{"id":30760,"date":"2019-12-08T13:24:21","date_gmt":"2019-12-08T15:24:21","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30760"},"modified":"2019-12-08T13:24:21","modified_gmt":"2019-12-08T15:24:21","slug":"tempos-de-rebeliao-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/12\/08\/tempos-de-rebeliao-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Tempos de rebeli\u00e3o na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><em>Vivemos tempos de <\/em><em>rebeli\u00e3o<\/em><em> no mundo, que se manifestam com muita for\u00e7a na Am\u00e9rica Latina.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Assistimos a lutas em Hong Kong, no Extremo Oriente; na Arg\u00e9lia, no Iraque e no L\u00edbano, no mundo \u00e1rabe; na Europa, com a Catalunha e, antes os coletes amarelos franceses. Em nosso continente, vivemos a recente rebeli\u00e3o no Equador; a luta contra o governo de Mo\u00efse no Haiti; a dur\u00edssima batalha do povo chileno contra o governo de Pi\u00f1era; o processo de luta contra o governo de Duque, na Col\u00f4mbia, e a resist\u00eancia contra o golpe na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Em um s\u00f3 artigo, \u00e9 imposs\u00edvel considerar cada um deles com a profundidade que merecem. Ent\u00e3o, vamos analisar alguns tra\u00e7os comuns e tamb\u00e9m algumas diferen\u00e7as entre eles.<\/p>\n<p><strong>Um processo continental<\/strong><\/p>\n<p>Acreditamos que se trata de um processo continental, uma onda que tende a estender-se pelos problemas comuns que os povos enfrentam, pelos vasos comunicantes entre eles e, tamb\u00e9m, pelo \u201cefeito domin\u00f3\u201d do impacto de cada luta nos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u201cum raio no c\u00e9u sereno\u201d. Foi anunciado por processos anteriores como o dur\u00edssimo enfrentamento contra a reforma da previd\u00eancia social na Argentina, em dezembro de 2017; a rebeli\u00e3o contra o governo de Ortega, na Nicar\u00e1gua, a greve geral na Costa Rica (ambas em 2018),\u00a0 rebeli\u00f5es anteriores no Haiti e a luta contra o governo de JOH, em Honduras.<\/p>\n<p>Em um ponto, um fato aparentemente menor (como a retirada de subs\u00eddios ao combust\u00edvel ou um aumento da passagem do transporte p\u00fablico) \u00e9 \u201ca fa\u00edsca que acende a p\u00f3lvora\u201d. Muitos anos de aceita\u00e7\u00e3o mais ou menos passiva se transformam em uma raiva acumulada que explode com for\u00e7a: <em>\u201cN\u00e3o s\u00e3o 30 pesos s\u00e3o 30 anos\u201d<\/em>, como expressam os cartazes do povo chileno. Esta raiva das massas contra tantos anos de ajustes e permanentes ataques a seu n\u00edvel de vida se combina com a constata\u00e7\u00e3o de que os governos e regimes pol\u00edticos s\u00e3o respons\u00e1veis ativos por essa realidade de deteriora\u00e7\u00e3o crescente e permanente.<\/p>\n<p>Todos os governos burgueses atacam os trabalhadores e as massas, e n\u00e3o tem outra alternativa. Por isso, no \u201cterreno f\u00e9rtil\u201d dos regimes onde as explos\u00f5es\u00a0 s\u00e3o produzidas (ou podem ocorrer) se combinam dois processos. Um \u00e9 a luta contra os governos burgueses de direita, explicitamente capitalistas e pr\u00f3-imperialistas como no Chile e na Col\u00f4mbia. O outro \u00e9 a deteriora\u00e7\u00e3o e a degrada\u00e7\u00e3o de\u00a0 governos burgueses populistas (alguns inclusive procuram se vestir de \u201csocialistas\u201d) derivados em ditaduras, como a Nicar\u00e1gua e a Venezuela. O ocorrido na Bol\u00edvia merece uma an\u00e1lise mais espec\u00edfica[1].<\/p>\n<p>Esta combina\u00e7\u00e3o de grande ascenso de massas e de deteriora\u00e7\u00e3o e crise dos governos e regimes (que o ascenso aprofunda) configura em muitos casos o que os marxistas denominamos de \u201cprocessos revolucion\u00e1rios\u201d. Isto \u00e9, aqueles em que a quest\u00e3o do poder pode apresentar-se para os trabalhadores e as massas. Nas palavras de Lenin: <em>\u201cQuando os de cima n\u00e3o podem continuar governando como antes e os de baixo n\u00e3o querem continuar vivendo como at\u00e9 agora, e intensificam consideravelmente sua a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>Os protagonistas<\/strong><\/p>\n<p>Cada pa\u00eds apresenta particularidades nos setores sociais e nos m\u00e9todos com que se produz a rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>No Equador, a vanguarda foi claramente os camponeses encabe\u00e7ados pela CONAIE que tomam as cidades, sem participa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios organizados; na Bol\u00edvia, a base da resist\u00eancia ao golpe foram as popula\u00e7\u00f5es dos bairros de El Alto e os setores camponeses dos povos origin\u00e1rios; no Chile, adquire um car\u00e1ter semi-insurrecional urbano e popular, com participa\u00e7\u00e3o parcial dos trabalhadores sindicalizados (portu\u00e1rios e constru\u00e7\u00e3o, basicamente) . Na Col\u00f4mbia, os protestos paralisaram o transporte com mobiliza\u00e7\u00f5es massivas em varias cidades e enfrentamentos com a Pol\u00edcia. A vanguarda \u00e9 a juventude, especialmente os estudantes universit\u00e1rios. A principal debilidade \u00e9 que a classe oper\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 no centro do processo.<\/p>\n<p>No Chile, al\u00e9m disso, se v\u00ea algo que se manifestou em v\u00e1rias partes do mundo: a participa\u00e7\u00e3o ativa nos enfrentamentos de uma juventude precarizada e sem perspectiva de futuro no capitalismo de hoje. Este fen\u00f4meno j\u00e1 havia se evidenciado no Equador, mas no Chile adquire um grau de organiza\u00e7\u00e3o superior: a \u201cprimeira linha\u201d, essencial para a defesa das mobiliza\u00e7\u00f5es frente \u00e0 repress\u00e3o dos carabineros (pol\u00edcia).<\/p>\n<p><strong>A crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>No Programa de Transi\u00e7\u00e3o (1938), escrito para a funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional, Trotsky analisou que as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a revolu\u00e7\u00e3o socialista estavam mais que maduras. Entretanto, o fator subjetivo (uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria disposta a levar essa luta at\u00e9 o final) estava muito atrasado. \u00c9 a \u201ccrise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d que deforma e atrasa todos os processos.<\/p>\n<p>Em alguns casos, as dire\u00e7\u00f5es traidoras s\u00e3o capazes de frear diretamente as lutas e lev\u00e1-las ao beco sem sa\u00edda das negocia\u00e7\u00f5es, abortando ou atrasando sua din\u00e2mica objetiva em dire\u00e7\u00e3o ao poder. Foi o que a dire\u00e7\u00e3o da CONAIE fez no Equador, que freou a luta contra o governo de Len\u00edn Moreno, e o que fizeram Evo Morales e o MAS com a resist\u00eancia contra o golpe de direita que levaram ao beco sem sa\u00edda de um processo eleitoral condicionado.<\/p>\n<p>No caso chileno, as dire\u00e7\u00f5es traidoras (influenciadas pelo PC e o PS) est\u00e3o muito mais em crise e dispersas, como resultado de sua responsabilidade e cumplicidade na transi\u00e7\u00e3o pactuada que deu origem ao regime atual (no final da d\u00e9cada de 1980) e suas consequ\u00eancias posteriores para as massas. Por isso, tem muito menor capacidade de controle direto das massas. Essa crise libera for\u00e7as e, em grande medida, explica a combatividade e continuidade do processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Entretanto a aus\u00eancia de uma clara alternativa de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria tem v\u00e1rias consequ\u00eancias negativas. Em primeiro lugar, a dificuldade de uma entrada contundente da classe oper\u00e1ria organizada como centro da mobiliza\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, atrasa a constru\u00e7\u00e3o de organismos que expressem a luta, o que \u00e9 feito em um ritmo mais lento do que o processo revolucion\u00e1rio exigiria (as Assembleias Populares). Finalmente, \u00a0embora as dire\u00e7\u00f5es traidoras estejam em crise, este espa\u00e7o vazio lhes permite continuar operando e influenciando para corroer a luta e tentar lev\u00e1-la para a via da negocia\u00e7\u00e3o com o governo Pi\u00f1era.<\/p>\n<p><strong>As respostas das burguesias e o imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza, as burguesias nacionais e o imperialismo n\u00e3o ficam passivos frente a esta situa\u00e7\u00e3o e respondem com diferentes mecanismos para derrotar, frear ou postergar as lutas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>No continente, se combinam dur\u00edssimas repress\u00f5es \u201cinstitucionais\u201d com pactos e negocia\u00e7\u00f5es com as dire\u00e7\u00f5es de massas, como ocorreu, por exemplo, no Equador e se tenta fazer no Chile. Em outros casos, se trata de desmont\u00e1-lo pela via eleitoral, como na Argentina com o triunfo do kirchnerismo, \u00a0ou preveni-lo com a \u201ccenoura\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> do \u201cLula presidente 2022\u201d no Brasil. No caso boliviano, as mobiliza\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas contra a fraude eleitoral de Evo foram capitalizadas por um setor burgu\u00eas de ultra-direita que, aliado com as FFAA, d\u00e1 um golpe militar.<\/p>\n<p>Por sua vez, o imperialismo acendeu suas luzes de alerta. O governo Trump tenta endurecer as respostas \u00e0s lutas, mas agora come\u00e7a a concentrar-se em evitar as explos\u00f5es. O chefe da diplomacia estadunidense Mike Pompeo declarou: <em>\u201cA Casa Branca prestar\u00e1 ajuda econ\u00f4mica aos governos leg\u00edtimos da Am\u00e9rica Latina, para evitar que protestos se convertam em <strong>\u2018revoltas sociais\u2019\u201d<\/strong><\/em>[2]. Os imperialismos europeus e o Papa j\u00e1 vem trabalhando para evitar que estas \u201crevoltas\u201d se produzam e, se explodirem, para impedir seu avan\u00e7o atrav\u00e9s de sa\u00eddas negociadas.<\/p>\n<p><strong>As tarefas dos revolucion\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Quando estes processos revolucion\u00e1rios explodem, evidentemente a primeira tarefa dos revolucion\u00e1rios \u00e9 intervir neles e impulsion\u00e1-los para que a mobiliza\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o das massas avancem.<\/p>\n<p>Mas devemos estar cientes de que por diversas raz\u00f5es, chegamos a eles com uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as muito desfavor\u00e1vel contra as dire\u00e7\u00f5es traidoras, inclusive quando estas est\u00e3o desprestigiadas e dispersas. Os processos revolucion\u00e1rios ajudam a melhorar essa correla\u00e7\u00e3o, mas, com a velocidade que transcorrem, na maioria dos casos, n\u00e3o d\u00e3o margem de tempo para resolv\u00ea-la e as lutas revolucion\u00e1rias s\u00e3o freadas ou postergadas.<\/p>\n<p>O pior que podemos fazer \u00e9 cair no desespero. Devemos apresentar-nos ante os ativistas e \u00e0s massas com nossas propostas para desenvolver a fundo a luta pelo ponto mais sentido (o\u201cFora Pi\u00f1era\u201d no Chile ou \u201cderrotar o golpe\u201d na Bol\u00edvia), e combater no movimento as propostas das dire\u00e7\u00f5es traidoras.<\/p>\n<p>Nesse marco, se trata de apresentar nosso programa de resposta mais estrat\u00e9gica \u00e0s dificuldades que geram a rebeli\u00e3o: a tomada do poder pelos trabalhadores e as massas para iniciar a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista. Com essa perspectiva, a constru\u00e7\u00e3o e o fortalecimento do partido revolucion\u00e1rio e dos organismos de luta das massas s\u00e3o as duas tarefas essenciais de nossa interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos um grama de derrotistas: confiamos plenamente nos trabalhadores e nas massas, e em sua capacidade de avan\u00e7ar atrav\u00e9s de sua experiencia. A incentivamos com todas nossas for\u00e7as. Mas se as dire\u00e7\u00f5es traidoras conseguirem frear em um estado pr\u00e9vio ou postergar os processos revolucion\u00e1rios, sabemos que outros os continuar\u00e3o em um futuro pr\u00f3ximo. Nesse caso, devemos chegar a eles com maior for\u00e7a e influencia, com maior experiencia dos lutadores e das massas. Em outras palavras, mais pr\u00f3ximo do triunfo estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1]\u00a0<u><a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/bolivia\/avanzar-en-la-lucha-para-derrotar-el-golpe-en-bolivia\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/latinoamerica\/bolivia\/avanzar-en-la-lucha-para-derrotar-el-golpe-en-bolivia\/<\/a><\/u><\/p>\n<p>[2]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.meganoticias.cl\/mundo\/283854-mike-pompeo-gobiernos-legitimos-america-latina-revueltas-sociales.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.meganoticias.cl\/mundo\/283854-mike-pompeo-gobiernos-legitimos-america-latina-revueltas-sociales.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Pol\u00edtica da cenoura (diplomacia) e do garrote (chicote\/repress\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos tempos de rebeli\u00e3o no mundo, que se manifestam com muita for\u00e7a na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":30761,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[5620,477,145,12,3643,103,83,3538],"tags":[1551,8035],"class_list":["post-30760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-bolivia","category-chile","category-colombia","category-equador","category-haiti","category-mundo","category-rebeliao-no-chile","tag-alejandro-iturbe","tag-rebelioes-america-latina"],"fimg_url":false,"categories_names":["Am\u00e9rica Latina","Bol\u00edvia","Chile","Col\u00f4mbia","Equador","Haiti","Mundo","Revolu\u00e7\u00e3o no Chile"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30760"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30760\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}