{"id":31267,"date":"2020-01-25T12:07:10","date_gmt":"2020-01-25T14:07:10","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31267"},"modified":"2020-01-25T12:07:10","modified_gmt":"2020-01-25T14:07:10","slug":"o-verde-de-davos-e-do-dolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/01\/25\/o-verde-de-davos-e-do-dolar\/","title":{"rendered":"O \u2018verde\u2019 de Davos \u00e9 do d\u00f3lar"},"content":{"rendered":"<p><em>Terminou nesta sexta-feira\u00a0(24), na Su\u00ed\u00e7a, o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial. A edi\u00e7\u00e3o de n\u00famero 50 do F\u00f3rum teve como foco os temas ambientais, particularmente as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u00a0Um show de hipocrisia absurda que provocaria a imagina\u00e7\u00e3o de qualquer artista do surrealismo. Ao lado dos luxuosos helic\u00f3pteros e o tradicional desfile de limousines, os \u201cdonos do mundo\u201d resolveram dar sua contribui\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0 \u201csustentabilidade ambiental\u201d proibindo utens\u00edlios pl\u00e1sticos de uso \u00fanico, montando buffets sem carne. Tudo isso para \u201ccompensar\u201d as emiss\u00f5es de carbono\u00a0dos combust\u00edveis\u00a0usado em avi\u00f5es particulares.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Jeferson Choma<br \/>\nDe acordo com um relat\u00f3rio do Greenpeace, dez bancos regularmente presentes em Davos financiaram entre 2015 e 2018 o setor de combust\u00edveis f\u00f3sseis com US$ 1 bilh\u00e3o. Segundo a Climate Accountability Institute Apenas 100 grandes empresas s\u00e3o respons\u00e1veis por 70% das emiss\u00f5es globais de di\u00f3xido de carbono (CO2) desde 1988. Na verdade, o apelido dado a edi\u00e7\u00e3o deste ano de \u201cDavos Verde\u201d \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a grana dessa gente.<br \/>\n<strong>Guedes: a culpa \u00e9 dos pobres<\/strong><br \/>\nO ministro da Economia, Paulo Guedes, agiu como um caixeiro viajante tentando \u201catrair investimentos\u201d. O problema \u00e9 que n\u00e3o vai ter investimento algum, mas sim a entrega do patrim\u00f4nio p\u00fablico por meio das privatiza\u00e7\u00f5es, ou seja de estruturas j\u00e1 criadas pelo Estado.<br \/>\nAo todo, \u201co caixeiro\u201d apresentou 115 projetos que inclui o leil\u00e3o de 5G, previsto para o segundo semestre deste ano. As estimativas iniciais de valor da outorga (taxa paga para explorar a concess\u00e3o p\u00fablica) ficam em torno de R$ 20 bilh\u00f5es. Tamb\u00e9m botou na mesa 11 ferrovias, 22 aeroportos, 19 rodovias, al\u00e9m da privatiza\u00e7\u00e3o de empresas como Eletrobr\u00e1s, Nuclep, Casa da Moeda e estudos para a desestatiza\u00e7\u00e3o de Telebr\u00e1s e Correios. Se n\u00e3o teve buffets sem carne, Guedes serviu fil\u00e9 mignon ao imperialismo em Davos. Tamb\u00e9m incluiu projetos estaduais de concess\u00e3o nas \u00e1reas de saneamento, como \u00e9 o caso da Companhia Estadual de \u00c1guas e Esgotos (Cedae), do Rio de Janeiro.<br \/>\nMas o que chamou aten\u00e7\u00e3o do mundo, foi a declara\u00e7\u00e3o de Guedes\u00a0culpando os mais pobres pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental no Brasil. \u201cO grande inimigo do meio ambiente \u00e9 a pobreza\u201d, disse ele. \u201cAs pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer\u201d, completou. As declara\u00e7\u00f5es foram dadas durante o painel intitulado \u201cMoldando o futuro da ind\u00fastria avan\u00e7ada\u201d, uma das atividades do F\u00f3rum.<br \/>\nA indec\u00eancia da declara\u00e7\u00e3o cai a mais simples retrospectiva 2019. N\u00e3o foram os pobres que realizaram o \u201cDia do Fogo\u201d na Amaz\u00f4nia, mas poderosos latifundi\u00e1rios que se sentiram avalizados\u00a0por Bolsonaro\u00a0em grilar terras p\u00fablicas. Os donos da Vale, respons\u00e1veis pelo rompimento de duas barragens em Minas Gerais, tamb\u00e9m n\u00e3o fizeram isso para ter o que comer. Tampouco o governo liberou 503 novos venenos agr\u00edcolas pensando nos milh\u00f5es de miser\u00e1veis do pa\u00eds. Tudo isso \u00e9 resultado de anos de pol\u00edtica econ\u00f4mica que promovem a coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es. Uma orienta\u00e7\u00e3o que Bolsonaro e Guedes querem aprofundar.<br \/>\n<strong>Relat\u00f3rio sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><br \/>\nMas chamou a aten\u00e7\u00e3o um Relat\u00f3rio distribu\u00eddo pelo Instituto Global McKinsey (IGM). O documento trabalha com dados elaborados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da ONU). No entanto, seu foco \u2013 como n\u00e3o poderia deixar de ser \u2013 aponta para os preju\u00edzos que os capitalistas poderiam ter com as catastr\u00f3ficas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<br \/>\nO Instituto admite claramente que o clima da Terra est\u00e1 mudando. Mais ainda, afirma que as mudan\u00e7as adicionais s\u00e3o inevit\u00e1veis na pr\u00f3xima d\u00e9cada. Desde 2010, os relat\u00f3rios do IPCC fazem simula\u00e7\u00e3o de quatro diferentes cen\u00e1rios de aumento das concentra\u00e7\u00f5es de gases de efeito estufa, poss\u00edveis de acontecer at\u00e9 2100 \u2013 os chamados \u201cRepresentative Concentration Pathways (RCPs)\u201d.<br \/>\nO relat\u00f3rio do IGM trabalha com o pior cen\u00e1rio, o RCP 8.5 (o que significa um armazenamento de 8,5 watts por metro quadrado \u2013 W\/m2), no qual as emiss\u00f5es de CO2 continuam a crescer em ritmo acelerado. Em tal situa\u00e7\u00e3o, segundo o IPCC, a superf\u00edcie da Terra poderia aquecer entre 2,6 \u00b0C e 4,8 \u00b0C ao longo deste s\u00e9culo, fazendo com que o n\u00edvel dos oceanos aumente entre 45 e 82 cent\u00edmetros.<br \/>\nParece surpreendente que os donos do capital trabalhem com esse cen\u00e1rio mais radial, enquanto muitos negacionistas s\u00e3o pagos a pre\u00e7os de ouro (por muitos deles, inclusive) para difundir a confus\u00e3o\u00a0na opini\u00e3o p\u00fablica. Mas n\u00e3o \u00e9. A fal\u00eancia de todos os acordos clim\u00e1ticos, incluindo\u00a0o Acordo\u00a0de Paris na recente COP25, mostram que o sistema n\u00e3o consegue impedir a crise que ele mesmo provocou.<br \/>\nO aquecimento \u00e9 atualmente de cerca de 1.1 \u00baC em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 era pr\u00e9-industrial. Ao atual ritmo das emiss\u00f5es, o teto dos 1.5\u00baC ser\u00e1 atingido nas pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas. Segundo o IPCC e um relat\u00f3rio do Pnuma (Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente), para se manter essa meta seria preciso diminuir as emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono em 7,6% ao ano at\u00e9 2030(!).<br \/>\nEspecialistas calculam que o ponto de n\u00e3o-retorno do seu deslocamento est\u00e1 entre os 1.5 \u00baC e os 2 \u00baC de aquecimento. A partir da\u00ed ser\u00e1 inevit\u00e1vel o derretimento do gelo das calotas polares, do cume das montanhas, glaciares e at\u00e9 da libera\u00e7\u00e3o do metano pelo descongelamento do\u00a0permafrost.<br \/>\nMas os senhores do dinheiro est\u00e3o preocupados \u00e9 com seu lucro. Nesse sentido, o relat\u00f3rio trabalha com cinco vari\u00e1veis: 1) habitabilidade e trabalhabilidade; 2) sistemas alimentares; 3) ativos f\u00edsicos; 4) servi\u00e7os de infraestrutura; 5) capital natural.\u00a0Em apenas uma d\u00e9cada, todos os 105 pa\u00edses examinados pelo relat\u00f3rio poderiam experimentar um aumento\u00a0em, pelo menos, um\u00a0desses indicadores.<br \/>\nO\u00a0item\u00a0habitabilidade e trabalhabilidade est\u00e3o relacionados a m\u00e9dia de horas de trabalho anuais ao ar livre\u00a0perdidos devido ao calor e umidade extremos. Com o aumento das ondas de calor, o relat\u00f3rio prev\u00ea que para a \u00cdndia, at\u00e9 2030, entre 160 milh\u00f5es e 200 milh\u00f5es de pessoas poderiam viver em\u00a0regi\u00f5es com uma m\u00e9dia anual de 5% probabilidade de sofrer uma onda de calor que excede o limite de sobreviv\u00eancia. A estimativa do documento \u00e9 que 1,2 bilh\u00f5es\u00a0de pessoas que vivem em \u00e1reas com uma m\u00e9dia de 14 % probabilidade anual de ondas de calor letais.<br \/>\nIsso afeta diretamente a produtividade do trabalho, a produ\u00e7\u00e3o de valor e interferiria na taxa de lucro dos capitalistas. O relat\u00f3rio estima uma perda de m\u00e9dia de horas de trabalho anuais ao ar livre perdidos devido ao calor dos atuais 10% para 15 a 20% at\u00e9 2050.<br \/>\nO documento tamb\u00e9m lembra que os danos provocados nas mais recentes ondas de calor, como na Som\u00e1lia (em 2017) que provocou o deslocamento de 800 mil pessoas; na Fran\u00e7a (2019) que causou a 1500 mortes; e na R\u00fassia, em 2010, quando 55 mil mortes foram atribu\u00eddas\u00a0a onda de calor.<br \/>\nJ\u00e1 no item\u00a0sistema alimentares, o relat\u00f3rio afirma que o aquecimento do oceano reduz as capturas de peixes, afetando a meios de subsist\u00eancia de 650 a 800 milh\u00f5es pessoas que dependem da pesca. Tamb\u00e9m lembra a forte seca no Sul da \u00c1frica em 2015 que resultou em queda de 15% na agricultura. A estimava feita \u00e9 que o aquecimento global torne isso tr\u00eas vezes mais prov\u00e1vel.<br \/>\nAs perdas em ativos f\u00edsicos tamb\u00e9m v\u00e3o se intensificar. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o intensificando a for\u00e7a de furac\u00f5es, tempestades e podem elevar o n\u00edvel dos oceanos. Assim, o relat\u00f3rio j\u00e1 orienta investimentos\u00a0(!).\u00a0\u201cOs mercados financeiros poderiam antecipar o reconhecimento de risco nas regi\u00f5es afetadas, com consequ\u00eancias para aloca\u00e7\u00e3o de capital e seguros. Uma maior compreens\u00e3o do risco clim\u00e1tico pode tornar os empr\u00e9stimos de longa dura\u00e7\u00e3o indispon\u00edveis, impactar o custo e a disponibilidade do seguro e reduzir os valores terminais.<br \/>\nIsso pode desencadear a realoca\u00e7\u00e3o de capital e a reprecifica\u00e7\u00e3o de ativos\u201d, explica o documento. Na Fl\u00f3rida, por exemplo, (uma das regi\u00f5es do planeta\u00a0em\u00a0que\u00a0boa parte\u00a0tende a desaparecer com a eleva\u00e7\u00e3o dos oceanos) o documento estima que\u00a0as perdas decorrentes das inunda\u00e7\u00f5es podem desvalorizar as casas em US$ 30 bilh\u00f5es a US$ 80 bilh\u00f5es at\u00e9 2050.<br \/>\nEm infraestrutura, o relat\u00f3rio toma\u00a0como exemplo das atuais mudan\u00e7as clim\u00e1ticas as inunda\u00e7\u00f5es na China em 2017, cuja estimativa de danos foi de US$ 3,55 bilh\u00f5es. Em cen\u00e1rio mais radical\u00a0a estimativa \u00e9 que isso seja duas vezes mais prov\u00e1vel.<br \/>\nPor fim, o relat\u00f3rio prev\u00ea uma enorme perda do que chama de capital natural que seriam geleiras, florestas e ecossistemas, cuja destrui\u00e7\u00e3o \u201ccompromete o habitat humano e a atividade econ\u00f4mica\u201d.<br \/>\nO conceito de \u201ccapital natural\u201d \u00e9 da chamada economia neocl\u00e1ssica e se refere a estoque real de bens que possui o poder de produzir mais bens no futuro. Por exemplo, florestas como estoques de madeira, terras agricultur\u00e1veis, estoques de \u00e1gua ou combust\u00edveis f\u00f3sseis, etc. \u00c9 um jeito acad\u00eamico que o capitalismo encontrou para se referir as fun\u00e7\u00f5es ambientais que deseja se apropriar,\u00a0 colocar pre\u00e7o e converter em mercadoria. O derretimento dos glaciares do Himalaia e a redu\u00e7\u00e3o de fornecimento de \u00e1gua atingiria mais de 240 milh\u00f5es de pessoas, cita como exemplo o relat\u00f3rio.<br \/>\nA primeira coisa que o relat\u00f3rio do Instituto Global McKinsey escancara \u00e9 o fato do capitalismo ser\u00a0totalmente insustent\u00e1vel tamb\u00e9m do ponto de vista ambiental. O ciclo de produ\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 guiado pela necessidade do lucro, do consumo mais r\u00e1pido e cada vez maior dos recursos naturais. Isso leva \u00e0 atual cat\u00e1strofe clim\u00e1tica e \u00e0 depreda\u00e7\u00e3o da natureza, pois a apropria\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos recursos simplesmente n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com o tempo necess\u00e1rio \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o dos ciclos naturais.<br \/>\nN\u00e3o por acaso, no m\u00eas de mar\u00e7o, a\u00a0Uni\u00e3o Internacional de Ci\u00eancias Geol\u00f3gicas, que se reunir\u00e1 em Nova Dehli, \u00cdndia, vai indicar que vivemos desde da metade do s\u00e9culo passado no Per\u00edodo do Antropoceno, um novo per\u00edodo geol\u00f3gico provocado pelo Capitalismo.\u00a0Muitos autores afirmam\u00a0que \u00e9 o verdadeiro nome seria \u201cCapitaloceno\u201d, considerando que a g\u00eanese\u00a0do novo per\u00edodo geol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 fruto da a\u00e7\u00e3o humana em abstrato, mas sim uma\u00a0consequ\u00eancia\u00a0hist\u00f3rica\u00a0de um sistema que elegeu matriz\u00a0energ\u00e9tica\u00a0f\u00f3ssil para erigir a atual civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA segunda conclus\u00e3o \u00e9 que os \u201cdonos do mundo\u201d sabem exatamente o futuro catastr\u00f3fico que est\u00e1 por vir. E nem por isso mover\u00e3o uma palha para deter a barb\u00e1rie\u00a0clim\u00e1tica.\u00a0A terceira conclus\u00e3o \u00e9 que o\u00a0relat\u00f3rio serve para calcular riscos, orientar investimentos, relocar capital e, talvez, at\u00e9 para aproveitar \u201conda verde\u201d e faturar algum dindim\u00a0ao precificar e mercantilizar recursos naturais ainda n\u00e3o privatizados.<br \/>\nA \u00faltima conclus\u00e3o \u00e9 de que ser\u00e1 preciso superar o capitalismo e construir uma sociedade socialista, com novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e novas for\u00e7as produtivas que revertam as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u00a0e restabele\u00e7am o equil\u00edbrio metab\u00f3lico entre a sociedade e a natureza. Uma sociedade na qual os pobres e oprimidos detenham o poder pol\u00edtico e controlem o poder econ\u00f4mico de forma racional.\u00a0Parafraseando um famoso pensador franc\u00eas, Davos mostrou que \u201cs\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o faz o bom clima\u201d.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terminou nesta sexta-feira\u00a0(24), na Su\u00ed\u00e7a, o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial. A edi\u00e7\u00e3o de n\u00famero 50 do F\u00f3rum teve como foco os temas ambientais, particularmente as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u00a0Um show de hipocrisia absurda que provocaria a imagina\u00e7\u00e3o de qualquer artista do surrealismo. 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