{"id":32779,"date":"2020-04-16T14:06:49","date_gmt":"2020-04-16T16:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=32779"},"modified":"2020-04-16T14:06:49","modified_gmt":"2020-04-16T16:06:49","slug":"julio-cid-um-trotskista-sevilhano-na-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/04\/16\/julio-cid-um-trotskista-sevilhano-na-revolucao\/","title":{"rendered":"Julio Cid: Um trotskista sevilhano na Revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Queridos camaradas:<\/em><br \/>\n<em>Fiquei sabendo, com alegria que est\u00e3o fazendo a publica\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio peri\u00f3dico (\u2026) . O estudo do marxismo fora da luta revolucion\u00e1ria pode fazer ratos de biblioteca, n\u00e3o revolucion\u00e1rios. A participa\u00e7\u00e3o na luta revolucion\u00e1ria sem o estudo do marxismo leva inevitavelmente ao risco, \u00e0 incerteza e \u00e0 semi cegueira. Estudar o marxismo como marxista n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se n\u00e3o for participando na vida e na luta das classes; a teoria revolucion\u00e1ria \u00e9 verificada pela pr\u00e1tica, e a pr\u00e1tica \u00e9 verificada pela teoria. Somente as verdades do marxismo que t\u00eam sido adquiridas na luta penetram na alma e no sangue. <\/em><br \/>\nCarta de Trotsky aos editores do peri\u00f3dico para jovens da oposi\u00e7\u00e3o de esquerda espanhola.<br \/>\n(13 de Junho 1932)<br \/>\n<em>A terceira confer\u00eancia da Esquerda Comunista da Espanha (ICE), o partido trotskista daquela \u00e9poca, havia decidido fazer um esfor\u00e7o particular em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 juventude. Ernesto Tojo, que era o principal dirigente d@s jovens trotskistas, assumiu a miss\u00e3o de impulsionar um novo jornal, que se nomeou como \u201cJovem Esp\u00e1rtaco\u201d. \u00c9 a funda\u00e7\u00e3o desse novo jornal a que se refere Trotsky na carta que encabe\u00e7a esse artigo.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Juan P.<br \/>\nRevista Comunismo, da ICE. Ano 1933.<br \/>\nFoi o pr\u00f3prio Ernesto Tojo quem ganhou em 1933 para o trotskismo dois jovens sevilhanos, da localidade eminentemente oper\u00e1ria de Gerena. Esses dois jovens eram Jos\u00e9 Quesada (conhecido como \u201cTarbes\u201d ) e Julio Cid. Cid era empregado da Prefeitura, trabalhando como assistente do secretario da mesma.<br \/>\nSeguindo a diretriz de Trotsky, que recomendava entrar naquele momento nas Juventudes Socialistas para conectar com sua radicaliza\u00e7\u00e3o ao marxismo revolucion\u00e1rio, os dois amigos entraram na agrupa\u00e7\u00e3o das JJSS de seu povo, e Quesada se tornou secretario da se\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSem d\u00favida, a maior parte dos trotskistas espanh\u00f3is n\u00e3o tomou a mesma decis\u00e3o, e se abstiveram de se orientar para as Juventudes Socialistas, que finalmente, em abril de 1936, se integraram nas Juventudes Comunistas para formar a JSU, de car\u00e1ter nitidamente estalinista. Como consequ\u00eancia, Julio Cid \u00e9 expulso da organiza\u00e7\u00e3o e Quesada renuncia.\u00a0 Ambos, imediatamente, ingressam ao Partido Oper\u00e1rio de Unifica\u00e7\u00e3o Marxista (POUM), sendo Cid membro do Comit\u00ea Local do Partido, que havia sido fundado no ano anterior pela maioria da ICE, depois de romper com Trotsky.<br \/>\n<strong>Sevilha<\/strong><br \/>\nNo dia 17 de julho, o ex\u00e9rcito da \u00c1frica se rebela. Nessa mesma noite, chegaram os primeiros rumores do Golpe a Sevilha, pelo que a popula\u00e7\u00e3o reage, e piquetes de oper\u00e1rios e guardas de assalto (corpo policial ndt.) rodeiam os quart\u00e9is da cidade (se quiser ler mais sobre a guerra e a revolu\u00e7\u00e3o em Sevilha, clique aqui). Julio Cid vai de seu povoado para cidade para conseguir armas, mas o surpreende a explos\u00e3o do primeiro combate da guerra em Sevilha na Pra\u00e7a de S\u00e3o Francisco, \u00e0s 16h do dia 18 de julho. Ali, Cid \u00e9 um dos civis que resistem \u00e0 primeira arremetida das tropas fascistas, se entrincheirando no edif\u00edcio da Telef\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Manifesta\u00e7\u00e3o de rua do POUM<\/strong><\/p>\n<p>Cid, que havia sido ferido no p\u00e9 durante a batalha, tenta sem sucesso contatar com os companheiros do partido, para posteriormente ir a Gerena, onde conseguem desarmar os fascistas locais, e organizam a defesa da popula\u00e7\u00e3o. No dia 21, tr\u00eas militantes do POUM e tr\u00eas jovens socialistas tentam voltar a Sevilha, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, podendo chegar apenas a Algaba, onde estabelecem a linha de defesa. Naquele povoado, se encontram com o prefeito e com a dire\u00e7\u00e3o da CNT local, colaborando na organiza\u00e7\u00e3o do combate. Para isso, explodem as pontes que ligavam a localidade com Sevilha com dinamite trazida, junto com refor\u00e7os das mil\u00edcias, de Gerena, uma cidade com tradi\u00e7\u00e3o mineira.<br \/>\nSem d\u00favida, a ofensiva fascista sobre Algaba \u00e9 muito grande, e a batalha se estende apenas durante algumas horas. Os milicianos se veem obrigados a retroceder, ao mesmo tempo em que cont\u00e9m o avan\u00e7o fascista para evitar a debandada. Depois de se reagruparem com outros resistentes dos povoados de Carmona e Vila Nova do Rio e Minas, atacam a localidade de Tocina, onde conseguem penetrar, causando numerosas mortes ao bando fascista. Sem d\u00favida, n\u00e3o conseguem dominar o povoado. A pequena coluna, que fica com apenas 65 sobreviventes, se v\u00ea obrigada a se retirar de novo, adotando uma t\u00e1tica de guerrilha. Atacam velozmente, para se retirar com rapidez. De luta em luta, a coluna vai perdendo terreno, at\u00e9 chegar \u00e0 extrema localidade de Azuaga, j\u00e1 durante o m\u00eas de agosto.<br \/>\n<strong>Badajoz<\/strong><br \/>\nEm Azuanga, se produz o encontro entre os trotskistas sevillanos e llerenenses (se quer ler mais sobre o n\u00facleo trotskista de Llerena, clique aqu\u00ed). Romualdo Rodriguez, que tinha se salvado, depois de ser \u00a0capturado, ao conseguir se libertar, relata o massacre de mais de 600 oper\u00e1rios(as) em Llerena, d@s quais, 50 ou 60 eram do POUM. Ele havia tentado fugir aproveitando a confus\u00e3o do fuzilamento, empurrando os soldados e fugindo no escuro da noite.<br \/>\nSem perder tempo, se organiza uma coluna unida de andaluzes e <em>extrememos<\/em>, (de Estremadura, ndt.) que se veria obrigada a retroceder at\u00e9 Madri, onde se incorpora \u00e0 resist\u00eancia da capital. Essa massa heroica de oper\u00e1rios do Campo de Sevilha e Badajoz, o batalh\u00e3o Lenin, seria imortalizada por Mika Etch\u00e9bere, em suas memorias \u201cMinha guerra de Espanha\u201d, depois de combater ininterruptamente durante meses contra o ex\u00e9rcito fascista, sem mais armas do que as que podiam ir conseguindo na retirada. Julio Cid era comiss\u00e1rio do Batalh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Desfile de combatentes do POUM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Madrid<\/strong><br \/>\nSegundo Brou\u00e9, durante a batalha de Madri, Rudolf Klemente, do secretariado internacional pela IV internacional, entrou em contato com Cid e Quesada para tentar reagrupar a organiza\u00e7\u00e3o trotskista. Tamb\u00e9m nessa \u00e9poca, Julio Cid conheceu o poeta surrealista cubano Juan Brea, que havia chegado junto \u00e0 brit\u00e2nica Mary Low, para colaborar na guerra. Seu encontro se produziu na sede do POUM da rua Pizarro de Madri. Ali, frente aos carros pintados com lemas como \u201cLarga vida a Trotsky\u201d ou \u201cViva a revolu\u00e7\u00e3o permanente\u201d, Brea descreve Cid como um homem rude e forte, carregado de entusiasmo, rev\u00f3lveres, c\u00e2meras e cadernos.<br \/>\nJulio Cid levou Brea ao convento de dois andares repleto de picha\u00e7\u00f5es e cartazes onde se havia estabelecido o Batalh\u00e3o Lenin, composto nesse momento por uns 900 combatentes. Ess@s combatentes, que haviam perdido muit@s familiares e companheir@s nas m\u00e3os dos fascistas, sobreviviam com a \u00fanica obsess\u00e3o de conseguir uma arma e pode combater. O pr\u00f3prio Brea se da conta desse estado de \u00e2nimo, ao contar como Clara, uma combatente internacionalista, mostrava com orgulho o machucado que tinha no ombro por \u201cdisparar dia e noite\u201d contra os fascistas.<br \/>\n<strong>Barcelona<\/strong><br \/>\nA voz Leninista, jornal da SBLE. Abril de 1937.<br \/>\nEm abril de 1937, Cid e Quesada viajam a Barcelona, como delegados andaluzes ao congresso do POUM. Ali, Cid entra, atrav\u00e9s do <em>llerenense<\/em> (de Llerena, ndt.) Grandizo Munis, na Se\u00e7\u00e3o Bolchevique-Leninista da Espanha (SBLE), a organiza\u00e7\u00e3o trotskista do momento, mantendo-se tamb\u00e9m no POUM. Junto com ele, militavam al\u00e9m do pr\u00f3prio Munis, outros nomes bem conhecidos como Jaime Fern\u00e1ndez, Esteban Bilbao ou os internacionais Moulin, Benjamin P\u00e9ret, Carlini ou Casanova.<br \/>\nNo m\u00eas seguinte, explodiram os \u201cfatos de maio\u201d, quando o enfrentamento entre o governo republicano burgu\u00eas-stalinista e as for\u00e7as oper\u00e1rias revolucion\u00e1rias, chegou \u00e0s armas. Imediatamente, Barcelona voltava a construir as barricadas, onde Julio Cid combateu uma \u00faltima vez. Cid, junto com seus companheiros, distribuiu o panfleto da SBLE que dizia:<br \/>\n\u201cViva a ofensiva revolucion\u00e1ria<br \/>\nA Voz Leninista, jornal da SBLE. Abril de 1937. Respectivamente, panfletos da SBLE e dos amigos de Durruti, durante os fatos de maio de 37.<br \/>\n<em>Nada de compromissos. Desarme da GNR e da Guarda de Assalto reacion\u00e1rias. O momento \u00e9 decisivo. A pr\u00f3xima vez ser\u00e1 muito tarde. Greve geral em todas as ind\u00fastrias que n\u00e3o trabalhem para a guerra, at\u00e9 a derrubada de todo o governo reacion\u00e1rio. S\u00f3 o poder prolet\u00e1rio pode assegurar a vit\u00f3ria militar.<\/em><br \/>\n<em>Armamento total da classe oper\u00e1ria<\/em><br \/>\n<em>Viva a unidade de a\u00e7\u00e3o CNT-FAI-POUM<\/em><br \/>\n<em>Viva a Frente Revolucionaria do Proletariado<\/em><br \/>\n<em>Nas oficinas, f\u00e1bricas, barricadas, etc\u2026 Comit\u00eas de Defesa Revolucion\u00e1ria<\/em><br \/>\n<em>Se\u00e7\u00e3o Bolchevique- Leninista da Espanha. Pela IV Internacional\u201d<\/em><br \/>\nNo dia 5 de maio, enquanto seu insepar\u00e1vel companheiro Quesada se reunia com Jaume Balius, dirigente da agrupa\u00e7\u00e3o Los amigos de Durruti (composta por combatentes da antiga Coluna Durruti, que levantava posi\u00e7\u00f5es muito similares \u00e0s dos trotskistas), Julio Cid caia mortalmente ferido na rua Mendizabal. Ainda que \u201cA voz Leninista\u201d, o peri\u00f3dico da SBLE, atribuiu os disparos a uma confus\u00e3o, Quesada sempre defendeu que o assassinato de seu companheiro foi obra dos estalinistas.<br \/>\nJulio Cid representa melhor que ningu\u00e9m o proletariado revolucion\u00e1rio. Sua vida \u00e9 um fio vermelho que conecta a classe oper\u00e1ria sevilhana, aos trabalhadores do campo de Extremadura, \u00e0 Madri antifascista e \u00e0 Barcelona libert\u00e1ria. Militante trotskista, compartilhou barricada com a melhor vanguarda da CNT e do POUM. Esteve presente quando come\u00e7aram os primeiros tiros na Plaza Nova de Sevilha, aquele caloroso 18 de julho de 1936, e morreu em 5 de maio de 1937, quando a Revolu\u00e7\u00e3o era definitivamente derrotada.<br \/>\nQue esse escrito sirva como homenagem a sua memoria. Que a memoria daquele humilde trabalhador de um povoado de Sevilha esteja presente nas nossas gera\u00e7\u00f5es de militantes revolucion\u00e1rios!<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Marina Cintra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos camaradas: Fiquei sabendo, com alegria que est\u00e3o fazendo a publica\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio peri\u00f3dico (\u2026) . O estudo do marxismo fora da luta revolucion\u00e1ria pode fazer ratos de biblioteca, n\u00e3o revolucion\u00e1rios. A participa\u00e7\u00e3o na luta revolucion\u00e1ria sem o estudo do marxismo leva inevitavelmente ao risco, \u00e0 incerteza e \u00e0 semi cegueira. 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