{"id":31537,"date":"2020-02-19T10:02:53","date_gmt":"2020-02-19T12:02:53","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31537"},"modified":"2020-02-19T10:02:53","modified_gmt":"2020-02-19T12:02:53","slug":"o-governo-da-geringonca-austeridade-e-repressao-para-os-trabalhadores-lucros-para-os-patroes-e-multinacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/02\/19\/o-governo-da-geringonca-austeridade-e-repressao-para-os-trabalhadores-lucros-para-os-patroes-e-multinacionais\/","title":{"rendered":"O governo da Geringon\u00e7a: austeridade e repress\u00e3o para os trabalhadores, lucros para os patr\u00f5es e multinacionais"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 2010, durante o pico da crise econ\u00f4mica\u00a0na Europa, Portugal pediu assist\u00eancia financeira internacional, cujo acordo ficou conhecido como Memorando da Troika (Comiss\u00e3o Europeia, o Banco Central Europeu e Fundo Monet\u00e1rio Internacional).<\/em><em>\u00a0<\/em><!--more--><br \/>\n<strong><em>Por: Maria Silva (publicado em Correio Internacional \u2013 Novembro de 2019)<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>A pol\u00edtica da Troika s\u00f3 trouxe mais recess\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e um retrocesso brutal nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores (em 2014 a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza chegou ao m\u00e1ximo hist\u00f3rico de 27,5%), tendo levado a emigrar entre 2011 e 2014 cerca de 500 mil habitantes, num pa\u00eds que tem 10 milh\u00f5es.<br \/>\nO pedido de interven\u00e7\u00e3o foi feito pelo governo do Partido Socialista (PS) de Jos\u00e9 S\u00f3crates (que tinha Ant\u00f3nio Costa como n\u00ba 2 do governo, hoje atual Primeiro-ministro), mas o plano de conting\u00eancia imposto pela Troika foi aplicado no essencial pelo governo que lhe seguiu, uma coliga\u00e7\u00e3o da direita (PSD-CDS), que enfrentou grande contesta\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Todavia, as dire\u00e7\u00f5es sindicais nunca quiseram unificar as lutas dos diversos setores para derrotar o governo.<br \/>\nO PCP (Partido Comunista Portugu\u00eas), dirigindo o movimento sindical, e o BE (Bloco de Esquerda), apoiando-se nos movimentos sociais, apostaram tudo em deixar esmorecer o ascenso e convencer os trabalhadores que era preciso esperar as elei\u00e7\u00f5es de 2015.<br \/>\n<strong>O Governo da Geringon\u00e7a<\/strong><br \/>\nEm 2015, quem ganhou as elei\u00e7\u00f5es foi a mesma coliga\u00e7\u00e3o de direita (PSD-CDS). Todavia, n\u00e3o conseguiram formar governo, pois a maioria no parlamento era composta pelos deputados do PS-PCP-BE. Por isso, o Presidente da Rep\u00fablica chamou o segundo partido mais votado \u2013 o PS de Ant\u00f3nio Costa \u2013 a formar governo. O PS como era minorit\u00e1rio, tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiria governar sozinho; por isso, fez um acordo com o PCP e o BE para poder governar.<br \/>\nEste governo, produto dos acordos escritos entre PS-BE-PCP, ficou conhecido por Geringon\u00e7a. BE e PCP n\u00e3o tiveram ministros no governo, mas foram parte respons\u00e1vel deste governo: num sistema parlamentarista como o portugu\u00eas, para que o governo se mantenha em fun\u00e7\u00f5es, precisa que seja aprovado no parlamento o or\u00e7amento de estado para cada o ano, ou deixa de conseguir governar. Sem este acordo de governa\u00e7\u00e3o com a esquerda, Costa n\u00e3o conseguiria manter o governo durante 4 anos.<br \/>\n<strong>A austeridade n\u00e3o acabou<\/strong><br \/>\nA Geringon\u00e7a foi muito elogiada pela esquerda reformista em todo o mundo, como um exemplo positivo de unidade de esquerda e de melhorias para o pa\u00eds. Mas a realidade da classe trabalhadora, \u00e9 bem diferente desses discursos.\u00a0 O contexto internacional em que Costa sobe ao poder \u00e9 o de uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais favor\u00e1vel na Uni\u00e3o Europeia, com impacto direto na economia portuguesa.<br \/>\nMas o crescimento econ\u00f4mico s\u00f3 serviu aos patr\u00f5es e multinacionais: n\u00e3o mudou a vida de quem trabalha.\u00a0 As pol\u00edticas de austeridade n\u00e3o acabaram com a Geringon\u00e7a. Costa mant\u00e9m no essencial as medidas do governo anterior e da Troika (que tinham imposto um novo patamar de explora\u00e7\u00e3o no pa\u00eds), para alavancar esse crescimento ao servi\u00e7o da burguesia. Exemplo disso, \u00e9 que mesmo o pequeno aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo durante esta legislatura n\u00e3o recupera o n\u00edvel de vida anterior \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da Troika, al\u00e9m de que o custo de vida do pa\u00eds aumentou brutalmente devido ao crescimento do turismo e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. O governo fez ainda altera\u00e7\u00f5es ao C\u00f3digo do Trabalho que aprofundam a precariedade laboral, mostrando que estava l\u00e1 para defender os patr\u00f5es.<br \/>\n<strong>Um governo da UE e do FMI<\/strong><br \/>\nPor outro lado, o governo pagou d\u00edvida adiantada, salvou mais dois bancos com dinheiro p\u00fablico, manteve os cortes or\u00e7amentais que continuam asfixiando a sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Foi com esta pol\u00edtica de austeridade e redu\u00e7\u00e3o do investimento p\u00fablico a n\u00edveis historicamente baixos, que o governo conseguiu os d\u00e9fices mais baixos da democracia portuguesa (uma das imposi\u00e7\u00f5es centrais da zona euro \u00e9 que os pa\u00edses n\u00e3o tenham d\u00e9fice acima de 3%).<br \/>\nEntre a Geringon\u00e7a e o governo anterior da direita, os pontos s\u00e3o mais de continuidade do que de ruptura. S\u00f3 isso explica este ser um Governo t\u00e3o reivindicado pelo FMI e a Comiss\u00e3o Europeia.<br \/>\n<strong>A Geringon\u00e7a governou para os patr\u00f5es e reprimiu os trabalhadores e a juventude<\/strong><br \/>\nA Geringon\u00e7a, ao juntar um dos partidos que h\u00e1 v\u00e1rios anos governa para os patr\u00f5es (PS) com os dois partidos reformistas (PCP e BE), foi um governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes. Quatro anos depois, est\u00e1 claro que essa concilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o serviu aos trabalhadores, mas apenas os patr\u00f5es e multinacionais. O governo enfrentou diversas lutas de trabalhadores: por direito ao descanso ao fim de semana (Volkwagen-Autoeuropa), por sal\u00e1rios dignos (Motoristas de Mat\u00e9rias Perigosas), pela evolu\u00e7\u00e3o e contabiliza\u00e7\u00e3o do tempo de carreira (enfermeiros e professores), contra a precariedade (estivadores do Porto de Set\u00fabal), etc..<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o mudou a vida dos setores mais oprimidos, seja os negros, que lutaram pelo direito \u00e0 nacionalidade e contra a brutalidade policial, seja as mulheres que continuam a morrer v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Estes continuam a ser os setores mais prec\u00e1rios e mal pagos do pa\u00eds, para quem uma parte das leis \u00e9 letra morta nas suas vidas.<br \/>\nPerante as lutas dos trabalhadores em greve e dos jovens negros que sa\u00edram \u00e0 rua contra o racismo, a resposta foi a repress\u00e3o e autoritarismo. Na verdade, o governo fez um dos mais duros ataques contra o direito \u00e0 greve desde o 25 de Abril: utilizou os tribunais para decretar servi\u00e7os m\u00ednimos que impediam a greve, utilizou a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito para substituir grevistas e aplicou amplamente a lei da requisi\u00e7\u00e3o civil (que permite prender os trabalhadores, caso estes sejam instados a trabalhar e n\u00e3o o fa\u00e7am).<br \/>\n<strong>BE e PCP t\u00eam responsabilidades<\/strong><br \/>\nBE e PCP dizem que as boas medidas de Costa se devem \u00e0 sua presen\u00e7a e que as m\u00e1s medidas s\u00e3o um problema do PS. Mas n\u00e3o existem dois governos diferentes: h\u00e1 apenas um Governo do PS, apoiado pelo PCP e BE, que garantiu a aprova\u00e7\u00e3o de quatro or\u00e7amentos de austeridade, ao servi\u00e7o dos patr\u00f5es. A continuidade dos cortes or\u00e7amentais, da precariedade, da degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, do pagamento dos buracos financeiros dos bancos, etc., tem por isso tamb\u00e9m a responsabilidade partilhada do BE e do PCP.<br \/>\nQuatro anos depois, para Portugal e o resto do mundo, fica \u00e0 vista o resultado da unidade de esquerda para governar no capitalismo: abdicar de defender os trabalhadores para conseguir migalhas dos patr\u00f5es.<br \/>\n<strong>A Geringon\u00e7a salvou o PS e desarmou os trabalhadores<\/strong><br \/>\nNo passado dia 6 de Outubro, realizaram-se novas elei\u00e7\u00f5es legislativas: o grande vencedor foi o PS, com 36,65% dos votos; o BE mant\u00e9m o mesmo n\u00famero de deputados, mas desce na sua vota\u00e7\u00e3o; o PCP tem uma importante derrota eleitoral. Fica claro que a Geringon\u00e7a apenas fortaleceu o PS. De facto, BE e PCP, ao sustentarem o Governo durante quatro anos, salvaram o PS de ter um destino semelhante ao PASOK grego ou de uma derrota hist\u00f3rica, como aconteceu ao PSOE espanhol durante o per\u00edodo da crise.<br \/>\nA defesa dos benef\u00edcios da Geringon\u00e7a deram uma maquiagem de esquerda a um Governo da burguesia, que desarmou os trabalhadores, a juventude e os setores mais oprimidos nas lutas, criando expectativas nos pactos e negocia\u00e7\u00f5es com quem nos rouba o p\u00e3o e a dignidade todos os dias!<br \/>\nNo entanto, se nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e na esquerda institucional predominou o apoio e exalta\u00e7\u00e3o do governo, por baixo, um movimento de luta enfrentou os patr\u00f5es e o governo, aprofundando um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinha desde a crise econ\u00f4mica, embora ainda de forma atomizada. \u00c9 nesse sentido que estas elei\u00e7\u00f5es, sendo um reflexo distorcido da realidade da classe trabalhadora, expressam tamb\u00e9m uma crise do bipartidarismo e levam ao parlamento tr\u00eas novos partidos, nomeadamente um partido de extrema-direita.<br \/>\nA classe trabalhadora procura novas alternativas, \u00e0 esquerda e \u00e1 direita, porque a Geringon\u00e7a n\u00e3o respondeu \u00e1s suas necessidades e n\u00e3o mudou as suas vidas. Costa \u00e9 j\u00e1 o novo Primeiro-ministro e forma um governo do PS minorit\u00e1rio, sem acordos escritos \u00e0 esquerda, mas contando com os votos desta para permitir passar o seu Or\u00e7amento.<br \/>\nAvizinham-se 4 anos de um governo mais inst\u00e1vel, numa conjuntura internacional onde a recess\u00e3o \u00e9 uma possibilidade cada vez mais palp\u00e1vel na UE.\u00a0 Os trabalhadores, os setores mais oprimidos e a juventude est\u00e3o fartos da pol\u00edtica do mal menor, da pol\u00edtica institucional e das negocia\u00e7\u00f5es nos corredores. A esquerda mostrou-se incapaz de dar voz \u00e0s suas necessidades.<br \/>\nOs trabalhadores que entraram em greve ou sa\u00edram \u00e0 rua nestes quatro anos mostram outro caminho: a mudan\u00e7a s\u00f3 vir\u00e1 da luta independente, democr\u00e1tica e combativa da classe trabalhadora e setores mais oprimidos. Com ou sem Geringon\u00e7a, o combate \u00e0 pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, vai continuar a ser uma necessidade premente. E a \u00fanica maneira de combater a extrema-direita \u00e9 combater o novo governo PS e a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes da esquerda, que desarma os trabalhadores. A necessidade da unifica\u00e7\u00e3o das lutas, por um lado, mas tamb\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa revolucion\u00e1ria dos trabalhadores, que d\u00ea resposta ao processo de reorganiza\u00e7\u00e3o e de busca de uma alternativa antissistema, est\u00e1 na ordem do dia.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2010, durante o pico da crise econ\u00f4mica\u00a0na Europa, Portugal pediu assist\u00eancia financeira internacional, cujo acordo ficou conhecido como Memorando da Troika (Comiss\u00e3o Europeia, o Banco Central Europeu e Fundo Monet\u00e1rio Internacional).\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":31538,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4280],"tags":[4075,351,1674],"class_list":["post-31537","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-correio-internacional","tag-antonio-costa","tag-geringonca","tag-maria-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/naom_567962e19cfe9.jpg","categories_names":["Correio Internacional"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31537"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31537\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}