{"id":32414,"date":"2020-04-02T11:03:13","date_gmt":"2020-04-02T13:03:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=32414"},"modified":"2020-04-02T11:03:13","modified_gmt":"2020-04-02T13:03:13","slug":"portugal-como-vencer-o-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/04\/02\/portugal-como-vencer-o-racismo\/","title":{"rendered":"Portugal &#124; Como vencer o\u00a0racismo?"},"content":{"rendered":"<p><em>Muitos negros e negras que residem em Portugal sabem que o racismo, nas suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma dura realidade nas suas vidas: causa injusti\u00e7as, humilha\u00e7\u00f5es e atos de viol\u00eancia f\u00edsica que podem levar \u00e0 morte.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Em Luta &#8211; Portugal<br \/>\nEst\u00e3o cansados da impunidade que absolve os crimes racistas, uma impunidade patrocinada por organismos do Estado, que se recusam a investigar as den\u00fancias que lhes chegam \u00e0s m\u00e3os. Muitas das negras e negros que aqui nasceram ou escolheram Portugal para viver est\u00e3o fartos de ouvir dizer, a cada instante, que o racismo n\u00e3o existe, ao mesmo tempo em que s\u00e3o injuriados, humilhados e agredidos nas ruas, nos locais de trabalho, nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e durante os seus momentos de lazer.<br \/>\nAs not\u00edcias em torno da violenta agress\u00e3o e posterior morte de Lu\u00eds Giovani, em Bragan\u00e7a, no final do ano passado, e do ato de brutalidade policial que foi infligido a Cl\u00e1udia Sim\u00f5es, na Amadora, fizeram soar o alerta. A comunidade negra ocupou as ruas num grito de revolta por mais justi\u00e7a e pelo fim da impunidade dos crimes racistas. Estas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o demonstrativas de um estado de vigil\u00e2ncia e de um \u00e2nimo para a luta que n\u00e3o esmorece perante o profundo descontentamento face \u00e0 aus\u00eancia de melhorias de fundo, apesar de algumas melhorias registadas fruto dessas mesmas mobiliza\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMuitos de n\u00f3s, negros e afrodescendentes que residem em Portugal, o pa\u00eds que ocupou e saqueou a terra dos nossos pais, est\u00e3o cientes da urg\u00eancia do combate ao racismo. Mas ser\u00e1 que estamos de acordo quanto aos caminhos que devem ser trilhados?<br \/>\n<strong>Ser\u00e1 o empoderamento negro a solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFoi saudada como um marco na hist\u00f3ria pol\u00edtica de Portugal a elei\u00e7\u00e3o, em outubro passado, de tr\u00eas mulheres negras para o Parlamento, a saber: Beatriz Gomes pelo BE, Joacine Katar Moreira pelo LIVRE e Romualda Fernandes pelo PS. Este momento representou um pequenino e simb\u00f3lico passo numa longa luta contra a invisibilidade na sociedade portuguesa, que est\u00e1 muito longe de ser ganha. Negras e negros aspiram a aceder a lugares de decis\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica, \u00e0 efetiva relev\u00e2ncia no panorama cultural, enfim, \u00e0 visibilidade no conjunto da sociedade. N\u00f3s no Em Luta consideramos estas aspira\u00e7\u00f5es porque elas expressam uma natural vontade de afirma\u00e7\u00e3o da dignidade da mulher e do homem negros em sociedades profundamente racistas. Mas estas demandas, que correspondem a um desejo de empoderamento, n\u00e3o respondem \u00e0s causas do racismo estrutural.<br \/>\nTomemos como exemplo o caso de Isabel dos Santos, a multimilion\u00e1ria angolana entretanto ca\u00edda em desgra\u00e7a: esta filha de Jos\u00e9 Eduardo dos Santos e do regime corrupto que o ex-presidente angolano ajudou a perpetuar, teve, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, uma participa\u00e7\u00e3o na empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es NOS. Tal significa que a empres\u00e1ria negra tirou dividendos de uma companhia \u00a0altamente lucrativa, mas que explora trabalhadores prec\u00e1rios, alguns deles negros.<br \/>\nQuer Isabel dos Santos, quer os trabalhadores negros prec\u00e1rios da NOS sofrem de racismo quotidiano. Mas Isabel dos Santos beneficia diretamente da explora\u00e7\u00e3o que \u00e9 infligida a todos os trabalhadores da NOS, efetivos e prec\u00e1rios, brancos e negros, homens e mulheres. E o racismo, ao explicar uma pretensa inferioridade das pessoas negras face \u00e0s pessoas brancas, ajuda a justificar os sal\u00e1rios mais baixos e as piores condi\u00e7\u00f5es de vida de negros e negras.<br \/>\nAo colocar trabalhadores brancos contra trabalhadores negros, o racismo semeia a desuni\u00e3o e facilita a explora\u00e7\u00e3o de todos eles. Isabel dos Santos, embora sofra de racismo, tira proveito do racismo que afeta os seus trabalhadores negros da NOS. Daqui se conclui que h\u00e1 diferen\u00e7as \u2013 e grandes \u2013 entre Isabel dos Santos e os trabalhadores negros da NOS. N\u00e3o estamos do mesmo lado.<br \/>\n<strong>Um caminho para derrotar o racismo<\/strong><br \/>\nAcabar com o racismo \u00e9 um combate de todos os dias, necess\u00e1rio para construir uma sociedade mais justa, onde fortunas obscenas como a de Isabel dos Santos e de outros capitalistas deixem de existir.<br \/>\nO racismo divide os trabalhadores, justificando assim inferiorizar e explorar mais uma parte deles. Mas com isso rebaixa as condi\u00e7\u00f5es do conjunto dos trabalhadores: \u201cse tu n\u00e3o aceitares estas condi\u00e7\u00f5es, haver\u00e1 quem queira\u201d. Por isso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acabar com o racismo dentro da sociedade capitalista, pois este sistema utiliza o racismo para explorar ainda mais o conjunto da classe trabalhadora.<br \/>\nPor outro lado, o capitalismo utiliza tamb\u00e9m o racismo para impedir que os trabalhadores se unam para lutar contra os patr\u00f5es e o sistema de explora\u00e7\u00e3o. Dando-lhe uma falsa ilus\u00e3o de perten\u00e7a ao grupo privilegiado, faz o trabalhador branco pensar que tem mais unidade com o patr\u00e3o branco do que com o trabalhador negro, que seria o ser \u201ccompetidor e inimigo\u201d. Assim, o racismo \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um mecanismo de opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o sobre os negros, mas tamb\u00e9m um mecanismo de aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador branco, que o impede de ganhar consci\u00eancia de classe e unir-se ao trabalhador negro para junto derrotarem os seus exploradores e o sistema capitalista.<br \/>\nO Em Luta considera que o combate ao racismo interessa aos trabalhadores e deve envolver o conjunto da classe. Os que trabalham devem mobilizar-se pela conquista do direito \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, pelo fim da precariedade, por melhores sal\u00e1rios, pelo fim da brutalidade policial racista e por uma pol\u00edtica de repara\u00e7\u00f5es que compense a popula\u00e7\u00e3o negra e afrodescendente que carrega consigo as sequelas do colonialismo. Na sociedade socialista que queremos construir, a classe trabalhadora \u2013 negra e branca \u2013 tomar\u00e1 o poder para que a riqueza por si produzida seja colocada \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o e usada em seu benef\u00edcio.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos negros e negras que residem em Portugal sabem que o racismo, nas suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma dura realidade nas suas vidas: causa injusti\u00e7as, humilha\u00e7\u00f5es e atos de viol\u00eancia f\u00edsica que podem levar \u00e0 morte.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":32415,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3501,140,1018],"tags":[1949,258],"class_list":["post-32414","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-negras-os","category-portugal","category-racismo","tag-em-luta-portugal","tag-racismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/racism-900x380-1.jpg","categories_names":["Negras\/os","Portugal","Racismo"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32414","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32414"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32414\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32415"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}