{"id":33056,"date":"2020-05-05T11:52:31","date_gmt":"2020-05-05T13:52:31","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33056"},"modified":"2020-05-05T11:52:31","modified_gmt":"2020-05-05T13:52:31","slug":"emergencia-climatica-greve-ou-apelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/05\/05\/emergencia-climatica-greve-ou-apelo\/","title":{"rendered":"Emerg\u00eancia clim\u00e1tica: greve ou apelo?"},"content":{"rendered":"<p><em>A li\u00e7\u00e3o da pandemia para enfrentar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica\u00a0<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Giacomo Biancofiore<br \/>\nAntes que o mundo fosse atingido pela terr\u00edvel pandemia de Covid-19, os jovens de todo o planeta haviam planejado, para 24 de abril, lotar novamente as pra\u00e7as das principais cidades do mundo pela quinta greve clim\u00e1tica global.<br \/>\nAs consequ\u00eancias dram\u00e1ticas do coronav\u00edrus transformaram assim o Ataque Clim\u00e1tico em um Ataque Digital, no qual bilh\u00f5es de jovens em vez de uma pra\u00e7a, inspirados na emerg\u00eancia de sa\u00fade em andamento, &#8220;gritar\u00e3o&#8221; nos teclados de seus PCs que &#8220;a nossa sa\u00fade vem antes do lucro&#8221;.<br \/>\nA explos\u00e3o da pandemia de Covid-19, de fato, al\u00e9m de causar a mudan\u00e7a de programa, adicionou um novo elemento importante na elabora\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o clim\u00e1tica.<br \/>\n<strong>Do Rio a Madri, passando por Paris<\/strong><br \/>\nPara entender os desenvolvimentos que levaram aos argumentos atuais dos \u2018<em>Fridays for future\u2019 <\/em>e tudo o que ocorreu paralelamente, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar as tentativas de &#8220;di\u00e1logo&#8221; entre os v\u00e1rios pa\u00edses do mundo aos quais os ativistas da luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas fizeram refer\u00eancia ao longo dos anos.<br \/>\nDeve-se notar, entretanto, que o tema do aquecimento global e as primeiras negocia\u00e7\u00f5es e acordos internacionais referidos, que visavam definir os limites das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, datam do in\u00edcio dos anos 90, quando Greta Thunberg ainda n\u00e3o havia nascido.<br \/>\nFoi a C\u00fapula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992, que deu origem \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as do Clima (UNFCCC), o primeiro tratado internacional in\u00fatil, in\u00fatil sobretudo por sua natureza n\u00e3o vinculativa (no sentido de n\u00e3o impor limites obrigat\u00f3rios de emiss\u00e3o de gases de efeito estufa para os pa\u00edses signat\u00e1rios) do ponto de vista legal. Foi precisamente a C\u00fapula do Rio que deu in\u00edcio \u00e0s Confer\u00eancias das partes (Cop), reuni\u00f5es anuais para analisar os progressos no combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<br \/>\nUm dos mais conhecidos \u00e9 certamente o Protocolo de Kyoto de 1997 (COP3) que, apesar da imposi\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o de reduzir as emiss\u00f5es nos pa\u00edses mais desenvolvidos, sofreu uma redu\u00e7\u00e3o ris\u00edvel, considerando que os Estados Unidos nunca aderiram e que o Canad\u00e1, R\u00fassia, Jap\u00e3o e Nova Zel\u00e2ndia gradativamente se afastaram.<br \/>\nUm alerta, especialmente na m\u00eddia, na in\u00e9rcia geral foi representado pelo Acordo Clim\u00e1tico de Paris 2015 (Cop21) que, diante de 40 mil participantes, produziu o primeiro texto universal para reduzir a temperatura em 2 graus, ou seja, abaixo dos n\u00edveis da primeira revolu\u00e7\u00e3o industrial (1861-1880), de 2015 a 2100 (ou seja, 2.900 bilh\u00f5es de toneladas de Co2, isto \u00e9, um corte na ordem de 40 a 70% das emiss\u00f5es at\u00e9 2050).<br \/>\nDepois disso, Marrakech, Bonn, Katowice e, finalmente, Madri (Cop25) tentaram definir melhor as regras de implementa\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris, que desde 2015 continua sendo o verdadeiro guia para os ativistas.<br \/>\n<strong>Cop25, a hist\u00f3ria de um fracasso universalmente reconhecido<\/strong><br \/>\nO \u00fanico m\u00e9rito da 25\u00aa confer\u00eancia sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica organizada pela ONU, a chamada Cop25, foi o de conseguir que todos concordassem com o resultado: um fracasso!<br \/>\nDe fato, em Madri, na presen\u00e7a de 190 pa\u00edses de todo o mundo, o objetivo era encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para um dos pontos mais importantes e discutidos do Acordo de Paris sobre o clima: o mecanismo previsto no artigo 6, que deveria permitir aos pa\u00edses que poluem menos de &#8220;ceder&#8221; sua parcela remanescente de gases de efeito estufa a pa\u00edses que poluem mais, para permitir-lhes uma transi\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil sem comprometer a consecu\u00e7\u00e3o dos objetivos gerais. Al\u00e9m de n\u00e3o ter conseguido nenhum acordo com o artigo 6, a Cop25 n\u00e3o produziu nada vinculativo sobre a obriga\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds de apresentar planos para reduzir ainda mais suas emiss\u00f5es de gases.<br \/>\n<strong>\u00abPara chegar \u00e0 lua, voc\u00ea precisa de mais do que um patinete\u00bb<\/strong><br \/>\nDiscutir as causas do fracasso da Cop25 em Madri, onde o Brasil, Austr\u00e1lia e Estados Unidos foram at\u00e9 acusados \u200b\u200bde obstruir abertamente um acordo para evitar de serem sujeitos a regras mais rigorosas, tem uma import\u00e2ncia relativa em rela\u00e7\u00e3o ao gosto amargo na boca que deixou o resultado da confer\u00eancia.<br \/>\nO ego\u00edsmo e os c\u00e1lculos dos pa\u00edses mais desenvolvidos, ignorando as necessidades de recursos econ\u00f4micos dos pa\u00edses mais expostos aos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, bem como a t\u00e1tica de deslocar a discuss\u00e3o para detalhes t\u00e9cnicos est\u00e9reis, mostraram a verdadeira face dos abutres a jovens e menos jovens que hoje est\u00e3o lentamente reformulando sua confian\u00e7a nos governos e em suas organiza\u00e7\u00f5es internacionais, tamb\u00e9m porque as not\u00edcias vindas dos cientistas n\u00e3o deixam muito espa\u00e7o para a esperan\u00e7a: um novo relat\u00f3rio especial sobre o clima, produzido pelo grupo Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), com base em cerca de 7 mil pesquisas cient\u00edficas, conclui que &#8220;o n\u00edvel do mar continua subindo, as geleiras derretem rapidamente e muitas esp\u00e9cies est\u00e3o se deslocando em busca de condi\u00e7\u00f5es mais adequadas para a sua sobreviv\u00eancia &#8220;.<br \/>\nA aumentar o desencanto de quem \u00e9 mais sens\u00edvel \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, foi a dura li\u00e7\u00e3o de outra emerg\u00eancia, a da sa\u00fade causada pelo coronav\u00edrus.<br \/>\nCertamente os pr\u00f3ximos dias ser\u00e3o importantes para a fundamenta\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise e das consequentes a\u00e7\u00f5es do movimento nascido da iniciativa da estudante sueca Greta Thunberg, agora com dezessete anos, mas \u00e9 claro que a advert\u00eancia, lan\u00e7ada nas redes sociais para manter vivo o interesse pelo problema clim\u00e1tico nos dias de quarentena for\u00e7ada, representa mais do que um mero slogan: &#8220;n\u00e3o permitiremos que outras epidemias nos encontrem despreparados, n\u00e3o permitiremos que continuem alimentando as condi\u00e7\u00f5es que favorecem a propaga\u00e7\u00e3o de novos v\u00edrus, n\u00e3o permitiremos que o nosso e todos os governos usem essa crise como cobertura para voltar a destruir o planeta que nos garante a vida, como fizeram antes, em parceria com as empresas dos f\u00f3sseis. Nossa sa\u00fade depende dos ecossistemas. Nossa sa\u00fade vem antes do lucro \u00bb.<br \/>\n<strong>Duas emerg\u00eancias, o mesmo culpado<\/strong><br \/>\nSe os fracassos das confer\u00eancias levaram os mais jovens a olhar para al\u00e9m do totem do Acordo de Paris, a pandemia de Covid-19 mostrou, como explicitamente afirmado no texto acima, que existe um culpado bem identificado que &#8220;alimenta as condi\u00e7\u00f5es que favorecem a dissemina\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus&#8221; e \u00e9 o mesmo culpado bem identificado que gerou a crise clim\u00e1tica: o sistema capitalista.<br \/>\nUm sistema criminoso baseado na anarquia da produ\u00e7\u00e3o para a acumula\u00e7\u00e3o de novos capitais na competi\u00e7\u00e3o entre capitalistas concorrentes, n\u00e3o apenas destr\u00f3i os ecossistemas e causa a crise clim\u00e1tica, mas condena o proletariado e as massas mais pobres da sociedade \u00e0 morte por causa da incapacidade de lidar com essas crises.<br \/>\nUm modelo de desenvolvimento sens\u00edvel apenas e exclusivamente \u00e0 opul\u00eancia de poucos e indiferente \u00e0s necessidades da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial.<br \/>\n<strong>A li\u00e7\u00e3o mais importante<\/strong><br \/>\nEm 2018, descobrimos, atrav\u00e9s do relat\u00f3rio sobre seguran\u00e7a alimentar global divulgado pela FAO, Unicef \u200b\u200be outras ag\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que o n\u00famero de pessoas que sofrem de fome no mundo est\u00e1 crescendo: s\u00e3o, de fato, 821 milh\u00f5es, ou seja, 1 habitante do planeta em 9, de acordo com &#8220;O Estado de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o no Mundo 2018&#8221;.<br \/>\nEmbora numerosos estudos mostrem que a produ\u00e7\u00e3o mundial de alimentos \u00e9 suficiente para atender \u00e0 demanda de todos os habitantes do planeta, a incid\u00eancia de fome aumentou nos \u00faltimos tr\u00eas anos, retornando aos n\u00edveis de uma d\u00e9cada atr\u00e1s.<br \/>\nSe acrescentarmos essa outra pe\u00e7a ao quebra-cabe\u00e7a que come\u00e7amos a compor com o quadro da crise clim\u00e1tica e as formas de lidar com a crise da sa\u00fade deste in\u00edcio de 2020 que viu, at\u00e9 o momento em que escrevemos este artigo, mais de um milh\u00e3o e meio de cont\u00e1gios oficiais e mais de 90.000 mortes em todo o mundo, somos confrontados com um retrato claro que representa a li\u00e7\u00e3o mais importante a ser lembrada, a &#8220;Li\u00e7\u00e3o para o futuro&#8221;: confiar nos Estados e em seus governos que, para dizer com as palavras de Marx e Engels, &#8220;administram os neg\u00f3cios comuns de toda a classe burguesa&#8221;, significa n\u00e3o apenas n\u00e3o resolver problemas dessa magnitude, mas agrav\u00e1-los e destruir a classe trabalhadora e os explorados do planeta.<br \/>\n<strong>\u00abA raposa de sempre que cuida do galinheiro\u00bb<\/strong><br \/>\nNo final de mar\u00e7o, a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos EUA (Epa) anunciou que as ind\u00fastrias poderiam ter dificuldade em atender a certos requisitos dos padr\u00f5es ambientais devido ao coronav\u00edrus, abrindo efetivamente o caminho para a suspens\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o das leis ambientais e das relativas san\u00e7\u00f5es em caso de viola\u00e7\u00f5es. Escusado dizer que a medida foi invocada particularmente pela ind\u00fastria de petr\u00f3leo e g\u00e1s.<br \/>\nMais ou menos nos mesmos dias, os \u2018<em>Fridays for future\u2019 <\/em>da Europa, depois de finalmente declarar o <em>New Deal<\/em> verde &#8220;inadequado&#8221;, que para alguns representava um dos pilares sobre os quais construir a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o verde&#8221; para pressionar os \u00f3rg\u00e3os da Uni\u00e3o Europeia, lan\u00e7ou um abaixo-assinado, sim, voc\u00eas leram corretamente, um abaixo-assinado no qual apela-se \u00e0 Comiss\u00e3o Europeia para que implemente medidas mais rigorosas para enfrentar a crise clim\u00e1tica e, para perseguir e alcan\u00e7ar esses objetivos, leis precisas s\u00e3o consideradas essenciais.<br \/>\nSe acrescentarmos a confian\u00e7a de muitos ativistas na Agenda 2030 com seus 17 objetivos de desenvolvimento sustent\u00e1vel (Sustainable development goals \u00a0&#8211; Sdgs), aprovada em 25 de setembro de 2015 pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, o retrato volta a ter tintas sombrias.<br \/>\nA discrep\u00e2ncia entre o que \u00e9 a an\u00e1lise e as consequentes iniciativas s\u00f3 pode ser evidente!<br \/>\n<strong>Uma \u00fanica &#8220;agenda&#8221;, a que conduz ao socialismo<\/strong><br \/>\nDiante do que estamos vendo com nossos pr\u00f3prios olhos, ap\u00f3s a \u00faltima experi\u00eancia fracassada da Cop25 em Madri, constatada a incapacidade dos governos de lidar com crises sem a aprova\u00e7\u00e3o da burguesia e demonstrada a voracidade criminosa de pa\u00edses como os Estados Unidos (inclusive principal membro permanente do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU) em meio a uma das piores crises de sa\u00fade, \u00e9 simplesmente absurdo pensar que possamos deixar que a crise clim\u00e1tica em curso seja resolvida \u00e0 maneira deles.<br \/>\nO tempo de apelos, de esperan\u00e7a em sua democracia expirou, a sa\u00fade e a vida das popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o em perigo iminente e somente tomando a iniciativa e construindo uma dura luta travada com a arma mais importante que as massas populares t\u00eam, que \u00e9 a greve, pode ser vencida.<br \/>\nOs trabalhadores, nos \u00faltimos meses, perceberam que essa sociedade funciona gra\u00e7as a eles e que, se os governos n\u00e3o fecharem a roda gigante, as massas prolet\u00e1rias ter\u00e3o a for\u00e7a necess\u00e1ria para fech\u00e1-la com greves.<br \/>\nN\u00e3o existem leis e reformas que possam resolver as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo e aqueles que seguem esse caminho s\u00f3 o mant\u00e9m vivo artificialmente, em detrimento da enorme popula\u00e7\u00e3o do planeta.<br \/>\n\u00c9 por demais evidente que s\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o socialista poder\u00e1 salvar o planeta e seus habitantes da cat\u00e1strofe.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Maria Teresa Albiero<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A li\u00e7\u00e3o da pandemia para enfrentar a emerg\u00eancia 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