{"id":31530,"date":"2020-02-17T13:33:03","date_gmt":"2020-02-17T15:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31530"},"modified":"2020-02-17T13:33:03","modified_gmt":"2020-02-17T15:33:03","slug":"a-crise-da-uniao-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/02\/17\/a-crise-da-uniao-europeia\/","title":{"rendered":"A crise da Uni\u00e3o Europeia"},"content":{"rendered":"<p><em>A Uni\u00e3o Europeia (UE) sofre a pior crise desde sua funda\u00e7\u00e3o. Longe de ser algo conjuntural, s\u00e3o seus fundamentos que tremem.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>Por: Felipe Alegr\u00eda (publicado em Correio Internacional \u2013 Novembro de 2019)<\/strong><br \/>\n<strong>E<\/strong>m meio \u00e0 onda depressiva que se iniciou em 2007\/08 e que se entrela\u00e7a com a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, a UE est\u00e1 sendo sacudida pelo conflito entre os EUA e a China e deslocada na divis\u00e3o mundial de trabalho. Isto afeta em primeiro lugar a Alemanha, mas atr\u00e1s dela, afeta o conjunto da economia europeia.<br \/>\nA propaganda oficial nos apresenta a UE como o ref\u00fagio dos \u201cvalores europeus\u201d: paz, direitos humanos, democracia e Estado de bem estar. No entanto, todos esses anos mostraram nitidamente a verdadeira face da UE: uma m\u00e1quina de guerra social, rigidamente hierarquizada, com o capitalismo alem\u00e3o no posto de comando, em alian\u00e7a com o franc\u00eas.<br \/>\nA UE tem sido a grande protagonista dos piores planos de ajuste e contrarreformas trabalhistas e sociais desde a II Guerra Mundial. A devasta\u00e7\u00e3o e o saque da Gr\u00e9cia \u00e9 sua fa\u00e7anha mais sinistra. A UE d\u00e1 seu apoio \u00e0 repress\u00e3o do Estado Espanhol contra o povo catal\u00e3o por querer exercer seu leg\u00edtimo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. A UE mant\u00e9m uma pol\u00edtica xen\u00f3foba e racista ante os refugiados e imigrantes, subcontratando o trabalho sujo dos governos da Turquia e Marrocos e das m\u00e1fias l\u00edbias e convertendo o Mediterr\u00e2neo em uma enorme vala comum.<br \/>\nA UE \u00e9 o instrumento de pol\u00edtica exterior das principais potencias europeias para articular acordos comerciais, dar cobertura \u00e0 venda de armas a regimes sanguin\u00e1rios e corruptos como o saudita ou legitimar interven\u00e7\u00f5es militares como as do imperialismo franc\u00eas na \u00c1frica.<br \/>\n<strong>A UE em crise<\/strong><br \/>\nOs planos que a Alemanha e a Fran\u00e7a lan\u00e7aram em 2015 para refundar a UE, refor\u00e7ando suas atribui\u00e7\u00f5es e submetendo a um r\u00edgido controle os demais Estados (em particular os perif\u00e9ricos) ficaram congelados. Entretanto, o \u201ceuroceticismo\u201d se estendeu para todo o continente. A Gr\u00e3 Bretanha abandona o barco, com Trump incentivando o Brexit, o governo escoc\u00eas disputando um novo referendo de independ\u00eancia e o problema irland\u00eas reavivado.<br \/>\nO conjunto do sistema institucional europeu edificado ap\u00f3s a II Guerra Mundial est\u00e1 fraturado e a instabilidade pol\u00edtica se instalou na Europa. Os grandes partidos da direita e a socialdemocracia, que durante dezenas de anos sustentaram a domina\u00e7\u00e3o capitalista no continente est\u00e3o em franca decad\u00eancia. Em alguns pa\u00edses sofrem o decl\u00ednio e em outros, como a Fran\u00e7a, se transformaram em for\u00e7as marginais. Entretanto, emergem substitui\u00e7\u00f5es como Macron ou os partidos verdes e surge a extrema direita, explorando a xenofobia e o racismo e apoiando-se no recha\u00e7o popular \u00e0 UE, com a qual, ao mesmo tempo, n\u00e3o querem romper.<br \/>\n<strong>As pot\u00eancias europeias sentem que o ch\u00e3o se move sob seus p\u00e9s<\/strong><br \/>\nAs pot\u00eancias imperialistas europeias h\u00e1 muitas d\u00e9cadas que deixaram de serem as donas do mundo. A II Guerra Mundial marcou sua decad\u00eancia final e selou sua depend\u00eancia dos EUA, a nova grande pot\u00eancia hegem\u00f4nica. A reconstru\u00e7\u00e3o europeia foi realizada sob o impulso e lideran\u00e7a do imperialismo norte-americano, que promoveu a cria\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es que mais tarde dariam lugar \u00e0 UE. A alian\u00e7a EUA-Europa Ocidental foi durante d\u00e9cadas o eixo da divis\u00e3o mundial do trabalho.<br \/>\nO pacto dos EUA com a renascida burguesia alem\u00e3 era uma pe\u00e7a central no equil\u00edbrio do sistema de estados. Este pacto se cindiu com a chegada de Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia. Uma das primeiras coisas que Trump fez, foi abortar o TTIP, o tratado de livre com\u00e9rcio e investimentos que tinha sido laboriosamente redigido pela UE e pela administra\u00e7\u00e3o Obama. Trump apoia abertamente a desagrega\u00e7\u00e3o da UE (come\u00e7ando pelo Brexit). Prefere tratar pa\u00eds a pa\u00eds, fazendo valer com toda sua for\u00e7a o peso da superioridade norte-americana, e n\u00e3o com um bloco dirigido pela Alemanha.<br \/>\nMas o giro de Trump n\u00e3o \u00e9 um simples capricho do personagem, e sim responde aos profundos transtornos provocados na ordem mundial pela crise da chamada \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. A \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d iniciou nos anos 80, dando base a uma onda ascendente do capitalismo que se prolongou durante mais de 20 anos, at\u00e9 o estouro da crise financeira de 2007\/08.<br \/>\nTeve como principal ponto de apoio a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na China, impulsionada pelo Partido Comunista. A associa\u00e7\u00e3o EUA-China foi o eixo da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d que incluiu a liberaliza\u00e7\u00e3o geral do movimento de capitais, a incorpora\u00e7\u00e3o da Internet e das novas tecnologias (TIC) \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o e uma reconfigura\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas mundiais girando sobre os milh\u00f5es de trabalhadores chineses que se incorporavam, em condi\u00e7\u00f5es de semiescravid\u00e3o assalariada, ao mercado mundial capitalista.<br \/>\n<strong>A \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d e a UE<\/strong><br \/>\nAs grandes pot\u00eancias europeias se incorporaram com entusiasmo \u00e0 \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Em 1986 lan\u00e7aram a \u201cAta \u00danica\u201d para criar o Mercado \u00danico Europeu estabelecendo a plena liberdade de movimento de capitais que foi acompanhada de uma primeira investida neoliberal contra as conquistas sociais conseguidas desde o p\u00f3s-guerra. O passo seguinte, j\u00e1 com o objetivo da implanta\u00e7\u00e3o da moeda \u00fanica europeia, foi o Tratado de Maastrich (1991), que veio associado a uma forte ofensiva de cortes e contrarreformas, a cargo de governos sociais democratas.<br \/>\nA \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d na Europa esteve ligada \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo que os partidos estalinistas protagonizaram na URSS e no Leste europeu. O grande benefici\u00e1rio foi o capitalismo alem\u00e3o, que concluiu um processo de semicoloniza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Leste a servi\u00e7o de suas multinacionais, em particular as automobil\u00edsticas.<br \/>\nEste processo foi acompanhado da integra\u00e7\u00e3o da Alemanha Oriental e da imposi\u00e7\u00e3o das reformas Hartz (2003-2005) pelo social democrata Schr\u00f6eder, que levaram a aproximadamente 25% da classe trabalhadora alem\u00e3 \u00e0 precariedade extrema dos \u201cminijobs\u201d. Com isso, a economia alem\u00e3, que j\u00e1 era a principal pot\u00eancia econ\u00f4mica europeia, consolidou sua hegemonia no continente ao redor de uma poderosa m\u00e1quina exportadora, convertendo boa parte da ind\u00fastria da UE em sua fornecedora. [1]<br \/>\nNeste processo, a moeda \u00fanica (com o Banco Central Europeu &#8211; BCE) foi um instrumento b\u00e1sico para consolidar o poder alem\u00e3o. Quando estourou a crise financeira em 2007\/08, as principais pot\u00eancias europeias, apoiadas na UE, evitaram o colapso resgatando seus bancos com dinheiro p\u00fablico, saqueando a periferia (Gr\u00e9cia, Portugal, pa\u00edses do Leste, Irlanda, Estado Espanhol) e atacando, de maneira geral, os servi\u00e7os p\u00fablicos, os sal\u00e1rios e as aposentadorias, com especial intensidade em lugares como a Gr\u00e3 Bretanha. Neste curso, a Alemanha refor\u00e7ou sua hegemonia enquanto a Gr\u00e9cia e Portugal eram rebaixados para n\u00edvel de semicol\u00f4nias nas quais o Estado passou a responder diretamente \u00e0 exig\u00eancia exterior.<br \/>\nMediante os planos de austeridade, conseguiram submeter a classe trabalhadora de boa parte dos pa\u00edses da UE a um novo padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o cuja marca \u00e9 uma precariza\u00e7\u00e3o generalizada do emprego, dos sal\u00e1rios e das condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora e o empobrecimento de amplos setores das classes m\u00e9dias.<br \/>\nTudo isto, com certeza, n\u00e3o era um processo inevit\u00e1vel. S\u00f3 foi assim, pela cumplicidade da burocracia dos grandes sindicatos e pela trai\u00e7\u00e3o de uma pretendida esquerda que, como Syriza, ganhou o apoio do povo grego como campe\u00e3o da luta contra a austeridade para logo depois se converter no sucessor do PASOK e o novo pistoleiro da Troika.<br \/>\nMas ainda assim, apesar de sua ofensiva antissocial, o capitalismo europeu n\u00e3o conseguiu sair da onda recessiva iniciada em 2007\/08. N\u00e3o somente n\u00e3o levantaram voo, como s\u00f3 conseguiram aguentar apelando ao Banco Central Europeu, que comprou massivamente d\u00edvida p\u00fablica e privada e entregou fundos ilimitados aos bancos a 0% de juros. Um rem\u00e9dio que, atualmente, eles mesmos reconhecem que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar. Entretanto, a ind\u00fastria alem\u00e3 est\u00e1 atualmente em recess\u00e3o, o estancamento econ\u00f4mico se instala na Europa e emerge a amea\u00e7a de uma nova recess\u00e3o global.<br \/>\n<strong>A crise do capitalismo europeu, parte da crise geral da &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><br \/>\nMas a crise europeia n\u00e3o \u00e9 propriamente europeia, e sim parte integrante da crise geral da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. O capitalismo mundial entrou, em 2007\/08, em um per\u00edodo de estancamento sem que no momento vislumbre uma sa\u00edda. N\u00e3o est\u00e1 na ordem do dia nenhuma onda geral de investimentos, associada ao aumento da taxa de lucros, que possa propiciar um novo per\u00edodo de auge. O rumo econ\u00f4mico geral, pelo contrario, est\u00e1 marcado por um parasitismo cada vez mais monstruoso e pelo curso da batalha do imperialismo norte-americano para submeter o capitalismo chin\u00eas, que aspira disputar os super lucros em segmentos econ\u00f4micos chave (5G\u2026) e o controle regional da \u00c1sia.<br \/>\nEste conflito global altera a localiza\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es e dos pa\u00edses do mundo, provocando o deslocamento da Alemanha e da UE, aprisionados entre dois capitalismos muito mais poderosos. O lugar da Alemanha na divis\u00e3o mundial do trabalho est\u00e1 associado \u00e0 sua pot\u00eancia exportadora, agora em decl\u00ednio (o que poderia piorar seriamente se Trump cumprir sua amea\u00e7a de subir as taxas sobre os carros alem\u00e3es).<br \/>\nA crise dos grandes bancos alem\u00e3es (Deutsche Bank) faz com que sejam exclu\u00eddos da primeira linha do capital financeiro mundial. Ao mesmo tempo, a Alemanha (e a UE) ficaram defasadas na corrida das grandes empresas tecnol\u00f3gicas globais que parasitam e monopolizam os super lucros em escala mundial. Estas empresas globalizadas est\u00e3o concentradas em m\u00e3os norte-americanas (seguidas pela China).<br \/>\nO decl\u00ednio da economia alem\u00e3 vem acompanhado do decl\u00ednio do capitalismo franc\u00eas e arrasta o conjunto dos pa\u00edses da UE. Este processo enfraquece a lideran\u00e7a alem\u00e3, debilita a alian\u00e7a germano-francesa e questiona a \u201ccoes\u00e3o\u201d da UE.<br \/>\n<strong>As consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas da decad\u00eancia do capitalismo europeu<\/strong><br \/>\nOs capitalismos europeus e a UE entraram em um per\u00edodo de decad\u00eancia que vai se prolongar no tempo. Uma decad\u00eancia que traz consigo um novo impulso \u00e0 deslocaliza\u00e7\u00e3o industrial e \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o de trabalhos prec\u00e1rios no setor de servi\u00e7os, mas tamb\u00e9m na ind\u00fastria, com sal\u00e1rios baixos ou muito baixos, ataques \u00e0s aposentadorias p\u00fablicas e deteriora\u00e7\u00e3o dos sistemas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. A refer\u00eancia dos capitalistas s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es trabalhistas e sociais nos pa\u00edses do Leste, e com olhos para a \u00c1sia.<br \/>\nEsta ofensiva capitalista continuada afeta a periferia europeia, cada vez mais dependente, assim como os pa\u00edses centrais, como vemos na degrada\u00e7\u00e3o social brit\u00e2nica ou na atual ofensiva de Macron contra o sistema p\u00fablico de aposentadorias.<br \/>\nA outra face da degrada\u00e7\u00e3o social \u00e9 o recurso crescente dos Estados da UE a medidas cada vez mais autorit\u00e1rias e bonapartistas contra os direitos democr\u00e1ticos, incluindo o direito dos trabalhadores \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva. \u00c9 o caso dos governos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d de Macron, do PSOE ou do novo gabinete italiano formado pelo Partido Democrata e o M5S.<br \/>\nA presid\u00eancia de Macron distingue-se por atacar os direitos trabalhistas, pela brutal repress\u00e3o policial e judicial contra os Coletes Amarelos e pela aprova\u00e7\u00e3o de novas leis contra o direito de manifesta\u00e7\u00e3o e express\u00e3o. O novo governo italiano mant\u00e9m os \u201cdecretos Salvini\u201d que castigam cruelmente os que ajudam os refugiados e migrantes e permitem condenar com longos anos de pris\u00e3o e enormes multas quem ocupar uma casa vazia ou bloquear uma rodovia durante uma greve. No Estado espanhol sofremos a brutal condena\u00e7\u00e3o dos dirigentes independentistas catal\u00e3es por organizar um referendo e a selvagem repress\u00e3o policial contra as mobiliza\u00e7\u00f5es de protesto contra a condena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora, se seguirmos a doutrina do Tribunal Supremo espanhol, quem impedir a execu\u00e7\u00e3o de um despejo poderia ser acusado de sedi\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, o delito de terrorismo pode servir para que promotores acusem indiscriminadamente aqueles que enfrentam o regime mon\u00e1rquico.<br \/>\nQueremos sublinhar que n\u00e3o estamos falando simplesmente dos governos \u201cliberais\u201d reacion\u00e1rios de Kaczynski (Pol\u00f4nia) e Orb\u00e1n (Hungria), malquistos pela imprensa \u201cliberal\u201d, e sim dos tr\u00eas Estados mais importantes da zona do euro depois da Alemanha.<br \/>\n<strong>Os defensores da UE a partir da esquerda <\/strong><br \/>\nAs potencias capitalistas europeias, com a Alemanha \u00e0 frente, precisam apoiar a m\u00e1quina da UE para tentar manter seu poder na atual confronta\u00e7\u00e3o mundial, assim como para continuar contando com esta grande arma comum contra a classe oper\u00e1ria e os povos da Europa.<br \/>\nMas, ao mesmo tempo, sua decad\u00eancia debilita a UE e refor\u00e7a as tend\u00eancias centr\u00edfugas, alimentadas pelo Brexit e apoiadas em um crescente recha\u00e7o social que n\u00e3o somente abarca a classe trabalhadora dos diversos pa\u00edses como tamb\u00e9m vastos setores da pequena burguesia empobrecida e at\u00e9 setores m\u00e9dios da burguesia maltratados pelo capital financeiro. Em qualquer caso, para al\u00e9m da trajet\u00f3ria concreta que o curso da decad\u00eancia do capitalismo europeu tome, duas coisas est\u00e3o evidentes: a primeira \u00e9 que o custo, enorme, vai recair sobre as costas das massas trabalhadoras e a segunda, que o papel da UE ser\u00e1 central na ofensiva do capital.<br \/>\nEntretanto, a burocracia sindical brit\u00e2nica e a esquerda submissa ao Labour, que s\u00e3o incapazes de enfrentar o Brexit tory com um Brexit socialista, querem fazer os trabalhadores e jovens brit\u00e2nicos acreditarem que a UE proteger\u00e1 seus direitos trabalhistas e sociais. Deveriam perguntar aos trabalhadores gregos, portugueses ou espanh\u00f3is, aos coletes amarelos ou aos independentistas catal\u00e3es.<br \/>\nAinda que, na realidade, os argumentos dos partid\u00e1rios do \u201cRemain and Reform\u201d (\u201cFicar e Reformar\u201d) s\u00e3o os mesmos que Pablo Iglesias (Podemos), os dirigentes do Bloco portugu\u00eas ou Mel\u00e9nchon (la France Insoumise) utilizam. Ou seja, o coro de antigos admiradores de Tsipras.<br \/>\nH\u00e1 na extrema esquerda europeia quem, como Lutte Ouvri\u00e8re na Fran\u00e7a, defenda que lutar contra a UE n\u00e3o tem sentido porque \u201ca luta \u00e9 contra o capitalismo\u201d. Com isso, em nome de uma abstra\u00e7\u00e3o, esvaziam de conte\u00fado a luta concreta contra o capitalismo. Porque n\u00e3o existe um capitalismo franc\u00eas separado da UE. O capitalismo franc\u00eas, precisa vitalmente da UE para atacar seus pr\u00f3prios trabalhadores e para continuar desempenhando um papel de pot\u00eancia imperialista na Europa e no mundo. N\u00e3o h\u00e1 luta contra o capitalismo franc\u00eas que n\u00e3o seja tamb\u00e9m luta contra a UE e por uma Europa socialista dos trabalhadores e dos povos.<br \/>\nH\u00e1 tamb\u00e9m, dentro da chamada extrema esquerda europeia, quem se op\u00f5em \u00e0 luta pela ruptura com a UE e o Euro alegando que \u00e9 uma sa\u00edda \u201cnacionalista\u201d; que \u201cfaz o jogo da extrema direita\u201d. Na realidade, \u00e9 um falso argumento que mistura o recha\u00e7o popular contra a UE com o chauvinismo e a xenofobia da ultradireita, tergiversando grosseiramente a realidade e dando cobertura de esquerda aos defensores da UE e do Euro.<br \/>\nH\u00e1 finalmente um grupo, formado por dirigentes do Secretariado Unificado-Quarta Internacional (SU-QI), que s\u00e3o a \u00faltima trincheira, a mais sofisticada, na defesa da UE. Seis anos atr\u00e1s (com a periferia europeia em plena crise da d\u00edvida) defendiam uma \u201caudaz refunda\u00e7\u00e3o da Europa\u201d e se opunham de forma veemente a qualquer ruptura com o Euro e a UE. Defendiam \u201cgovernos antiausteridade\u201d com \u201cestrat\u00e9gia vi\u00e1vel\u201d, que negociassem a \u201creestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida\u201d. Tsipras e seu governo eram tamb\u00e9m, para eles, o grande modelo. Por isso o apoiaram at\u00e9 um segundo antes que cometesse a infame trai\u00e7\u00e3o do referendo de julho de 2015.<br \/>\nAgora, ap\u00f3s a experi\u00eancia grega, j\u00e1 n\u00e3o podem reclamar de Tsipras e dizem que a UE n\u00e3o pode ser \u201creformada radicalmente a partir de dentro\u201d. Entretanto, em um recente manifesto, continuam a busca desesperada de uma terceira via para evitar chamar a ruptura com a UE e o Euro[2].\u00a0\u00a0 O manifesto, dedicado a explicar as medidas de um \u201cgoverno de esquerda popular\u201d, em seu primeiro ano, prop\u00f5e um \u201cprograma imediato\u201d, keynesiano, de desobedi\u00eancia dos Tratados, mas mantendo-se na UE e no Euro, e sem afetar a propriedade dos grandes meios de produ\u00e7\u00e3o e dos bancos. Do mesmo modo, em seus cen\u00e1rios de m\u00e9dio prazo contempla a implanta\u00e7\u00e3o de uma nova moeda que seria, no entanto, complementar ao euro, em cujo marco permaneceriam. Um projeto totalmente rebuscado e estramb\u00f3tico.<br \/>\n<strong>N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda sem uma verdadeira unifica\u00e7\u00e3o europeia, isto \u00e9, sem acabar com a UE e construir os Estados Unidos Socialistas da Europa<\/strong><br \/>\nA UE reflete o alt\u00edssimo grau de integra\u00e7\u00e3o da economia europeia e, ao mesmo tempo, \u00e9 o principal obst\u00e1culo \u00e0 sua verdadeira unifica\u00e7\u00e3o. A integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o deu base \u00e0 conforma\u00e7\u00e3o de um estado europeu que promova a converg\u00eancia entre os diferentes pa\u00edses.<br \/>\nPelo contrario, as diferentes burguesias t\u00eam mantido e refor\u00e7ado seu pr\u00f3prio Estado para defender os interesses de seu capital financeiro e enfrentar sua classe trabalhadora. As fronteiras formais foram, em boa parte, dilu\u00eddas (ainda que n\u00e3o esteja t\u00e3o claro para o movimento das pessoas), mas em troca as fronteiras econ\u00f4micas e sociais entre os pa\u00edses se viram fortemente refor\u00e7adas, aprofundando a desigualdade econ\u00f4mica e social entre eles. Esta tend\u00eancia, longe de atenuar, se aprofundou durante a crise passada e vai se acentuar ainda mais no futuro.<br \/>\nSob o capitalismo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resgatar a Europa da decad\u00eancia, nem \u00e0s massas trabalhadoras da regress\u00e3o social, nem enfrentar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer isso sem unificar a Europa sob o poder dos trabalhadores. A luta para tomar o poder e expropriar o capital come\u00e7a pelos pa\u00edses individuais, mas s\u00f3 pode culminar com \u00eaxito, estendendo ao resto dos pa\u00edses e construindo os Estados Unidos Socialistas da Europa, entendidos, por sua vez, como parte da luta por uma Federa\u00e7\u00e3o socialista mundial.<br \/>\nA luta do povo da Catalunha por seus direitos nacionais enfrenta n\u00e3o s\u00f3 o regime mon\u00e1rquico como tamb\u00e9m a UE, o grande apoio do Estado Espanhol. O movimento contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o s\u00f3 se choca com a hipocrisia dos governos como tamb\u00e9m com a hipocrisia da UE, que promove e legitima uma pol\u00edtica a servi\u00e7o do\u00a0 \u201ccapitalismo verde\u201d que\u00a0 n\u00e3o quer nem pode enfrentar a crise clim\u00e1tica nem a degrada\u00e7\u00e3o ambiental. O movimento de solidariedade com o povo curdo se choca com a pol\u00edtica complacente da UE para com o regime turco, subcontratado para fechar a passagem \u00e0 Europa aos refugiados s\u00edrios, a quem mant\u00e9m sem direitos e na indig\u00eancia.\u00a0 Os coletes amarelos franceses n\u00e3o s\u00f3 enfrentam Macron, como tamb\u00e9m \u00e0 UE. Os planos de Macron contra o sistema p\u00fablico de aposentadorias n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 uma exig\u00eancia do capitalismo franc\u00eas, mas tamb\u00e9m da UE.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o \u201cnacional\u201d individual sem unificar a Europa sob o poder dos trabalhadores. S\u00f3 assim podemos conseguir uma verdadeira unifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, colocando todas as for\u00e7as a servi\u00e7o do progresso humano; acabando com a divis\u00e3o entre europeus de primeira, segunda e terceira categoria; reconvertendo a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio para fazer frente \u00e0 emerg\u00eancia social e clim\u00e1tica; convertendo o continente em um baluarte da luta pelo socialismo mundial.<br \/>\nIsto significa, em primeiro lugar, acabar com a UE. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica revolucion\u00e1ria em nenhum pa\u00eds da UE que n\u00e3o parta da\u00ed e da luta por uma Europa Socialista dos trabalhadores e dos povos. Este \u00e9 o eixo unificador de todo programa revolucion\u00e1rio na Europa.<br \/>\nPara finalizar, vamos citar algumas palavras que Le\u00f3n Trotsky pronunciou no IV Congresso da Internacional Comunista h\u00e1 quase 100 anos, e que conservam plenamente sua vig\u00eancia: <em>\u201cA consigna dos Estados Socialistas da Europa est\u00e1 no mesmo plano hist\u00f3rico que a do \u2018governo oper\u00e1rio e campon\u00eas\u2019; \u00e9 uma consigna transicional, indica uma sa\u00edda, uma perspectiva de salva\u00e7\u00e3o e brinda, ao mesmo tempo, um impulso revolucion\u00e1rio \u00e0s massas oper\u00e1rias\u201d. <\/em>\u00a0Este \u00e9 o caminho.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n[1] 1 A economia alem\u00e3 representava em 2018,\u00a0 28% do PIB da UE e 39% de seu valor agregado industrial. \u00c9 o terceiro pa\u00eds exportador do mundo e suas vendas ao exterior representam\u00a0 40% de seu PIB. EEUU e China s\u00e3o seus principais clientes fora da UE (8,71% e 7,13% do total).Suas principais exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o ve\u00edculos de luxo e maquinaria avan\u00e7ada.<br \/>\n[2] 2 O \u201cManifesto por um novo internacionalismo dos povos da Europa\u201d (mar\u00e7o 2019) est\u00e1 encabe\u00e7ado por Eric Toussaint e subscrito por dirigentes do SU-QI (entre eles a dire\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do NPA franc\u00eas), junto a dirigentes de for\u00e7as reformistas (France Insoumise, Attac, Izquierda Unida Espa\u00f1ola, PCF\u2026) e alguns intelectuais de prest\u00edgio.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Uni\u00e3o Europeia (UE) sofre a pior crise desde sua funda\u00e7\u00e3o. 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