{"id":31392,"date":"2020-02-06T13:58:08","date_gmt":"2020-02-06T15:58:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31392"},"modified":"2020-02-06T13:58:08","modified_gmt":"2020-02-06T15:58:08","slug":"o-jovem-trotsky-entre-menchevismo-e-bolchevismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/02\/06\/o-jovem-trotsky-entre-menchevismo-e-bolchevismo\/","title":{"rendered":"O jovem Trotsky: entre menchevismo e bolchevismo"},"content":{"rendered":"<p><em>O pensamento e, sobretudo, as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Leon Trotsky no per\u00edodo que antecede a Revolu\u00e7\u00e3o Russa foram, desde muito cedo, objeto de grandes debates e pol\u00eamicas. E isto n\u00e3o se deu sem motivo. Gozando de grande prest\u00edgio pela sua atua\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e na dire\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho, Trotsky foi o alvo priorit\u00e1rio da burocracia stalinista quando se tornou o porta-voz de sua oposi\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Gustavo Machado<br \/>\nNesse cen\u00e1rio, as pol\u00eamicas e disputas entre Lenin e Trotsky, que se seguiram desde pelo menos o segundo congresso da Social-democracia russa \u2013 1903, quando se deu o seu fracionamento entre Bolcheviques e Mencheviques\u2013, foram largamente difundidas. Com particular intensidade as duras cr\u00edticas de Lenin \u00e0 Trotsky realizadas no per\u00edodo entre 1909 e 1912. N\u00e3o \u00e9 preciso remontar aqui o que j\u00e1 fora dito e redito um sem-n\u00famero de vezes. \u00c9 suficiente mencionar que, com aux\u00edlio dessas antigas pol\u00eamicas, Trotsky fora convertido em menchevique e em inimigo n\u00famero um do bolchevismo.<br \/>\nN\u00e3o sem raz\u00e3o, os trotskistas e o pr\u00f3prio Trotsky se dedicaram, desde ent\u00e3o, a mostrar o outro lado da moeda. Particularmente, a m\u00fatua admira\u00e7\u00e3o que sempre existira entre os dois principais dirigentes da revolu\u00e7\u00e3o de 1917, a confirma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente elaborada por Trotsky desde o in\u00edcio do s\u00e9culo, seu papel de destaque na revolu\u00e7\u00e3o de 1905, suas cr\u00edticas precoces e certeiras \u00e0 vis\u00e3o estapista da hist\u00f3ria dos mencheviques e assim por diante. Por outro lado, as diferen\u00e7as com Lenin foram, regra geral, expostas do seguinte modo: a revolu\u00e7\u00e3o de 1917 marcou a aproxima\u00e7\u00e3o de Lenin da teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente de Trotsky e a ades\u00e3o desse \u00faltimo \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de partido sustentada pelo principal dirigente do partido Bolchevique, reconciliando-os.<br \/>\nApesar desta conclus\u00e3o n\u00e3o ser, em suas linhas mais gerais, falsa, distante est\u00e1 de dar conta do cerne das diferen\u00e7as entre os dois. Em verdade, Lenin rar\u00edssimas vezes abordou o tema da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Trotsky, inclusive, sustenta, anos depois, que Lenin sequer havia lido seus escritos sobre o tema. Por outro lado, exceto por um antigo ensaio denominado\u00a0Nossas Diferen\u00e7as Pol\u00edticas, a quest\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o de partido em Lenin encontra-se praticamente ausente nos escritos conhecidos de Trotsky at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o. Qual seria, ent\u00e3o, o motivo central do embate entre Trotsky e Lenin no per\u00edodo entre a cis\u00e3o da social-democracia russa e a revolu\u00e7\u00e3o de 1917?<br \/>\nEm fun\u00e7\u00e3o das cal\u00fanias a que foi sistematicamente submetido, da identifica\u00e7\u00e3o caricatural do stalinismo com o leninismo, o pr\u00f3prio Trotsky n\u00e3o deixou de nuan\u00e7ar a real natureza de suas diverg\u00eancias com Lenin no per\u00edodo anterior a sua ades\u00e3o ao bolchevismo. Tratava-se do conciliacionismo ou do centrismo de Trotsky que, em todo per\u00edodo precedente, batalhou pela unidade entre bolcheviques e mencheviques, entre revolucion\u00e1rios e reformistas.<br \/>\nN\u00e3o foi casual que somente em seu \u00faltimo e inacabado escrito, a biografia de\u00a0Stalin,\u00a0Trotsky dedicou um espa\u00e7o consider\u00e1vel a este tema. Por isso, nesse artigo, nos centramos exclusivamente nesse texto, tendo em vista esclarecer o conte\u00fado central da pol\u00eamica de ent\u00e3o. Sobretudo, hoje, passados 25 anos do sepultamento definitivo do aparato stalinista no leste europeu, j\u00e1 \u00e9 chegada a hora de reexaminarmos a quest\u00e3o sem a interpenetra\u00e7\u00e3o das caricaturas do passado, para dela retirarmos as devidas li\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<strong>O conciliacionismo de Trotsky<\/strong><br \/>\n\u00c9 sabido que Trotsky, j\u00e1 na sua juventude, desenvolvera a tese de que somente o proletariado russo poderia assumir o papel dirigente em uma futura revolu\u00e7\u00e3o nesse pa\u00eds. Mais ainda. Tal revolu\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o social do proletariado, assumiria tarefas imediatamente socialistas. Sua concep\u00e7\u00e3o se opunha tanto a vis\u00e3o etapista menchevique-plekanoviana da necessidade de uma longa etapa liberal burguesa na R\u00fassia, assim como a teoria do pr\u00f3prio Lenin que acenava, ainda que temporariamente, na dire\u00e7\u00e3o de um governo oper\u00e1rio-campon\u00eas nos marcos de uma Rep\u00fablica burguesa. Trotsky poderia, nesse caminho, ainda que grosseiramente, ser caracterizado como \u00e0 esquerda dos Bolcheviques. Como explicar, portanto, o fato de ter batalhado t\u00e3o persistentemente pela reconcilia\u00e7\u00e3o entre bolcheviques e mecheviques?(1).<br \/>\nO pr\u00f3prio Trotsky nos explica: em sua antiga acep\u00e7\u00e3o, com o irromper de uma \u201cnova Revolu\u00e7\u00e3o, sob press\u00e3o das massas trabalhadoras, as duas fra\u00e7\u00f5es iriam de qualquer maneira ser compelidas a assumir uma posi\u00e7\u00e3o id\u00eantica, como o haviam feito em 1905\u201d (TROTSKY, 2012, 354). Em outro lugar, assinala o que seria \u201ccalcanhar de Aquiles\u2019 do `trotskismo\u2019: \u201co conciliacionismo, associado \u00e0 esperan\u00e7a de uma reencarna\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do menchevismo\u201d (TROTSKY, 2012, 376). Qual seria o pressuposto te\u00f3rico dessa vis\u00e3o conciliacionista propugnada por Trotsky? Em que se baseava sua cren\u00e7a de que o menchevismo se envergaria para posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias sob o influxo de um processo revolucion\u00e1rio?<br \/>\nEm outra passagem, o revolucion\u00e1rio russo esclarece seus pressupostos: a \u201cpol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o crescia na esperan\u00e7a de que o pr\u00f3prio curso dos acontecimentos pudesse proporcionar a t\u00e1tica necess\u00e1ria\u201d (TROTSKY, 2012, 354). Ou seja, na acep\u00e7\u00e3o do jovem Trotsky, as t\u00e1ticas s\u00e3o \u201cproporcionadas\u201d pelo movimento, pelos acontecimentos e n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do objetivo final, j\u00e1 que este \u00faltimo \u00e9 engendrado espontaneamente pelo primeiro. Tratava-se unicamente de fomentar um bloco \u00e0 esquerda e, feito isto, a realidade mesma se encarregaria do resto. T\u00e1tica e estrat\u00e9gia, meios e fins s\u00e3o separados por um abismo. Tanto \u00e9 assim que logo em seguida complementa:<br \/>\n<em>\u201co otimismo fatalista significa, na pr\u00e1tica, n\u00e3o apenas rep\u00fadio a luta fracional, mas da pr\u00f3pria ideia de um partido, porque, se \u2018o curso dos acontecimentos\u2019 \u00e9 capaz de, diretamente, ditar \u00e0s massas a pol\u00edtica correta, qual a utilidade de qualquer unifica\u00e7\u00e3o especial da vanguarda prolet\u00e1ria, da elabora\u00e7\u00e3o de um programa, da escolha de dirigentes, do prepara no esp\u00edrito da disciplina?\u201d<\/em> (TROTSKY, 2012, 355).<br \/>\nO racioc\u00ednio emp\u00edrico oculto sobre tal equ\u00edvoco n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de deduzir. Com a rea\u00e7\u00e3o que se abateu a partir de 1909 na R\u00fassia, a tend\u00eancia \u00e0 unidade a todo custo se acirrou nas fileiras da social-democracia. Como explica Trotsky: a \u201ccont\u00ednua fragmenta\u00e7\u00e3o do Partido em pequenos grupos, que travam batalhas implac\u00e1veis no v\u00e1cuo, despertou, em muitas fra\u00e7\u00f5es,\u00a0o desejo de acordo, de concilia\u00e7\u00e3o, de unidade a qualquer pre\u00e7o\u201d (TROTSKY, 2012, 354). Parafraseando Bernstein, como o movimento \u00e9 tudo e o objetivo final brota espontaneamente desse movimento, a for\u00e7a das posi\u00e7\u00f5es revolucionarias s\u00e3o medidas em fun\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o quantitativa do bloco que se contrap\u00f5em \u00e0 classe dominante, independente de seu programa espec\u00edfico. No entanto, a autocr\u00edtica de Trotsky foi completa. Destaca que certos \u201ccr\u00edticos do bolchevismo [\u2026] encaram o meu velho conciliacionismo como express\u00e3o de sabedoria. Contudo, o seu erro profundo j\u00e1 foi h\u00e1 muito demonstrado tanto na teoria como na pr\u00e1tica\u201d (TROTSKY, 2012, 354-355). Tal erro profundo consiste basicamente no seguinte:<br \/>\n<em>Uma simples concilia\u00e7\u00e3o de fra\u00e7\u00f5es s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ao longo de uma esp\u00e9cie de linha \u2018m\u00e9dia\u2019. Mas\u00a0onde h\u00e1 garantia de que esta diagonal possa coincidir com as necessidades do desenvolvimento objetivo? A tarefa da pol\u00edtica cient\u00edfica \u00e9 deduzir um programa e uma t\u00e1tica de uma an\u00e1lise da luta de classes, n\u00e3o do paralelogramo [sempre inst\u00e1vel] de for\u00e7as secund\u00e1rias e transit\u00f3rias, como fra\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Na verdade, a posi\u00e7\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o era tal que apertava a atividade pol\u00edtica de todo Partido dentro de limites extremamente estreitos. A esse tempo, poderia parecer que as diverg\u00eancias n\u00e3o tinham import\u00e2ncia e eram, artificialmente, inflamadas pelos dirigentes emigrados. Contudo, precisamente durante o per\u00edodo da rea\u00e7\u00e3o, o partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o poderia forjar os seus quadros sem perspectivas mais amplas\u201d<\/em> (TROTSKY, 2012, 354-355).<br \/>\nComo se v\u00ea, para o Trotsky p\u00f3s-1917, a elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de uma pol\u00edtica n\u00e3o se baseia na somat\u00f3ria ou justaposi\u00e7\u00e3o de partidos ou fra\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se funda em uma linha m\u00e9dia tacejada na somat\u00f3ria de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, mas nas \u201cnecessidades do movimento objetivo\u201d. Por isso se deduz \u201cum programa e uma t\u00e1tica de uma an\u00e1lise da luta de classes\u201d. \u00c9 interessante notar que, segundo Trotsky, \u00e9 justamente em um per\u00edodo de rea\u00e7\u00e3o que um partido precisa forjar seus quadros em perspectivas mais amplas, isto \u00e9, com uma delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica clara e diferencia\u00e7\u00e3o permanente, no presente caso, com o menchevismo.<br \/>\nEvidentemente, a press\u00e3o em sentido oposto foi muito grande. Tanto que, ao tratar da perman\u00eancia de St\u00e1lin no partido Bolchevique naquele per\u00edodo de vacas magras, assinala que, durante os anos de rea\u00e7\u00e3o, Stalin \u201cn\u00e3o foi um entre as dezenas de milhares que desertaram do Partido, mas um entre as poucas centenas que, apesar de tudo, lhe continuaram fi\u00e9is\u201d (TROTSKY, 2012, 357). Nessa altura, o partido Bolchevique que poucos anos antes organizava dezenas de milhares, se viu reduzido a algumas centenas, talvez menos. Isto tornou a posi\u00e7\u00e3o de Trotsky mais razo\u00e1vel? A unidade com os mencheviques em fun\u00e7\u00e3o do reduzido n\u00famero de integrantes do partido Bolchevique que, segundo a met\u00e1fora de Lenin, a \u00e9poca se assemelhava a uma \u201ccrian\u00e7a coberta de abscessos\u201d?<br \/>\nLenin pensava exatamente o oposto. Conforme nos explica Trotsky, o dirigente bolchevique escreveu em 1911 que, naquele per\u00edodo, numerosos social-democratas\u00a0 \u201cmergulharam no conciliacionismo,\u00a0partindo dos motivos mais diversos. Mais consistente que todos era o conciliacionismo expresso por Trotsky, por isso, foi o \u00fanico a procurar uma \u2018base te\u00f3rica\u2019 para essa pol\u00edtica\u201d. Isto fez Lenin ver em Trotsky \u201ca maior amea\u00e7a para o desenvolvimento de um partido revolucion\u00e1rio\u201d (TROTSKY, 2012, 355-356). Como se nota, Lenin n\u00e3o apenas combateu as posi\u00e7\u00f5es de Trotsky, como viu nela a principal amea\u00e7a para o desenvolvimento de um partido revolucion\u00e1rio. Mais at\u00e9 que as posi\u00e7\u00f5es explicitamente reformistas dos mencheviques. Em que se baseava um ju\u00edzo t\u00e3o severo?<br \/>\nEm seguida, Trotsky explica a posi\u00e7\u00e3o de Lenin. \u201c\u2018Aprendemos na \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o\u2019, escreveu Lenin, em julho de 1909, \u2018a falar franc\u00eas\u2019, isto \u00e9, a despertar a energia e o \u00edmpeto direto da luta de massa\u201d. No entanto, o que fazer quando a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 na ordem do dia? Lenin prossegue: \u201cagora precisamos, na fase de estagna\u00e7\u00e3o, de rea\u00e7\u00e3o, de desagrega\u00e7\u00e3o, aprender a falar alem\u00e3o, isto \u00e9, a trabalhar lentamente\u2026 conquistando o terreno polegada por polegada\u201d (TROTSKY, 2012, 356). Seria este \u2018falar alem\u00e3o\u2019, este trabalhar lentamente, a pol\u00edtica do conciliacionismo de Trotsky?<br \/>\nDa unidade com os mencheviques no intento de fortalecer o bloco pol\u00edtico anti-czarista e de colher as migalhas do menchevismo? Absolutamente n\u00e3o. Esta era, na verdade, a posi\u00e7\u00e3o de Martov, o principal dirigente Menchevique \u00e0 \u00e9poca. Para Martov, continua Trotsky, \u201c \u2018falar alem\u00e3o\u2019 significava a adapta\u00e7\u00e3o ao semi-absolutismo russo, na esperan\u00e7a de que, gradualmente, se \u2018europeizasse\u2019\u201d. Por outro lado, para \u201cLenin, a mesma express\u00e3o queria dizer: a utiliza\u00e7\u00e3o, com ajuda de um partido ilegal, de todas as magras possibilidades legais, no trabalho de preparo de uma nova Revolu\u00e7\u00e3o\u201d (TROTSKY, 2012, 356-357).<br \/>\nComo se v\u00ea, para Lenin, mesmo em um per\u00edodo de rea\u00e7\u00e3o, as tarefas legais e ilegais s\u00e3o hierarquizadas pelo \u201ctrabalho de preparo de uma nova Revolu\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o em um acumular for\u00e7as de modo indeterminado. Para melhor al\u00e7armos o sentido desse \u2018falar alem\u00e3o\u2019 de Lenin, assim como seu recha\u00e7o a toda e qualquer concilia\u00e7\u00e3o, \u00e9 esclarecedor as palavras de Trotsky a respeito da t\u00e1tica de Lenin frente as elei\u00e7\u00f5es da DUMA, particularmente no que diz respeito a rela\u00e7\u00e3o entre partido Bolchevique e Menchevique nesse processo. Feito isso, podemos distinguir com clareza o abismo entre a concep\u00e7\u00e3o que procura extrair as t\u00e1ticas dos acontecimentos do dia que passa e \u00e0quela que, sem desconsider\u00e1-los, deduz um \u201cprograma e uma t\u00e1tica de uma an\u00e1lise da luta de classes\u201d, isto \u00e9, das \u201cnecessidades do desenvolvimento objetivo\u201d.<br \/>\n<strong>A posi\u00e7\u00e3o de Lenin diante das elei\u00e7\u00f5es da DUMA<\/strong><br \/>\nSe Lenin rejeitava a unidade entre bolcheviques e mencheviques tal como defendera Trotsky, qual seria sua posi\u00e7\u00e3o diante do processo eleitoral da DUMA? Nesse caso, seria ele adepto do bloco eleitoral em fun\u00e7\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o do movimento revolucion\u00e1rio russo e, particularmente, da dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o num\u00e9rica do partido Bolchevique? Assim Trotsky resume a plataforma eleitoral Bolchevique:<br \/>\n<em>Os bolcheviques empenharam-se na luta eleitoral\u00a0separados\u00a0dos liquidadores[mencheviques],\u00a0e contra eles. Os oper\u00e1rios deviam reunir-se sob a bandeira das tr\u00eas principais palavras de ordem da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica: a rep\u00fablica, a jornada de oito horas e a confisca\u00e7\u00e3o dos dom\u00ednios territoriais. Libertar os pequenos burgueses democratas da influ\u00eancia dos liberais, arrastar os camponeses para o lado dos oper\u00e1rios \u2013 tais eram as principais ideias da plataforma eleitoral de Lenin.<\/em> (TROTSKY, 2012, 396)<br \/>\nMesmo no processo eleitoral, em meio a uma ditadura autocr\u00e1tica, os bolcheviques n\u00e3o apenas marchavam separados dos mencheviques, mas contra eles.\u00a0 \u201cEnergicamente, combateu os liquidadores durante a campanha a fim de ter os seus pr\u00f3prios deputados: tratava-se de assegurar um importante ponto de apoio\u201d (TROTSKY, 2012, 399). Teria Lenin lutado t\u00e3o energicamente contra os mencheviques a fim de conseguir mais deputados? Sem d\u00favida, os deputados bolcheviques seriam \u201cum importante ponto de apoio\u201d, no entanto,\u00a0 \u201ctoda a sua pol\u00edtica orientava-se para a educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas.<br \/>\nA luta da campanha eleitoral nada representava para ele se, ap\u00f3s, os deputados social-democratas, na Duma, permanecessem unidos\u201d (TROTSKY, 2012, 399). Ou seja, o crit\u00e9rio fundamental n\u00e3o era a elei\u00e7\u00e3o de deputados, tampouco a quantidade total de votos, mas a educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas, o que apenas pode ter como centro a clara distin\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es dos mencheviques. Em resumo: \u201cprocurava proporcionar aos oper\u00e1rios todas \u2018as oportunidades \u2013 a cada passo, com cada ato \u2013 para convencerem-se de que nas quest\u00f5es fundamentais os bolcheviques distinguiam-se nitidamente de todos os demais grupos pol\u00edticos\u2019 \u201c. (TROTSKY, 2012, 399-400).<br \/>\nMas existe ainda outro aspecto fundamental, largamente explorado por Trotsky em sua autocr\u00edtica das posi\u00e7\u00f5es de juventude em favor das posi\u00e7\u00f5es bolcheviques. Al\u00e9m de ter sustentado uma posi\u00e7\u00e3o conciliacionista, ao pressupor que a luta conduz por si mesma \u00e0 posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, Trotsky n\u00e3o deu o peso devido a base social dos respectivos partidos. Diz ele que o \u201cbolchevismo contava com a vanguarda revolucion\u00e1ria do proletariado e ensinou-lhe como arrastar atr\u00e1s de si o campon\u00eas pobre. O menchevismo contava com a aristocracia oper\u00e1ria e inclinava-se para a burguesia liberal\u201d (TROTSKY, 2012, 376-377).<br \/>\nMuito embora n\u00e3o exista um v\u00ednculo necess\u00e1rio e individualizado entre a composi\u00e7\u00e3o social e o programa pol\u00edtico, este fator produz inclina\u00e7\u00f5es em conformidade com as pr\u00f3prias caracter\u00edsticas dos setores sociais envolvidos. N\u00e3o sem raz\u00e3o, para Lenin, o processo eleitoral era tratado prioritariamente em fun\u00e7\u00e3o de seu trabalho na classe oper\u00e1ria. Era nesse setor social que os bolcheviques escolhiam os seus candidatos e avaliavam sua influ\u00eancia.<br \/>\nTanto \u00e9 assim que, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o da quarta DUMA, os \u201csete mencheviques, quase todos intelectuais, procuravam colocar os seis bolcheviques, oper\u00e1rios com pequena experi\u00eancia pol\u00edtica, sob seu controle\u201d. Diante disso, a posi\u00e7\u00e3o de Lenin foi a seguinte: se \u201ctodos os nossos seis s\u00e3o oriundos dos distritos oper\u00e1rios, n\u00e3o devem se submeter em sil\u00eancio a um grupo de siberianos\u201d (TROTSKY, 2012, 398). Os siberianos se tratavam, como \u00e9 sabido, predominantemente de intelectuais.<br \/>\nPor fim, a autocr\u00edtica das posi\u00e7\u00f5es do jovem Trotsky e a s\u00edntese das li\u00e7\u00f5es extra\u00eddas da atua\u00e7\u00e3o dos bolcheviques naqueles anos entre 1909 \u00e0 1912, em que o partido passara de um restrito agrupamento de militantes a uma forte inser\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria, \u00e9 assim resumida:<br \/>\n<em>\u201cTodos grupos hostis ao bolchevismo \u2013 os liquidadores, os renuncistas, todas as matizes de conciliadores \u2013 mostraram-se absolutamente incapazes de lan\u00e7ar ra\u00edzes na classe oper\u00e1ria. Da\u00ed Lenin tirou a sua conclus\u00e3o: \u2018Unicamente no curso da luta contra tais grupos pode o verdadeiro Partido Social-Democrata dos oper\u00e1rios constituir-se na R\u00fassia\u2019\u2018<\/em> (TROTSKY, 2012, 425)<br \/>\n<strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><br \/>\nComo se v\u00ea, apeser do jovem Trotsky estar, desde o come\u00e7o e em nossa opini\u00e3o, correto a respeito do car\u00e1ter e sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o russa, apesar de ter escrito uma das mais brilhantes an\u00e1lises particulares de um processo revolucion\u00e1rio \u2013 A revolu\u00e7\u00e3o de 1905 \u2013, apesar de ter se revelado muito precocemente um grande orador de massas, assim como propagandista; sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se situa entre o menchevismo e o bolchevismo. Independente da maior ou menor justeza de v\u00e1rias de suas posi\u00e7\u00f5es, mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos bolcheviques, de nada valeriam se, na sua efetividade, se apresentassem mescladas em uma linha m\u00e9dia de um agrupamento pol\u00edtico que congrega em seu seio revolucion\u00e1rios e reformistas.<br \/>\n\u00c9 evidente que os bolcheviques tiveram \u00eaxito porque conseguiram corrigir a tempo os limites de um programa que acenava unicamente na dire\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica democr\u00e1tica. No entanto, n\u00e3o teriam sequer a chance de se corrigir, se n\u00e3o estivessem fortemente enraizados na classe oper\u00e1ria, com uma organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e programaticamente independente. N\u00e3o apenas separados dos mencheviques, mas, sobretudo, \u201ccontra eles\u201d.<br \/>\n<strong>Notas<\/strong><br \/>\nCabe lembrar que, muito embora, formalmente, se tratasse de fra\u00e7\u00f5es do Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo, na realidade eram partidos diferentes, com seus n\u00facleos dirigentes e estruturas independentes. Ainda que tenha ocorrido tentativas de reconcilia\u00e7\u00e3o manifestas na realiza\u00e7\u00e3o de congressos em comum e, mesmo, por um curto per\u00edodo, a cria\u00e7\u00e3o de um\u00a0collegium\u00a0do Comit\u00ea Central que congregava membros de ambas as fra\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nTROTSKY, Leon; COGGIOLA, Oswaldo. Stalin: Biografia \u2013 Estudo preliminar de Oswaldo Coggiola. Editora Livraria da Fisica, 2012, S\u00e3o Paulo.<br \/>\nArtigo publicado em 07\/03\/2016. Acess\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/o-jovem-trotsky-entre-menchevismo-e-bolchevismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/o-jovem-trotsky-entre-menchevismo-e-bolchevismo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pensamento e, sobretudo, as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Leon Trotsky no per\u00edodo que antecede a Revolu\u00e7\u00e3o Russa foram, desde muito cedo, objeto de grandes debates e pol\u00eamicas. E isto n\u00e3o se deu sem motivo. Gozando de grande prest\u00edgio pela sua atua\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e na dire\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho, Trotsky foi o alvo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":31393,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[2465,3159,48,4927,1382],"class_list":["post-31392","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","tag-bolchevismo","tag-gustavo-machado","tag-lenin-2","tag-menchevismo","tag-trotsky"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/trotski_jove_ara.jpg","categories_names":["TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31392"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31392\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31393"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}