{"id":33081,"date":"2020-05-06T09:59:23","date_gmt":"2020-05-06T11:59:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33081"},"modified":"2020-05-06T09:59:23","modified_gmt":"2020-05-06T11:59:23","slug":"brasil-13-de-maio-uma-fabula-racista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/05\/06\/brasil-13-de-maio-uma-fabula-racista\/","title":{"rendered":"Brasil&#124; 13 de maio: Uma f\u00e1bula racista"},"content":{"rendered":"<p><em>Aceitar o \u201c13 de maio\u201d como marco para a liberta\u00e7\u00e3o de negros e negras no Brasil \u00e9 inaceit\u00e1vel porque \u00e9 uma farsa em termos hist\u00f3ricos, como discutimos no primeiro artigo\u00a0desta s\u00e9rie<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O \u201c13 de maio\u201d, como s\u00edmbolo da liberdade negra \u00e9, tamb\u00e9m, um insulto aos sofrimentos inomin\u00e1veis impostos aos nossos ancestrais e \u00e0s lutas incessantes que eles e elas travaram durante s\u00e9culos.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Shirley Silv\u00e9rio e Wagner Miqu\u00e9ias, da Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU<br \/>\nEntre 1530 e 1888, cerca de 10 milh\u00f5es de homens e mulheres foram sequestrados do continente africano para serem escravizados no Brasil, sendo que mais de 600 mil deles morreram na viagem por conta de doen\u00e7as como tifo, sarampo, var\u00edola e febre amarela, castigos f\u00edsicos impostos por seus algozes ou simples e cruelmente por terem sido lan\u00e7ados ao mar quando, em defesa dos seus pr\u00f3prios interesses, os navios brit\u00e2nicos passaram a \u201cfiscalizar\u201d o tr\u00e1fico negreiro, em meados dos anos 1800.<br \/>\nOs navios negreiros chegavam a transportar 700 pessoas em viagens que duravam, em m\u00e9dia, dois meses e foram batizados de \u201ctumbeiros\u201d por se transformarem em verdadeiras tumbas para negros e negras. Foi um processo t\u00e3o intenso que chegou a mudar a rota dos tubar\u00f5es, que passaram a seguir os navios aguardando os corpos que eram jogados no mar diariamente.<br \/>\nOs que sobreviviam, chegavam ao continente americano para viver um pesadelo di\u00e1rio, mergulhado na humilha\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia (f\u00edsica, emocional, psicol\u00f3gica, sexual etc.) cotidianas. Maus-tratos f\u00edsicos, torturas cru\u00e9is, estupros, sequestro de crian\u00e7as eram o dia-a-dia vivido pela popula\u00e7\u00e3o africana e seus descendentes no Brasil.<br \/>\nNada disso aconteceu sem oposi\u00e7\u00e3o e luta. Pelo contr\u00e1rio. Um dos objetivos de tudo isto, inclusive, era exatamente destruir o rebelde orgulho e a perp\u00e9tua disposi\u00e7\u00e3o de luta dos escravizados. Como tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar que a justificativa para tudo isso se deu de duas formas. Atrav\u00e9s de duas constru\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que est\u00e3o na ess\u00eancia do racismo at\u00e9 hoje.<br \/>\n<strong>Opress\u00e3o a servi\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nPrimeiro, uma justificativa teol\u00f3gica, que defendia a escravid\u00e3o como vontade divina. Para isso, a Igreja e os senhores de escravos criavam f\u00e1bulas racistas como a da\u00a0\u201cmaldi\u00e7\u00e3o de Cam\u201d\u00a0(filho de No\u00e9), que dizia que o povo de pele escura merecia a escravid\u00e3o por ter sido amaldi\u00e7oado por Deus. Depois, a classe dominante passou a utilizar uma desculpa pseudocient\u00edfica, passando a defender que os negros pertenciam a uma ra\u00e7a inferior a dos brancos.<br \/>\nMas as ideologias que justificam a escravid\u00e3o n\u00e3o causaram a escravid\u00e3o. O povo africano foi escravizado por motivos econ\u00f4micos e pol\u00edticos. A Europa vivia um per\u00edodo de ascenso econ\u00f4mico com as navega\u00e7\u00f5es e a forma\u00e7\u00e3o de uma classe burguesa. O racismo foi, portanto, a ideologia inventada pela burguesia para justificar a escravid\u00e3o negra e a coloniza\u00e7\u00e3o, dois processos fundamentais para a acumula\u00e7\u00e3o de capital na Europa.<br \/>\nNo entanto, depois de quatro s\u00e9culos alimentando o capitalismo, a escravid\u00e3o tornou-se um obst\u00e1culo para mais acumula\u00e7\u00e3o de riqueza dos capitalistas. Por isso, a partir de 1831, a Inglaterra come\u00e7ou a pressionar o Brasil para abolir o tr\u00e1fico de escravos.<br \/>\nMas antes de abolir a escravid\u00e3o, as classes dominantes se certificaram de impedir que negros e negras pudessem ter acesso \u00e0 terra. Por isso, em 1850, \u00e9 institu\u00edda a Lei Eus\u00e9bio de Queiroz (que, formalmente, proibiu a entrada de novos africanos escravizados no pa\u00eds) e, nesse mesmo ano, o parlamento cria a Lei da Terra para preservar o latif\u00fandio e excluir os ex-escravos do acesso \u00e0 terra e aos meios de produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe isto n\u00e3o bastasse, a Guerra do Paraguai (1864-1870) tamb\u00e9m contribuiu para o fim do escravismo, com o governo (a pedido dos falidos senhores de engenho, principalmente no Nordeste) comprando a alforria de jovens negros com um \u00fanico pr\u00e9-requisito: que fossem para o campo de batalha. O resultado? 140 mil negros foram mortos e os senhores ainda sa\u00edram no lucro.<br \/>\nE, ainda, para garantir que os ex-escravos e seus descendentes n\u00e3o pudessem exigir repara\u00e7\u00e3o ao Estado brasileiro pela escravid\u00e3o, o ministro da Fazenda, Rui Barbosa, mandou queimar toda a documenta\u00e7\u00e3o de compra e venda de escravos que estava no Arquivo Nacional, em 1890.<br \/>\n<strong>A f\u00e1bula que a hist\u00f3ria oficial nos conta<\/strong><br \/>\n<strong>Carta da \u2018lei \u00e1urea\u2019<\/strong><br \/>\nA hist\u00f3ria contada nos livros, nos filmes e nos museus \u00e9 uma f\u00e1bula racista: no dia 13 de maio, uma princesa branca se apiedou dos negros e negras escravizados e, num gesto de nobreza e bondade, assinou um decreto abolindo a escravid\u00e3o, libertando, de uma vez, todos nossos (as) ancestrais.<br \/>\nComo dissemos, \u00e9 uma f\u00e1bula racista porque, na verdade, a escravid\u00e3o j\u00e1 estava se desintegrando por conta do fim do tr\u00e1fico de escravos, do esfacelamento do sistema de produ\u00e7\u00e3o que vigorou durante a Col\u00f4nia e o Imp\u00e9rio e das incessantes lutas quilombolas e rebeli\u00f5es negras, que corro\u00edam a escravid\u00e3o por dentro.<br \/>\nComo toda f\u00e1bula racista, o 13 de maio oculta a luta negra por liberta\u00e7\u00e3o e d\u00e1 todo o cr\u00e9dito a uma princesa branca que vivia do luxo proporcionado pelo trabalho dos negros. E, quando muito, coloca abolicionistas da elite como coadjuvantes. E, mesmo assim, ocultando o papel de abolicionistas negros tidos como \u201cradicais\u201d, como Lu\u00eds Gama e Antonio Bento de Sousa e Castro, que mesclavam a\u00e7\u00f5es legais e clandestinas na luta pela liberta\u00e7\u00e3o de seus irm\u00e3os e irm\u00e3s.<br \/>\nO fato \u00e9 que, geralmente, quem aparece como protagonista no abolicionismo, al\u00e9m da princesa, s\u00e3o figuras como Joaquim Nabuco, que entrou para a hist\u00f3ria como s\u00edmbolo do movimento. Contudo, ele n\u00e3o s\u00f3 defendia que os donos de escravos libertaram espontaneamente os negros e que, por isso, mereciam\u00a0\u201cuma das mais belas men\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria do abolicionismo brasileiro\u201d, como tamb\u00e9m ficou famoso por expressar diversas vezes uma preocupa\u00e7\u00e3o sintetizada na frase\u00a0\u201cfa\u00e7amos n\u00f3s, antes que eles o fa\u00e7am\u201d.<br \/>\nO fato \u00e9 que, guardadas as propor\u00e7\u00f5es, a atitude da maioria dos abolicionistas poderia ser comparada a, hoje, ir para as portas de f\u00e1bricas n\u00e3o para denunciar os patr\u00f5es e organizar os trabalhadores para a luta; mas, sim, para tentar convencer os patr\u00f5es a serem bonzinhos e deixarem de explorar os trabalhadores. E agiam assim porque n\u00e3o acreditavam que os negros fossem capazes de entender sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o e nem saberiam como se libertar por conta pr\u00f3pria.<br \/>\nGama e Antonio Bento s\u00e3o exclu\u00eddos da Hist\u00f3ria porque o grosso da propaganda abolicionista era dirigida para os donos de escravos e sendo um movimento pol\u00edtico elitista e majoritariamente branco, buscou incessantemente frear o \u00edmpeto de revolta das massas negras (alimentada por eles e outros \u201cradicais\u201d), tornando o parlamento a arena da luta pol\u00edtica pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<br \/>\nUm cen\u00e1rio ideal para o projeto de uma parcela das classes dominantes brasileiras que queria acabar com a escravid\u00e3o n\u00e3o porque era solid\u00e1ria aos negros, mas porque queria transformar o pa\u00eds numa na\u00e7\u00e3o capitalista, substituindo a explora\u00e7\u00e3o escrava por uma outra forma mais rent\u00e1vel para os ricos: a explora\u00e7\u00e3o assalariada.<br \/>\n<strong>Uma aboli\u00e7\u00e3o sem repara\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nA lei de 3.353, redigida pela Princesa Isabel tinha apenas dois artigos:\u00a0\u201cArt. 1\u00ba: \u00e9 declarada extincta desde a data desta lei a escravid\u00e3o no Brazil; Art. 2\u00ba: Revogam-se as disposi\u00e7\u00f5es em contr\u00e1rio\u201d. E o mais impressionante \u00e9 que essa lei n\u00e3o garantiu absolutamente nada aos negros. A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o n\u00e3o p\u00f4s fim ao racismo. Ao contr\u00e1rio, ao n\u00e3o vir acompanhada de nenhuma repara\u00e7\u00e3o determinou que, mesmo depois de extinta a escravid\u00e3o, negros e negras continuassem tendo uma vida de mis\u00e9ria e sofrimentos e que o racismo continuasse sendo usado, ao mesmo tempo, como justificativa para esta situa\u00e7\u00e3o e como forma para aprofund\u00e1-la ainda mais.<br \/>\nComo dissemos no in\u00edcio, negros e ind\u00edgenas n\u00e3o tiveram acesso aos meios de produ\u00e7\u00e3o e muito menos \u00e0 terra. Em 1850, atrav\u00e9s da Lei de Terras, a classe dominante garantiu que elas ficassem nas m\u00e3os dos grandes propriet\u00e1rios, impedindo negros de possu\u00edrem terras pr\u00f3prias para morar e trabalhar.<br \/>\nE, como se isto n\u00e3o bastasse, ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o, e sob o discurso racista que associava o negro ao atraso (e pregava o embranquecimento como caminho certo para\u00a0\u201ca ordem e o progresso\u201d), os governos dos ricos e poderosos patrocinaram a imigra\u00e7\u00e3o de trabalhadores europeus para o Brasil, aprofundando o desemprego dentre negros(as), nos empurrando para os piores trabalhos informais e, ainda por cima, acrescentando o \u201cideal de branquitude\u201d como mais uma ideologia a servi\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs efeitos disso s\u00e3o sentidos ainda hoje: de acordo com o IBGE, das 11,4 milh\u00f5es de pessoas que vivem em moradias prec\u00e1rias, 7,8 milh\u00f5es (cerca de 70%) s\u00e3o negros e negras! E, de acordo com o Instituto Latino-Americano de Estudos Socioecon\u00f4micos (ILAESE), um trabalhador branco da ind\u00fastria recebe R$2.000 por m\u00eas, enquanto o trabalhador negro ganha R$ 1.160, um pouco mais da metade do que seu companheiro.<br \/>\n<strong>A luta por repara\u00e7\u00f5es e o pelo socialismo<\/strong><br \/>\nO capitalismo foi o sistema que se alimentou da escravid\u00e3o de milh\u00f5es de negros e negras mundo afora. Como dizia Marx, sem o algod\u00e3o plantado e colhido por m\u00e3os negras n\u00e3o haveria ind\u00fastria t\u00eaxtil na Europa nem o sistema teria avan\u00e7ado para o controle da economia mundial. E mesmo ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o negra, a burguesia e todos os seus governos trataram de alimentar o racismo pra dividir os trabalhadores e pagar menores sal\u00e1rios para os negros.<br \/>\nPor isso, n\u00f3s do PSTU estamos entre os que consideram o \u201c13 de maio\u201d como uma data para se fazer a den\u00fancia de uma aboli\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aboliu nada. Nem o racismo nem as desigualdades sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas.\u00a0 Para n\u00f3s, \u00e9 mais um dia de luta.<br \/>\nNosso rep\u00fadio \u00e0 ideia de uma \u201cliberdade concedida\u201d come\u00e7a por lembrar que, ainda nos \u201ctumbeiros\u201d, nossos(as) ancestrais se fizeram \u201cmalungos\u201d. Ou seja, ultrapassaram suas diferen\u00e7as \u00e9tnicas e as barreiras lingu\u00edsticas e passaram a adotar um termo origin\u00e1rio da cultura\u00a0kikongo\u00a0(do sul da \u00c1frica, que significava originalmente \u201cno barco\u201d, \u201cno navio\u201d) para se identificarem entre si como \u201ccompanheiros na travessia\u201d.<br \/>\nGente irmanada pelo mesmo desejo por liberdade, igualdade e justi\u00e7a que, aqui, na luta, se fez quilombola. Uma luta que n\u00e3o foi encerrada no \u201c13 de maio\u201d e nem ser\u00e1 at\u00e9 que tenhamos conquistado repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas para o povo negro.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/brasil-13-de-maio-132-anos-de-uma-abolicao-sem-reparacoes\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/brasil-13-de-maio-132-anos-de-uma-abolicao-sem-reparacoes\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aceitar o \u201c13 de maio\u201d como marco para a liberta\u00e7\u00e3o de negros e negras no Brasil \u00e9 inaceit\u00e1vel porque \u00e9 uma farsa em termos hist\u00f3ricos, como discutimos no primeiro artigo\u00a0desta s\u00e9rie[1]. 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