{"id":31650,"date":"2020-02-26T13:21:04","date_gmt":"2020-02-26T15:21:04","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31650"},"modified":"2020-02-26T13:21:04","modified_gmt":"2020-02-26T15:21:04","slug":"entrevista-a-luta-contra-a-reforma-da-previdencia-na-franca-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/02\/26\/entrevista-a-luta-contra-a-reforma-da-previdencia-na-franca-continua\/","title":{"rendered":"Entrevista &#124; A luta contra a Reforma da Previd\u00eancia na Fran\u00e7a continua"},"content":{"rendered":"<p><em>A luta dos trabalhadores e da juventude francesa contra a Reforma da Previd\u00eancia de Macron \u00e9 um exemplo, numa Uni\u00e3o Europeia (UE) em que em todo o lado se procura destruir o direito a uma aposentadoria digna. O\u00a0<\/em><em style=\"font-weight: inherit;\">Em Luta<\/em><em>\u00a0entrevistou o professor e ativista Philippe Degrave, da Tend\u00eancia ARC (<a href=\"https:\/\/tendanceclaire.org\/article.php?id=1594\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alternative R\u00e9volutionnaire Communiste<\/a>) do NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste).<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>Em que consiste a reforma da Previd\u00eancia de Macron?<\/strong><br \/>\nMacron e o patronato atr\u00e1s dele querem acabar com todas as conquistas sociais francesas que surgiram depois da Segunda Guerra Mundial e, em particular, toda a Seguran\u00e7a Social solid\u00e1ria (prote\u00e7\u00e3o contra doen\u00e7a, desemprego, abono de fam\u00edlia\u00a0 e sistema de aposentadoria \u00a0em regime de reparti\u00e7\u00e3o). Macron e a grande burguesia, assim como as principais cabe\u00e7as da Uni\u00e3o Europeia (UE), do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), etc., querem substituir este sistema solid\u00e1rio por um novo sistema \u201cuniversal\u201d por pontos, individualista.<br \/>\nO \u00e2ngulo de abordagem escolhido por Macron e os seus conselheiros foi acabar com a multiplicidade de \u201cregimes especiais\u201d de aposentadorias, com uma pretensa \u201cvontade igualit\u00e1ria\u201d. Existem em Fran\u00e7a uns 42 \u201cregimes especiais\u201d de aposentadorias, herdados na maioria dos casos das lutas de v\u00e1rios setores da classe trabalhadora no passado. Muitos dos regimes especiais de que beneficiam setores (geralmente mais organizados) da classe trabalhadora \u2013 entre eles o direito a aposentar-se mais cedo, antes dos 60 anos \u2013 foram conquistas para compensar o ritmo e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho muito duras. Isto refere-se, em especial, aos ferrovi\u00e1rios (SNCF), aos assalariados de transportes p\u00fablicos urbanos (em Paris, RATP) ou aos eletricistas. Na verdade, esses regimes especiais j\u00e1 foram atacados no passado por Sarkozy, particularmente quanto \u00e0 idade m\u00ednima de aposentadoria.<br \/>\nMacron pretende acabar com tudo isto e prop\u00f5e um sistema por pontos, do tipo do que foi implementado na Su\u00e9cia: por cada euro de sal\u00e1rio recebido ao longo da carreira da pessoa, um n\u00famero de pontos iguais para todos os assalariados. Inicialmente Macron e os media do sistema conseguiram fazer crer \u00e0 maioria do povo que ia ser mais justo. Mas pouco a pouco, as pessoas perceberam que iam amea\u00e7ar as suas aposentadorias. A publica\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio entregue por JP Delevoye ao Governo, definida como uma base concreta para a reforma, revelou o perigo que era para quase todos os setores da classe trabalhadora. N\u00e3o se trata somente de acabar com os regimes especiais, mas sobretudo de baixar massivamente o n\u00edvel geral das aposentadorias. \u00c9 um projeto bastante complexo, mas os elementos chave fazem com que, se Macron prevalecer, o ataque atual desemboque num retrocesso social maior, em valores muito diminu\u00eddos e at\u00e9 aposentadorias de fome para muitos trabalhadores. O projeto cont\u00e9m os pontos seguintes:<\/p>\n<ul>\n<li>O projeto Delevoye, cuja implementa\u00e7\u00e3o foi anunciada pelo primeiro-ministro Edouard Philippe em 11 de dezembro, define um limite de 13,8% do PIB a n\u00e3o ultrapassar; mas como o peso das gera\u00e7\u00f5es mais idosas vai aumentar nos pr\u00f3ximos anos, isso significa aposentadorias reduzidas para cada um de n\u00f3s.<\/li>\n<li>O valor do ponto de aposentaodria vai flutuar e \u00e9 concebido para equilibrar o or\u00e7amento p\u00fablico; assim, ningu\u00e9m saber\u00e1 mais com quanto dinheiro poder\u00e1 contar depois de se ter aposentado, j\u00e1 que o valor do ponto ser\u00e1 uma decis\u00e3o pol\u00edtica (e na Su\u00e9cia, pa\u00eds de refer\u00eancia, v\u00e1rias vezes o Governo baixou o ponto\u2026). Ent\u00e3o, al\u00e9m da incerteza sobre o valor de aposentadoria a esperar, parece muito prov\u00e1vel que, para implementar a austeridade, para financiar opera\u00e7\u00f5es militares ou qualquer outro motivo vinculado \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, o valor do ponto tender\u00e1 a baixar.<\/li>\n<li>Para calcular o n\u00famero de pontos acumulados para se aposentar s\u00f3 ser\u00e3o levados em conta os meses e anos efetivamente trabalhados e o per\u00edodo de refer\u00eancia muda qualitativamente: enquanto que agora o per\u00edodo de refer\u00eancia para calcular as aposentadorias \u00e9 os seis \u00faltimos meses no setor p\u00fablico e os 25 melhores anos no setor privado, com o projeto, o per\u00edodo de refer\u00eancia passar\u00e1 a ser toda a carreira do indiv\u00edduo, inclusive os primeiros anos (quase sempre muito mal pagos e prec\u00e1rios), o que logicamente influenciar\u00e1 no sentido de reduzir as aposentadorias. Consequentemente, os trabalhadores com carreiras \u201ccom buracos\u201d (per\u00edodos de desemprego ou inatividade profissional por v\u00e1rios motivos), e particularmente as mulheres gr\u00e1vidas que criam os seus filhos antes de voltarem (ou n\u00e3o) ao trabalho, estariam entre as maiores v\u00edtimas do novo sistema.<\/li>\n<li>O novo sistema seria injusto tamb\u00e9m pelo motivo de que at\u00e9 10\u00a0000\u20ac de sal\u00e1rio por m\u00eas o n\u00edvel de contribui\u00e7\u00e3o para financiar as aposentadorias sobre o sal\u00e1rio seria de 28%, embora acima dos 10\u00a0000\u20ac, ficaria s\u00f3 de 2,8%! Ent\u00e3o os executivos que t\u00eam um sal\u00e1rio alto e muitos pr\u00e9mios contribuir\u00e3o quase nada acima daquele montante, e ser\u00e3o os assalariados mais modestos que ter\u00e3o que compensar.<\/li>\n<li>Como se n\u00e3o fosse suficiente, para esmagar as aposentadorias da quase totalidade dos assalariados, o Governo Macron introduziu uma \u201cidade de refer\u00eancia\u201d. Consequentemente, os trabalhadores poder\u00e3o (at\u00e9 quando?) aposentar-se a partir dos 62 anos, mas com perdas adicionais \u00e0s j\u00e1 causadas pelas medidas apresentadas acima. Teriam que trabalhar at\u00e9 aos 64 anos (e depois 65, etc.) para n\u00e3o terem a aposentadoria amputada por penalidades financeiras. Para se ter uma ideia: professores de col\u00e9gios ou de escolas prim\u00e1rias sofreriam uma perda de 30% at\u00e9 40%, comparando com as aposentadorias com que podem contar agora.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Como se organizou a resist\u00eancia at\u00e9 agora?<\/strong><br \/>\nFoi dif\u00edcil, sobretudo no in\u00edcio!<br \/>\nA rea\u00e7\u00e3o sindical na sequ\u00eancia do an\u00fancio do relat\u00f3rio de Delevoye foi lament\u00e1vel, deixando de lado as centrais mais neoliberais (CFDT, UNSA nacional).\u00a0Houve oposi\u00e7\u00e3o (verbal) da maioria das outras centrais (CGT, FO, FSU, Solidaires, CFE-CGC), mas, em setembro, a organiza\u00e7\u00e3o da luta contra o projeto foi dividida em diversos momentos, quase com uma greve setorial diferente por dia\u2026<br \/>\nNesse quadro, um dia de paralisa\u00e7\u00e3o no setor da RATP (transportes p\u00fablicos parisienses) teve um destino bem particular. A 13 de setembro, entre 90% e 100% dos trabalhadores da RATP fizeram greve, paralisando totalmente a rede de transportes p\u00fablicos na capital. Depois disso, os sindicatos desse setor decidiram organizar uma greve ilimitada (por tempo indeterminado, Ndt.) at\u00e9 \u00e0 retirada do projeto e definiram a data: 5 de dezembro de 2019. Esse chamado a uma greve total de um setor que n\u00e3o se movia desde 2007 (anterior ataque de Sarkozy \u00e0s aposentaodrias, teve consequ\u00eancias: o Sud Rail lan\u00e7ou a palavra de ordem de greve ilimitada na SNCF (transportes ferrovi\u00e1rios nacionais) tamb\u00e9m a partir do dia 5.<br \/>\nPouco a pouco, outras centrais sindicais presentes na SNCF (ferrovi\u00e1rios), com a press\u00e3o da base, tamb\u00e9m chamaram \u00e0 greve ilimitada.<br \/>\nOutros reagrupamentos intersindicais (por exemplo, a educa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o de Nanterre, oeste de Paris), federa\u00e7\u00f5es ou uni\u00f5es regionais e locais (CGT particularmente, no setor da industria qu\u00edmica, dos eletricistas, ou a n\u00edvel interprofissional na regi\u00e3o de Marseille), os camionistas da CGT e FO, tamb\u00e9m chamavam para uma greve no dia 5 e depois.\u00a0Houve muitos chamados assim, o que permitiu esperar a constru\u00e7\u00e3o de uma greve realmente geral ilimitada a partir do dia 5\/12.<br \/>\n<strong>Qual tem sido o papel das principais organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais dos trabalhadores neste conflito?<\/strong><br \/>\nTem sido lament\u00e1vel, mais uma vez!<br \/>\nA n\u00edvel sindical, deixamos de lado os traidores abertos e tradicionais das centrais CFDT e UNSA. Formou-se uma intersindical \u201cde oposi\u00e7\u00e3o\u201d ao projeto de reforma composta pela CGT, FO, CFE-CGC (executivos), Solidaires, UNEF (estudantes), MNL e UNL (estudantes de ensino secund\u00e1rio), que se reuniram v\u00e1rias vezes antes de 5\/12 e acabaram por chamar a um dia de greve geral interprofissional nesse mesmo dia, sem dizer nada sobre a continuidade da greve.<br \/>\nA maior surpresa do Governo foi que n\u00e3o foram s\u00f3 os empregados da SNCF e da RATP que fizeram massivamente greve nesse dia, mas tamb\u00e9m outros setores, particularmente os professores do 1\u00ba e 2\u00ba ciclo (65% globalmente segundo os sindicatos, com muitas escolas fechadas; a maior mobiliza\u00e7\u00e3o do setor da educa\u00e7\u00e3o desde 2003). Os sindicatos contaram 1,5 milh\u00f5es de manifestantes na rua em todo o pa\u00eds.<br \/>\nMas, infelizmente, a Intersindical deixou os grevistas da SNCF e da RATP durante 12 dias sem perspectivas de extens\u00e3o da greve e marcou o segundo dia de greve interprofissional nacional apenas para o dia 17\/12. Globalmente, o dia 17\/12 foi mais forte que o dia 5\/12, com mais setores na luta, mas menos docentes em greve.<br \/>\nDepois, foi ainda pior com a quest\u00e3o da tr\u00e9gua de Natal. Havia aqueles burocratas abertamente favor\u00e1veis \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o da greve durante as festas do fim do ano (Laurent Berger, CFDT; Laurent Escure, UNSA nacional) e outros, como a intersindical nacional, diziam que n\u00e3o devia haver tr\u00e9gua, mas de fato organizaram a tr\u00e9gua, deixando os setores da RATP e da SNCF sozinhos na greve e n\u00e3o propondo nada antes do dia 9 de janeiro. Foram mais de 3 semanas sem perspectivas n\u00edtidas de extens\u00e3o da greve e a recusa da intersindical a chamar uma greve ilimitada.<br \/>\nNo in\u00edcio de janeiro, o cansa\u00e7o, a falta de dinheiro e, em muitos casos, a esperan\u00e7a v\u00e3 de financiamento da greve pelos sindicatos e por caixas insuficientes de solidariedade aos grevistas davam a perceber que boa parte dos grevistas da RATP e da SNCF come\u00e7avam a desesperar. No entanto, agarravam-se \u00e0 perspectiva da entrada de outros setores na greve, pelo menos no dia 9\/1, na greve convocada pela intersindical.<br \/>\nA greve naquele dia foi mais fraca que nos dias 5\/12 e 17\/12 (com muito menos docentes na luta), mas as manifesta\u00e7\u00f5es de rua foram fortes, ao mesmo n\u00edvel que em dezembro. Mas a greve n\u00e3o se generalizou. No final de dezembro, aparentemente, as refinarias de petr\u00f3leo iam entrar numa greve massiva, bloqueando a produ\u00e7\u00e3o, com a quase totalidade das f\u00e1bricas a fecharem pouco a pouco. Mas acabou por n\u00e3o haver escassez de gasolina, fora em alguns lugares, momentaneamente.<br \/>\nE continuou, assim, o bal\u00e9 mesquinho e pat\u00e9tico organizado pela intersindical nacional: depois do dia 9, outro chamado \u00e0 greve interprofissional no dia 16. Menos gente na rua.<br \/>\nConsequ\u00eancia: no in\u00edcio oficial da volta ao trabalho dos grevistas da RATP e da SNCF, instalou-se um movimento de abandono da greve (sem ganhar nada) que continua ainda hoje.<br \/>\nOs dias de greve separados e a mobiliza\u00e7\u00e3o com intervalos da intersindical \u00e9 uma estrat\u00e9gia bem conhecida, que j\u00e1 se aplicou em 2003, 2009, 2010, 2016, 2017 e 2018 contra v\u00e1rios ataques governamentais, e que todas as vezes levou os trabalhadores \u00e0 derrota! E agora, continua assim: dia 24, dia 29\u2026 mas sem as pontas de lan\u00e7a que eram os grevistas da SNCF e a RATP\u2026 Se n\u00e3o ocorrer nada noutro setor (portu\u00e1rios, juventude secundarista ou estudantil, ou outros), tudo isso vai acabar numa derrota da nossa classe, apesar de haver muit\u00edssima raiva popular e vontade de combater.<br \/>\nH\u00e1 um \u00f3dio imenso contra Macron \u2013 por exemplo, nunca se falou tanto em decapita\u00e7\u00e3o, comparando com o Louis XVI, que terminou na guilhotina. Mas se os grevistas da RATP e da SNCF se revelaram uma armada heroica, o estado-maior da burocracia sindical \u00e9 um bando de vale-nadas e de traidores, que nem doaram quase nada para sustentarem financeiramente os grevistas, apesar de terem globalmente dezenas de milh\u00f5es de euros nas caixas.<br \/>\nQuanto aos \u201cgrandes\u201d partidos pol\u00edticos de \u201cesquerda\u201d: os pol\u00edticos da France Insoumise (FI), do Partido Comunista ou do que sobra do ex-Partido Socialista, na televis\u00e3o, fizeram declara\u00e7\u00f5es contra a reforma de Macron, falaram a favor dos grevistas, e alguns intervieram nas assembleias de greve com mensagens de apoio, mas pouco dinheiro doaram para as caixas de solidariedade \u00e0 greve. Para mim, o mais importante para esses pol\u00edticos \u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es municipais daqui a pouco, a 15 e 22 de mar\u00e7o\u2026<br \/>\n<strong>Como tem reagido o Governo face aos fortes protestos que tem enfrentado?<\/strong><br \/>\nO Governo ficou firme, determinado, arrogante e violento face a esses protestos e \u00e0 greve. Macron e o seu Governo de parasitas sujos (come\u00e7ando pelos pr\u00f3prios ministros encarregados com o dossier das aposentadorias) entraram nessa luta muito bem preparados, ao contr\u00e1rio da nossa classe, mal preparada pelos aparatos sindicais. Por exemplo, em dezembro, o Governo fechou algumas universidades tradicionalmente agitadas para evitar uma poss\u00edvel liga\u00e7\u00e3o da juventude estudantil com os setores em greve. \u00c9 s\u00f3 pensar que Macron ousou condecorar com a Legi\u00e3o de Honra o patr\u00e3o de BlackRock na Fran\u00e7a (um fundo de pens\u00f5es que deveria ganhar muito dinheiro com as consequ\u00eancias da reforma). Utilizou tamb\u00e9m a repress\u00e3o: a brutalidade policial gratuita. Por exemplo, na manifesta\u00e7\u00e3o parisiense de 9 de janeiro, bateram na cabe\u00e7a de uma grevista totalmente pac\u00edfica da RATP e deixaram-na no ch\u00e3o a sangrar; um pol\u00edcia ultraviolento e sadista atirou balas de borracha no torso de um manifestante e no p\u00e9 de outro. E tamb\u00e9m a pris\u00e3o injustific\u00e1vel e a deten\u00e7\u00e3o preventiva de numerosos manifestantes. Existe uma repress\u00e3o espec\u00edfica na RATP, com san\u00e7\u00f5es disciplinares e perigos de demiss\u00e3o contra grevistas e militantes sindicais, que exige uma solidariedade de massas.<br \/>\n<strong>Quais devem ser os pr\u00f3ximos passos para vencer esta ofensiva?<\/strong><br \/>\nAgora estamos numa fase fraca do movimento, depois do fim da greve ilimitada da RATP e da SNCF. Mas a raiva social continua, o povo trabalhador n\u00e3o aceita a reforma e odeia cada vez mais Macron e o seu Governo. Para se ter uma ideia, durante as festas do fim do ano, o Macron teve que se esconder para passar alguns dias de f\u00e9rias. Mais recentemente, ele teve que fugir sob escolta policial de um teatro parisiense porque manifestantes contra a reforma estavam fora do teatro e alguns tentaram entrar e perturbar o espet\u00e1culo! Grande parte dos pol\u00edticos do LREM (o partido do Macron) escondem a sigla do partido para terem hip\u00f3tese de serem eleitos localmente.<br \/>\nEnt\u00e3o, pode ser que, depois dessa primeira fase com esta greve hist\u00f3rica, haja impacto noutros setores, porque a crise social e as consequ\u00eancias da austeridade s\u00e3o evidentes em muitos setores.<br \/>\nE o movimento de luta e rejei\u00e7\u00e3o a Macron pode tamb\u00e9m refor\u00e7ar-se para al\u00e9m da quest\u00e3o das aposentadorias. \u00c9 s\u00f3 pensar na quest\u00e3o do injusto novo exame de acesso ao ensino superior que o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Jean-Michel Blanquer, conseguiu impor pela for\u00e7a, contra a luta e a greve de 2019. Por causa disso, agora mesmo se est\u00e1 construindo um movimento de luta, juntando professores e estudantes do secund\u00e1rio para acabar com esse novo exame detestado! E essa mobiliza\u00e7\u00e3o tem boas chances de ganhar muita for\u00e7a nas semanas que v\u00eam.<br \/>\nEnt\u00e3o, os pr\u00f3ximos passos exigem senso t\u00e1tico e vontade de trabalhar na converg\u00eancia, apontando a quest\u00e3o das aposentadorias como fator de coes\u00e3o na luta.<br \/>\n<strong>Que li\u00e7\u00f5es podemos tirar desse processo para o restante dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia (UE), como Portugal?<\/strong><br \/>\nEu acho que este tipo de reformas de destrui\u00e7\u00e3o de fato do que sobra de sistemas solid\u00e1rios de Previd\u00eancia e de aposentadorias t\u00eam origem na l\u00f3gica do capital, que se implementa atrav\u00e9s da UE e dos governos que fazem parte dela. Macron aplica as recomenda\u00e7\u00f5es da ditadura capitalista na qual a Uni\u00e3o est\u00e1 moldada. Ent\u00e3o, a rejei\u00e7\u00e3o ao capitalismo e \u00e0 UE faz parte das necessidades pol\u00edticas de fundo para podermos ganhar.<br \/>\nOutra li\u00e7\u00e3o \u00e9 que agora temos cada vez mais governos ultraliberais muito duros, determinados a implementar a totalidade das vontades dos parasitas capitalistas. A crise do capitalismo mundial (particularmente depois de 2007) n\u00e3o terminou e, para aumentar a taxa de lucro, as burguesias atacam todas as conquistas sociais do proletariado oriundas do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial.<br \/>\nQuanto \u00e0 luta, uma das li\u00e7\u00f5es temos que tirar (e que muitos grevistas dos transportes SNCF e RATP, depois dos Coletes Amarelos, tiram agora) \u00e9 que as dire\u00e7\u00f5es sindicais n\u00e3o s\u00e3o fi\u00e1veis e que, por isso, n\u00e3o se pode continuar a deixar o controle das nossas lutas e greves aos burocratas corruptos e vendidos \u00e0 l\u00f3gica institucional, que vivem confortavelmente do dinheiro p\u00fablico para \u201cdialogar\u201d \u2013 sem nenhum \u00eaxito \u2013 com os patr\u00f5es e o Governo.<br \/>\nA li\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada que os trabalhadores deveriam tirar de tudo isso \u00e9 que, em vez de deixar liderar as burocracias sindicais (por exemplo agora com a \u201cintersindical\u201d nacional que tenta gerir o fim da greve depois de t\u00ea-la isolado e asfixiado), tem que se ultrapassar as lideran\u00e7as sindicais. \u00c9 preciso construir uma greve geral auto-organizada, baseada na democracia oper\u00e1ria das assembleias, elegendo delegados revog\u00e1veis para um comit\u00e9 central de greve, que assuma o comando real da greve. Foi isto que faltou aos grevistas da SNCF e da RATP. Mas para chegar l\u00e1, temos que enfrentar as burocracias sindicais. N\u00e3o pode haver vit\u00f3rias do proletariado nem revolu\u00e7\u00e3o socialista vitoriosa enquanto a nossa classe permanecer debaixo da domina\u00e7\u00e3o dessa casta traidora. Temos que soltar-nos dela e jog\u00e1-la nas lixeiras da Hist\u00f3ria, assim como a burguesia e o capitalismo!<\/p>\n<h5>Uma vers\u00e3o abreviada desta entrevista foi publicada no jornal\u00a0<em style=\"font-weight: inherit;\">Em Luta,\u00a0<\/em>N\u00ba \u00a019 (fevereiro 2020).<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A luta dos trabalhadores e da juventude francesa contra a Reforma da Previd\u00eancia de Macron \u00e9 um exemplo, numa Uni\u00e3o Europeia (UE) em que em todo o lado se procura destruir o direito a uma aposentadoria digna. 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