{"id":30943,"date":"2020-01-06T13:20:36","date_gmt":"2020-01-06T15:20:36","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30943"},"modified":"2020-01-06T13:20:36","modified_gmt":"2020-01-06T15:20:36","slug":"a-revolucao-contra-o-sectarismo-religioso-no-libano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/01\/06\/a-revolucao-contra-o-sectarismo-religioso-no-libano\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o contra o sectarismo religioso no L\u00edbano"},"content":{"rendered":"<p><em>A revolu\u00e7\u00e3o libanesa \u00e9 um dos centros da luta de classes internacional.<\/em><br \/>\n<em>Selecionamos essa cr\u00f4nica escrita pelo ativista Joey Ayoub, cujo relato dos eventos permite descobrir o tamanho da extens\u00e3o e a profundidade dessa revolu\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o concordamos com o autor quando ele afirma que o levante tem uma natureza dupla: reformista e revolucion\u00e1ria. Entendemos a luta atual no L\u00edbano como uma revolu\u00e7\u00e3o em andamento, o que \u00e9 controverso mesmo entre os esquerdistas. [1]<\/em><br \/>\n<em>Sugerimos que nossos leitores tirem suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es depois de lerem essa extensa cr\u00f4nica dos eventos.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>Cr\u00f4nica do primeiro m\u00eas da revolta<\/strong><br \/>\nDesde 17 de Outubro tem ocorrido manifesta\u00e7\u00f5es em todo o L\u00edbano, que derrubou o primeiro-ministro e transformou a sociedade libanesa. Estas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o parte de uma onda global de revoltas, que incluem pa\u00edses como Equador, Chile, Honduras, Haiti, Sud\u00e3o, Iraque, Hong Kong, e Catalunha, em que os explorados e oprimidos est\u00e3o desafiando a legitimidade de seus governantes.<br \/>\nNo L\u00edbano, um sistema de divis\u00e3o de poder sect\u00e1rio religioso[2], que existe desde o final da guerra civil, criou uma classe dominante permanente de senhores da guerra[3] que usam redes de apadrinhamento[4] para se manterem no poder vencendo as elei\u00e7\u00f5es. Isso confirma a tese de que a pol\u00edtica \u00e9 guerra por outros meios. Neste relato minucioso dos eventos do m\u00eas passado, um participante das mobiliza\u00e7\u00f5es descreve a revolta libanesa em detalhes, explorando como ela minou as estruturas patriarcais e transcendeu as divis\u00f5es religiosas sect\u00e1rias para unir as pessoas contra a classe governante.<br \/>\n<div id=\"attachment_30944\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-30944\" class=\"size-full wp-image-30944\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-30944\" class=\"wp-caption-text\">Pra\u00e7a dos M\u00e1rtires, de Beirute. Foto por Joey Ayoub<\/p><\/div><br \/>\n<strong>Como tudo come\u00e7ou<\/strong><br \/>\nPara o povo do L\u00edbano, a semana de 17 outubro de 2019 estava entre os mais importantes na mem\u00f3ria recente.<br \/>\nNa noite de outubro 13-14, inc\u00eandios florestais devastaram o L\u00edbano e partes da S\u00edria. Perdemos at\u00e9 3.000.000 de \u00e1rvores (1200 hectares) em um pa\u00eds de 10.500 quil\u00f4metros quadrados. Isso \u00e9 quase o dobro da m\u00e9dia anual de perda de \u00e1rvore em apenas 48 horas. A resposta do governo foi desastrosa. O L\u00edbano tinha apenas tr\u00eas helic\u00f3pteros doados por civis que queriam ajudar. Os demais helic\u00f3pteros do governo ficaram parados no aeroporto por falta de manuten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEmbora o governo tenha alocado dinheiro para manuten\u00e7\u00e3o, o dinheiro \u201cdesapareceu\u201d para os bolsos da alta classe do sistema sect\u00e1rio, assim como tantos outros fundos do L\u00edbano. Os inc\u00eandios foram finalmente apagado por uma combina\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios do funcionalismo p\u00fablico (defesa civil n\u00e3o \u00e9 paga h\u00e1 d\u00e9cadas), volunt\u00e1rios dos campos de refugiados palestinos, outros volunt\u00e1rios civis e avi\u00f5es enviados pela Jord\u00e2nia, Chipre e Gr\u00e9cia e, felizmente, a chuva. Tudo poderia ter sido muito, muito pior.<br \/>\nN\u00e3o satisfeitos com a sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia, pol\u00edticos libaneses come\u00e7aram a colocar a culpa nos refugiados s\u00edrios, espalhando rumores de que eles estavam come\u00e7ando os inc\u00eandios para irem morar nas casas que os libaneses abandonaram (aparentemente os s\u00edrios s\u00e3o \u00e0 prova de fogo). Alguns desses pol\u00edticos, como Mario Aoun do Movimento Patri\u00f3tico Livre (FPM), queixou-se que os inc\u00eandios s\u00f3 atingiram \u00e1reas crist\u00e3s, ignorando o fato de que a regi\u00e3o Shouf, onde grande parte do inc\u00eandio aconteceu, \u00e9 na verdade uma \u00e1rea de maioria drusa.<br \/>\nAo inv\u00e9s de resolver o problema dos inc\u00eandios e prevenir os pr\u00f3ximos, o estado agrava a situa\u00e7\u00e3o. Em 17 de outubro, o Estado aprovou um projeto de lei para taxar chamadas telef\u00f4nicas via Internet, como o WhatsApp. Eles afirmam que isso \u00e9 uma tentativa de trazer receitas adicionais, a fim de desbloquear mais de US $ 11 bilh\u00f5es em \u201cajuda\u201d prometida na confer\u00eancia CEDRE, ocorrida em Paris:<br \/>\n\u201cFerid Belhaj, vice-presidente do Banco Mundial para o Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica, disse que se o L\u00edbano queria ver o dinheiro CEDRE em breve, ele precisa levar a s\u00e9rio a implementa\u00e7\u00e3o de reformas.\u201d<br \/>\nEstas \u201creformas\u201d foram essencialmente medidas de punir ainda mais a base da pir\u00e2mide econ\u00f4mica, e poupar o topo.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/twitter.com\/joeyayoub\/status\/1185085268518473728\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/twitter.com\/joeyayoub\/status\/1185085268518473728<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><strong><em>Manifestantes cantando a palavra de ordem das revolu\u00e7\u00f5es da primavera \u00e1rabe &#8220;O povo quer a queda do regime&#8221;<\/em><\/strong><\/sub><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/joeyayoub\/status\/1185086206847135744\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/twitter.com\/joeyayoub\/status\/1185086206847135744<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><strong><em>Declara\u00e7\u00e3o de uma senhora que para cada \u00e1rvore queimada, o povo ir\u00e1 queimar um membro do governo<\/em><\/strong><\/sub><\/p>\n<p>O L\u00edbano j\u00e1 teve v\u00e1rias crises econ\u00f4micas devido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 d\u00edvida p\u00fablica &#8211; a maior parte (aproximadamente 90%) dos bancos nacionais e do banco central &#8211; resultando em v\u00e1rios saques em massa das contas, escassez de combust\u00edvel, e greves. Quase US$ 90 bilh\u00f5es est\u00e3o concentrados em apenas 24.000 contas banc\u00e1rias no L\u00edbano, o que quer dizer, algo entre 6000 e 8000 titulares de contas no L\u00edbano t\u00eam mais de oito vezes a quantidade de dinheiro que o governo est\u00e1 esperando para \u201cdesbloquear\u201d com CEDRE. Apesar de muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o concentrarem no \u201cimposto Whatsapp\u201d, a combina\u00e7\u00e3o de todos esses fatores citados e muitos outros que geraram a indigna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa noite de 17 de Outubro, milhares tomaram as ruas do L\u00edbano, incluindo Beirute, Tiro, Baalbek, Nabatiyeh, Saida, e muitos outros lugares em protestos espont\u00e2neos. Os protestos foram t\u00e3o avassaladores que o Estado cancelou o imposto imediatamente. Naquela noite, uma mulher chamada Malak Alaywe Herz chutou o guarda-costas armado de um pol\u00edtico; o v\u00eddeo se tornou viral e, como no Sud\u00e3o, uma mulher tornou-se um \u00edcone revolucion\u00e1rio. Em 18 de outubro de partes do centro de Beirute, estavam em chamas e grandes partes do pa\u00eds foram completamente bloqueadas com barricadas, muitos dos quais envolvidos pneus em chamas.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/twitter.com\/AbouchacraRoy\/status\/1184939932810465281\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/twitter.com\/AbouchacraRoy\/status\/1184939932810465281<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><em><strong>V\u00eddeo de mulher enfrentando seguran\u00e7a pessoal de um dos pol\u00edticos presentes viraliza nas redes sociais<\/strong><\/em><\/sub><\/p>\n<p>Eu me juntei aos protestos em Beirute naquele dia e comecei a participar quase todos os dias desde ent\u00e3o. Como um organizador dos protestos de 2015, morador do L\u00edbano e tamb\u00e9m algu\u00e9m que escreve sobre o assunto desde 2012, pude ver imediatamente que estes protestos seriam diferentes. Eu n\u00e3o era o \u00fanico tomado pela esperan\u00e7a, em todos os lugares era esse o sentimento. Neste relato, vou tentar explicar porque esses protestos j\u00e1 criaram mudan\u00e7as irrevers\u00edveis no pa\u00eds, mudan\u00e7as que os senhores da guerra est\u00e3o lutando para reverter.<br \/>\n<strong>A dupla natureza da Revolta<\/strong><br \/>\nPodemos pensar essa revolta como tendo dimens\u00f5es reformistas e ao mesmo tempo revolucion\u00e1rias[5]. \u00c9 uma revolta contra a injusti\u00e7a e a corrup\u00e7\u00e3o e uma revolu\u00e7\u00e3o contra o regime sect\u00e1rio religioso.<br \/>\nA dimens\u00e3o reformista assume a forma de protestos contra a corrup\u00e7\u00e3o. Uma exig\u00eancia comum, expressa no canto &#8220;Kellon yaani Kellon&#8221; (\u201cFora Todos significa Fora Todos\u201d), \u00e9 que o governo renuncie. Em 20 de outubro, quatro ministros das For\u00e7as Libanesas (LF) renunciaram. O LF \u00e9 um grupo liderado pelo antigo senhor da guerra Samir Geagea; Desde ent\u00e3o, o LF tem tentado, apesar de sem sucesso, surfar na onda dos protestos. A primeira grande vit\u00f3ria foi a ren\u00fancia do primeiro-ministro Saad Hariri na ter\u00e7a-feira em 29 de outubro. Isso colapsou o governo como conhecemos &#8211; embora at\u00e9 o fechamento desse texto, ele ainda seja primeiro-ministro interino at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de outra pessoa para o cargo.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 exig\u00eancias unificadas que v\u00eam das ruas; em muitos aspectos, h\u00e1 resist\u00eancia para a formula\u00e7\u00e3o de uma lista \u00fanica de exig\u00eancias. Existe, por\u00e9m, v\u00e1rias demandas populares, principalmente apelando para o fim da corrup\u00e7\u00e3o e do regime sect\u00e1rio religioso, que s\u00e3o vistos como conectados. Vemos isso em entrevistas de rua realizadas por emissoras de TV, em m\u00eddias sociais, e entre manifestantes. Como Kareem Chehayeb e Abby Sewell escreveram, al\u00e9m de ren\u00fancia do governo, duas exig\u00eancias comuns t\u00eam sido \u201celei\u00e7\u00f5es parlamentares antecipadas com uma nova lei eleitoral para as elei\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o baseadas na proporcionalidade sect\u00e1ria\u201d e \u201cpara uma investiga\u00e7\u00e3o independente sobre o que foi roubado e desviado dos fundos p\u00fablicos&#8221;. Essa \u00faltima foi sucintamente resumida por um homem da cidade de Arsal: \u201cn\u00e3o h\u00e1 guerra. Isto \u00e9 sobre o dinheiro. Voc\u00ea roubou o dinheiro, devolve o dinheiro.\u201c<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\" data-width=\"500\" data-dnt=\"true\">\n<p lang=\"en\" dir=\"ltr\">This is how many people were in central Beirut today. <br \/>.<br \/>Are you getting their message? <a href=\"https:\/\/t.co\/PwTLm2RbFq\">pic.twitter.com\/PwTLm2RbFq<\/a><\/p>\n<p>&mdash; Jad Chaaban \u062c\u0627\u062f \u0634\u0639\u0628\u0627\u0646 (@JadChaaban) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/JadChaaban\/status\/1185962175011180550?ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">October 20, 2019<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><strong><em>Protestos em Beirute, capital do L\u00edbano<\/em><\/strong><\/sub><\/p>\n<p>Os protestos s\u00e3o contra o sectarismo em muitas maneiras. Vai al\u00e9m do que \u00e9 conhecido como esquerda X direita, e at\u00e9 mesmo dos tradicionais de partidos pol\u00edticos sect\u00e1rios. Esta raiva vem de quase tr\u00eas d\u00e9cadas; os traumas entre as gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o ainda mais antigos. Desde o final da guerra civil, a oligarquia de senhores da guerra do L\u00edbano aperfei\u00e7oou as regras do jogo.<br \/>\nO estado serve como um balc\u00e3o de neg\u00f3cios atrav\u00e9s do qual esta classe pode negociar entre si e com as elites do Golfo, do Ir\u00e3, e ocidentais; as redes de apadrinhamento ajudam a manter as estruturas de poder, beneficiando essa classe, mantendo partes da popula\u00e7\u00e3o dependente deles; infra-estruturas p\u00fablicas foram deixados a apodrecer, enquanto a r\u00e1pida privatiza\u00e7\u00e3o limita a liberdade de circula\u00e7\u00e3o entre as regi\u00f5es e frequentemente paralisa todo o pa\u00eds; e, mais recentemente, o medo da viol\u00eancia por parte da S\u00edria t\u00eam sido regularmente usada para impor p\u00e2nico sobre o povo liban\u00eas, mesmo tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a guerra civil.<br \/>\nPara encurtar a hist\u00f3ria: ao tentar se recuperar de 15 anos de guerra civil, os libaneses passaram as \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas diante de um governo que n\u00e3o tratara de seus interesses. Por isso, uma explos\u00e3o social era inevit\u00e1vel, mas a forma como isso aconteceu est\u00e1 levantando as interpreta\u00e7\u00f5es mais c\u00ednicas da pol\u00edtica libanesa, incluindo dos pr\u00f3prios libaneses.<br \/>\n<strong>Reivindica\u00e7\u00f5es das ruas<br \/>\n<\/strong>Quando a guerra civil terminou sob a \u201ctutela\u201d (leia-se: ocupa\u00e7\u00e3o) do regime s\u00edrio, os poderes se reconfiguraram a fim de promover a mensagem de que a d\u00e9cada de 1990 seria a d\u00e9cada de reconstru\u00e7\u00e3o. Em Beirute, isto envolveu a privatiza\u00e7\u00e3o de praticamente tudo. O centro hist\u00f3rico, que \u00e1rabes em toda a regi\u00e3o se referem como Al-Balad (literalmente \u201co pa\u00eds\u201d) foi transformado em Solidere, a empresa privada fundada pela fam\u00edlia Hariri.<br \/>\nEssa pol\u00edtica neoliberal foi camuflada com uma linguagem de esperan\u00e7a: a narrativa era que somente atrav\u00e9s de la\u00e7os comerciais \u00e9 que se poderia impedir a amea\u00e7a de uma nova guerra civil. Este foi o tempo que a nossa gera\u00e7\u00e3o nasceu &#8211; a gera\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra que eu gosto de me referir como a \u201cgera\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o tardia\u201d. N\u00f3s crescemos ouvindo hist\u00f3rias de \u201cos bons velhos tempos\u201d antes da guerra, quando Beirute teve um bonde e as pessoas podiam vender produtos em espa\u00e7os p\u00fablicos. Nem \u00e9 preciso dizer que esse saudosismo dos anos anteriores \u00e0 guerra esconde muitas crises nos n\u00edveis regionais e nacional, as crises que culminaram com a guerra civil em 1975.<br \/>\n<div id=\"attachment_30949\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-30949\" class=\"size-full wp-image-30949\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-30949\" class=\"wp-caption-text\">\u201c\u00c9 chamado de Al-Balad, n\u00e3o Solidere.\u201d Foto por Joey Ayoub<\/p><\/div><br \/>\nMas a d\u00e9cada de 1990 viu tamb\u00e9m outros desenvolvimentos. O parlamento aprovou uma lei de anistia, em 1991, perdoando a maioria dos crimes cometidos durante a guerra, permitindo que aqueles que estavam no poder durante a guerra se mantivessem no governo. A maioria dos pesos pesados \u200b\u200bpol\u00edticos atuais eram senhores da guerra ou relacionado a eles. Ou ent\u00e3o na era p\u00f3s-guerra, desde em seus primeiros dias, mas tamb\u00e9m depois da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cedros 2005, que expulsou o ex\u00e9rcito s\u00edrio do L\u00edbano.<br \/>\nEstas figuras pol\u00edticas incluem Nabih Berri, l\u00edder do movimento Amal desde os anos 1980 e presidente do Parlamento desde 1992; Michel Aoun, presidente da Rep\u00fablica, l\u00edder do Movimento Patri\u00f3tico Livre (FPM), que voltou do ex\u00edlio em 2005, e sogro de Gebran Bassil, que tamb\u00e9m \u00e9 l\u00edder do FPM, bem como o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores; Samir Geagea, l\u00edder das For\u00e7as Libanesas (LF) desde os anos 1980, libertado da pris\u00e3o em 2005 e rival hist\u00f3rico de Aoun; Hassan Nasrallah, l\u00edder do Hezbollah desde 1992; Walid Jumblatt, l\u00edder do Partido Progressista \u201cSocialista\u201d (PSP) desde 1977; e Samy Gemayel, l\u00edder do partido Kataeb e sobrinho de Bashir Gemayel, um senhor da guerra que foi assassinado em 1982, enquanto presidente eleito. Al\u00e9m disso, podemos contar Movimento Futuro (FM) l\u00edder Saad Hariri, primeiro-ministro reeleito e filho do assassinado primeiro-ministro Rafik Hariri, como um dos oligarcas mais proeminentes da era p\u00f3s-guerra, ao lado de Tammam Salam, o ex-primeiro-ministro e o filho do Saeb Salam, seis vezes primeiro-ministro antes da guerra civil, e Najib Mikati, tamb\u00e9m ex-primeiro-ministro e, geralmente citado como o homem mais rico no L\u00edbano.<br \/>\nEm suma, o L\u00edbano \u00e9 governado por dinastias pol\u00edticas que foram forjados no fogo da guerra civil ou durante a \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d p\u00f3s-guerra. Os manifestantes na cidade de Tr\u00edpoli em 2 de novembro se referiam a esses com o slogan \u201cn\u00f3s somos a revolu\u00e7\u00e3o popular, voc\u00ea \u00e9 a guerra civil.\u201c<br \/>\n<strong>Tr\u00edpoli, Luz da Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nTr\u00edpoli, a maior cidade do Norte do L\u00edbano, tem estado na vanguarda da revolta. Quase todos os dias desde 17 de Outubro, milhares de manifestantes em Tr\u00edpoli foram \u00e0s ruas para exigir a queda do regime sect\u00e1rio. Para citar um participante de 84 anos de idade, \u201cH\u00e1 tanta pobreza e priva\u00e7\u00e3o aqui que, n\u00e3o importa como este acabe, as coisas ser\u00e3o melhores\u201d. Al\u00e9m das manifesta\u00e7\u00f5es espetaculares de mobiliza\u00e7\u00e3o popular, Kellon yaani Kellon (\u201cFora Todos significa Fora Todos\u201d) e \u201co povo quer a queda do regime\u201d diariamente.<br \/>\nTr\u00edpoli, uma cidade de maioria sunita, foi desafiando abertamente a narrativa sect\u00e1ria, declarando que est\u00e3o com Nabatiyeh, Tiro e Dahieh &#8211; todas cidades de maioria xiita. Quando o Hezbollah e Amal shabbiha (capangas do governo) atacaram manifestantes em Nabatiyeh em 23 de outubro, Tr\u00edpoli respondeu \u201cNabatiyeh, Tr\u00edpoli est\u00e1 com voc\u00ea at\u00e9 a morte\u201d. O slogan popular \u201crevolu\u00e7\u00e3o popular contra a guerra civil\u201d rapidamente se espalhou pelo resto do L\u00edbano. Isso apresenta a narrativa que v\u00ea os que ainda se apegam a suas identidades sect\u00e1rias como rel\u00edquias da guerra civil em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles que est\u00e3o tentando construir um futuro inclusivo para todos, independentemente de seitas religiosas. Os protestos de Tr\u00edpoli indicava desde o in\u00edcio que este levante seria diferente.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/twitter.com\/joeyayoub\/status\/1186747341660917762\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/twitter.com\/joeyayoub\/status\/1186747341660917762<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><strong><em>Manifesta\u00e7\u00e3o em Tr\u00edpoli, 22 outubro. Afirma no v\u00eddeo que se eles fecharem todas as pra\u00e7as, os manifestantes ser\u00e3o bem-vindos na cidade<\/em><\/strong><\/sub><\/p>\n<p>Tr\u00edpoli tem mantido um ritmo diferente por causa das organiza\u00e7\u00f5es que surgiram. Como em Beirute, manifestantes em Tr\u00edpoli criaram hospitais populares e f\u00f3runs de discuss\u00e3o, al\u00e9m de ocupar o edif\u00edcio municipal. As mobiliza\u00e7\u00f5es t\u00eam sido t\u00e3o abrangentes que, pela primeira vez eu saiba, os manifestantes de outros lugares no L\u00edbano tem ido para Tr\u00edpoli para participar dos protestos l\u00e1, em resposta a um convite aberto. Em 22 de outubro, pouco antes de os manifestantes come\u00e7arem a cantar \u201co povo quer a queda do regime\u201d, um homem com um megafone declarou: \u201cse eles [o governo] fecharem todas as pra\u00e7as, todos ser\u00e3o bem-vindos \u00e0 pra\u00e7a Nour [a pra\u00e7a principal ]\u201d. Pela primeira vez, Tr\u00edpoli se tornou o centro de indigna\u00e7\u00e3o liban\u00eas. Nour significa \u201cluz\u201d em \u00e1rabe; o escritor liban\u00eas Elias Khoury nomeou Tr\u00edpoli como a luz da revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara compreender o significado disso, \u00e9 necess\u00e1rio compreender que partes de Tr\u00edpoli do distrito Akkar (ao norte), historicamente sofrem com o peso da viol\u00eancia do Estado s\u00e3o demonizados pela opini\u00e3o p\u00fablica e pela m\u00eddia como centros de extremismo sunita. Tanto o estado liban\u00eas quanto o Hezbollah adotaram suas pr\u00f3prias vers\u00f5es de \u201cGuerra ao Terror\u201d (narrativa p\u00f3s-9\/11) e as \u00e1reas de maioria sunita do norte do L\u00edbano, entre os mais pobres do L\u00edbano e perto de S\u00edria, tornaram-se bodes expiat\u00f3rios. No entanto, apesar dessas tentativas dos partidos sect\u00e1rios em transformar o Norte em bode expiat\u00f3rio, n\u00e3o foi poss\u00edvel sufocar o movimento. Pode-se encontrar coment\u00e1rios sect\u00e1rios on-line, geralmente misturados com coment\u00e1rios anti-refugiados, mas eles n\u00e3o t\u00eam impactado significativamente o impulso nas ruas.<br \/>\n\u00c9 por isso que o status de Tr\u00edpoli como a capital da revolu\u00e7\u00e3o deixou desconfort\u00e1vel pol\u00edticos como o FPM. O canal de televis\u00e3o controlado pela FPM, a OTV, tem demonizado regularmente manifestantes em Tr\u00edpoli e Akkar, participando de uma campanha de desinforma\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio. Uma manchete afirmou que Tr\u00edpoli est\u00e1 \u201ccopiando\u201d a cidade s\u00edria de Homs (brutalmente esmagada pelo regime de Assad em 2014), o que sugere que militantes de Idlib estavam se deslocando para l\u00e1. Outro comentarista em OTV afirmou \u201cassim como n\u00f3s fomos para a S\u00edria e enterramos sua revolu\u00e7\u00e3o, vamos enterrar essa revolu\u00e7\u00e3o no L\u00edbano\u201d. O FPM nunca participou militarmente na S\u00edria, mas seu aliado Hezbollah, o fez. Quando uma ativista em Beirute respondeu aos sentimentos antirrefugiados da S\u00edria, cantando \u201cBassil fora, refugiados dentro\u201d, OTV tomou essa filmagem e acrescentou a manchete \u201ctreinamento americano, incita\u00e7\u00e3o Saudita, infiltra\u00e7\u00e3o s\u00edria.\u201d<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\" data-width=\"500\" data-dnt=\"true\">\n<p lang=\"ar\" dir=\"rtl\">\u0647\u064a \u0627\u0644\u0635\u0628\u064a\u0629 \u0639\u0638\u064a\u0645\u0629\u060c \u0641\u064a \u0648\u0627\u062d\u062f \u0633\u0623\u0644\u0647\u0627 &quot;\u0644\u064a\u0634 \u0639\u0645 \u0628\u062a\u0646\u0627\u062f\u064a \u0628\u062d\u0642\u0648\u0642 \u0627\u0644\u0644\u0627\u062c\u0626\u064a\u0646 \u0646\u062d\u0646 \u0644\u0628\u0646\u0627\u0646\u064a\u0629 \u0647\u0648\u0646&quot;. \u0631\u062f\u062a \u0628\u0647\u062a\u0627\u0641: &quot;\u0628\u0627\u0633\u064a\u0644 \u0628\u0631\u0627 \u0628\u0631\u0627\u060c \u0644\u0627\u062c\u0626\u064a\u0646 \u062c\u0648\u0627 \u062c\u0648\u0627 <a href=\"https:\/\/t.co\/GtuDAWornW\">pic.twitter.com\/GtuDAWornW<\/a><\/p>\n<p>&mdash; Amany khalifa \u0623\u0645\u0627\u0646\u064a \u062e\u0644\u064a\u0641\u0629 (@AmanyKhalefa) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/AmanyKhalefa\/status\/1185578436632436736?ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">October 19, 2019<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><strong><em>Manifestantes gritam &#8220;Bassil Fora Fora, Imigrantes Dentro Dentro.&#8221;<\/em><\/strong><\/sub><\/p>\n<p>A conex\u00e3o com a S\u00edria \u00e9 profunda. Manifestantes em Tr\u00edpoli ter cantado \u201cIdlib estamos com voc\u00ea at\u00e9 a morte\u201d, em refer\u00eancia \u00e0 cidade s\u00edria que continua a ser bombardeada pelas for\u00e7as a\u00e9reas russas e da S\u00edria; cantos s\u00edrios foram adotadas e ressignificados em todo o L\u00edbano. Como um ativista s\u00edrio escreveu: \u201co regime pol\u00edtico do L\u00edbano, em particular a parte que ainda est\u00e1 no poder, \u00e9 cada vez mais irritado com Tr\u00edpoli, a ponto de difamar a cidade e seus habitantes\u201d. O bode expiat\u00f3rio de Tr\u00edpoli poderia ser visto como uma extens\u00e3o da resposta do governo liban\u00eas para a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, especialmente por parte do Hezbollah, Amal e do FPM. Embora oficialmente n\u00e3o afiliados, o governo liban\u00eas tomou uma volta de linha dura contra os refugiados desde a elei\u00e7\u00e3o de Aoun em 2016, n\u00e3o que o governo fosse pr\u00f3-refugiados antes. Bassil especialmente associou-se com essa ret\u00f3rica e por isso o canto anti-Bassil e pr\u00f3-refugiados.<br \/>\nO distrito de Akkar foi indiscutivelmente bode expiat\u00f3rio de pol\u00edticos e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o ainda mais do que Tr\u00edpoli. Apesar dos protestos n\u00e3o terem come\u00e7ado junto com o resto do L\u00edbano, a cobertura da m\u00eddia \u00e9 m\u00ednima. Em 30 de outubro, manifestantes em Akkar, como no resto do pa\u00eds, ecoou o famoso canto s\u00edrio \u201cyalla erhal ya Bashar\u201d (se apresse, Fora Bashar [al-Assad]), adaptando-o para \u201cyalla erhal Michel Aoun\u201d (se apresse, Fora Michek Aoun), como ouvi pela primeira vez em Beirute. Naquela mesma noite, as for\u00e7as de seguran\u00e7a atacaram uma marcha em Akkar quando os manifestantes tentaram bloquear as estradas. A resposta violenta por parte das for\u00e7as de seguran\u00e7a levaram os manifestantes a ver o contraste entre a resposta relativamente suave pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a em Beirute para sua resposta em Akkar.<br \/>\n<strong>O levante do Sul e do Leste<br \/>\n<\/strong>A outra parte da hist\u00f3ria aqui \u00e9 definida no Sul, especialmente em Nabatiyeh e Tiro (conhecido como Sour, em \u00e1rabe), bem como o Vale do Bekaa, no leste.<br \/>\nManifestantes em Nabatiyeh estavam entre os primeiros a protestar, na noite de 17 de outubro. Em 18 de outubro, alguns j\u00e1 estavam desafiando tabus de longa data. A mera sugest\u00e3o que um manifestante fez ao vivo na televis\u00e3o &#8211; de que Nabih Berri, cujo movimento Amal domina a regi\u00e3o politicamente ao lado Hezbollah, foi Presidente do Parlamento por muito tempo &#8211; aterrorizou o jornalista que o entrevistava; o tweet que mostra isso foi exclu\u00eddo. Para entender por que isso ocorreu e por que isso \u00e9 t\u00e3o importante, precisamos discutir a mil\u00edcia shabbiha.<br \/>\nOs shabbiha t\u00eam sido historicamente um fen\u00f4meno S\u00edrio.<br \/>\nA pr\u00f3pria palavra vem de \u201cfantasma\u201d ou \u201csombra\u201d; muitas vezes \u00e9 associado com carros Mercedes S600 pretos (chamado al-Shabah) que foram utilizados para sequestrar dissidentes s\u00edrios e manifestantes. Mais tarde, o termo assumiu uma conota\u00e7\u00e3o mais geral, descrevendo homens dispostos a usar viol\u00eancia em nome do seu zu&#8217;ama (singular: za&#8217;im) &#8211; senhores da guerra ou chefes locais que recebem ordens de cima. Isso pode ser desde espancar manifestantes at\u00e9 sequestrar, torturar, mesmo mat\u00e1-los. Este \u00faltimo n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o comum no L\u00edbano, raz\u00e3o pela qual o termo shabbiha agora significa qualquer atitude violenta pr\u00f3-governo contra manifestantes.<br \/>\n\u0634\u0628\u064a\u062d\u0629 <a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D8%A7%D9%84%D9%86%D8%A8%D8%B7%D9%8A%D8%A9?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">#<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D8%A7%D9%84%D9%86%D8%A8%D8%B7%D9%8A%D8%A9?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u0627\u0644\u0646\u0628\u0637\u064a\u0629<\/a> \u0642\u0628\u0644 \u0642\u0644\u064a\u0644.. \u0648\u0627\u0644\u0633\u0644\u0627\u062d \u0639\u0644\u0649 \u0639\u064a\u0646\u0643 \u064a\u0627 &#8220;\u0648\u0637\u0646&#8221; <a href=\"https:\/\/t.co\/PHPqyQDfrv\">pic.twitter.com\/PHPqyQDfrv<\/a><br \/>\n\u2014 zeinab othman (@zeinab_othman) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/zeinab_othman\/status\/1185489544285741059?ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">October 19, 2019<\/a><br \/>\nimagens mostram shabbiha pr\u00f3-Amal de carro em 19 de outubro.<br \/>\nSome unprecedented developments taking place in Sour and other parts of South <a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/Lebanon?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">#Lebanon<\/a>.<br \/>\nProtestors in Sour have been attacked by armed men allegedly affiliated to Speaker of Parliament Nabih Berri<a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D8%B5%D9%88%D8%B1?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">#<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D8%B5%D9%88%D8%B1?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u0635\u0648\u0631<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D9%84%D8%A8%D9%86%D8%A7%D9%86_%D9%8A%D9%86%D8%AA%D9%81%D8%B6?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">#<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D9%84%D8%A8%D9%86%D8%A7%D9%86_%D9%8A%D9%86%D8%AA%D9%81%D8%B6?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u0644\u0628\u0646\u0627\u0646<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D9%84%D8%A8%D9%86%D8%A7%D9%86_%D9%8A%D9%86%D8%AA%D9%81%D8%B6?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">_<\/a><a href=\"https:\/\/twitter.com\/hashtag\/%D9%84%D8%A8%D9%86%D8%A7%D9%86_%D9%8A%D9%86%D8%AA%D9%81%D8%B6?src=hash&amp;ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u064a\u0646\u062a\u0641\u0636<\/a> <a href=\"https:\/\/t.co\/8rm4PUcx24\">https:\/\/t.co\/8rm4PUcx24<\/a><br \/>\n\u2014 Kareem Chehayeb | \u0643\u0631\u064a\u0645 (@chehayebk) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/chehayebk\/status\/1185506613584650240?ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">October 19, 2019<\/a><br \/>\num v\u00eddeo dessa mesma manh\u00e3 mostra esses shabbiha atacando manifestantes.<br \/>\nDevido \u00e0 sua natureza, muitas vezes \u00e9 muito dif\u00edcil identificar shabbiha, e quase imposs\u00edvel \u201cprovar\u201d uma cadeia de comando. Mas, tanto por raz\u00f5es hist\u00f3ricas e contempor\u00e2neas, eles tornaram-se associados com o Movimento Amal e com o Hezbollah (embora a shabbiha armada da FPM tamb\u00e9m atacaram manifestantes em pelo menos uma ocasi\u00e3o).<br \/>\nEmbora em Beirut tamb\u00e9m tenha ocorrido dois grandes ataques por shabbiha, \u00e9 importante mencionar que mesmo com os eventos de 29 de outubro, quando centenas de homens Amal\/ Hezbollah foram ao centro de Beirute para espancar manifestantes e jornalistas e destruir as tendas montadas, isso n\u00e3o se compara com que eles est\u00e3o fazendo no Sul. Em 23 de outubro, a shabbiha do Amal\/ Hezbollah atacaram manifestantes em Nabatiyeh, ferindo mais de 20 pessoas. Isso gerou tanta como\u00e7\u00e3o que meia d\u00fazia de vereadores renunciaram no dia seguinte sob press\u00e3o dos manifestantes. Em resposta ao ataque do dia 23, o dia 24 foi chamado de \u201co dia de solidariedade com Nabatiyeh\u201d e um meme foi passado ao redor com as palavras \u201cNabatiyeh n\u00e3o se ajoelham, pergunte aos sionistas\u201d.<br \/>\nNo \u201cDomingo da Unidade\u201d (3 de novembro), os manifestantes em Kfar Remen, historicamente conhecida por sua resist\u00eancia comunista a ocupa\u00e7\u00e3o do sul do L\u00edbano por Israel, reuniu-se com os manifestantes de Nabatiyeh. Alguns manifestantes que fugiam da pol\u00edcia do Hezbollah de Nabatiyeh foi para Kfar Remen para se juntar aos protestos.<br \/>\nEsta \u00e9 uma virada extraordin\u00e1ria de eventos para a regi\u00e3o do L\u00edbano, que \u00e9 muitas vezes considerado territ\u00f3rio incontest\u00e1vel do Hezbollah e Amal; o mesmo vale para o vale de Bekaa. Mas os desafios \u00e0s pot\u00eancias dominantes t\u00eam continuado. N\u00f3s ouvimos cantos como \u201cN\u00f3s n\u00e3o queremos um ex\u00e9rcito no L\u00edbano, exceto o ex\u00e9rcito liban\u00eas\u201d (um desafio para o poder militar dominante atual, o Hezbollah), bem como em solidariedade com Tr\u00edpoli e no resto do L\u00edbano. Vimos a viol\u00eancia shabbiha em Bint Jbeil, uma cidade na fronteira sul que sofreu muito sob a ocupa\u00e7\u00e3o israelense e, em seguida, durante a guerra de 2006.<br \/>\nA cidade Tiro tamb\u00e9m se juntou na primeira noite, cantando \u201co povo quer a queda do regime\u201d; em 19 de Outubro, shabbiha estavam atacando violentamente manifestantes. Jornalistas foram for\u00e7ados a fugir conforme as shabbihas batiam indiscriminadamente em qualquer um em seu caminho. Uma testemunha descreveu como Mukhabarat (pol\u00edcia secreta) aqueles que estavam seguindo manifestantes ao lado do shabbiha.<br \/>\nQuanto ao vale do Bekaa, a cobertura da m\u00eddia tem sido relativamente baixa. Houve protestos em Zahleh, Baalbek, Taalbaya, Bar Elias, Saadnayel, Chtoura, Majdal Anjar, Al-Fakeha, Hasbaya, Rashaya, e Al-Khyara, entre outros lugares.<br \/>\n<strong>O regime contra-ataca<\/strong><br \/>\nEstes ataques poderiam ser descritos como a mordida da estrat\u00e9gia de morde e assopra do governo. Quanto \u00e0 parte de assoprar, tem sido bastante confuso. Os principais atores t\u00eam se esfor\u00e7ado para oferecer uma resposta coerente aos protestos, principalmente porque eles n\u00e3o concordam entre si e est\u00e3o tentando, como de costume, costurar uma pol\u00edtica diariamente. A natureza descentralizada e horizontal dos protestos tem dificultado as tentativas do estado de demoniz\u00e1-los ou corromp\u00ea-los.<br \/>\nHassan Nasrallah, l\u00edder do Hezbollah, fez um discurso em 19 de outubro. Nasrallah falou quatro vezes desde o in\u00edcio do levante, o que j\u00e1 \u00e9 um fen\u00f4meno incomum em si. Embora Nasrallah n\u00e3o tenha nenhuma posi\u00e7\u00e3o oficial no governo liban\u00eas, ele \u00e9 visto como um governante de fato, devido ao poder militar do Hezbollah. Mas apesar de ter uma reputa\u00e7\u00e3o entre os seus seguidores de ser calmo em seus discursos, seu primeiro discurso foi caracterizado por uma extrema raiva, arrog\u00e2ncia e condescend\u00eancia. Ele disse aos manifestantes que eles est\u00e3o perdendo seu tempo e que este \u201cmandato\u201d (sua escolha de palavras tamb\u00e9m pode ser traduzido como \u201cera\u201d ou \u201calian\u00e7a\u201d) n\u00e3o vai cair, em refer\u00eancia ao acordo de 2016, que levou a Michel Aoun se tornar presidente e Saad Hariri se tornar primeiro-ministro (Lembrando que Nabih Berri n\u00e3o deixou seu cargo de presidente do Parlamento desde 1992).<br \/>\nEle ainda acusou os manifestantes de serem financiados por embaixadas estrangeiras, levando os manifestantes a responder dizendo: \u201cEu sou o financiamento da revolu\u00e7\u00e3o\u201d que desde ent\u00e3o se tornou um meme e apareceu em placas de rua tamb\u00e9m. Um cinegrafista liban\u00eas respondeu por postar um v\u00eddeo de Nasrallah dizendo que o Hezbollah \u00e9 100% financiado e armado pelo Ir\u00e3.<br \/>\nAo manter o apoio ao governo, Nasrallah jogou seu peso por tr\u00e1s dos dois homens mais impopulares na pol\u00edtica libanesa: Gebran Bassil do FPM e Saad Hariri da FM. Isso exp\u00f4s o regime como oportunista e corrupto. Assim como os partidos pol\u00edticos sect\u00e1rios unidos em 2016 para derrotar Beirute Madinati nas elei\u00e7\u00f5es municipais, eles estavam agora mais uma vez unidos para derrotar o levante popular. Mas Nasrallah cometeu um grave erro. Ao dizer que este governo n\u00e3o vai cair, aumentou a press\u00e3o de ren\u00fancia sobre Hariri.<br \/>\nHariri j\u00e1 era o elo mais fraco dessa coliga\u00e7\u00e3o, porque teve que buscar apoio dos seus rivais do FPM e do Hezbollah para permanecer no poder, contra a vontade seus pr\u00f3prios apoiadores. Em 29 de outubro, Hariri renunciou finalmente, aparentemente surpreendendo Hezbollah. Em treze dias, os manifestantes haviam for\u00e7ado o colapso de um governo que demorou meses para ser formado. Nas semanas desde o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o, a classe dos senhores da guerra vem tentando se manter diante de uma crise que nunca imaginou que teria que se enfrentar.<br \/>\nMas, como mencionado anteriormente, outros partidos pol\u00edticos vem tentando surfar na onda da revolu\u00e7\u00e3o. Isso tem sido especialmente evidente com Geagea e o LF, rival hist\u00f3rico da FPM &#8211; uma rivalidade que remonta ao sangrentas batalhas Geagea-aoun durante a guerra civil e foi reavivado ap\u00f3s 2005.<br \/>\nO LF viu uma oportunidade de ouro quando a revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou: sair de um governo impopular, o LF acreditava que poderia enfraquecer seus rivais, j\u00e1 que ambos os grupos disputam a mesma base eleitoral sect\u00e1ria. Houve at\u00e9 apoiadores do LF bloqueando estradas; isso colocou um dilema para os manifestantes anti-governo. Ap\u00f3s a ren\u00fancia de Hariri, alguns manifestantes preferiram focar nos peixes grandes do governo &#8211; Aoun e Berri, respectivamente presidente e presidente do parlamento &#8211; mas o slogan Kellon yaani Kellon (&#8220;fora todos significa fora todos&#8221;) continua a dominar os protestos. Apesar do que apoiadores do FPM\/ Amal\/ Hezbollah querem acreditar, o LF n\u00e3o \u00e9 popular entre os manifestantes; ele tem suporte insignificante na maioria dos lugares que viram protestos.<br \/>\nH\u00e1 um forte consenso de que nenhum partido pol\u00edtico sect\u00e1rio ser\u00e1 apoiado, n\u00e3o importa o quanto eles tentem.<br \/>\nAinda \u00e9 muito cedo para saber quais ser\u00e3o os pr\u00f3ximos passos do governo. O governo interino ainda tem que nomear novos ministros e o Parlamento est\u00e1 planejando discutir uma lei que iria conceder uma anistia geral que abrange crimes como abuso de autoridade, neglig\u00eancia e crimes ambientais. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 se desenvolvendo muito rapidamente.<br \/>\n<strong>Energia criativa<\/strong><br \/>\nOs protestos no L\u00edbano t\u00eam sido incrivelmente criativos. Estudantes em Tripoli tem usado guindastes \u200b\u200bpara tirar outros alunos da sala de aula; sandu\u00edches foram entregues em Beirute rotulados \u201cfinanciado pela Ar\u00e1bia Saudita\/ Fran\u00e7a\/ EUA\u201d para zombar daqueles que alegam que os manifestantes s\u00e3o financiados por pot\u00eancias estrangeiras; v\u00e1rias barricadas nas ruas foram transformadas em uma sala de estar p\u00fablica com sof\u00e1s, geladeiras e pessoas jogando futebol, e com um Airbnb (de gra\u00e7a); manifestantes ocuparam Zaitunay Bay, uma fonte de \u00e1gua privada, constru\u00edda em cima da costa, que foi roubada de Beirute, e exibiu o filme V de Vingan\u00e7a (em 5 de Novembro); imagens de l\u00edderes sect\u00e1rios foram retiradas e queimadas; as pessoas t\u00eam viralizado posts que mostram panela\u00e7os do Chile, e exibido isso nas ruas e nas suas casas; volunt\u00e1rios criaram refeit\u00f3rios em Beirute e Tr\u00edpoli; um cinema hist\u00f3rico abandonado foi recuperado e reutilizado como um cinema, sala de aula, e ponto de encontro para artistas; pessoas formaram uma corrente humana de norte a sul do pa\u00eds; manifestantes bloqueando estradas cantaram \u201cbaby shark\u201d para uma crian\u00e7a que estava parada no tr\u00e2nsito dentro de um carro; manifestantes usam regularmente m\u00e1scaras de Guy Fawkes, Dali, e Coringa; foram organizados f\u00f3runs abertos para reunir manifestantes de Tr\u00edpoli, Saida, Nabatieh, Zouk, Aley e Beirute.<br \/>\nManifestantes \u201cbloquearam\u201d uma esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria como uma brincadeira: ferrovias do L\u00edbano foram destru\u00eddas durante a guerra civil e nunca reconstru\u00eddas. A privatiza\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1990 veio \u00e0 custa dos espa\u00e7os e servi\u00e7os p\u00fablicos, que \u00e9 por isso que uma grande parte dos protestos tentaram recuper\u00e1-los, a pr\u00e1tica de plantio de guerrilha e similares.<br \/>\nA ideia geral aqui \u00e9 que os manifestantes t\u00eam de reinventar suas t\u00e1ticas constantemente, a fim de tornar dif\u00edcil para o Estado acompanhar. Por exemplo, h\u00e1 um debate em curso sobre a efic\u00e1cia dos bloqueios. A principal obje\u00e7\u00e3o \u00e9 que os pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o afetados por eles como pessoas comuns tentando ir para o trabalho ou enviar seus filhos para a escola. A partir de agora, essa t\u00e1tica ainda est\u00e1 sendo usada, mas ela n\u00e3o \u00e9 mais a principal.<br \/>\nNos \u00faltimos dias, os manifestantes est\u00e3o priorizando a ocupa\u00e7\u00e3o ou protestos em frente a pr\u00e9dios do governo e outros s\u00edmbolos de poder: tudo, desde casas dos pol\u00edticos at\u00e9 pr\u00e9dios da rede el\u00e9trica (a maioria do L\u00edbano ainda n\u00e3o tem eletricidade 24 horas por dia, 7 dias por semana), passando pelas principais companhias de telecomunica\u00e7\u00e3o e operadores de dados, bancos, munic\u00edpios, e assim por diante. Existem hoje dezenas de a\u00e7\u00f5es diferentes diariamente, com a maioria das a\u00e7\u00f5es anunciadas apenas um dia antes. Os estudantes secundaristas e universit\u00e1rios &#8211; e alguns alunos ainda mais jovens &#8211; protestam por tr\u00eas dias em Saida, Beirute, Jounieh, Tripoli, Koura, Bar Elias\/ Zahleh, Mansourieh, Hadath, Baalbek, Nabatiyeh, Al-Khyara , Al-Eyn, Mazraat Yachouh, Furn El Chebbak, Akkar, Tannourine, Batroun, e Byblos\/ Jbeil, entre outros lugares.<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 um esfor\u00e7o on-line para combater as fake-news espalhadas por apoiadores do governo e pelos pr\u00f3prios partidos pol\u00edticos, bem como para ajudar os manifestantes se manter informado de modo mais geral: el3asas (\u201co vigilante da cidade\u201d) est\u00e1 verificando as not\u00edcias espalhadas nas redes sociais e por m\u00eddias oficiais de not\u00edcias; um diret\u00f3rio chamado Daleel Thawra ( \u201cdiret\u00f3rio da revolu\u00e7\u00e3o\u201d) divulga as a\u00e7\u00f5es diversas, atividades e iniciativas; TeleThawra ( \u201crevolu\u00e7\u00e3o TV\u201d) oferece uma alternativa ao T\u00e9l\u00e9 Liban, canal do governo; Fawra Media ( \u201cM\u00eddia da explos\u00e3o\u201d) documenta \u201cos indiv\u00edduos e grupos que est\u00e3o sustentando a Revolu\u00e7\u00e3o libanesa\u201d; Sawt Alniswa ( \u201cvoz das mulheres\u201d) \u00e9 uma revista liderada por mulheres com publica\u00e7\u00e3o semanal; e Megafone News (&#8220;Not\u00edcias do Megafone&#8221;) \u00e9 uma m\u00eddia independente que existe desde 2017.<br \/>\n<strong>Ondas de Choque subterr\u00e2neas<\/strong><br \/>\nEstes desenvolvimentos abriram um espa\u00e7o para as pessoas e para narrativas que normalmente s\u00e3o suprimidos a n\u00edvel nacional ou nos partidos.<br \/>\nAl\u00e9m dos ativistas acima mencionados, palestinos e s\u00edrios t\u00eam participado ativamente nos protestos, particularmente nas duas maiores cidades, Beirute e Tr\u00edpoli. Alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o sect\u00e1rios usaram isso reiterar as suas alega\u00e7\u00f5es de que os protestos s\u00e3o \u201cinfiltrados por estrangeiros\u201d. Cientes disso, muitos palestinos e s\u00edrios passaram a atuar de forma discreta. Tirando um protesto no campo de refugiados Ain El Helweh, onde os palestinos expressaram diretamente solidariedade com os protestos libaneses, palestinos em Saida, Beirute, Tripoli, e em outros lugares que tenham participado at\u00e9 agora t\u00eam tido o cuidado de se \u201cmanter \u00e0 margem das manifesta\u00e7\u00f5es libanesas evitar ser acusado de instigar ou usurpar o movimento de protesto\u201c. Esta iniciativa tornou mais dif\u00edcil para os xen\u00f3fobos usar seu discurso habitual, uma vez que \u00e9 imposs\u00edvel diferenciar entre libaneses, palestinos, e povo s\u00edrio a menos que eles acenem suas respectivas bandeiras nacionais.<br \/>\nVimos tamb\u00e9m, em menor grau, palavras de ordem de manifestantes em solidariedade com eg\u00edpcios, sudaneses e outras partes \u00e1rabes da regi\u00e3o do M\u00e9dio Oriente e Norte de \u00c1frica, e h\u00e1 alguma consci\u00eancia, principalmente expressa nas redes sociais, dos protestos em curso e da viol\u00eancia no Iraque, Hong Kong, Curdist\u00e3o s\u00edrio e Chile. Embora rapidamente esquecido a n\u00edvel nacional, tamb\u00e9m vimos motins no primeiro dia nas pris\u00f5es de Zahle e Roumieh, em solidariedade com os manifestantes, bem como para chamar a aten\u00e7\u00e3o para as condi\u00e7\u00f5es das pris\u00f5es horr\u00edveis do L\u00edbano e para chamadas repetidas para uma lei geral de anistia, como muitos pessoas s\u00e3o presas por supostas liga\u00e7\u00f5es com grupos jihadistas, posse de drogas e assim por diante.<br \/>\nAt\u00e9 agora n\u00e3o houve grande participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores dom\u00e9sticos migrantes, que s\u00e3o geralmente confinados a casas de fam\u00edlias libaneses ou ent\u00e3o est\u00e3o definhando em pris\u00f5es subterr\u00e2neas horr\u00edveis com pouco ou nenhum direito pol\u00edtico sob o sistema Kafala (apadrinhamento). \u00c9 improv\u00e1vel que isso mude no futuro pr\u00f3ximo, dadas as restri\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o impostas, mas se o impulso dos protestos continua, poderia abrir espa\u00e7o pol\u00edtico suficiente para novas conex\u00f5es pol\u00edticas a se formar.<br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><strong>A Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 feminina<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 agora, os protestos t\u00eam-se centrado sobre a luta contra a corrup\u00e7\u00e3o generalizada e o sistema sect\u00e1rio. Mas o papel de feministas, incluindo LGBTs e\/ ou ativistas n\u00e3o libanesas, sugere uma tentativa por parte dos manifestantes de criar um movimento mais progressista e inclusivo. As feministas realizaram marchas separadas para destacar as estruturas patriarcais que oprimem desproporcionalmente as mulheres e as LGBTs &#8211; importante notar o fato das mulheres libanesas ainda n\u00e3o poderem transmitir a sua nacionalidade aos seus c\u00f4njuges e filhos e o fato de que as leis sect\u00e1rias do pa\u00eds que regem estes assuntos como casamento, div\u00f3rcio, guarda e assim por diante discriminam as mulheres. Homens e mulheres marcharam pelo direito delas passarem sua nacionalidade aos filhos, em Tiro em Tr\u00edpoli e outros lugares.<br \/>\nAs mulheres tamb\u00e9m usaram seus corpos para proteger outros manifestantes da pol\u00edcia e prevenir o aumento da viol\u00eancia. Como disse Leya Awadat, participante da \u201cparedes feministas\u201d, \u201cNesta sociedade machista, \u00e9 mal visto para os homens bater publicamente nas mulheres\u201d (\u00eanfase no publicamente) &#8211; ent\u00e3o elas t\u00eam utilizado isso em sua vantagem.<br \/>\nLGBTs tamb\u00e9m t\u00eam sido alvo de insultos. Um shabbiha atacando manifestantes em 29 de outubro foi ouvido ao vivo na televis\u00e3o gritando: \u201cOs homens s\u00e3o homens porra!\u201d Um convidado em OTV alegou que os manifestantes querem destruir o sectarismo em nome de uma esp\u00e9cie de \u201cagenda gay\u201d.<\/p>\n<blockquote class=\"twitter-tweet\" data-width=\"500\" data-dnt=\"true\">\n<p lang=\"en\" dir=\"ltr\">The great feminist wall in Riad al-Solh. No men allowed through so that no problems happen and they are really serious about it. <a href=\"https:\/\/t.co\/8bfDKSpOzz\">pic.twitter.com\/8bfDKSpOzz<\/a><\/p>\n<p>&mdash; Timour Azhari (@timourazhari) <a href=\"https:\/\/twitter.com\/timourazhari\/status\/1185662379864051713?ref_src=twsrc%5Etfw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">October 19, 2019<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><script async src=\"https:\/\/platform.twitter.com\/widgets.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><sub><strong><em>A grande muralha feminista de Riad al-Solh. N\u00e3o s\u00e3o permitidos homens para que n\u00e3o ocorram problemas, e elas s\u00e3o realmente s\u00e9rias sobre isso<\/em><\/strong><\/sub><\/p>\n<p>As marchas feministas sempre se encontram com as principais marchas. A ideia n\u00e3o \u00e9 criar movimentos separados, mas sim para fazer sua presen\u00e7a conhecida dentro das exig\u00eancias mais amplas para a justi\u00e7a e igualdade. As feministas lideraram muitas barricadas e muitas palavras de ordem, tamb\u00e9m mantiveram uma presen\u00e7a ativa nas iniciativas do dia-a-dia que ajudam a manter o ritmo do levante. Uma maneira que elas t\u00eam usado \u00e9 clamar por c\u00e2nticos e can\u00e7\u00f5es &#8211; tradicionais e recentes &#8211; removendo suas conota\u00e7\u00f5es machistas.<br \/>\nA can\u00e7\u00e3o popular \u201chela hela\u201d contra Gebran Bassil insultado sua m\u00e3e &#8211; \u00e9 muito comum na l\u00edngua \u00e1rabe usar as mulheres ou seus \u00f3rg\u00e3os genitais como insultos &#8211; ent\u00e3o feministas mudaram para insultar tanto Gebran e \u201cseu tio\u201d (o presidente, Michel Aoun) o que, desde ent\u00e3o, pegou. Elas tamb\u00e9m recuperaram uma can\u00e7\u00e3o tradicional usado para enviar as mulheres fora do casamento, mudando a letra \u201cEla foi para protestar, ela foi para fechar as estradas, ela foi para derrubar o governo.\u201d<br \/>\n<strong>O que vem depois?<\/strong><br \/>\nAo contr\u00e1rio do que alguns t\u00eam assumido, o problema em si n\u00e3o \u00e9 o sectarismo. Embora o risco de tens\u00f5es sect\u00e1rias provavelmente aconte\u00e7a no futuro, o risco mais imediato \u00e9 a crise econ\u00f4mica iminente. Na minha opini\u00e3o, \u00e9 por isso que as formas mais radicais de pol\u00edtica s\u00f3 aparecem timidamente. O temor de que as coisas v\u00e3o ficar muito pior \u00e9 real e realista; \u00e9 muito dif\u00edcil falar de formas alternativas de nos organizar, mesmo considerando as poucas diferen\u00e7as entre libaneses e n\u00e3o-Libaneses, quando a principal preocupa\u00e7\u00e3o da maioria das pessoas \u00e9 a escassez de medicamentos e combust\u00edveis e possivelmente at\u00e9 mesmo de alimentos. Enquanto o radicalismo pode se desenvolver naturalmente se a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica se agrava, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que os elementos mais nacionalistas e sect\u00e1rios de pol\u00edtica libanesa se radicalize. As \u00faltimas tend\u00eancias t\u00eam d\u00e9cadas de experi\u00eancia no poder, enquanto as formas mais pac\u00edficas \u200b\u200bda pol\u00edtica s\u00e3o relativamente novos, sendo constru\u00eddo nas ruas e online.<br \/>\nConsequentemente, a percep\u00e7\u00e3o dominante entre os manifestantes \u00e9 de que precisamos ser tanto bravos quanto cuidadosos.<br \/>\n<div id=\"attachment_30953\" style=\"width: 1060px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-30953\" class=\"size-full wp-image-30953\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1050\" height=\"1400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-30953\" class=\"wp-caption-text\">faixa escrito \u201cjusti\u00e7a econ\u00f4mica \u00e9 uma causa feminista\u201d em frente \u00e0 mesquita Mohammad Al-Amin, com a Pra\u00e7a dos M\u00e1rtires, de Beirute ao fundo. Foto por Joey Ayoub<\/p><\/div><br \/>\nDito isto, as cozinhas, as tendas de sa\u00fade gratuitos e a recupera\u00e7\u00e3o de s\u00edtios hist\u00f3ricos privatizadas e zonas costeiras s\u00e3o todas as iniciativas que afirmam implicitamente que podemos recuperar os bens comuns. Isto \u00e9 crucial para entender em um pa\u00eds que n\u00e3o teve nada p\u00fablico na mem\u00f3ria recente, onde a ideologia \u201cpr\u00f3-mercado\u201d dominante \u00e9 uma prioridade do Estado-na\u00e7\u00e3o do L\u00edbano.<br \/>\nEmbora os principais atores podem ser resumidos a uma d\u00fazia de figuras p\u00fablicas, a raz\u00e3o das redes de apadrinhamento terem funcionado at\u00e9 agora tem a ver com a exist\u00eancia de uma parte da popula\u00e7\u00e3o que obt\u00e9m privil\u00e9gios com essa rede. Colocam-se como intermedi\u00e1rios entre os oligarcas e aqueles que procuram wasta (suborno, nepotismo, \u201cQI\u201d Quem Indica) para receber servi\u00e7os n\u00e3o fornecidos pelo Estado. Em outras palavras, algumas pessoas t\u00eam incentivos financeiros para manter redes populistas contra a cria\u00e7\u00e3o de qualquer coisa que possa ser chamada de servi\u00e7os p\u00fablicos. Reformar e depois derrubar esse sistema ser\u00e1 dif\u00edcil. Derrubar esse sistema que est\u00e1 na base de funcionamento do Estado vai ser ainda mais dif\u00edcil.<br \/>\nMas, se a unidade de progressistas antisect\u00e1rios n\u00e3o resolver esta quest\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que o Estado vai transform\u00e1-los em bodes expiat\u00f3rios: refugiados e trabalhadores s\u00edrios e palestinos, trabalhadores dom\u00e9sticos migrantes (principalmente da Eti\u00f3pia, Sri Lanka, e nas Filipinas, e esmagadoramente mulheres), LGBTs (cidad\u00e3os e n\u00e3o-cidad\u00e3os), profissionais do sexo e similares. Qualquer indiv\u00edduo que n\u00e3o se encaixa no paradigma patriarcal capitalista-sect\u00e1rio dominante est\u00e1 em risco de viol\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica e simb\u00f3lica.<br \/>\nFinalmente, e isso est\u00e1 relacionado com o ponto anterior, derrotar o sectarismo pol\u00edtico e \u201ca maneira sect\u00e1ria de fazer as coisas\u201d \u00e9 visto como uma prioridade imediata. Este sistema, que remonta a d\u00e9cada de 1860 vem perdendo sua aura de ser intoc\u00e1vel entre as gera\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-guerra, ambos os Millennials e, especialmente, Gera\u00e7\u00e3o Zs &#8211; aqueles que viveram suas vidas inteiras ouvindo seus pais se queixando \u201cOnde est\u00e1 o governo?\u201d, quando eles t\u00eam que pagar duas contas separadas para a eletricidade (privado e p\u00fablico), tr\u00eas contas separadas para \u00e1gua (\u00e1gua corrente privado e p\u00fablico e privado de \u00e1gua pot\u00e1vel engarrafada). Como os senhores da guerra envelhecem &#8211; os dois mais poderosos, Aoun e Berri, tem 84 e 81 anos, respectivamente &#8211; vamos ver o inevit\u00e1vel decl\u00ednio do sectarismo da era da guerra civil.<br \/>\nMas, enquanto isso pode ser inevit\u00e1vel, a quest\u00e3o \u00e9 se os progressistas antisect\u00e1rios ter\u00e3o sucesso na constru\u00e7\u00e3o de alternativas vi\u00e1veis que podem desafiar a velha ordem.<br \/>\n<div id=\"attachment_30954\" style=\"width: 1410px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-30954\" class=\"size-full wp-image-30954\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/L\u00edbano-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1400\" height=\"1050\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-30954\" class=\"wp-caption-text\">Manifestantes em uma simula\u00e7\u00e3o de enforcamento segurando cartazes que diziam \u201c1975\u201d (o in\u00edcio da guerra civil) e da rua \u201csectarismo\u201d -Riad El Solh, Beirute. Foto por Joey Ayoub<\/p><\/div><br \/>\nTemos muitos motivos para esperan\u00e7a, como Bassel F. Salloukh escreveu, porque \u201ca revolu\u00e7\u00e3o de 17 de outubro marca o fim definitivo da guerra civil, e uma genu\u00edna reconcilia\u00e7\u00e3o de baixo para cima entre as comunidades rivais de uma s\u00f3 vez.\u201d<br \/>\nTexto publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/crimethinc.com\/2019\/11\/13\/lebanon-a-revolution-against-sectarianism-chronicling-the-first-month-of-the-uprising\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Crimethlnc<\/a><br \/>\nNotas:<br \/>\n[1] https:\/\/litci.org\/en\/marxists-and-the-lebanese-revolution\/<br \/>\n[2] O sectarismo religioso \u00e9 um tipo de regime em que o poder \u00e9 dividido entre grupos religiosos. No caso do L\u00edbano, desde o fim da coloniza\u00e7\u00e3o francesa em 1943 est\u00e1 consolidado na constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que o cargo de presidente deve pertencer aos crist\u00e3os, o de primeiro ministro aos mu\u00e7ulmanos sunitas e o presidente do parlamento aos mu\u00e7ulmanos xiitas.<br \/>\n[3] Senhores da guerra \u00e9 como s\u00e3o conhecido os membros da classe dominante no pa\u00eds que subiram ao poder durante a guerra civil libanesa (1975-1990). Em suas origens eram l\u00edderes locais de regi\u00f5es, como o coronelismo no Brasil. Mas depois de ganhar uma express\u00e3o nacional durante a guerra civil, nunca sa\u00edram do poder.<br \/>\n[4] As redes de apadrinhamento s\u00e3o formas de assistencialismo, ligadas a grupos pol\u00edticos, que visam ganhar um apoio pol\u00edtico a esses partidos atrav\u00e9s do populismo.<br \/>\n[5] \u00c9 exatamente aqui onde se confundem os conceitos de reforma e revolu\u00e7\u00e3o. O autor trata reforma como a luta contra o governo e revolu\u00e7\u00e3o a uma luta contra o regime. N\u00e3o s\u00e3o os mesmos conceitos marxistas de reforma e revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Abdallah<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revolu\u00e7\u00e3o libanesa \u00e9 um dos centros da luta de classes internacional. Selecionamos essa cr\u00f4nica escrita pelo ativista Joey Ayoub, cujo relato dos eventos permite descobrir o tamanho da extens\u00e3o e a profundidade dessa revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o concordamos com o autor quando ele afirma que o levante tem uma natureza dupla: reformista e revolucion\u00e1ria. 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