{"id":31233,"date":"2020-01-23T11:17:45","date_gmt":"2020-01-23T13:17:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=31233"},"modified":"2020-01-23T11:17:45","modified_gmt":"2020-01-23T13:17:45","slug":"argentina-queremos-estar-vivas-livres-e-sem-divida-pela-vida-das-mulheres-emergencia-nacional-ja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/01\/23\/argentina-queremos-estar-vivas-livres-e-sem-divida-pela-vida-das-mulheres-emergencia-nacional-ja\/","title":{"rendered":"Argentina&#124; Queremos estar vivas, livres e sem d\u00edvida? Pela vida das mulheres, Emerg\u00eancia Nacional j\u00e1!"},"content":{"rendered":"<p><em>O ano que terminou nos deixou, entre outras heran\u00e7as, 327 feminic\u00eddios (um a cada 27 horas, embora o n\u00famero em dezembro foi de 1 a cada 22 horas). Buenos Aires e Santa F\u00e9 est\u00e3o no topo da lista de prov\u00edncias com o maior n\u00famero de feminic\u00eddios diretos e vinculados, transfemic\u00eddios e travestic\u00eddios, ainda que C\u00f3rdoba, Chaco e Tucum\u00e1n estejam pr\u00f3ximas a esse recorde (1)<\/em>.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: PSTU-Argentina<br \/>\nHoje as estat\u00edsticas n\u00e3o deixam d\u00favidas: aqueles que nos matam das maneiras mais cru\u00e9is e violentas todos os dias s\u00e3o nossos c\u00f4njuges ou ex-c\u00f4njuge. \u00c0 terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia que as mulheres sofrem, hoje se acrescenta outra categoria que se soma \u00e0s mortes: o suic\u00eddio feminicida (2). Esses casos ocorrem principalmente em adolescentes abusadas \u200b\u200bque n\u00e3o veem possibilidade de se libertar dos ataques sexuais aos quais s\u00e3o submetidas cotidianamente e encontram a \u00fanica via de fuga poss\u00edvel no suic\u00eddio.<br \/>\nEste novo ano e a d\u00e9cada que come\u00e7a com ele n\u00e3o parecem escapar da l\u00f3gica do aumento dos feminic\u00eddios: apenas nos primeiros 10 dias de 2020 j\u00e1 contamos mais 7 mulheres mortas. Talvez o mais brutal seja a morte de Valentina Gallina, de apenas 19 anos em Olavarr\u00eda, que era militante contra a viol\u00eancia de g\u00eanero desde o feminic\u00eddio de sua m\u00e3e em 2008.<br \/>\nA estat\u00edstica feminicida \u00e9 apenas a ponta do iceberg da viol\u00eancia contra n\u00f3s, mas esconde todas as outras necessidades urgentes, como mulheres que continuam a morrer de abortos clandestinos, ou casos como a menina estuprada por seu irm\u00e3o de 15 anos e for\u00e7ada a dar \u00e0 luz em <em>Misiones<\/em>. A falta de Educa\u00e7\u00e3o Sexual Integral (ESI), a terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o do sistema p\u00fablico de sa\u00fade, a necessidade urgente de casas abrigos para mulheres violentadas ou a cria\u00e7\u00e3o de trabalho para mulheres, transexuais e travestis s\u00e3o apenas algumas dessas quest\u00f5es.<br \/>\n<strong>Mudan\u00e7a cultural e simb\u00f3lica ou medidas concretas?<\/strong><br \/>\nEnquanto isso, o Presidente Alberto Fern\u00e1ndez e todos os membros do Gabinete Nacional fazem treinamento sobre G\u00eanero e Viol\u00eancia no \u00e2mbito da Lei de Micaela. E por enquanto, apenas isso. A ministra Elizabeth G\u00f3mez Alcorta e Dora Barrancos, duas feministas que agora fazem parte do governo, foram encarregadas do treinamento.<br \/>\n\u00c9 verdade que a vis\u00e3o que o poder e a justi\u00e7a t\u00eam sobre a viol\u00eancia precisa ser modificada, mas \u00e9 ainda mais verdade que h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es urgentes a serem abordadas e medidas mais urgentes a serem tomadas: desde a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto que j\u00e1 foi discutida em 2018, ou a necessidade de uma Lei Nacional de Emerg\u00eancia contra a Viol\u00eancia contra as mulheres, todas as medidas concretas que exigem maior or\u00e7amento e decis\u00e3o pol\u00edtica para lev\u00e1-las adiante, mesmo tendo que enfrentar os setores que pretendem nos levar de volta \u00e0 Idade M\u00e9dia, como a Igreja Cat\u00f3lica e as diferentes igrejas pentecostais (hoje todas sentadas \u00e0 mesa do governo &#8220;contra a fome&#8221;). O Estado deve se separar do poder da Igreja Cat\u00f3lica e de seu Papa Francisco, que envia ros\u00e1rios aben\u00e7oados aos genoc\u00eddios, em vez de proteger as v\u00edtimas de abusos historicamente cometidos pelos padres da Igreja. Pior, continua protegendo e encobrindo.<br \/>\nO governo nacional ainda continua argumentando que a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto divide \u00e1guas e, portanto, n\u00e3o \u00e9 hora de lev\u00e1-lo adiante. Ou que \u00e9 necess\u00e1rio detalhar cifras e dados sobre viol\u00eancia para agir \u201cseriamente\u201d. Que outros dados s\u00e3o necess\u00e1rios para saber que as mulheres mortas por abortos clandestinos s\u00e3o todas pobres e trabalhadoras?<br \/>\nQue outra cifra, al\u00e9m de 327 feminic\u00eddios, para saber que cada dia mais e mais mulheres e suas filhas ainda est\u00e3o morrendo nas m\u00e3os da viol\u00eancia machista? Ou que a diferen\u00e7a salarial entre homens e mulheres ainda \u00e9 enorme, muitas vezes mascarada em diferen\u00e7as de b\u00f4nus, sem pagamento de aus\u00eancia de mulheres em seus empregos para tarefas de assist\u00eancia familiar de filhos, idosos, etc., ou por n\u00e3o serem contratadas em horas noturnos ou tarefas insalubres, o que consolida uma lacuna de 27% menos de renda para as mulheres (3). Isso no caso de ter um emprego, j\u00e1 que hoje \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o privilegiada na Argentina, onde o desemprego e a pobreza castigam muito mais as mulheres que os homens.<br \/>\n\u00c9 por tudo isso que o governo deve parar de falar apenas sobre medidas simb\u00f3licas e culturais, ou simplesmente em pesquisas e n\u00fameros. N\u00e3o adianta nada se n\u00e3o se colocam a trabalhar alocando um or\u00e7amento maior para combater essas situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem mais esperar. A pr\u00f3pria ministra G\u00f3mez Alcorta, que acabava de assumir o cargo, disse: <strong>\u201cEstamos baseados em dois eixos centrais: o desenho, a execu\u00e7\u00e3o e a avalia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas no campo da preven\u00e7\u00e3o e erradica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero em todos os seus tipos e modalidades, incluindo assist\u00eancia e repara\u00e7\u00e3o para suas v\u00edtimas; e, em segundo lugar, o desenho, execu\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais voltadas para a igualdade e a diversidade, com o objetivo de promover a autonomia das mulheres e das pessoas LGTBI+. Para isso, ser\u00e1 fundamental promover a forma\u00e7\u00e3o, a pesquisa e o desenho de pol\u00edticas que tenham como objetivo a promo\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as culturais que, como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da igualdade, devem ser geradas na sociedade argentina\u201d (<\/strong>4). Mas nem uma palavra ainda sobre destinar fundos necess\u00e1rios para essas tarefas.<br \/>\nAl\u00e9m disso, o movimento e as dire\u00e7\u00f5es feministas dos quais vem a ministra, n\u00e3o est\u00e3o fazendo nada nem fazendo propostas para lutar por essa grave situa\u00e7\u00e3o, mas sim apostam e andam de m\u00e3os dadas com as expectativas nesse novo governo. Talvez elas possam esperar e ser pacientes, mas as mulheres do povo pobre e trabalhador j\u00e1 esperamos muito e muitas morremos na tentativa. Foi o pr\u00f3prio coletivo <em>Ni uma Menos<\/em> que, em 10 de dezembro, continuou sustentando que <strong>\u201cNossa luta continua, compartilhamos a esperan\u00e7a popular de um novo tempo e estamos juntes para exigir que as promessas sejam cumpridas. A rua \u00e9 a nossa casa e de nossa casa n\u00e3o sa\u00edmos. Ficamos at\u00e9 que a dignidade seja uma pr\u00e1tica. At\u00e9 que a vida seja como sonhamos. Nem um a menos! Nos queremos vivas, livres e sem d\u00edvidas!\u201d(<\/strong>5) Mas estar nas ruas e permanecer mobilizadas diante de todo feminic\u00eddio, ou exigindo que se deixe de pagar a d\u00edvida externa para realmente cumprir essa consigna, SUA CONSIGNA, nem pensar.<br \/>\nH\u00e1 muito tempo declaravam &#8220;P\u00e1tria ou Abutres&#8221;. Hoje, sil\u00eancio e apoio incondicional ao governo Fern\u00e1ndez, que diz que continuar\u00e1 pagando a d\u00edvida de qualquer maneira. N\u00f3s, n\u00e3o devemos e n\u00e3o podemos esperar mais.<br \/>\nDa mesma forma, as centrais e dire\u00e7\u00f5es sindicais apostam em um pacto social que nos obriga a continuar nos empenhando mais uma vez, e \u00e9 \u00e0 custa de nosso esfor\u00e7o e de nossa vida que eles continuam enriquecendo aqueles que j\u00e1 s\u00e3o ricos e donos do mundo\u00b7<br \/>\n<strong>A d\u00edvida ou a nossa vida<\/strong><br \/>\nNesta situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, onde s\u00e3o os trabalhadores que pagam com mais mis\u00e9ria, desemprego e morte a crise que foi causada pelos mais poderosos e ricos, \u00e9 urgente parar de pagar a d\u00edvida externa milion\u00e1ria. Negociar para continuar pagando \u00e0s nossas custas n\u00e3o \u00e9 sa\u00edda. \u00c9 apenas mais um ajuste e reordenar as contas para continuar descontando nas nossas costas.<br \/>\nPara n\u00f3s, isso significa mais mortes, mais viol\u00eancia, mais aborto clandestino e mais pobreza para nossas fam\u00edlias. N\u00e3o podemos continuar dependendo da Atribui\u00e7\u00e3o Universal por Filho (Hijo em espanhol) (AUH) ou de um cart\u00e3o de alimentos que n\u00e3o \u00e9 suficiente para a fam\u00edlia. Precisamos de uma Lei de Emerg\u00eancia Nacional com um or\u00e7amento adequado para abrigos familiares, restaurantes para filhos\/as, trabalho, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o para todes. E isso somente conseguiremos mobilizadas nas ruas exigindo o n\u00e3o pagamento da d\u00edvida externa e nos organizadas para continuar reivindicando o que precisamos. <strong>\u00c9 a d\u00edvida externa ou nossas vidas e a de nossas fam\u00edlias.<\/strong><br \/>\n(1)<br \/>\nhttps:\/\/www.lanacion.com.ar\/seguridad\/registran-327-femicidios-lo-va-del-ano-nid2319952<br \/>\n(2) http:\/\/www.dpn.gob.ar\/documentos\/Observatorio_Femicidios_-_Informe_Parcial_-_Octubre_2019.pdf<br \/>\n(3)<br \/>\nhttps:\/\/www.pagina12.com.ar\/240000-la-brecha-salarial-entre-mujeres-y-hombres<br \/>\n(4)<br \/>\nhttps:\/\/www.casarosada.gob.ar\/gobierno-informa\/46609-el-ministerio-de-las-mujeres-generos-y-diversidad<br \/>\n(5) https:\/\/www.facebook.com\/notes\/ni-una-menos\/a-cuatro-a%C3%B1os-de-macrismo-y-cuatro-a%C3%B1os-de-niunamenos-vamos-por-todo\/1234860080038505\/<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Lena Souza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano que terminou nos deixou, entre outras heran\u00e7as, 327 feminic\u00eddios (um a cada 27 horas, embora o n\u00famero em dezembro foi de 1 a cada 22 horas). 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