{"id":31964,"date":"2020-03-10T14:43:44","date_gmt":"2020-03-10T16:43:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31964"},"modified":"2020-03-10T14:43:44","modified_gmt":"2020-03-10T16:43:44","slug":"pela-socializacao-das-tarefas-domesticas-e-de-cuidados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/03\/10\/pela-socializacao-das-tarefas-domesticas-e-de-cuidados\/","title":{"rendered":"Pela socializa\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas e de cuidados"},"content":{"rendered":"<p><em>A convoca\u00e7\u00e3o de Ni Uma Menos na Argentina para a quarta Paraliza\u00e7\u00e3o Internacional Feminista como Greve \u201cprodutiva e reprodutiva\u201d, entre outros consignas, mais uma vez coloca em discuss\u00e3o um antigo debate sobre o movimento mundial das mulheres: desde a campanha Sal\u00e1rio para Trabalho Dom\u00e9stico de 1972 [1] at\u00e9 o governo de Alberto Fern\u00e1ndez, passando pela CTEP e outres, o debate est\u00e1 aberto. Quais s\u00e3o essas tarefas &#8220;reprodutivas&#8221;, tarefas dom\u00e9sticas e de cuidados? Como as mulheres podem se livrar desse jugo? Dever\u00edamos reivindicar um \u201csal\u00e1rio\u201d em troca de continuar fazendo ou o Estado deveria se encarregar de sua realiza\u00e7\u00e3o?<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Secretaria da Mulher \/ PSTU-Argentina<br \/>\n<strong>Escravid\u00e3o dom\u00e9stica<\/strong><br \/>\n&#8220;O que chamam de amor \u00e9 trabalho n\u00e3o remunerado&#8221; [2], uma frase que lemos hoje em v\u00e1rios muros do mundo, refere-se a esse problema: as mulheres continuam sendo as que garantem as tarefas dom\u00e9sticas, as tarefas de cuidar das crian\u00e7as e idosos, doentes, em resumo: parece que temos um dom natural para cuidar dessas tarefas, ao mesmo tempo em que fazemos v\u00e1rias outras.<br \/>\nMesmo se trabalhamos fora de casa, estudamos ou tudo ao mesmo tempo, essas tarefas est\u00e3o no esperando quando chegamos em casa. Mesmo tendo um companheiro para &#8220;ajudar&#8221;, o fardo mental da organiza\u00e7\u00e3o e a garantia que sejam realizados continua sendo nossa tarefa. Nesse sentido, a distribui\u00e7\u00e3o dessas tarefas \u00e9 de 86,3% para mulheres e 41% para homens [3], sendo quase absolutamente respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o das tarefas e conten\u00e7\u00e3o afetiva do grupo familiar [4]<br \/>\n<strong>Trabalho e capital<\/strong><br \/>\nDo ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas, o trabalho dom\u00e9stico produz bens e servi\u00e7os consumidos pelo assalariado e que ajudam a reproduzir a for\u00e7a de trabalho. Ou seja, a sobreviv\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para quem deve retornar ao trabalho no dia seguinte (mesmo que seja a pr\u00f3pria mulher que deve faz\u00ea-lo). Mas, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 um trabalho que implica explora\u00e7\u00e3o, mas opress\u00e3o, pois n\u00e3o produz mais valor que fica nas m\u00e3os do capitalista, pois n\u00e3o \u00e9 um trabalho em rela\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o externa da casa. Nem tem valor ou pre\u00e7o. A menos que esse trabalho seja feito fora de casa e em rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia.<br \/>\nO governo Fern\u00e1ndez coloca a quest\u00e3o adotando a proposta de organiza\u00e7\u00f5es como a CTEP, que garante que as tarefas de cuidados sejam realizadas nos bairros por mulheres organizadas e que o Estado deve se responsabilizar por essas tarefas, assumindo em suas m\u00e3os e pagando um sal\u00e1rio. (AUH por exemplo) para aqueles que realizam essa tarefa todos os dias, mas organizados em cooperativas. As pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es feministas reivindicam, como vemos h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, um sal\u00e1rio em troca dessas tarefas, mas isso implica que continuemos realizando-as.<br \/>\nNos dois sentidos, naturaliza-se a ideia de que o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados \u00e9 uma tarefa feminina. De nossa parte, as consideramos tarefas opressivas, embrutecedoras e escravizadoras que, quando realizadas dentro da fam\u00edlia, reproduzem-se dia ap\u00f3s dia at\u00e9 o infinito e impedem as mulheres de se organizarem, socializarem com companheires em estruturas de trabalho coletivas e , portanto, dar um passo pol\u00edtico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 independ\u00eancia dessas tarefas e para uma sociedade sem opress\u00e3o ou explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nConcordamos que o Estado deve garantir a realiza\u00e7\u00e3o dessas tarefas, mas chegamos a uma conclus\u00e3o totalmente diferente da CTEP. Que essas tarefas continuem sendo do dom\u00ednio das mulheres nos bairros, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, sem o treinamento necess\u00e1rio e em troca de apenas um subs\u00eddio ou a AUH \u00e9 um trabalho prec\u00e1rio, pauperiza\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios de quem realiza essas tarefas sob uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia. Essa &#8220;sa\u00edda&#8221; isenta o Estado e os empres\u00e1rios de duas coisas b\u00e1sicas: garantir trabalho genu\u00edno, formal e com sal\u00e1rio igual \u00e0 cesta da fam\u00edlia para todas as mulheres em idade ativa, por um lado, e por outro lado, isenta garantir vagas nas creches e jardins de inf\u00e2ncia, restaurantes populares, etc. para que possamos ir trabalhar.<br \/>\n<strong>Sim, foi poss\u00edvel<\/strong><br \/>\nExiste apenas um exemplo hist\u00f3rico de um Estado que assumiu as tarefas dom\u00e9sticas e de cuidados em suas m\u00e3os: o Estado Oper\u00e1rio que surgiu ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa em 1917. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, foram abolidas as leis que colocavam as mulheres em situa\u00e7\u00e3o de desvantagem em rela\u00e7\u00e3o aos homens e foram liberadas das tarefas dom\u00e9sticas com a cria\u00e7\u00e3o de lavanderias, restaurantes, creches e todos os tipos de institui\u00e7\u00f5es que garantiam que as mulheres pudessem realizar outras tarefas relacionadas \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do Estado Oper\u00e1rio e tarefas na produ\u00e7\u00e3o [5].<br \/>\nClaramente, este n\u00e3o \u00e9 o Plano CTEP nem o plano feminista que exige um sal\u00e1rio para tornar vis\u00edvel a exist\u00eancia de trabalho dom\u00e9stico. Portanto, nem uma nem a outra op\u00e7\u00e3o s\u00e3o sa\u00eddas para a situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o que sofremos.<br \/>\n<strong>Uma sa\u00edda de fundo<\/strong><br \/>\n\u00c9 essencial que as mulheres e a classe trabalhadora como um todo exijam que o Estado socialize as tarefas dom\u00e9sticas e de cuidados, retirando-as da \u00f3rbita do privado, destinando or\u00e7amento necess\u00e1rio para a cria\u00e7\u00e3o de todo tipo de institui\u00e7\u00f5es que garantam essas tarefas, j\u00e1 que somente a partir disso, as mulheres podem se libertar das correntes individuais que nos atam e que servem ao capitalismo para investir menos dinheiro na sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias trabalhadoras.<br \/>\n\u00c9 precisamente por isso que n\u00e3o acreditamos que um estado que beneficie apenas a classe mais poderosa, os capitalistas, que s\u00e3o donos de tudo no mundo, possa ou queira faz\u00ea-lo. E neste sistema tamb\u00e9m n\u00e3o podemos acabar com o machismo ou a explora\u00e7\u00e3o. Somente um Estado Oper\u00e1rio a caminho de uma sociedade socialista, como na R\u00fassia nos primeiros anos ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 capaz de realizar essa tarefa.<br \/>\nEnquanto constru\u00edmos as ferramentas pol\u00edticas para que a classe trabalhadora tome as r\u00e9deas de nossos pa\u00edses e destrua o capitalismo explorador e opressivo, temos que lutar por qualquer reivindica\u00e7\u00e3o que ajude a valorizar esse trabalho, como pagamentos adicionais para tarefas dom\u00e9sticas, subs\u00eddios para os filhos\/as dentro do sal\u00e1rio pago por qualquer trabalho realizado fora de casa. E, \u00e9 claro, realizar uma luta firme pela cria\u00e7\u00e3o de creches e salas maternas em cada local de trabalho ou estudo, casas de repouso estatais para idosos, redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para m\u00e3es e pais, al\u00e9m da extens\u00e3o das licen\u00e7as de maternidade e paternidade, especialmente na primeira inf\u00e2ncia de crian\u00e7as.<br \/>\nEnquanto isso, tudo o que podemos arrancar do Estado hoje serve para que as mulheres tenham um pouco mais de tempo e melhores condi\u00e7\u00f5es para construir uma alternativa pol\u00edtica ao socialismo, o \u00fanico sistema em que podemos realmente estar livres de toda explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, desfrutando de uma vida plena com nossos companheires trabalhadores, sem ataduras individuais ou tarefas est\u00fapidas.<br \/>\nNotas:<br \/>\n[1] &#8220;Zero Point Revolution&#8221; Trabalho dom\u00e9stico, reprodu\u00e7\u00e3o e lutas feministas. 2013<br \/>\n[2] Idem.<br \/>\n[3] https:\/\/www.telam.com.ar\/notas\/201906\/371475-informe-uca-trabajo-mercado-laboral-emplea-tareas-domesticas-mujeres-varones.html<br \/>\n[4] https:\/\/www.clarin.com\/entremujeres\/genero\/trabajo-domestico-invisible-deteriora-bienestar-salud-mental-mujeres_0_Gx_tyhz0z.html<br \/>\n[5] &#8220;G\u00eanero e classe&#8221; Cecilia Toledo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A convoca\u00e7\u00e3o de Ni Uma Menos na Argentina para a quarta Paraliza\u00e7\u00e3o Internacional Feminista como Greve \u201cprodutiva e reprodutiva\u201d, entre outros consignas, mais uma vez coloca em discuss\u00e3o um antigo debate sobre o movimento mundial das mulheres: desde a campanha Sal\u00e1rio para Trabalho Dom\u00e9stico de 1972 [1] at\u00e9 o governo de Alberto Fern\u00e1ndez, passando pela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":31965,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4855,94,3493],"tags":[394,3494,5081,5044],"class_list":["post-31964","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-8m-2020","category-argentina","category-mulheres","tag-8m-2020","tag-mulheres","tag-secretaria-de-mulheres-pstu-a","tag-tarefas-domesticas"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Lucha-Mujer.jpg","categories_names":["8M 2020","Argentina","Mulheres"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31964\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31965"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}