setores oprimidos, juntamente com os movimentos da juventude, estes se espelhando em grupos que se organizavam em outros lugares do mundo, como Estados Unidos e Europa.<br \/>\nO car\u00e1ter dos grupos toma configura\u00e7\u00f5es diferentes diante do contexto da \u00e9poca , no reflexo de uma conjuntura pol\u00edtico-s\u00f3cio-cultural. Assim , \u00e9 importante compreender que aspectos t\u00edpicos de uma \u00e9poca podem ser traduzidos e mudarem de configura\u00e7\u00e3o em \u00e9pocas posteriores. Mas as diversas conjunturas , com suas especificidades, sempre refletir\u00e3o um aspecto de polariza\u00e7\u00e3o , enquanto a moral burguesa apontar como padr\u00e3o o modelo heterossexual. Romper com o hist\u00f3rico de opress\u00f5es \u00e9 imposs\u00edvel dentro de um sistema que objetiva desenvolver a desigualdade, para criar grupos que sejam cada vez mais explorados e oprimidos. Assim, enquanto compreendemos que de movimentos sociais podem existir diante das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo , a sa\u00edda para toda opress\u00e3o s\u00f3 se dar\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade em que todos os indiv\u00edduos possam se expressar, de fato, como realmente s\u00e3o!<br \/>\nRefer\u00eancias:<br \/>\nFACCHINI, Regina. Movimento Homossexual no Brasil.\u00a0Caderno\u00a0AEL, Campinas vol 10, n\u00ba 18\/19, p.81-125, 2003.<br \/>\nGREEN, James N; QUINALHA , Renan; Caetano, Marcio; FERNANDES, Marisa (orgs.).Hist\u00f3ria do Movimento LGBT no Brasil. S\u00e3o Paulo; Alameda; 2018.<br \/>\nOKITA, Hiro.\u00a0Homossexualidade: da opress\u00e3o \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo; Sundermann, 2015.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente texto tem como objetivo fazer uma breve relato do movimento homossexual no Brasil, bem como de seu hist\u00f3rico nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. 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