{"id":32652,"date":"2020-04-11T22:16:43","date_gmt":"2020-04-12T00:16:43","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=32652"},"modified":"2020-04-11T22:16:43","modified_gmt":"2020-04-12T00:16:43","slug":"africa-um-continente-debilitado-e-uma-rede-hospitalar-doente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/04\/11\/africa-um-continente-debilitado-e-uma-rede-hospitalar-doente\/","title":{"rendered":"\u00c1frica &#124; um continente debilitado e uma rede hospitalar doente"},"content":{"rendered":"<p><em>O r\u00e1pido aumento de casos confirmados de Covid-19 que vimos na \u00c1frica, na \u00faltima semana, a din\u00e2mica que a pandemia ter\u00e1, e as poss\u00edveis consequ\u00eancias em termos de vidas humanas, t\u00eam que ser analisadas de um ponto de vista um tanto diferente daquele que vemos acerca da lament\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como a It\u00e1lia e a Espanha, ou mesmo o que aconteceu na China, no pico do cont\u00e1gio.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nWilson Hon\u00f3rio da Silva, da Secretaria Nacional de Forma\u00e7\u00e3o do PSTU<br \/>\nPara come\u00e7ar, falar da \u00c1frica \u00e9 falar de um continente h\u00e1 muito tempo debilitado por problemas de sa\u00fade que s\u00e3o sintomas dos muitos males que, no decorrer dos s\u00e9culos, foram alimentados por n\u00edveis absurdos de explora\u00e7\u00e3o capitalista. Males que afetam profundamente a forma como o v\u00edrus ir\u00e1 se comportar no continente. Em todos os sentidos: das formas de transmiss\u00e3o aos \u201cgrupos de risco\u201d e setores da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1veis, passando pelas pol\u00edticas de conten\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de tratamento.<br \/>\nPara se ter uma ideia do atual \u201cestado de sa\u00fade\u201d do continente onde a Covid-19 est\u00e1 ganhando for\u00e7a e como isto pode incidir numa din\u00e2mica completamente distinta no que se refere \u00e0 pandemia (na medida que o coronav\u00edrus interaja com estas enfermidades), basta um dado da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS): no mundo inteiro,\u00a0\u201cna Africa Subsaariana, quase 62% das mortes s\u00e3o resultado de doen\u00e7as transmiss\u00edveis, problemas nutricionais e problemas perinatais\/maternos; em compara\u00e7\u00e3o, a taxa global de mortes por essas causas \u00e9 de cerca de 23% e na Am\u00e9rica do Norte \u00e9 de apenas 6%\u201d.<br \/>\nO impacto que essas quest\u00f5es podem ter sobre a din\u00e2mica da pandemia pode ser exemplificado por um estudo feito por uma organiza\u00e7\u00e3o norte-americana chamada\u00a0Rand Corporation, que chegou \u00e0 conclus\u00e3o que, em 2016, dentre os 25 pa\u00edses do mundo mais suscet\u00edveis \u00e0 explos\u00e3o de epidemias, 22 estavam no continente africano (os outros tr\u00eas eram o Afeganist\u00e3o, o I\u00eamen e o Haiti).<br \/>\nComo exemplo das cru\u00e9is contradi\u00e7\u00f5es que caracterizam a hist\u00f3ria da \u00c1frica, segundo alguns especialistas, um dos \u00fanicos fatores \u201cpositivos\u201d que podem auxiliar na conten\u00e7\u00e3o da pandemia resultam dos graves e recorrentes problemas de sa\u00fade enfrentados no continente, a come\u00e7ar pela longa experi\u00eancia em controlar doen\u00e7as altamente infecciosas e potencialmente letais.<br \/>\nAl\u00e9m disso, muitos t\u00eam apostado na hip\u00f3tese de que, ao n\u00e3o ter, ainda, atingido o continente com a mesma for\u00e7a que em outros continentes, a pandemia possa ser enfrentada de uma forma mais eficiente, permitindo que governos, a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais e entidades dos movimentos sociais tomem provid\u00eancias mais adequadas. Uma hip\u00f3tese que, pelo menos no n\u00edvel governamental, est\u00e1 longe de ser real.<br \/>\n<strong>Morre-se muito mais cedo<\/strong><br \/>\nQuando a Covid-19 come\u00e7ou a se alastrar pelo mundo, por exemplo, n\u00e3o faltou gente na \u00c1frica (nos governos e na imprensa) que usou um argumento no m\u00ednimo irritante e hip\u00f3crita para defender que o v\u00edrus teria um impacto menos letal no continente: a \u00c1frica teria uma \u201cvantagem\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses j\u00e1 atingidos, pois tem menos idosos, setor onde o v\u00edrus demonstra maiores \u00edndices de letalidade (algo que, agora, tamb\u00e9m est\u00e1 sendo relativizado, mundo afora).<br \/>\nA afirma\u00e7\u00e3o tomava como base dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) que apontam que apenas 5% da cerca de 1,3 bilh\u00e3o de pessoas que vivem no continente t\u00eam mais de 65 anos, sendo que na \u00c1frica Subsaariana a taxa \u00e9 ainda menor (3%); enquanto na It\u00e1lia, por exemplo, a popula\u00e7\u00e3o acima desta idade corresponde a 22% do total. E, como se sabe, \u00e9 entre os italianos maiores de 60 anos que se encontra a maioria dos casos confirmados (60%) e a maior taxa de mortes (7% dos contaminados, o que representa o dobro da m\u00e9dia mundial).<br \/>\nContudo, celebrar isto como \u201cvantagem\u201d e\/ou minimizar os efeitos do v\u00edrus dentre os mais jovens \u00e9, ao mesmo tempo, um insulto \u00e0 hist\u00f3ria de sofrimentos no continente (a principal explica\u00e7\u00e3o para o porqu\u00ea de t\u00e3o poucos ultrapassarem a casa dos 65 anos).<br \/>\nPor isso mesmo, \u00e9 um crime fazer progn\u00f3sticos ou pautar pol\u00edticas p\u00fablicas baseadas nesta avalia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 exatamente dentre as crian\u00e7as e os jovens que existe uma quantidade gigantesca de pessoas mais vulner\u00e1veis ao v\u00edrus em fun\u00e7\u00e3o de j\u00e1 terem seus organismos debilitados pela desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, por outras doen\u00e7as (principalmente a AIDS, a mal\u00e1ria e a tuberculose) e, acima de tudo, pelos diversos problemas decorrentes do desamparo social que aumentou muit\u00edssimo nas \u00faltimas d\u00e9cadas em fun\u00e7\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o do receitu\u00e1rio neoliberal no continente. Algo particularmente dram\u00e1tico, como veremos, no pa\u00eds que, agora, \u00e9 o epicentro da pandemia, a \u00c1frica do Sul.<br \/>\n<strong>Epidemias em cima de epidemias<\/strong><br \/>\nNa atual situa\u00e7\u00e3o, um dos temas que mais tem sido debatido pelos especialistas em sa\u00fade e todos que realmente est\u00e3o preocupados com o impacto da pandemia na \u00c1frica \u00e9 a forma como a Covid-19 ir\u00e1 interagir com o HIV.<br \/>\nIremos voltar ao tema quando falarmos especificamente da \u00c1frica do Sul cujos n\u00fameros falam por si s\u00f3s. Somente no pa\u00eds, que \u00e9 o epicentro da pandemia da Covid-19, segundo o relat\u00f3rio, com dados de 2018, Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/AIDS (UNAIDS) existem 7,7 milh\u00f5es de pessoas vivendo com HIV; a cada ano h\u00e1 240 mil novos casos; somente naquele ano 71 mil pessoas morreram com doen\u00e7as relacionadas \u00e0 Aids e, assim como no resto do continente, acreditava-se que quase metade dos (as) portadores (as) n\u00e3o fazem qualquer tipo de tratamento antirretroviral.<br \/>\nMas, para se ter uma ideia da cat\u00e1strofe que pode vir \u00e0 tona no continente, vale checar alguns dados continentais, apresentados no mesmo relat\u00f3rio da UNAIDS. Em 2018, estimava-se\u00a0 que, ao redor do mundo, existiam 37,9 milh\u00f5es de pessoas vivendo com o HIV (incluindo 1,7 milh\u00e3o de crian\u00e7as) e nada menos que 68% delas viviam na \u00c1frica Subsaariana. E, dentro deste grupo, cerca de 20,6 milh\u00f5es s\u00e3o moradores dos pa\u00edses do Leste e do Sul da \u00c1frica, onde, somente em 2018, foram contabilizados 800 mil novos casos.<br \/>\nEstamos falando de 25,7 milh\u00f5es de pessoas que, neste exato momento, est\u00e3o vivendo com HIV nesta parte do continente africano (85% do territ\u00f3rio), sendo que, ainda segundo a OMS, 49% delas desconhecem sua condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e, consequentemente, n\u00e3o recebem o tratamento antirretroviral (conhecidos aqui, como \u201ccoquet\u00e9is\u201d), isto quando eles s\u00e3o oferecidos, algo que n\u00e3o \u00e9 generalizado no continente africano. A t\u00edtulo de exemplo, somente nos 25 pa\u00edses da \u00c1frica Central e Ocidental, mais de 4,5 milh\u00f5es, das 6,5 milh\u00f5es de pessoas que vivem com HIV na regi\u00e3o, continuam sem tratamento.<br \/>\nAs mesmas institui\u00e7\u00f5es indicam que a rela\u00e7\u00e3o do HIV com a possibilidade da Covid-19 se espalhar, com consequ\u00eancias fatais dentre os mais jovens (principalmente mulheres) \u00e9 particularmente concreta nesta regi\u00e3o, onde quatro de cada cinco novos casos de infec\u00e7\u00e3o envolvem garotas de 15 a 19 anos e as mulheres jovens de 15 a 24 anos t\u00eam duas vezes mais probabilidade de estar vivendo com o HIV do que os rapazes.<br \/>\nNa edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o da conceituada revista\u00a0\u201cScience\u201d, um artigo chamava a aten\u00e7\u00e3o para como a Covid-19 poderia se combinar de forma catastr\u00f3fica com as doen\u00e7as que j\u00e1 infestam o continente, principalmente as que afetam o sistema respirat\u00f3rio, como a tuberculose e o HIV, destacando que, no in\u00edcio de mar\u00e7o, um comunicado da Academia de Ci\u00eancias da \u00c1frica do Sul, alertou que\u00a0\u201cpessoas vivendo com HIV t\u00eam oito vezes mais chances de serem hospitalizadas com pneumonia causada pelo v\u00edrus da gripe do que a popula\u00e7\u00e3o em geral e tr\u00eas vezes mais probabilidade de morrer em fun\u00e7\u00e3o disto\u201d.<br \/>\nAl\u00e9m do HIV\/AIDS outras doen\u00e7as s\u00e3o cr\u00f4nicas e epid\u00eamicas no continente africano. E, agora, podem estar tendo uma intera\u00e7\u00e3o fatal com a Covid-19. Uma delas \u00e9 exemplar da forma desumana que o povo africano e tratado: a mal\u00e1ria. Apesar de existirem formas conhecidas de preven\u00e7\u00e3o e cura, esta doen\u00e7a ainda tem uma presen\u00e7a devastadora no continente africano sendo respons\u00e1vel, segundo a OMS, por absurdos 20% de todas mortes registradas entre as crian\u00e7as. Ainda segundo a entidade, em 2015, houve a notifica\u00e7\u00e3o de 212 milh\u00f5es de casos de mal\u00e1ria em todo mundo, que resultaram em 429 mil mortes. 90% dos casos e 92% dos mortos eram residentes da \u00c1frica.<br \/>\nA grande preocupa\u00e7\u00e3o dos especialistas, contudo, \u00e9 como a Covid-19 tem a ver com as chamadas \u201cinfec\u00e7\u00f5es do trato respirat\u00f3rio inferior\u201d, principalmente pneumonia, gripe, bronquite e tuberculose. Essas infec\u00e7\u00f5es virais ou bacterianas dos pulm\u00f5es (o \u00f3rg\u00e3o geralmente mais atingido pelo coronav\u00edrus) s\u00e3o a segunda causa de morte na \u00c1frica Subsaariana, representando cerca de 15% do total de mortes.<br \/>\nComo tamb\u00e9m, \u00e9 preciso considerar que, at\u00e9 hoje, h\u00e1 um forte impacto de epidemias mais \u201clocalizadas\u201d como o ebola que, entre 2013 e 2016, atingiu os pa\u00edses do Oeste Africano, provocando a morte de 11 mil pessoas e outras 28 mil infectadas, todas elas, hoje, muit\u00edssimo vulner\u00e1veis, diante da Covid-19.<br \/>\n<strong>Uma rede hospitalar doente<\/strong><br \/>\nAo redor do mundo, j\u00e1 est\u00e1 evidente que a \u00fanica forma de impedir que a Covid-19 provoque um processo de exterm\u00ednio \u00e9 a sua conten\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de medidas preventivas que impe\u00e7am\u00a0 o r\u00e1pido cont\u00e1gio. Mas, chega a ser enervante a forma como a imprensa vende a ideia de que esse \u00e9 o \u00fanico caminho porque\u00a0\u201c\u00e9 imposs\u00edvel que a rede hospitalar absorva a demanda\u201d.<br \/>\nQuando dizem isto, o que esquecem de mencionar \u00e9 que est\u00e1 impossibilidade foi elevada a um patamar absurdo em fun\u00e7\u00e3o dos ataques neoliberais ao sistema de sa\u00fade mundo afora que, literalmente, destru\u00edram o sistema p\u00fablico de sa\u00fade da maioria dos pa\u00edses, sucateou o pouco que restou e, ainda, detonou as condi\u00e7\u00f5es materiais e de trabalho no interior das unidades hospitalares. E tudo isto, hoje, est\u00e1 cobrando um pre\u00e7o alt\u00edssimo em termos de vidas humanas, at\u00e9 mesmo no chamado \u201cPrimeiro Mundo\u201d.<br \/>\nE a lament\u00e1vel especificidade da \u00c1frica \u00e9 que, para al\u00e9m das epidemias mencionadas acima, no campo da sa\u00fade, os problemas v\u00e3o de ponta a ponta. Se a preven\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil pelos muitos motivos que est\u00e3o sendo apresentados no decorrer destes artigos (inclusive a in\u00e9rcia e irresponsabilidade de muitos governos locais), a possibilidade de tratamento \u00e9 ainda pior, j\u00e1 que uma caracter\u00edstica do continente \u00e9 ter um sistema hospitalar completamente deficit\u00e1rio.<br \/>\nNos \u00faltimos dias, algumas das cenas que mais impactaram o mundo s\u00e3o as de hospitais italianos apinhados de gente e de caix\u00f5es se acumulando em sagu\u00f5es. E, aqui, tamb\u00e9m cabe uma compara\u00e7\u00e3o da OMS, para entender o que pode acontecer na \u00c1frica: no pa\u00eds europeu h\u00e1 41 m\u00e9dicos para cada 10 mil habitantes; em todo o continente africano, esta propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de dois m\u00e9dicos para cada 10 mil pessoas.<br \/>\n<strong>Sem leitos para tratamento intensivo<\/strong><br \/>\nUm artigo publicado, em 20 de mar\u00e7o, pelo jornal\u00a0\u201cThe Guardian\u201d, traz um diagn\u00f3stico perturbador em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade da rede de sa\u00fade do continente para absorver as demandas provocadas pela pandemia. Na \u00c1frica do Sul, o pa\u00eds com o terceiro maior PIB (Produto Interno Bruto) do continente, depois do Egito e da Nig\u00e9ria, e que \u00e9 considerado como o que tem o melhor sistema de sa\u00fade p\u00fablica no continente, existem menos de 1 mil leitos em UTIs, para uma popula\u00e7\u00e3o com cerca de 59 milh\u00f5es de habitantes, sendo 160 deles em hospitais privados, praticamente inacess\u00edveis para a enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo Mal\u00e1ui, pa\u00eds do sudoeste africano, com 17 milh\u00f5es de habitantes, h\u00e1 apenas 25 leitos de UTIs. No Zimbabu\u00e9 (tamb\u00e9m no Sudoeste, com cerca de 16 milh\u00f5es), o principal hospital para doen\u00e7as infecciosas, localizado na capital, tem apenas um leito.<br \/>\nA capacidade de isolamento e quarentena tamb\u00e9m \u00e9 extremamente limitada na maioria dos pa\u00edses. No Sud\u00e3o do Sul, al\u00e9m de todas complica\u00e7\u00f5es inerentes a um conflito que tem devastado o pa\u00eds nos \u00faltimos cinco anos, h\u00e1 apenas 24 leitos com condi\u00e7\u00f5es de isolamento, segundo Dr. Angok Gordon Kuol, indicado pelo governo para administrar a crise.<br \/>\nE o pior \u00e9 que, tamb\u00e9m diante desta situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel, a postura da maioria dos governantes \u00e9 caracterizada pela hipocrisia e pela farsa. Para dar um exemplo, em um artigo publicado pelo\u00a0The Guardian, o Ministro da Sa\u00fade da Som\u00e1lia, Dr Fawziya Abikar, disse que o governo est\u00e1 se preparando para montar um centro de quarentena no aeroporto da capital, Mogadisu, e est\u00e1 aguardando os equipamentos para montar um hospital espec\u00edfico para lidar com a Covid-19.<br \/>\nUma expectativa, contudo, que \u00e9 questionada at\u00e9 mesmo por membros da equipe montada para lidar com a pandemia, como o m\u00e9dico Ali Yusuf, que disse:\u00a0\u201cN\u00f3s temos apenas 15 tendas, com uma cama cada, para quarentena e isolamento de casos suspeitos. Nosso hospital pode acomodar somente 100 leitos\u201d.<br \/>\nA j\u00e1 mencionada edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o da revista\u00a0\u201cScience\u201d, tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o para um ensaio acad\u00eamico sobre unidades de terapia intensiva em pa\u00edses de baixa renda na \u00c1frica Oriental. Publicado em 2015, no\u00a0\u201cEast African Medical Journal\u201d\u00a0(Revista de Medicina da \u00c1frica Oriental\u201d), o levantamento revelou no Qu\u00eania, por exemplo, com 50 milh\u00f5es de habitantes, h\u00e1 apenas 130 leitos em UTIs e somente cerca de 200 enfermeiras especializadas em tratamento intensivo.<br \/>\nUma limita\u00e7\u00e3o que se repete em muitos pa\u00edses do continente, criando uma situa\u00e7\u00e3o que fez com que Ifedayo Adetifa, um epidemologista do centro internacional de pesquisa m\u00e9dica\u00a0KEMRI-Wellcome Trust\u00a0declarasse:\u00a0\u201csem assist\u00eancia m\u00e9dica universal e sem seguro de sa\u00fade, simplesmente n\u00e3o podemos nos dar ao luxo de ter muitos casos de COVID-19 porque n\u00e3o podemos gerenciar os casos mais graves\u201d\u00a0.<br \/>\nUm alerta que, inclusive, est\u00e1 sintonizado com o aprendizado fundamental que est\u00e1 surgindo no meio de tanto medo, caos e sofrimento: \u00e9 preciso reestatizar a rede hospitalar e tudo que tenha a ver com a Sa\u00fade.\u00a0 Uma tarefa colocada desde j\u00e1.<br \/>\n<strong>O risco para os profissionais de Sa\u00fade<\/strong><br \/>\nUma reportagem publicada em 20 de mar\u00e7o, no portal\u00a0\u201cNewsDay\u201d, do Zimbabwe, relata as enormes dificuldades que o pa\u00eds \u2013o mesmo onde a ministra respons\u00e1vel por combater a pandemia disse que a Covid-19 \u00e9 um \u201ccastigo de Deus\u201d contra seus inimigos \u2013 est\u00e1 tendo com a preven\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o da pandemia, a come\u00e7ar pelo fato de que o presidente Emmerson Mnangagwa s\u00f3 decretou Estado de Calamidade p\u00fablica depois de uma forte press\u00e3o popular. Mas, mesmo assim, relutou em fechar as escolas e universidades (o que s\u00f3 ocorreria depois do dia 24 de mar\u00e7o).<br \/>\nContudo, segundo os especialistas, os maiores problemas ainda est\u00e3o por vir e certamente vir\u00e3o, j\u00e1 que o pa\u00eds, al\u00e9m de fazer fronteira com a \u00c1frica do Sul, tem um hist\u00f3rico de enormes problemas na rede de Sa\u00fade. Segundo o m\u00e9dico e presidente da Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos e Odont\u00f3logos do Zimbabwe, Johannes Marisa, as unidades de sa\u00fade do pa\u00eds podem se transformadas em nada menos que\u00a0\u201ccampos de morte ou centros de contamina\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0com um v\u00edrus altamente transmiss\u00edvel como a Covid-19 se espalhando em cl\u00ednicas ou hospitais pouco capacitados.<br \/>\nUm perigo que, obviamente, afeta os profissionais de sa\u00fade:\u00a0\u201cSe um cuidado extra n\u00e3o for tomado, a equipe m\u00e9dica pode se tornar o pior grupo de pessoas a serem afetadas e isso ser\u00e1 uma cat\u00e1strofe m\u00e9dica em nosso pa\u00eds, pois a dissemina\u00e7\u00e3o pode ser incendi\u00e1ria, pois a maioria dos pacientes baseia suas esperan\u00e7as na equipe m\u00e9dica\u201d.\u00a0E se a It\u00e1lia serve como exemplo, cabe lembrar que, l\u00e1, 9% dos casos de Covid-19 est\u00e3o entre profissionais de sa\u00fade.<br \/>\nAinda segundo Marisa, a situa\u00e7\u00e3o pode ser exemplificada pela situa\u00e7\u00e3o no principal centro de isolamento do pa\u00eds, o Hospital Wilkins, onde\u00a0\u201cj\u00e1 faltam roupas de prote\u00e7\u00e3o para as equipes\u201d, mesmo depois de uma doa\u00e7\u00e3o feita, h\u00e1 apenas duas semanas, pela OMS.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o grave que uma semana depois desta entrevista (no dia 24 de mar\u00e7o, quando j\u00e1 havia a confirma\u00e7\u00e3o de sete casos de Covid -19), os profissionais da sa\u00fade zimbabuenses \u2013 m\u00e9dicos(as) e enfermeiras(as) \u2013 lan\u00e7aram um ultimato de 24 horas, exigindo que o governo tomasse provid\u00eancias b\u00e1sicas: treinamento adequado para que as\/os profissionais da categoria pudessem lidar com a pandemia e o equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI) fundamental para que possam exercer seu papel na linha de frente do combate \u00e0 pandemia.<br \/>\nAl\u00e9m disso, os profissionais tamb\u00e9m reivindicam condi\u00e7\u00f5es objetivas para que possam trabalhar, a come\u00e7ar uma ajuda de custo para que possam se locomover e cuidar de suas pr\u00f3prias necessidades b\u00e1sicas, a come\u00e7ar pelas de higiene. A campanha\u00a0\u201cSem EPI, sem trabalho; sem ajuda de custo, sem trabalho; sem \u00e1gua, sem trabalho\u201d\u00a0se alastrou pelo pa\u00eds e diante da recusa do governo em atender as demandas, os hospitais come\u00e7aram a parar no dia 26 de mar\u00e7o, e at\u00e9 o momento em que publicamos esta mat\u00e9ria, a situa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o havia sido resolvida.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que, agora, diz o governo, o que levou os (as) trabalhadores (as) ao movimento n\u00e3o foi um descaso para com a popula\u00e7\u00e3o. Muit\u00edssimo pelo contr\u00e1rio.<br \/>\nO compromisso dos profissionais de sa\u00fade com a tarefa que cumprem com uma seriedade rara de ser vista entre os governantes foi enfatizado por Zina Enock Dongo, presidente da entidade que organiza os(as) enfermeiros(as), em uma entrevista \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias Al Jazeera, em 25 de mar\u00e7o:\u00a0\u201c(\u2026)\u201cSe os enfermeiros atenderem a um paciente com COVID-19 sem uniformes de prote\u00e7\u00e3o, eles poder\u00e3o ser contaminados pelo v\u00edrus e, depois, embarcar no transporte p\u00fablico, onde infectar\u00e3o outros passageiros e a doen\u00e7a se espalhar\u00e1. Estamos dizendo para nos forne\u00e7am material de prote\u00e7\u00e3o antes que seja tarde demais\u201d.<br \/>\nDesnecess\u00e1rio reafirmar o que temos repetido no decorrer destes artigos: o Zimbabwe tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho para aqueles e aquelas que est\u00e3o na linha de frente.<br \/>\n<strong>Feridas hist\u00f3ricas<\/strong><br \/>\nPor fim, o continente africano n\u00e3o est\u00e1 infectado apenas com doen\u00e7as f\u00edsicas que potencializam a propaga\u00e7\u00e3o da pandemia. As heran\u00e7as da hist\u00f3ria que foram sintetizadas no in\u00edcio, se fazem presente em feridas abertas em quase todos pa\u00edses. E, todas elas, simultaneamente, facilitam a contamina\u00e7\u00e3o e dificultam a preven\u00e7\u00e3o e o tratamento.<br \/>\nSeria imposs\u00edvel, por exemplo, listar todos os conflitos armados que est\u00e3o em curso na \u00c1frica. H\u00e1 um pouco de tudo: disputas pol\u00edticas e inter\u00e9tnicas, lutas de resist\u00eancia \u00e0s interven\u00e7\u00f5es imperialistas (sempre disfar\u00e7adas de \u201cajuda humanit\u00e1ria\u201d), guerras alimentadas por fundamentalistas (n\u00e3o s\u00f3 isl\u00e2micos) e diversos confrontos que s\u00e3o resqu\u00edcios do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia.<br \/>\nMas, diante da pandemia, todas elas t\u00eam algo em comum, para al\u00e9m da enorme quantidade de mortos e feridos: h\u00e1 trincheiras por todos os lados, que podem funcionar como obst\u00e1culos para o acesso a enormes parcelas do territ\u00f3rio, tanto para a preven\u00e7\u00e3o quanto para o tratamento.<br \/>\nE, al\u00e9m disso, h\u00e1 outro terr\u00edvel subproduto desta situa\u00e7\u00e3o: uma quantidade imposs\u00edvel de ser definida de refugiados, muitos deles amontoados em acampamentos que rapidamente, a pandemia de Covid-19 pode transformar em um \u201ccampo de exterm\u00ednio\u201d.<br \/>\nEstes refugiados foram obrigados a sair de suas terras natais tanto por quest\u00f5es econ\u00f4micas quanto militares (ou, ainda, pol\u00edticas, \u201cculturais\u201d e\/ou sociais), mas, para se ter uma ideia, da quantidade de gente nesta situa\u00e7\u00e3o, basta dizer que, segundo o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (ACNUR), em 2017, somente os conflitos na Rep\u00fablica Central Africana \u201cproduziram\u201d 500 mil refugiados, que se espalharam por toda a regi\u00e3o.<br \/>\nJuntem-se a isto processos que ocorreram ou est\u00e3o em curso principalmente no Sud\u00e3o do Sul, Nig\u00e9ria e Burundi e temos, hoje, ainda segundo a ACNUR, nada menos que 18 milh\u00f5es de refugiados na regi\u00e3o da \u00c1frica Subsaariana (26% do total mundial).<br \/>\nTodos os fatores acima dificultam a preven\u00e7\u00e3o e favorecem a propaga\u00e7\u00e3o da pandemia e, exatamente por isso, sinalizam para a necessidade de um cuidado especial com as condi\u00e7\u00f5es de tratamento das pessoas que venham a contrair o v\u00edrus. E, tamb\u00e9m, neste sentido, na \u00c1frica, estamos diante da possibilidade de vermos nas pr\u00f3ximas semanas cenas ainda mais terr\u00edveis do que os horrores que j\u00e1 vimos nos hospitais da China, da It\u00e1lia e da Espanha.<br \/>\nEste \u00e9 o quarto artigo <em>de um especial, com seis artigos, sobre o impacto da Covid-19 no continente africano.\u00a0Acesse os demais artigos em:<\/em><br \/>\n<em>Introdu\u00e7\u00e3o: <\/em><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/africa\/especial-coronavirus-e-africa\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/mundo\/africa\/especial-coronavirus-e-africa\/<\/a><br \/>\nArtigo 1 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/covid-19-na-africa-uma-bomba-relogio-um-terreno-minado\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/covid-19-na-africa-uma-bomba-relogio-um-terreno-minado\/<\/a><br \/>\nArtigo 2 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/uma-bomba-prestes-a-explodir-do-norte-ao-sul-da-africa\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/uma-bomba-prestes-a-explodir-do-norte-ao-sul-da-africa\/<\/a><br \/>\nArtigo 3 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/governos-africanos-e-prevencao-do-covid-19-hipocrisia-e-irresponsabilidade\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/especiais\/coronavirus\/governos-africanos-e-prevencao-do-covid-19-hipocrisia-e-irresponsabilidade\/<\/a><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O r\u00e1pido aumento de casos confirmados de Covid-19 que vimos na \u00c1frica, na \u00faltima semana, a din\u00e2mica que a pandemia ter\u00e1, e as poss\u00edveis consequ\u00eancias em termos de vidas humanas, t\u00eam que ser analisadas de um ponto de vista um tanto diferente daquele que vemos acerca da lament\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como a It\u00e1lia e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":32653,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,30],"tags":[5178,735],"class_list":["post-32652","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-coronavirus","tag-coronavirus-africa","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Africa.jpg","categories_names":["\u00c1frica","Pandemia"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32652"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32652\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}