{"id":33043,"date":"2020-05-04T09:55:12","date_gmt":"2020-05-04T11:55:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33043"},"modified":"2020-05-04T09:55:12","modified_gmt":"2020-05-04T11:55:12","slug":"covid-19-o-virus-capitalista-uma-primeira-avaliacao-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/05\/04\/covid-19-o-virus-capitalista-uma-primeira-avaliacao-na-africa\/","title":{"rendered":"COVID-19, o v\u00edrus capitalista:\u00a0 uma primeira avalia\u00e7\u00e3o na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>1 \u2022 Avalia\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o do COVID-19 na \u00c1frica<\/em><\/strong><br \/>\n<em>Em 1 de maio de 2020, havia mais de 3.274.747\u00a0 casos confirmados de doen\u00e7a COVID-19 em 203 pa\u00edses ao redor do mundo. O exemplo da \u00c1frica \u00e9 bastante impressionante. Em apenas algumas semanas, o continente passou de 9 a 53 pa\u00edses afetados pelo novo coronav\u00edrus COVID-19, (sobre um total de 54 pa\u00edses africanos) criando assim uma dupla situa\u00e7\u00e3o preocupante.<\/em><em>\u00a0<\/em><!--more--><br \/>\nPor: LPS Senegal<br \/>\nPrimeiro, o continente ter\u00e1 que lidar com a alta preval\u00eancia de doen\u00e7as j\u00e1 end\u00eamicas na \u00c1frica, como desnutri\u00e7\u00e3o infantil, c\u00f3lera e mal\u00e1ria. Ent\u00e3o, \u00e9 mais do que nunca necess\u00e1rio elevar sua pobre plataforma de servi\u00e7os m\u00e9dicos e seu sistema degradado de sa\u00fade p\u00fablica, que dificilmente recebe algum investimento e pode ser considerado como muito pouco eficiente. Como tal, a \u00c1frica Subsaariana \u00e9 quase o continente que corre mais riscos, devido \u00e0s raz\u00f5es acima expostas e \u00e0 sua grande demografia &#8211; composta principalmente por jovens e mulheres, entre outros. Pa\u00edses com baixo desempenho econ\u00f4mico e al\u00e9m disso, autorit\u00e1rios &#8211; do ponto de vista da gest\u00e3o das suas crises pol\u00edticas e de qualquer outra.<br \/>\nMuitos pa\u00edses da \u00c1frica \u2013 entre os quais \u00c1frica do Sul, Senegal, Arg\u00e9lia, Marrocos &#8211; s\u00e3o hoje afetados por esse fen\u00f4meno de emerg\u00eancia aguda de sa\u00fade, e as vozes pol\u00edticas afirmam constantemente &#8211; por meio de discursos de alta resson\u00e2ncia social e econ\u00f4mica &#8211; seu apoio \u00e0s popula\u00e7\u00f5es afetadas [principais v\u00edtimas] pela crise, com vontade de diminuir o avan\u00e7o da doen\u00e7a. O Marrocos adotou muito cedo medidas dr\u00e1sticas em larga escala, entre as quais a limita\u00e7\u00e3o da mobilidade, com confinamento obrigat\u00f3rio e um toque de recolher, apesar do baixo n\u00famero de casos em compara\u00e7\u00e3o com a Europa. Portanto, emerg\u00eancias sociais e econ\u00f4micas est\u00e3o em curso em v\u00e1rios pa\u00edses como Marrocos, Arg\u00e9lia, Egito e Senegal, na esperan\u00e7a de mitigar os riscos associados \u00e0 sob-alimenta\u00e7\u00e3o, desnutri\u00e7\u00e3o ou fome mesmo dos indiv\u00edduos, acompanhadas das falsas promessas pol\u00edticas pre-crise, pelas elites africanas.<br \/>\nAl\u00e9m dos problemas pol\u00edticos da administra\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria da crise pelos Estados &#8211; como vemos no Senegal -, o COVID-19 provocou debates profundos sobre o estado dos sistemas de sa\u00fade degradados e a falta de prote\u00e7\u00e3o social dos indiv\u00edduos. Na Lib\u00e9ria, esses problemas surgiram com for\u00e7a. A Lib\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 apenas v\u00edtima de guerras ou certas epidemias como o Ebola, mas tamb\u00e9m sofre com a falta de estruturas hospitalares necess\u00e1rias. Por exemplo, tem uma das maiores taxas mundiais de d\u00e9ficit de crescimento: 20 % das crian\u00e7as com menos de cinco anos sofre de atraso de crescimento. Assim, a incid\u00eancia de desnutri\u00e7\u00e3o ser\u00e1 maior neste pa\u00eds. A \u00c1frica n\u00e3o tem a menor capacidade de fornecer cuidados intensivos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, enquanto formas graves de COVID-19 levam, segundo muitos pesquisadores, \u00e0 insufici\u00eancia respirat\u00f3ria que requer assist\u00eancia especializada. E foi demonstrado que a capacidade de tratar essas formas graves de COVID-19 depender\u00e1 da disponibilidade de ventiladores, eletricidade e oxig\u00eanio. Disponibilidade inexistente em nossos hospitais p\u00fablicos.<br \/>\nNo entanto, as elites lutam para ocultar essas m\u00faltiplas falhas de nossos sistemas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que o novo coronav\u00edrus pode servir tamb\u00e9m de oportunidade para as popula\u00e7\u00f5es questionarem cada vez mais a utilidade da ordem das prioridades de nossos governos, em termos de gest\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nNo entanto, os sistemas de sa\u00fade p\u00fablica na \u00c1frica s\u00e3o particularmente pouco desenvolvido. Existem diferen\u00e7as importantes na estrutura da popula\u00e7\u00e3o, com alta preval\u00eancia de doen\u00e7as end\u00eamicas com alta taxa de morbidade para doen\u00e7as simples, com sistemas de sa\u00fade com capacidade m\u00ednima para atendimento cr\u00edtico.<br \/>\nNa \u00c1frica, os dados oficialmente no 1 de maio, registram 39.041 casos confirmados por 1.636 mortes. O Covid-19 segundo analistas, poder\u00e1 se tornar tamb\u00e9m um \u201cv\u00edrus pol\u00edtico\u201d. Os Estados demonstrar\u00e3o massivamente sua incapacidade de governar ou satisfazer as popula\u00e7\u00f5es, como veremos com a administra\u00e7\u00e3o da crise pelas autoridades do Senegal. Para muitos especialistas africanos, o colapso das economias extrativistas e predat\u00f3rias, amplamente dependentes de parceiros externos, poderia ser precipitado pelo Covid-19 e beneficiar ainda mais os capitalistas que n\u00e3o hesitar\u00e3o em aproveitar ainda mais a riqueza mineral do continente. As medidas de confinamento minar\u00e3o o fr\u00e1gil equil\u00edbrio da economia informal, uma economia de sobreviv\u00eancia di\u00e1ria, essencial para manter o equil\u00edbrio social, a sabendas que inclui 60% da popula\u00e7\u00e3o ativa.<br \/>\nQuanto aos produtores de petr\u00f3leo na \u00c1frica franc\u00f3fona ou na \u00c1frica Central, a queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo combinada com uma queda dr\u00e1stica da produ\u00e7\u00e3o vai provocar escassez de gasolina e de energia e eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos produtos de primeira necessidade.<br \/>\nAo mesmo tempo, os governos da \u00c1frica est\u00e3o cientes do fato de que protestos massivos ir\u00e3o acontecendo nas cidades, atacando a legitimidade desses poderes autocr\u00e1ticos, crepusculares e corruptos, como no Congo Brazzaville, Congo Kinshasha ou Camar\u00f5es. A preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 voltada para regimes mais fr\u00e1geis (o Sahel) ou regimes sem f\u00f4lego (\u00c1frica Central).<br \/>\n<strong>2 \u2022 Gest\u00e3o da pandemia e as medidas repressivas pelo governo Senegal\u00eas<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio, o novo coronav\u00edrus afetou pouco as popula\u00e7\u00f5es, todos acreditavam que era \u201cum problema da China\u201d e dos estrangeiros. Uma vis\u00e3o compartilhada pela maioria dos usu\u00e1rios da Internet que transmitiam mensagens com dicas xen\u00f3fobas. Foi com espanto que os cidad\u00e3os senegaleses receberam not\u00edcias recentes sobre um paciente infectado no exterior, na Fran\u00e7a, mas residente no Senegal. O tumulto est\u00e1 crescendo, \u00e9 at\u00e9 preocupante. Parece que os cinco primeiros pacientes eram estrangeiros e n\u00e3o senegaleses. No entanto, em 12 de mar\u00e7o, os jornais anunciaram outro caso suspeito, mas desta vez um senegal\u00eas que deixou a It\u00e1lia, onde trabalha como imigrante. Este \u00faltimo foi transferido de sua casa para o hospital de doen\u00e7as infecciosas para seguir tratamento e o resto da fam\u00edlia ficou em quarentena assim como tamb\u00e9m todos os membros do bairro que vieram a cumpriment\u00e1-lo em sua chegada. Essa not\u00edcia ter\u00e1 grande impacto sobre como os senegaleses veem essa pandemia.<br \/>\nO pa\u00eds est\u00e1 em alerta. E os governantes aproveitam a oportunidade para pedir vigil\u00e2ncia e apelar \u00e0 responsabilidade coletiva. A cada um com seu coment\u00e1rio. A sobrecarga de informa\u00e7\u00f5es fez com que todo mundo se debru\u00e7asse em propaganda e com uma raiva injustificada contra estrangeiros.<br \/>\nO Estado come\u00e7a a tomar as primeiras medidas: Macky Sall, presidente do Senegal, ordenou por decreto, a cessa\u00e7\u00e3o de toda forma de manifesta\u00e7\u00e3o, incluindo a comemora\u00e7\u00e3o do dia da mulher em 08 de mar\u00e7o. Primeiras medidas, primeiros sinais de fraqueza de um governo que n\u00e3o consegue a confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. Macky Sall e o governo continuam nas iniciativas, infelizmente, mal percebidas pelo seu pr\u00f3prio povo, como cortina de fuma\u00e7a, como uma burla. Com a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, vozes se levantam para alertar sobre os perigos que podem surgir.<br \/>\nEm seu plano de guerra contra o COVID-19, o governo est\u00e1 usando l\u00edderes religiosos, na esperan\u00e7a de que eles possam ajudar a aumentar a conscientiza\u00e7\u00e3o entre as pessoas leais a cultos religiosos. Curiosamente, alguns l\u00edderes religiosos n\u00e3o s\u00e3o capazes de convencer a todos da extens\u00e3o e dos efeitos devastadores dessa doen\u00e7a; outros chegaram ao ponto de criticar o modelo pol\u00edtico chin\u00eas, opressor, que mata os mu\u00e7ulmanos uigur. Nem todos os im\u00e3s [autoridades religiosas] concordam com o governo querendo proibir as grandes manifesta\u00e7\u00f5es na pra\u00e7a p\u00fablica. Algo dif\u00edcil de alcan\u00e7ar no Senegal, quando o governo j\u00e1 tem dificuldades para ter a confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs movimentos religiosos desempenham um papel de grande import\u00e2ncia na \u00c1frica.\u00a0 Na \u00c1frica, a participa\u00e7\u00e3o semanal em um servi\u00e7o religioso \u00e9 mais alta em Uganda, Senegal e Eti\u00f3pia, com taxas de at\u00e9 80%. Isso foi demonstrado, por exemplo, pelos protestos que eclodiram em 20 de mar\u00e7o no Senegal. Ap\u00f3s manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, incluindo manifesta\u00e7\u00f5es em mesquitas, foram todas proibidas devido ao crescente n\u00famero de casos COVID-19. No entanto, no in\u00edcio desta semana, foi destacado que a Tanz\u00e2nia anunciou que o pa\u00eds n\u00e3o fecharia seus locais de culto. A op\u00e7\u00e3o mais simples era jogar com a fibra religiosa ou patri\u00f3tica, mas os mecanismos de di\u00e1logo e concilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o estavam na agenda do governo senegal\u00eas.<br \/>\nAlguns v\u00eam na vontade do governo, um \u201cforcing pol\u00edtico\u201d sem efeito significativo. Para outros, parece uma farsa pol\u00edtica de um governo considerado irrespons\u00e1vel, um governo que tira proveito da crise do coronav\u00edrus, por exemplo, para libertar prisioneiros pol\u00edticos [o caso Guy Marie Sagna, ativista revolucion\u00e1rio que foi protestar do lado de fora dos port\u00f5es do pal\u00e1cio presidencial quando houve o aumento dos pre\u00e7os da eletricidade]. A dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a se tornou imediatamente um fator pol\u00edtico desestabilizador, for\u00e7ando os governos a mudar muito rapidamente de agenda, a adiar suas viagens ao exterior; eles que estavam sempre dispostos a viajar para fora, seja para tratamento m\u00e9dico ou para fazer neg\u00f3cios nas costas do povo.<br \/>\nAs medidas do governo se tornam mais severas: em 14 de mar\u00e7o, Macky Sall decide fechar todas as escolas e universidades no Senegal. A medida significou um grande suspiro de al\u00edvio imediato dos estudantes; alguns estudantes se viram for\u00e7ados a retornar sem querer ao campo. O Estado (e suas v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que s\u00f3 servem para gastar o fundo p\u00fablico) empurrou todos os estudantes das principais universidades [as universidades de Dakar, Saint-Louis, Bambey e Ziguinchor] para ir embora, sob o pretexto de sua responsabilidade soberana de proteger as popula\u00e7\u00f5es. Mais de 100 \u00f4nibus s\u00e3o disponibilizados aos estudantes para for\u00e7\u00e1-los a deixar os campi. Sem colocar medidas s\u00f3lidas de acompanhamento, o governo do Senegal surfou uma onda bonita de discursos de propaganda para impor sua autoridade sobre os futuros l\u00edderes deste pa\u00eds, a saber, os estudantes. Por outro lado, os estudantes criticaram a falta de prepara\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o na aplica\u00e7\u00e3o das medidas tomadas pelo governo.<br \/>\nAlguns dias depois, Macky Sall fez seu grande discurso para o povo. Nesse discurso, o Presidente do Senegal novamente pede cautela e imp\u00f5e outras medidas aos trabalhadores e transporte p\u00fablico. O transporte deve, como outros setores de atividade, cessar suas atividades sob a argumenta\u00e7\u00e3o de que o movimento necessariamente aumenta o risco de contamina\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds. Diante da relut\u00e2ncia dos trabalhadores e do setor do transporte, o governo est\u00e1 aumentando as restri\u00e7\u00f5es e regulamentos, na pr\u00e1tica. Ao mesmo tempo, imp\u00f4s um toque de recolher das 20hs a 06 hs. no pa\u00eds inteiro. Uma medida arbitr\u00e1ria que as popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o respeitar\u00e3o &#8211; como vimos em Ruanda e em outros lugares.<br \/>\nDito isto, o governo do Senegal esqueceu que tem pouco apoio pol\u00edtico do pr\u00f3prio povo, devido \u00e0 sua pol\u00edtica de exclus\u00e3o das massas. O Estado e todo o seu aparato est\u00e3o se mobilizando para proibir o transporte interurbano (entre regi\u00f5es) e pressionar empresas regionais de transporte a revisar para cima os custos de circula\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, dadas as mudan\u00e7as, eles n\u00e3o poder\u00e3o mais manter seu volume habitual de neg\u00f3cios e, como resultado, perder\u00e3o seus pr\u00f3prios recursos de subsist\u00eancia e benef\u00edcios.<br \/>\nEnquanto isso, os funcion\u00e1rios continuam trabalhando para o estado e recebem seus sal\u00e1rios normalmente. Pior, o governo do Senegal est\u00e1 discriminando, reduzindo o n\u00famero de horas de trabalho dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, enquanto cidad\u00e3os n\u00e3o funcion\u00e1rios p\u00fablicos, por sua vez, perdem boa parte de sua rotatividade.<br \/>\nO Estado n\u00e3o fecha as grandes empresas estrangeiras e europeias atuantes no pa\u00eds, mas decide fechar alguns mercados, locais onde a popula\u00e7\u00e3o e os pobres conseguem comprar sua comida. O supermercado Auchan, uma empresa francesa que atua em grandes varejistas, n\u00e3o est\u00e1 fechando. Mas, cabe a outros com\u00e9rcios interromper suas atividades e venda nas feiras e mercados.<br \/>\nPosteriormente, n\u00fameros astron\u00f4micos s\u00e3o publicados sobre os danos econ\u00f4micos causados pelo COVID. 19, para recolher fundos p\u00fablicos e privados. Em teoria, eles ser\u00e3o usados para apoiar fam\u00edlias e empresas afetadas pela crise. Antes desses an\u00fancios at\u00e9 l\u00e1 ineficazes, diretores de grandes bancos, empres\u00e1rios, jogadores de futebol, empres\u00e1rios come\u00e7aram a fazer grandes doa\u00e7\u00f5es ao Estado. Os valores s\u00e3o depositados na conta Force COVID-19 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade &#8211; na esperan\u00e7a de que eles possam ocultar ou conter as preocupa\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es. Mas suspeitamos que o Estado do Senegal reembolsar\u00e1 todos esses grandes doadores corporativos, isentando-os de seus impostos ou estendendo os prazos para pagamento de impostos. A hip\u00f3tese mais comum era que o governo havia decidido cancelar a d\u00edvida de grandes empresas estrangeiras, mas, ap\u00f3s a audi\u00eancia que o Presidente deu ao oponente Ousmane Sonko, Macky Sall finalmente mudou de ideia. Assim, planejaram estender os prazos em vez de cancelar a d\u00edvida fiscal.<br \/>\nLembrando que o Estado do Senegal recebeu 2.600.000 euros como doa\u00e7\u00e3o em dinheiro e em esp\u00e9cie, de doadores senegaleses de todas as tend\u00eancias, l\u00edderes empresariais senegaleses, alguns l\u00edderes religiosos e da classe m\u00e9dia.<br \/>\nNo comunicado de imprensa do Conselho de Ministros de 01 de abril de 2020, o Presidente do Senegal chegou a convidar o Ministro do Planejamento, Economia e Coopera\u00e7\u00e3o para finalizar o programa nacional de resili\u00eancia econ\u00f4mica e social. Esse programa (do governo) deveria, de acordo com os termos do comunicado de imprensa, permitir ao Estado do Senegal fornecer apoio em esp\u00e9cie e em natura a pessoas, empresas p\u00fablicas e privadas v\u00edtimas da crise sanit\u00e1ria.<br \/>\nAl\u00e9m disso, na v\u00e9spera do dia de comemora\u00e7\u00e3o do 60\u00ba anivers\u00e1rio da independ\u00eancia do Senegal, foram anunciadas as medidas finais pelo Presidente Macky Sall, com um programa em quatro eixos:<br \/>\n&#8211; apoio ao setor da sa\u00fade no valor de \u20ac 97.576.000 para apoiar despesas relacionadas \u00e0 resposta ao COVID-19.<br \/>\n&#8211; 23.485.000 euros para pagar contas de energia el\u00e9trica por um per\u00edodo de 2 meses de fam\u00edlias de assinantes da faixa social. Ou 40.746 fam\u00edlias.<br \/>\n&#8211; 4.545.000 euros para cobrir as contas de \u00e1gua, por um per\u00edodo de dois meses para 40.746 fam\u00edlias<br \/>\n&#8211; 104.546.000 euros para comprar alimentos em benef\u00edcio de 40.746 fam\u00edlias<br \/>\nAl\u00e9m de 18.940.000 euros para ajudar, segundo eles, a di\u00e1spora senegalesa.<br \/>\nComo mencionamos acima, o governo do Senegal e outros pa\u00edses africanos &#8211; como Costa do Marfim, Guin\u00e9 Conackry, Marrocos e quase todos os pa\u00edses do continente est\u00e3o tentando mobilizar fundos para combater o COVID-19 e procurar ocultar falhas sanit\u00e1rias nos sistemas de sa\u00fade p\u00fablica, tentando conter as preocupa\u00e7\u00f5es das pessoas. O caso do Senegal \u00e9 bastante ilustrativo da falta de seriedade de nossas elites pol\u00edticas africanas na gest\u00e3o regular das crises.<br \/>\nDe fato, o COVID-19 apenas destacou os desafios que os Estados devem enfrentar em quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica e no campo da educa\u00e7\u00e3o. Como prova, este exemplo: os trabalhadores da empresa farmac\u00eautica &#8220;Medis Senegal&#8221; est\u00e3o em desemprego t\u00e9cnico ilegal desde janeiro. Esta empresa oficialmente pertence ao Estado &#8211; como acionista majorit\u00e1rio desta empresa &#8211; mas o Senegal, n\u00e3o consegue pagar os trabalhadores h\u00e1 tr\u00eas meses. Em dezembro passado, o Estado, atrav\u00e9s do Ministro da Sa\u00fade, foi alertado pelos trabalhadores avisando de \u201cs\u00e9rias defici\u00eancias na administra\u00e7\u00e3o da empresa Medis Senegal, desfalque financeiro, m\u00e1 gest\u00e3o do pessoal.&#8221;\u00a0 \u201cEm meio da crise, a Medis Senegal, a \u00fanica empresa que fabrica paracetamol e cloroquina, fechou suas portas sob os olhos culpados de nossos funcion\u00e1rios eleitos&#8221; dixit Guy Marie Sagna que tornou-se um prisioneiro pol\u00edtico por causa de seu compromisso com o povo. A maior aberra\u00e7\u00e3o \u00e9 que o Senegal importa a cada ano 207 milh\u00f5es 600 mil euros de medicamentos, do fundo p\u00fablico , que beneficia unicamente a empresas privadas.<br \/>\n<strong>3 \u2022 Implica\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas da doen\u00e7a para os trabalhadores<\/strong><br \/>\nO PIB 2019 de Senegal foi de 24 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ou 1.364 euros por habitante por ano equivalente a um ingresso de 3,79 euros por pessoa \/ por dia.<br \/>\nNo entanto, se considerarmos que metade do que \u00e9 produzido vai para o exterior atrav\u00e9s do mecanismo de pagamento da d\u00edvida p\u00fablica e do retorno do investimento externo, significa apenas 1,89 euros por dia e por pessoa. Em Dakar, capital do Senegal, o sal\u00e1rio de um trabalhador \u00e9 de 2.500 CFA por dia, ou 60.000 CFA por m\u00eas, ou seja, 114 euros por m\u00eas. Em outras palavras, muitos senegaleses vivem em condi\u00e7\u00f5es muito vulner\u00e1veis.<br \/>\nO setor da ind\u00fastria oferece apenas 14% dos empregos, contribuindo para 26% do PIB, contra 31% para a agricultura e 55% para servi\u00e7os. Economistas africanos s\u00e9rios deduzem uma sub-industrializa\u00e7\u00e3o. Dados esses n\u00fameros, o Senegal \u00e9, como a Lib\u00e9ria, um pa\u00eds endividado e subdesenvolvido.<br \/>\nA pandemia do COVID-19 criou p\u00e2nico na popula\u00e7\u00e3o por duas raz\u00f5es. Primeiro, existe s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o pelo pre\u00e7o do transporte p\u00fablico que n\u00e3o para de subir, se duplicando por causa do estado de emerg\u00eancia declarado. Este aumento nos pre\u00e7os dos transportes levou a uma desorganiza\u00e7\u00e3o do sistema de produ\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores senegaleses n\u00e3o podem, de forma alguma, suportar medidas de conten\u00e7\u00e3o devido \u00e0 precariedade e ao desemprego nas \u00e1reas rurais e urbanas. Os trabalhadores n\u00e3o ser\u00e3o capazes de aguentar a conten\u00e7\u00e3o porque seus meios de subsist\u00eancia est\u00e3o em risco, especialmente porque 70% das fam\u00edlias sobrevivem no setor informal de &#8220;bico&#8221; di\u00e1rio.<br \/>\nEnormes riscos pesam sobre aqueles que cotidianamente s\u00e3o explorados no decorrer de seu trabalho, especialmente em f\u00e1bricas ou como trabalhadores do setor privado. Agora, essas pessoas est\u00e3o ainda mais expostas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, s\u00e3o vulner\u00e1veis \u200b\u200b\u00e0 exclus\u00e3o dos cuidados de sa\u00fade porque n\u00e3o t\u00eam assist\u00eancia m\u00e9dica. Al\u00e9m disso, seus movimentos s\u00e3o limitados pelo fechamento de fronteiras e interrup\u00e7\u00f5es de viagens. Os trabalhadores s\u00e3o estigmatizados e discriminados por essas medidas estatais para lidar com o novo coronav\u00edrus. V\u00e1rias empresas privadas nacionais est\u00e3o quase paradas, enquanto as empresas estrangeiras continuam trabalhando e expondo os trabalhadores porque esses capitalistas apenas se preocupam com seus ganhos financeiros. Como os governos ordenaram o fechamento de f\u00e1bricas n\u00e3o essenciais, milh\u00f5es de trabalhadores est\u00e3o desempregados em todo o mundo &#8211; a maioria com contratos prec\u00e1rios.<br \/>\nEnquanto isso, a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho relata que a crise econ\u00f4mica devido ao COVID-19 poderia ver o desemprego global aumentar em quase 25 milh\u00f5es. As taxas de pobreza no trabalho aumentar\u00e3o dramaticamente, prevendo que entre 20 e 25 milh\u00f5es de trabalhadores ser\u00e3o v\u00edtimas do desemprego e do aumento da pobreza. O COVID-19 interrompeu os esfor\u00e7os realizados pelas pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o da pobreza na \u00c1frica, al\u00e9m do fato de que os riscos de explora\u00e7\u00e3o est\u00e3o aumentando e os que j\u00e1 eram explorados, incorrem, ainda mais, em enormes perigos de super-explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTentando responder \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do COVID-19, os governos africanos, por meio de seu porta-voz na pessoa do Presidente do Senegal, convidam o Banco Mundial e outras institui\u00e7\u00f5es a cancelar a d\u00edvida. Mas a resposta dessas institui\u00e7\u00f5es financeiras foi um grande fracasso, ao conceder apenas adiamentos no pagamento da d\u00edvida. Os chefes de estado africanos s\u00e3o os principais respons\u00e1veis pelo estado deplor\u00e1vel dos sistemas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o em nossos pa\u00edses, porque nunca foi uma de suas prioridades. Quando eles adoecem, est\u00e3o sendo tratados nos pa\u00edses europeus assim como a suas fam\u00edlias, deixando a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte.<br \/>\nO presidente senegal\u00eas espera combater o fen\u00f4meno e ocultar desigualdades sociais ou outros tipos de preocupa\u00e7\u00f5es por meio de discursos cheios de efeitos de an\u00fancio apoiando-se com n\u00fameros. Sem ter em conta o sistema de sa\u00fade defeituoso e um o sistema escolar em crise, o governo do Senegal parece esquecer os trabalhadores do setor informal que constituem a maior parte da vida econ\u00f4mica do pa\u00eds. E esses atores econ\u00f4micos ficam para tr\u00e1s com essa bateria de medidas anunciadas pelo governo senegal\u00eas.<br \/>\n<strong>4 \u2022 A nova ordem mundial decidida pelo v\u00edrus capitalista<\/strong><br \/>\nA nova ordem mundial decretada pelos capitalistas \u00e9 eliminar uma parte da humanidade e todos ouvimos o aviso do Secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Antonio Guterres, que previu milh\u00f5es de mortes para o continente africano enquanto a doen\u00e7a \u00e9, no momento, muito mais devastador na Europa e nos EUA. Claramente, essa vis\u00e3o de nova ordem mundial foi confirmada pelo Presidente franc\u00eas em uma confer\u00eancia, ao falar que o processo dessa nova ordem mundial j\u00e1 come\u00e7ou e nada pode impedi-lo.<br \/>\nEsta crise de sa\u00fade imposta ao mundo, que hoje tem 3 milh\u00f5es 274 mil pessoas infetadas e 239.440 mortes \u00e9 uma realidade e a \u00c1frica n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o.\u00a0 Mas o continente parece estar resistindo melhor \u00e0 pandemia visto que, apesar do equipamento insuficiente das infraestruturas hospitalares, o continente registrou apenas 500 mortes. Se olharmos para o Senegal, em data 1 de maio de 2020, dos 1115 casos confirmados, 368 est\u00e3o curados, 9 falecidos, 1 evacuado em Fran\u00e7a e 737 ainda est\u00e3o em tratamento nas unidades de sa\u00fade. Nos outros pa\u00edses do continente, cada pa\u00eds est\u00e1 desenvolvendo m\u00e9todos para cuidar de seus pacientes e devemos cumprimentar o trabalho dos cuidadores que merecem todos os elogios para incentiv\u00e1-los a perseverar.<br \/>\nNesses momentos de pandemia, v\u00e1rias empresas estrangeiras estabelecidas no Senegal nem sequer aderiram \u00e0 onda de solidariedade lan\u00e7ada pelas autoridades para enfrentar o v\u00edrus. Das 142 empresas de renome internacional com sede no Senegal, elas mobilizaram apenas 1,6 milh\u00e3o de euros, o que \u00e9 realmente insignificante em compara\u00e7\u00e3o com as centenas de milh\u00f5es de euros de lucros que obt\u00eam no solo do pa\u00eds, sabendo que eles s\u00e3o os que vencem todas as licita\u00e7\u00f5es de contratos p\u00fablicas. Falando da empresa Orange, que cuida da telefonia, ela obteve em 2018 um lucro anual de 275 milh\u00f5es de euros.<br \/>\nAp\u00f3s esta crise sanit\u00e1ria, seguir\u00e1 a crise econ\u00f4mica que permitir\u00e1 ao capitalista continuar a nos ditar e impor suas prerrogativas para acentuar sua explora\u00e7\u00e3o e seu dom\u00ednio sobre os trabalhadores.<br \/>\nA pandemia exp\u00f4s as defici\u00eancias e neglig\u00eancias de nossos governantes que vivem apenas de corrup\u00e7\u00e3o nas costas de trabalhadores e popula\u00e7\u00e3o.\u00a0 \u00c9 a oportunidade de orientar os trabalhadores e conscientizar as massas para organizar e preparar a resposta, para se livrar dos colonizadores da \u00c1frica, que sempre foram seus coveiros;\u00a0 exigir o n\u00e3o pagamento da d\u00edvida p\u00fablica e nacionalizar as multinacionais que pilham os recursos do continente; tomar em nossas m\u00e3os o futuro e os interesses dos trabalhadores e do povo. S\u00f3 com a nossa determina\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o poderemos escrever uma nova p\u00e1gina de nossa hist\u00f3ria.<br \/>\nViva os trabalhadores!\u00a0 Viva a revolu\u00e7\u00e3o!\u00a0 Viva a LIT-QI!\u00a0 Viva a Liga Popular do Senegal!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 \u2022 Avalia\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o do COVID-19 na \u00c1frica Em 1 de maio de 2020, havia mais de 3.274.747\u00a0 casos confirmados de doen\u00e7a COVID-19 em 203 pa\u00edses ao redor do mundo. O exemplo da \u00c1frica \u00e9 bastante impressionante. 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