{"id":33001,"date":"2020-04-29T15:35:08","date_gmt":"2020-04-29T17:35:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=33001"},"modified":"2020-04-29T15:35:08","modified_gmt":"2020-04-29T17:35:08","slug":"africa-do-sul-o-epicentro-nao-por-acaso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/04\/29\/africa-do-sul-o-epicentro-nao-por-acaso\/","title":{"rendered":"\u00c1frica do Sul: O epicentro, n\u00e3o por acaso"},"content":{"rendered":"<p><em>Como afirmamos na introdu\u00e7\u00e3o (Artigo 1), o destaque que queremos dar n\u00e3o tem a ver unicamente com o fato de que, hoje, este \u00e9 o pa\u00eds africano que registra o maior n\u00famero de casos, mas tamb\u00e9m porque atrav\u00e9s de sua hist\u00f3ria recente \u00e9 poss\u00edvel discutir o quanto da atual pandemia \u2013 em todos os seus aspectos \u2013 est\u00e1 relacionada com a l\u00f3gica perversa do capitalismo neoliberal. Neoliberalismo que tamb\u00e9m \u00e9 um empecilho para que, hoje, de fato, possamos enfrentar o problema.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor:\u00a0Wilson Hon\u00f3rio da Silva, da Secretaria Nacional de Forma\u00e7\u00e3o do PSTU<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nComo se sabe, o pa\u00eds entrou em um processo de confinamento da madrugada de 27 de mar\u00e7o, quando os casos j\u00e1 tinham batido na casa do primeiro milhar. Em 30 de mar\u00e7o, o boletim matinal da\u00a0Africa CDC\u00a0(Centros de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as) indicava 1.280; j\u00e1 no boletim da tarde, o n\u00famero havia pulado para 1.346, algo que diz muito sobre a evolu\u00e7\u00e3o da crise no pa\u00eds.<br \/>\n\u00c9 preciso dar import\u00e2ncia para um \u201cdetalhe\u201d que tem sido pouco explorado pela imprensa de l\u00e1. Em todo o continente (com 4.760 casos de cont\u00e1gio notificados), 335 pessoas j\u00e1 se recuperaram, o que significa o j\u00e1 baix\u00edssimo \u00edndice de cerca de 16% dos que est\u00e3o doentes. Contudo, na \u00c1frica, apesar de ainda, felizmente, n\u00e3o haver nenhuma morte, a rela\u00e7\u00e3o entre doentes e casos de recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente preocupante. Considerando-se o boletim matinal, as 31 pessoas \u201crecuperadas\u201d representam m\u00edseros 0,4% em rela\u00e7\u00e3o aos 1.280 contagiados.<br \/>\nE para entendermos o porqu\u00ea disto, \u00e9 preciso, primeiro e, mesmo que brevemente, contextualizar a atual situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Como se sabe, l\u00e1, negros e negras tiveram suas hist\u00f3rias marcadas pela ultrajante segrega\u00e7\u00e3o do\u00a0apartheid, cuja legisla\u00e7\u00e3o foi abolida no in\u00edcio dos anos 1990. Hoje, contudo, os pr\u00f3prios sul-africanos costumam se referir ao regime em que vivem como um \u201capartheid neoliberal\u201d, em fun\u00e7\u00e3o da manuten\u00e7\u00e3o (e, muitas vezes, aprofundamento) da enorme desigualdade socioecon\u00f4mica no pa\u00eds.<br \/>\n<strong>O \u201capartheid neoliberal\u201d: solo f\u00e9rtil para a pandemia<\/strong><br \/>\nUma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 fruto das pol\u00edticas de concilia\u00e7\u00e3o de classe e do aburguesamento da elite negra que hoje governa o pa\u00eds em absoluta sintonia com a l\u00f3gica do capitalismo e os interesses imperialistas, atrav\u00e9s da chamada Alian\u00e7a Tripartite \u2013 o Congresso Nacional Africano (CNA) o partido que foi dirigido por Mandela; a principal central sindical do pa\u00eds, a COSATU, e o Partido Comunista Sul-Africano, que, h\u00e1 muito, n\u00e3o tem nada a ver com o nome que carrega.<br \/>\nE tamb\u00e9m \u00e9 preciso que se saiba que Cyril Ramaphosa, o atual presidente, sintetiza como poucos o car\u00e1ter deste governo e a trajet\u00f3ria (lament\u00e1vel) das principais lideran\u00e7as da luta contra o apartheid. Ramaphosa come\u00e7ou como trabalhador mineiro (nos anos 1980), virou l\u00edder da categoria, foi fundador e dirigente da COSATU, tornou-se bra\u00e7o direito de Mandela no chamado processo de transi\u00e7\u00e3o, \u00e9 dirigente do CNA e, ao mesmo tempo, um dos homens mais ricos do continente, tendo fundado uma empresa, a Shanduka, que tem neg\u00f3cios espalhados em \u00e1reas como energia, im\u00f3veis, bancos, seguros e telecomunica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSe isto n\u00e3o bastasse, desde 2007 ele \u00e9 criador de gado e possui profundos la\u00e7os com o imperialismo. \u00c9 dono de 145 lojas do McDonald\u2019s e membro do Conselho Consultivo da Coca-Cola e da Unilever internacionais. Mas foi como acionista e membro da diretoria da mineradora brit\u00e2nica Lonmin que Ramaphosa conquistou sua vaga definitiva como um dos maiores traidores e inimigos da classe trabalhadora e do povo negro, ao ser um dos respons\u00e1veis diretos pelo Massacre de Marikana, em agosto de 2012, quando autorizou pessoalmente um ataque contra mineiros em greve que deixou 34 mortos e outros 78 feridos.<br \/>\nO fato de que o pa\u00eds seja o epicentro da pandemia, bem como a possibilidade de uma cat\u00e1strofe, tem a ver com tudo isto, como foi bastante bem sintetizado pelo\u00a0\u201cThe Guardian\u201d, em 16 de mar\u00e7o:\u00a0\u201cMais de 25 anos ap\u00f3s a queda do apartheid, a \u00c1frica do Sul ainda \u00e9 um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo, o que se traduz no fracasso da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os b\u00e1sicos ao seu povo, incluindo cuidados de sa\u00fade. 82% das pessoas que vivem na \u00c1frica do Sul n\u00e3o t\u00eam seguro de sa\u00fade e dependem de cl\u00ednicas p\u00fablicas e hospitais. Essas instala\u00e7\u00f5es est\u00e3o superlotadas, com falta de pessoal e, geralmente, n\u00e3o conseguem lidar com a grande quantidade de doen\u00e7as transmiss\u00edveis e infecciosas\u201d.<br \/>\nNo que se refere \u00e0s condi\u00e7\u00f5es gerais de vida, basta lembrar que os dados oficiais (que, ali\u00e1s, utilizam par\u00e2metros bastante question\u00e1veis) indicam que 29% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 desempregada. E mesmo estar empregado n\u00e3o significa muita coisa. Basta checar o\u00a0\u00cdndice de Acessibilidade Financeira por Domic\u00edlio, publicado pelo \u201cGrupo por Justi\u00e7a Econ\u00f4mica e Dignidade de Pietermaritzburg\u201d (PMBEJD).<br \/>\nEm setembro de 2019, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o, exatos 56% dos sul-africanos (cerca de 30 milh\u00f5es de pessoas) estavam vivendo com menos de 41\u00a0rands\u00a0(a moeda local) por dia; ou seja, cerca de R$ 12. E, se isto n\u00e3o bastasse, outro um quarto dos habitantes (cerca de 14 milh\u00f5es) sobrevivia com menos de 19\u00a0rands\u00a0por dia (m\u00edseros R$ 5,5).<br \/>\nIsto significa que, de acordo com os padr\u00f5es internacionais, 26 anos ap\u00f3s a queda do apartheid, 75% dos sul-africanos est\u00e3o vivendo abaixo da \u201clinha de pobreza\u201d ou da \u201cextrema pobreza\u201d. E \u00e9 f\u00e1cil imaginar o que isto representa em termos de desemprego, moradia, educa\u00e7\u00e3o, direitos sociais e todas demais condi\u00e7\u00f5es de vida. Como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso muito esfor\u00e7o para entender como essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ferida aberta para a dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus.<br \/>\nAqui, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel discutir como se chegou a esta situa\u00e7\u00e3o. Contudo, nossos leitores e leitoras sabem muito bem. A Alian\u00e7a Tripartite aplicou com afinco e dedica\u00e7\u00e3o canina todo o receitu\u00e1rio neoliberal: privatiza\u00e7\u00f5es, ataques aos servi\u00e7os p\u00fablicos, desregulamenta\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas, desvio de dinheiro p\u00fablico para os setores privados, etc., etc, etc.<br \/>\n<strong>Townships: onde o confinamento pode ser um inferno<\/strong><br \/>\nMuitos dos que defendem, corretamente, que s\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas de isolamento social e denunciam a lerdeza criminosa do governo Ramaphosa em empreg\u00e1-la, tamb\u00e9m se preocupam seriamente sobre como isto poder\u00e1 ser implementado e, tamb\u00e9m, como \u201cficar em casa\u201d n\u00e3o pode ser uma pol\u00edtica que seja imposta desacompanhada de outras medidas sociais.<br \/>\nNo centro desta quest\u00e3o est\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de moradia dos sul-africanos, gente que vive amontoada, em condi\u00e7\u00f5es para l\u00e1 de prec\u00e1rias, j\u00e1 que, at\u00e9 hoje, a gigantesca maioria dos habitantes ainda mora nos chamados \u201ctownships\u201d, as comunidades\/favelas segregadas que se tornaram s\u00edmbolo do regime racista, cujas estruturas e condi\u00e7\u00f5es impedem que sejam adotadas medidas de higiene.<br \/>\nNa verdade, desgra\u00e7adamente, hoje, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior do que na \u00e9poca em que os brancos monopolizavam o poder. De acordo com um estudo feito por um grupo de urbanistas (\u201cUrban@UW\u201d) da Universidade de Washington (EUA) \u2013 publicado em 11 de julho de 2019, em um artigo intitulado\u00a0\u201cMoradia informal, pobreza e os legados do apartheid na \u00c1frica do Sul\u201d\u00a0\u2013 em 1994, quando Nelson Mandela assumiu a presid\u00eancia do pa\u00eds,\u00a0\u201chavia cerca 300 townships e favelas no pa\u00eds; hoje, existem aproximadamente 2,7 mil\u201d.<br \/>\nPara se ter uma ideia, somente na Cidade do Cabo, com 3,8 milh\u00f5es de habitantes,\u00a0\u201c60% da popula\u00e7\u00e3o vive em townships, onde servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o limitados, escolas e assist\u00eancia m\u00e9dica s\u00e3o seriamente subfinanciadas e os empregos s\u00e3o escassos\u201d.<br \/>\nE esta \u00e9 exatamente a mesma situa\u00e7\u00e3o de milhares de outras comunidades, algumas com centenas de milhares de pessoas, como, por exemplo, Soweto, nas proximidades de Johannesburgo, com quase 1,5 milh\u00e3o de habitantes; Umlazi, nos arredores de Durban, com cerca de 500 mil e Khayelitsha, na regi\u00e3o da Cidade do Cabo, com mais que 400 mil. Em todas elas, fam\u00edlias numerosas se amontoam em barracos e casebres, sobrevivendo sem servi\u00e7os de esgoto e saneamento b\u00e1sico, eletricidade, \u00e1gua limpa e pot\u00e1vel.<br \/>\n<strong>HIV e COVID-19: uma combina\u00e7\u00e3o letal<\/strong><br \/>\nRepetiremos, aqui, alguns n\u00fameros relativos \u00e0 epidemia do HIV que citamos em um dos artigos anteriores. Contudo, antes \u00e9 preciso contextualiz\u00e1-los em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria espec\u00edfica da \u00c1frica do Sul, que nos ajudam a entender que a situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel e perigosa que se vive hoje tamb\u00e9m tem os governos da Alian\u00e7a Tripartite em sua raiz, mais especificamente Thabo Mbeki, que presidiu o pa\u00eds por quase uma d\u00e9cada, entre 1999 e 2008.<br \/>\nTendo iniciado sua milit\u00e2ncia ainda no movimento estudantil, na d\u00e9cada de 1960, Mbeki \u00e9 uma das figuras-chave na hist\u00f3ria do CNA e chegou \u00e0 presid\u00eancia levado pelas m\u00e3os de Nelson Mandela (de quem foi vice-presidente, no segundo mandato), sendo respons\u00e1vel pelo aprofundamento e amplia\u00e7\u00e3o das medidas neoliberais que tamb\u00e9m haviam caracterizado o governo anterior. No que diz respeito ao nosso tema, contudo, Mbeki cumpriu um papel nefasto e imperdo\u00e1vel.<br \/>\nQuando na presid\u00eancia, Mbeki tornou-se um dos principais porta-vozes das desacreditadas teses de que a Aids n\u00e3o era provocada pelo HIV, defendendo que a S\u00edndrome da Imunodefici\u00eancia Adquirida (AIDS) tinha origem em quest\u00f5es sociais e na pobreza. Por isso, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o direta dele, por uma d\u00e9cada, os programas de tratamentos, inclusive com antirretrovirais, foram praticamente proibidos na \u00c1frica do Sul, o que, inclusive, colocou os sul-africanos na vanguarda mundial das lutas por preven\u00e7\u00e3o do HIV e tratamento da AIDS.<br \/>\nSeja como for, o estrago j\u00e1 estava feito, ao ponto que, em novembro de 2008, o jornal norte-americano The New York Times, publicou um artigo responsabilizando, diretamente, Mbeki pela morte de 365 mil pessoas. E t\u00e3o criminoso quanto foram os efeitos na popula\u00e7\u00e3o africana que, vendo Mbeki como sua dire\u00e7\u00e3o na luta contra o apartheid e substituto de Mandela, demorou anos para perceber que havia sido tra\u00edda tamb\u00e9m no que se refere \u00e0 epidemia.<br \/>\nO resultado, como j\u00e1 mencionado, \u00e9 que, hoje, a \u00c1frica do Sul, segundo dados de 2018 do Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/AIDS (UNAIDS) tem 7,7 milh\u00f5es pessoas vivendo com HIV; a cada ano h\u00e1 240 mil novos casos; somente em 2018, mais de 71 mil pessoas morreram em decorr\u00eancia de doen\u00e7as relacionadas \u00e0 AIDS e, assim como no resto do continente, acreditava-se que quase metade dos (as) portadores (as) n\u00e3o fazem qualquer tipo de tratamento antirretroviral.<br \/>\nNo momento n\u00e3o h\u00e1 dados que relacionem a r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o da Covid-19 no pa\u00eds e esta situa\u00e7\u00e3o. Contudo, \u00e9 ineg\u00e1vel que a exist\u00eancia de milh\u00f5es de pessoas soropositivas, que j\u00e1 t\u00eam algum n\u00edvel de imunodefici\u00eancia vai ser determinante no comportamento do coronav\u00edrus.<br \/>\nEssa \u00e9 a opini\u00e3o, por exemplo, da professora Mosa Moshabela, da Escola de Enfermagem e Sa\u00fade da Universidade de of Kwazulu Natal, que em um artigo do portal de not\u00edcias do mundo \u00e1rabe, o\u00a0Al Jazeera, em 20 de mar\u00e7o, ao comparar como o v\u00edrus est\u00e1 se comportando na It\u00e1lia, destacou que\u00a0\u201ca diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o temos uma grande popula\u00e7\u00e3o de idosos, mas, sim, um grande n\u00famero de pessoas com tuberculose e HIV e os que mais ser\u00e3o afetados ter\u00e3o entre 20 e 60 anos.\u201d<br \/>\nE como exemplo de que a combina\u00e7\u00e3o entre a Covid-19 e o HIV pode ser perigosa, podemos citar a opini\u00e3o do professor Salim Abdool Karim, que coordena o principal centro de pesquisa sobre HIV\/AIDS do pa\u00eds, localizado em Durban. Em uma entrevista concedida \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias da BBC, em 19 de mar\u00e7o, Karim lembrou que h\u00e1 cerca de 2,5 milh\u00f5es de sul-africanos que sequer est\u00e3o se tratando com os medicamentos antirretrovirais e que, neste grupo em particular,\u00a0\u201ch\u00e1 uma tend\u00eancia maior de desenvolvimento de infec\u00e7\u00f5es graves\u201d.<br \/>\nPor isso \u00e9, ao mesmo tempo, emocionante e doloroso ver e ler os depoimentos de jovens africanos portadores do HIV\/AIDS, que, exatamente por estarem, h\u00e1 d\u00e9cadas, em luta constante para garantir a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, agora, diante da Covid-19, se colocaram na linha de frente na exig\u00eancia de pol\u00edticas sanit\u00e1rias, econ\u00f4micas e sociais.<br \/>\nForam estes jovens e entidades que criaram no decorrer das d\u00e9cadas que, por exemplo, tomaram a frente, muito antes de Ramaphosa, de campanhas por todos os lados, divulgando os meios de preven\u00e7\u00e3o, distribuindo m\u00e1scaras, exigindo pol\u00edticas de isolamento e pedindo para que as pessoas, se poss\u00edvel, ficassem em casa, atrav\u00e9s, por exemplo, da proje\u00e7\u00e3o de gigantescos \u201cgrafites virtuais\u201d nas paredes dos pr\u00e9dios.<br \/>\n<strong>Confinamento com repress\u00e3o<\/strong><br \/>\nAgora o confinamento \u00e9 um fato e, apesar de campanhas nefastas como\u00a0\u201cO Brasil n\u00e3o pode parar\u201d\u00a0tamb\u00e9m existirem por l\u00e1, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 tentando se adaptar. E, apesar de todos os obst\u00e1culos que mencionamos, estamos entre aqueles que defendem que este tamb\u00e9m \u00e9 um momento para \u201cos de baixo\u201d se auto-organizarem para lutar pela sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. O terr\u00edvel exemplo de Mil\u00e3o, na It\u00e1lia, n\u00e3o deixa d\u00favidas (e, esperamos, que n\u00e3o seja perdoado).<br \/>\nEm seu pronunciamento, Ramaphosa finalmente reconheceu que o pa\u00eds est\u00e1 diante da possibilidade de uma\u00a0\u201ccat\u00e1strofe humana de enormes propor\u00e7\u00f5es\u201d\u00a0e anunciou uma pol\u00edtica de confinamento de tr\u00eas semanas (at\u00e9 o dia 16 de abril), durante o qual, a popula\u00e7\u00e3o\u00a0\u201cest\u00e1 proibida\u201d de sair de casa, sob pena de puni\u00e7\u00e3o (multa ou seis meses de pris\u00e3o), a n\u00e3o ser para comprar comida, medicamentos, receber subs\u00eddios sociais atendimento m\u00e9dico.<br \/>\nDurante este per\u00edodo, todo com\u00e9rcio e servi\u00e7os dever\u00e3o permanecer fechados. As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o as farm\u00e1cias, laborat\u00f3rios, bancos, supermercados, postos de gasolina e servi\u00e7os de assist\u00eancia m\u00e9dica. Neste per\u00edodo, tamb\u00e9m, somente poder\u00e3o circular pelas ruas os profissionais de sa\u00fade e servi\u00e7os de emerg\u00eancia, al\u00e9m das for\u00e7as policiais e militares.<br \/>\nComo parte do decreto, de forma um tanto inusitada, Ramaphosa, al\u00e9m de \u201cbanir\u201d a pr\u00e1tica de exerc\u00edcios e passeio com c\u00e3es nas ruas, tamb\u00e9m proibiu o consumo ou venda de \u00e1lcool (inclusive nos supermercados). E um detalhe, que tem a ver com o que ser\u00e1 exposto abaixo, \u00e9 que n\u00e3o foram poucos os analistas e gente do povo que ficaram intrigados pelo fato dele ter escolhido fazer o an\u00fancio vestindo um uniforme camuflado do Ex\u00e9rcito.<br \/>\nUma das constata\u00e7\u00f5es iniciais da imprensa sul-africana \u00e9 que, al\u00e9m de tardio, o confinamento pegou a popula\u00e7\u00e3o de surpresa e, infelizmente, esbarra em profundos problemas, muitos dos quais conhecemos por aqui, que simplesmente impedem que as pessoas fiquem em casa. A come\u00e7ar pelo fato de que, como veremos, assim como no resto do mundo, Ramaphosa quer que a \u201ceconomia continue andando\u201d e deixou nas m\u00e3os do setor privado como lidar com as f\u00e1bricas etc.<br \/>\nMas, de imediato, a maior preocupa\u00e7\u00e3o veio do fato de que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava preparada para o confinamento geral o que fez com que, nos dois primeiros dias, tivessem que sair \u00e0s pressas para se abastecer. Consequentemente, as ruas e espa\u00e7os p\u00fablicos das principais cidades do pa\u00eds ainda estavam lotados. Algo que se repetiu, com menor intensidade no dia 28 de mar\u00e7o.<br \/>\nE a resposta do governo foi lament\u00e1vel, mas completamente sintonizada com o simb\u00f3lico uniforme de Ramaphosa. De acordo com uma reportagem do\u00a0The Guardian\u00a0(28\/03\/2020),\u201ca pol\u00edcia e soldados usaram balas de borracha contra centenas de compradores que estavam do lado de fora de um supermercado em Joanesburgo\u201d.<br \/>\nNo artigo, o depoimento de Emily Ndemande, uma empregada dom\u00e9stica, \u00e9 exemplar do qu\u00e3o absurdo foi o ataque:\u00a0\u201cN\u00f3s estamos ficando em casa, agora. Mas, antes, a gente precisava fazer compras, mas os soldados est\u00e3o espancando as pessoas\u201d.<br \/>\nE, infelizmente, a repress\u00e3o desmedida (depois de uma in\u00e9rcia criminosa) tem sido uma marca dos pa\u00edses africanos que come\u00e7aram a adotar pol\u00edticas de confinamento nos \u00faltimos dias, como veremos, tamb\u00e9m, no pr\u00f3ximo e \u00faltimo artigo. Na mesma reportagem \u00e9 relatado um exemplo no Qu\u00eania, onde\u00a0\u201ca pol\u00edcia disparou g\u00e1s lacrimog\u00eaneo contra uma multid\u00e3o de passageiros de balsas, na cidade portu\u00e1ria de Mombasa e os policiais foram capturados em imagens de telefones celulares atingindo pessoas com cassetetes.\u201d<br \/>\n<strong>As d\u00favidas em torno dos subs\u00eddios pra \u201cficar em casa\u201d<\/strong><br \/>\nUma pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9 como os quase 30% da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e3o desempregados sobreviver\u00e3o durante a quarentena. Tamb\u00e9m existem muitas d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o aos que est\u00e3o empregados ou exercem trabalho. Cabendo destacar que, de acordo com um instituto de pesquisa (o\u00a0Statistics South Africa\u2019s) cujos v\u00ednculos com o governo levantam v\u00e1rias quest\u00f5es, no final de 2019, existiam pelo menos 3 milh\u00f5es de trabalhadores no setor informal, o que correspondia 18% do total da for\u00e7a de trabalho empregada.<br \/>\nMas, tamb\u00e9m, h\u00e1 mais d\u00favidas que respostas em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores em geral. Contudo, considerando-se o perfil neoliberal do governo sul-africano e o que temos visto por aqui e no resto do mundo, n\u00e3o se pode esperar muita coisa. E, com certeza, \u00e9 preciso que, mesmo em confinamento, a popula\u00e7\u00e3o se organize para lutar por seus direitos.<br \/>\nO que se sabe \u00e9 que, ainda no dia 26 mar\u00e7o, pouco antes do pronunciamento do presidente (provavelmente com a inten\u00e7\u00e3o de \u201cacalmar o mercado\u201d, como eles dizem), o Ministro do Emprego e Trabalho, T.W Nxesi, soltou uma nota, determinando que o Fundo de Seguro Desemprego (conhecido como UIF) ser\u00e1 utilizado para\u00a0\u201cabrandar\u00a0o impacto do confinamento nacional de 21 dias entre os trabalhadores, as empresas e a economia, o UIF\u201d\u00a0e que o governo criou um programa denominado\u00a0\u201cEsquema de Assist\u00eancia Tempor\u00e1ria entre Empregadores e Empregados \u2013 Covid-19\u201d\u00a0(COVID-19 TERS).<br \/>\nSegundo o ministro, estes mecanismos dever\u00e3o subsidiar tantos os trabalhadores regularmente empregados quanto os que atuam na informalidade. Como isto ir\u00e1 funcionar, j\u00e1 \u00e9 outra quest\u00e3o. Mas, como sempre, o governo sinalizou que deixar\u00e1 boa parte da implementa\u00e7\u00e3o disto nas m\u00e3os (sempre gananciosas) do \u201cmercado\u201d, ou seja, dos patr\u00f5es.<br \/>\nAlgo que transparece em uma passagem um tanto curiosa do comunicado, t\u00edpica dos governos de concilia\u00e7\u00e3o de classes:\u00a0\u201cempregadores atenciosos e respons\u00e1veis que n\u00e3o consigam pagar o sal\u00e1rio total dos trabalhadores que tenham sido enviados para casa devido ao confinamento, para protegerem sua sa\u00fade e seguran\u00e7a, s\u00e3o incentivados a solicitar o benef\u00edcio\u201d.<br \/>\n<em>Introdu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/africa\/especial-coronavirus-e-africa\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/africa\/especial-coronavirus-e-africa\/<\/a><br \/>\nArtigo 1 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/covid-19-na-africa-uma-bomba-relogio-um-terreno-minado\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/covid-19-na-africa-uma-bomba-relogio-um-terreno-minado\/<\/a><br \/>\nArtigo 2 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/uma-bomba-prestes-a-explodir-do-norte-ao-sul-da-africa\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/uma-bomba-prestes-a-explodir-do-norte-ao-sul-da-africa\/<\/a><br \/>\nArtigo 3 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/governos-africanos-e-prevencao-do-covid-19-hipocrisia-e-irresponsabilidade\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/governos-africanos-e-prevencao-do-covid-19-hipocrisia-e-irresponsabilidade\/<\/a><br \/>\nArtigo 4 &#8211; https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/africa-um-continente-debilitado-e-uma-rede-hospitalar-doente\/<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como afirmamos na introdu\u00e7\u00e3o (Artigo 1), o destaque que queremos dar n\u00e3o tem a ver unicamente com o fato de que, hoje, este \u00e9 o pa\u00eds africano que registra o maior n\u00famero de casos, mas tamb\u00e9m porque atrav\u00e9s de sua hist\u00f3ria recente \u00e9 poss\u00edvel discutir o quanto da atual pandemia \u2013 em todos os seus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":33002,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,4053,30],"tags":[4395,515,735],"class_list":["post-33001","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-africa-do-sul","category-coronavirus","tag-coronavirus-afirca","tag-especial-coronavirus","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/africa_sul.jpg","categories_names":["\u00c1frica","\u00c1frica do Sul","Pandemia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33001","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33001"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33001\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33001"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33001"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33001"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}