{"id":30748,"date":"2024-12-20T15:45:25","date_gmt":"2024-12-20T15:45:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30748"},"modified":"2024-12-22T15:21:37","modified_gmt":"2024-12-22T15:21:37","slug":"rojava-curdistao-sirio-um-balanco-necessario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/12\/20\/rojava-curdistao-sirio-um-balanco-necessario\/","title":{"rendered":"Rojava (Curdist\u00e3o S\u00edrio): Um Balan\u00e7o Necess\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p><em>Republicamos este artigo de julho\/2019 sobre o povo curdo para contribuir no debate atual.<\/em><\/p>\n<p><em>Tropas dos ex\u00e9rcitos s\u00edrio e russo tomaram o controle da cidade curda de Kobane, a mesma cidade que, anos atr\u00e1s, foi um s\u00edmbolo em sua heroica defesa e vit\u00f3ria contra as for\u00e7as do Estado Isl\u00e2mico (ISIS).<\/em><\/p>\n<p>Naquele momento (in\u00edcio de 2015), festejamos esta vit\u00f3ria [1] e destacamos o papel central que as mulheres curdas desempenharam nela [2]. Uma vit\u00f3ria que, al\u00e9m de tudo, consolidava a autonomia que o povo curdo havia conseguido, em 2012, na regi\u00e3o nordeste da S\u00edria que denominam Rojava, na qual s\u00e3o ampla maioria da popula\u00e7\u00e3o. Esse territ\u00f3rio foi, de fato, o embri\u00e3o de um Estado curdo. O controle que os ex\u00e9rcitos s\u00edrio e russo tomaram de Kobane agora \u00e9 o sinal de que esse embri\u00e3o de Estado, que Rojava representava, desapareceu. Trata-se, sem d\u00favida, de uma derrota do povo curdo na luta por sua autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o se tratou de uma derrota militar, algo poss\u00edvel em qualquer luta: as tropas s\u00edrio-russas assumiram o controle da regi\u00e3o com total acordo da dire\u00e7\u00e3o curda de Rojava para que servissem como uma esp\u00e9cie de \u201ccord\u00e3o de isolamento\u201d frente ao ataque que os curdos estavam sofrendo do ex\u00e9rcito turco ao norte da fronteira, deslocando-os de seus territ\u00f3rios em dire\u00e7\u00e3o ao sul e ao leste. Sobre esse fato j\u00e1 estabelecemos uma posi\u00e7\u00e3o clara: apoiamos e defendemos o campo militar dos curdos contra o ataque turco e convocamos a mais ampla unidade internacional para isso [3].<\/p>\n<p>Mas, dada a devida import\u00e2ncia dessa tarefa, uma an\u00e1lise dos ocorridos em Rojava n\u00e3o pode limitar-se a esse ponto. Para muitos setores da esquerda, Rojava havia se transformado no embri\u00e3o de uma nova sociedade; uma refer\u00eancia que tanto setores anarquistas como marxistas reivindicavam, a partir de enfoques diversos.<\/p>\n<p>Por exemplo, figuras internacionais de muito prest\u00edgio, entre elas Noam Chomsky, Angela Davis, Jos\u00e9 Mario Branco e David Harvey, publicaram uma nota solid\u00e1ria a Rojava na qual expressam: \u201cA comuna de Rojava \u00e9 o primeiro esfor\u00e7o no Oriente M\u00e9dio de um projeto pol\u00edtico anticapitalista baseado em uma confedera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u2026\u201d [4]<\/p>\n<p>Respeitamos os signat\u00e1rios da carta, saudamos sua solidariedade a Rojava e estaremos juntos nessa a\u00e7\u00e3o. No entanto, n\u00e3o compartilhamos sua defini\u00e7\u00e3o do processo que se deu ali, sendo isso um debate que desenvolvemos nos \u00faltimos anos nesta p\u00e1gina [5]. Acreditamos ser necess\u00e1rio fazer um balan\u00e7o dessa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, no marco do imprescind\u00edvel desenvolvimento dessa campanha de solidariedade, pensamos ser necess\u00e1rio fazer um balan\u00e7o das pol\u00edticas levadas adiante pela dire\u00e7\u00e3o curda de Rojava, o PYD \u2013 Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica (sobre as quais alertamos em anos anteriores), e de sua responsabilidade no atual quadro da situa\u00e7\u00e3o [6].<\/p>\n<p>Neste artigo, retomaremos as an\u00e1lises, defini\u00e7\u00f5es e debates que abordamos em v\u00e1rios materiais anteriores dedicados ao Curdist\u00e3o [7]. \u00c9 um tema muito complexo e que se enquadra, ademais, no complexo e mutante pol\u00edgono de for\u00e7as nacionais e internacionais que se expressam no Oriente M\u00e9dio. Logo, pedimos desculpas antecipadas por sua extens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O povo curdo e sua autodetermina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O povo curdo \u00e9 a maior nacionalidade do Oriente M\u00e9dio sem Estado pr\u00f3prio (por volta de 40.000.000 de pessoas), j\u00e1 que o Tratado de Lausanne (firmado em 1923 para dividir os dom\u00ednios do imp\u00e9rio turco-otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial) lhes negou esse direito. Os curdos ficaram divididos em quatro pa\u00edses (Turquia, Ir\u00e3, Iraque e S\u00edria), nos quais s\u00e3o uma nacionalidade oprimida, que \u00e9 duramente reprimida quando luta para tentar reverter esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como marxistas revolucion\u00e1rios, n\u00e3o somos a favor da atomiza\u00e7\u00e3o dos Estados existentes. Pelo contr\u00e1rio, lutamos pela integra\u00e7\u00e3o de Estados plurinacionais e federativos, livremente constitu\u00eddos, cada vez maiores. Mas se uma nacionalidade oprimida define que quer sua independ\u00eancia, passamos a apoiar e defender incondicionalmente esta decis\u00e3o.<\/p>\n<p>O caso curdo \u00e9 especial: \u00e9 evidente que se trata de uma na\u00e7\u00e3o oprimida, mas n\u00e3o o \u00e9 em um s\u00f3 pa\u00eds e sim est\u00e1 dividida e oprimida em quatro pa\u00edses. Por isso, a \u00fanica forma de exercer sua autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e9 romper essa divis\u00e3o e reunificar-se. Assim, como ponto de partida, reconhecemos e defendemos seu direito de separar seus territ\u00f3rios hist\u00f3ricos dos Estados que hoje integram e constituir seu pr\u00f3prio Estado independente (e apoiamos plenamente sua luta neste sentido). Cremos que, neste caso, n\u00e3o se trataria de uma atomiza\u00e7\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, de uma reunifica\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter progressista.<\/p>\n<p>Duas organiza\u00e7\u00f5es disputam a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo curdo: O PDK (Partido Democr\u00e1tico do Curdist\u00e3o), dirigido atualmente a partir de Basur (Curdist\u00e3o iraquiano) por Massoud Barzani, e o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o), fundado na Turquia, por Abdullah Occalam (ainda que, nos diferentes pa\u00edses nos quais os curdos est\u00e3o divididos, os partidos que influenciam adotem nomes distintos). Sobre o PDK e Basur recomendamos ler o artigo \u201cMassivo plebiscito pela independ\u00eancia em Basur\u201d [8]. Neste mesmo material, nos referimos com maior profundidade ao PKK devido a sua influ\u00eancia no PYD de Rojava.<\/p>\n<p><strong>Os curdos na S\u00edria<\/strong><\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o da assinatura do Tratado de Lausanne, os curdos na S\u00edria n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos e n\u00e3o tinham \u201czonas pr\u00f3prias\u201d. Mas, devido \u00e0 brutal persegui\u00e7\u00e3o que sofriam na Turquia, nas d\u00e9cadas posteriores \u201ca imigra\u00e7\u00e3o curda para a S\u00edria aumentou\u2026 h\u00e1 cidades curdas em sua totalidade e os curdos s\u00edrios se concentram em uma parte dos territ\u00f3rios da S\u00edria\u201d, segundo analisava Salameh Kaileh, (um conhecido intelectual marxista s\u00edrio j\u00e1 falecido, que foi perseguido pelo regime de al-Assad), em um trabalho publicado h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p>Dessa forma, foi se conformando uma regi\u00e3o curda na S\u00edria (Rojava) com continuidade geogr\u00e1fica e com profundos vasos comunicantes com o territ\u00f3rio curdo da Turquia. Os curdos s\u00e3o amplamente majorit\u00e1rios nos cant\u00f5es ao redor das cidades principais (Afrin, Jazira e Kobane), na faixa nordeste do pa\u00eds (fronteiri\u00e7a com a Turquia ao norte e Iraque ao leste). Esses cant\u00f5es somam cerca de 15.000 km2, com algo mais de 2.000.000 de curdos (e minorias de outras origens). Entre Afrin e os outros dois cant\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 continuidade geogr\u00e1fica em territ\u00f3rio s\u00edrio, j\u00e1 que est\u00e3o separados por zonas n\u00e3o curdas. Como um exemplo da opress\u00e3o que os curdos sofriam na S\u00edria, digamos que, at\u00e9 h\u00e1 poucos anos, n\u00e3o tinham direito de serem cidad\u00e3os deste pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A cria\u00e7\u00e3o da autonomia de Rojava<\/strong><\/p>\n<p>Em 2012, no marco da guerra civil entre as for\u00e7as rebeldes e o regime de Bashar al-Assad (que ficou totalmente na defensiva), o PYD e as mil\u00edcias curdas (as YPG) assumiram o poder em Rojava e declararam sua autonomia. Dado que era imposs\u00edvel enfrentar este processo diretamente, Assad fez um acordo: reconheceu os curdos como cidad\u00e3os s\u00edrios e lhes outorgou de fato a autonomia, em troca de que n\u00e3o se separassem do pa\u00eds e n\u00e3o se unissem aos \u201crebeldes\u201d.<\/p>\n<p>Esse controle de uma regi\u00e3o aut\u00f4noma se somava \u00e0 regi\u00e3o que haviam conseguido em Basur (Iraque), em anos anteriores. De fato, trata-se de dois Estados ou embri\u00f5es de Estados curdos pr\u00f3prios. Os processos que levaram ao seu surgimento foram muito diferentes, ainda que ambos inclu\u00edssem acordos que criticamos duramente: com o imperialismo ianque no Iraque e com o regime de Assad na S\u00edria.<\/p>\n<p>Apesar dessas cr\u00edticas,\u00a0consideramos que essas autonomias conquistadas em Basur e em Rojava eram um avan\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o de um Estado curdo unificado e, por isso, deviam ser defendidas. Mas n\u00e3o devem ser consideradas como o \u201cobjetivo final\u201d, e sim ser colocadas a servi\u00e7o da luta para conquistar esse Estado unificado.<\/p>\n<p>Nesse marco, n\u00e3o damos nenhum apoio, nem conclamamos a confiar nas atuais dire\u00e7\u00f5es curdas, tanto por seu car\u00e1ter de classe (burgu\u00eas ou pequeno burgu\u00eas) como pela pol\u00edtica que levam adiante (o abandono da luta pelo Estado curdo unificado). Isso significa que, sendo parte do campo de luta do povo curdo, chamamos a lutar contra suas pol\u00edticas (como os acordos com o imperialismo, Assad, Putin ou Erdo\u011fan) e lhes exigimos que promovam a luta pelo Estado curdo unificado.<\/p>\n<p><strong>O car\u00e1ter de classe do Estado de Rojava<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 vimos, algumas organiza\u00e7\u00f5es marxistas definiram a experi\u00eancia que se desenvolvia em Rojava como um novo processo de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo. Rojava seria ent\u00e3o um novo Estado oper\u00e1rio, o \u00fanico existente no mundo ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na URSS, China e outros pa\u00edses. Neste ponto t\u00e3o importante, quero ser especialmente cuidadoso porque estou trabalhando s\u00f3 com informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica e \u201ca partir de fora\u201d, sem um conhecimento direto da situa\u00e7\u00e3o. Acreditamos que esta defini\u00e7\u00e3o est\u00e1 equivocada e definimos Rojava como \u201cum estado capitalista at\u00edpico\u201d. Devido \u00e0 import\u00e2ncia do tema, nos estenderemos um pouco em nossa argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante o dom\u00ednio s\u00edrio, n\u00e3o existia uma burguesia curda em Rojava no sentido mais estrito da palavra. Para ser mais exato, direi que era de uma grande debilidade: quase uma protoburguesia ou pequena-burguesia agr\u00e1ria, comercial e artesanal. Esse aspecto \u00e9 muito importante na an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n<p>A partir de 2012 surgiu, de fato, um Estado curdo em Rojava. O definimos como \u201cEstado\u201d porque (mesmo n\u00e3o tendo se reivindicado independente da S\u00edria nem tendo sido reconhecido internacionalmente como tal) possu\u00eda seu pr\u00f3prio governo aut\u00f4nomo e suas pr\u00f3prias for\u00e7as armadas (as mil\u00edcias do YPD). Este Estado herdou a terra e os servi\u00e7os p\u00fablicos que antes eram propriedade do Estado s\u00edrio. Isto \u00e9, passou a ser propriet\u00e1rio dos principais recursos econ\u00f4micos e, ao mesmo tempo, se assentou sobre uma estrutura econ\u00f4mica atrasada, quase sem burguesia. Esta foi a base objetiva da situa\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n<p>Era uma situa\u00e7\u00e3o muito especial, quase excepcional na hist\u00f3ria moderna. Podemos caracterizar o PYD como uma dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o oper\u00e1ria ou pequeno-burguesa que tomou o poder e controlou um Estado. Um fato com essas caracter\u00edsticas n\u00e3o \u00e9 novo: j\u00e1 aconteceu em pa\u00edses como a ex-Iugosl\u00e1via, China, Cuba, Nicar\u00e1gua\u2026 nessas situa\u00e7\u00f5es, houve uma contradi\u00e7\u00e3o aguda entre a superestrutura (regime e governo), que n\u00e3o era controlada pela burguesia, e a estrutura econ\u00f4mica do pa\u00eds (que continuava sendo capitalista).<\/p>\n<p>Uma contradi\u00e7\u00e3o que podia ser resolvida atrav\u00e9s de duas alternativas: na primeira, essa dire\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava al\u00e9m de suas inten\u00e7\u00f5es originais em sua ruptura com a burguesia e o imperialismo e os expropriava, come\u00e7ando assim a constru\u00e7\u00e3o de um novo Estado oper\u00e1rio (o que aconteceu na ex-Iugosl\u00e1via, China e Cuba);\u00a0 na segunda, a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7ava na ruptura nem na expropria\u00e7\u00e3o e reconstru\u00eda um Estado burgu\u00eas \u201cnormal\u201d (o que aconteceu com o sandinismo na Nicar\u00e1gua e com o FNL da Arg\u00e9lia). N\u00e3o existem alternativas \u201cintermedi\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de Rojava apresentava uma diferen\u00e7a com a dos pa\u00edses aos quais nos referimos. Enquanto neles existia um certo grau de desenvolvimento capitalista e, portanto, burgueses nacionais e imperialistas que tinham que ser expropriados, em Rojava, pelo desenvolvimento hist\u00f3rico anterior, as principais alavancas da economia ficaram nas m\u00e3os do novo Estado, que planificava de modo central as atividades econ\u00f4micas. Mas chegou-se a essa situa\u00e7\u00e3o sem que a dire\u00e7\u00e3o tivesse que impulsionar uma pol\u00edtica de expropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como elemento muito importante, devemos considerar que se tratava de um Estado muito pequeno e assentado sobre uma base econ\u00f4mica debil\u00edssima. O que estava apresentado, ent\u00e3o, era um desenvolvimento quase inicial, dir\u00edamos uma \u201cacumula\u00e7\u00e3o primitiva\u201d (no caso de Kobane, inclusive de reconstru\u00e7\u00e3o dessa base debil\u00edssima) para garantir um funcionamento econ\u00f4mico elementar.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica do PYD no terreno econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n<p>Pelas condi\u00e7\u00f5es objetivas, a dire\u00e7\u00e3o do PYD poderia ter avan\u00e7ado nesta acumula\u00e7\u00e3o primitiva atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de um pequeno estado oper\u00e1rio. Estar\u00edamos ent\u00e3o em presen\u00e7a de uma variante muito particular da \u201chip\u00f3tese altamente improv\u00e1vel\u201d apresentada por Trotsky no Programa de Transi\u00e7\u00e3o. Inclusive nesse caso n\u00e3o concordar\u00edamos com a defini\u00e7\u00e3o de \u201csocialismo de base\u201d que algumas correntes utilizam. Essencialmente porque, tal como nos ensinaram nossos mestres do marxismo, s\u00f3 se pode falar realmente de \u201csocialismo\u201d se partimos, como m\u00ednimo, do n\u00edvel mais alto de desenvolvimento econ\u00f4mico alcan\u00e7ado pelo capitalismo. Em todo caso, estar\u00edamos ante um estado muito inicial de uma economia de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo.<\/p>\n<p>O que fez a nova administra\u00e7\u00e3o curda encarregada de todas estas propriedades? Distribuiu parte da terra a cooperativas auto-organizadas que estavam trabalhando para expandir o gado e para aumentar e diversificar os cultivos. Depois de derrotar o Estado Isl\u00e2mico e estender seu dom\u00ednio ao sul, continuou extraindo petr\u00f3leo (ainda que com muitas dificuldades para operar por falta de reposi\u00e7\u00f5es), que era refinado em um diesel de baixa qualidade, vendido no respectivo cant\u00e3o ou distribu\u00eddo \u00e0s cooperativas e outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o das cooperativas era vendida no varejo ou a Administra\u00e7\u00e3o Central (que controlava todo o processo e os pre\u00e7os) a comprava. A Administra\u00e7\u00e3o proporcionava para cada moradia uma ra\u00e7\u00e3o de p\u00e3o e de alimentos b\u00e1sicos (dados tomados de Rojava: uma revolu\u00e7\u00e3o na vida di\u00e1ria,\u00a0de Rebecca Coles). Em Kobane, e parcialmente em Jazira, o ataque do EI colocou esse sistema sob uma \u201ceconomia de guerra\u201d, mas em Afrin (n\u00e3o afetada por esses enfrentamentos), ele continuou se desenvolvendo.<\/p>\n<p>Em uma entrevista, Amaad Yousef, ministro da Economia do cant\u00e3o de Afrin, explicou que a regi\u00e3o sempre foi caracterizada pela pobreza porque, desde o governo central s\u00edrio, \u201cn\u00e3o permitiram abrir f\u00e1bricas ou desenvolver qualquer forma de enriquecimento da regi\u00e3o\u201d [9]. Nesses anos, inclusive, v\u00e1rias pequenas e m\u00e9dias produtoras de azeitonas e de azeite de oliva foram fechadas.<\/p>\n<p>Na mesma entrevista, o ministro disse que, a partir da exist\u00eancia do governo aut\u00f4nomo, al\u00e9m do impulso \u00e0s cooperativas agropecu\u00e1rias e da pequena produ\u00e7\u00e3o de diesel, no cant\u00e3o j\u00e1 funcionavam \u201c50 f\u00e1bricas de sab\u00e3o, 20 embaladoras de azeitonas, 250 plantas de azeite processado, 70 f\u00e1bricas de material de constru\u00e7\u00e3o, 400 oficinas t\u00eaxteis, 8 f\u00e1bricas de cal\u00e7ado, 5 f\u00e1bricas de produ\u00e7\u00e3o de nylon, 15 f\u00e1bricas de m\u00e1rmore processado\u201d, ao que se somavam dois moinhos (para processar trigo) e dois hot\u00e9is. Al\u00e9m disso, \u201cfoi constru\u00edda uma barragem para proporcionar \u00e1gua para beber\u201d. Nesse processo, a popula\u00e7\u00e3o do cant\u00e3o duplicou, com curdos que vinham de Kobane ou que retornavam das cidades s\u00edrias, assim como um setor de \u00e1rabes n\u00e3o curdos (estima-se esta popula\u00e7\u00e3o em 200.000). Segundo Yousef, nesse momento havia pleno emprego no cant\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre o funcionamento financeiro, explicou que ainda utilizavam a moeda s\u00edria (libra), mas os bancos estatais s\u00edrios j\u00e1 n\u00e3o operavam e foram fundadas entidades banc\u00e1rias curdas nos cant\u00f5es. A cobran\u00e7a de juros estava muito controlada, embora tenha dito que \u201cas pessoas poupam guardando seu dinheiro debaixo do travesseiro\u201d. Finalmente, acrescentou que \u201co capital privado n\u00e3o \u00e9 proibido, mas est\u00e1 de acordo com nossas ideias e sistema. Estamos desenvolvendo um sistema em torno das cooperativas e das comunas. Entretanto, isso n\u00e3o prova que estamos contra o capital privado. \u00a0Eles ser\u00e3o complementares. Acreditamos que quando o sistema de cooperativas estiver desenvolvido, pode-se incluir capital privado moral a certas partes da economia\u201d. Por exemplo, para obras de infraestrutura e maior incentivo, como uma usina e uma planta de fertilizantes, projetava-se apelar a capitais internacionais [10].<\/p>\n<p><strong>A constitui\u00e7\u00e3o de Rojava<\/strong><\/p>\n<p>Esse projeto de capitalismo de Estado foi plasmado no Contrato Social (Constitui\u00e7\u00e3o) aprovado no marco da autonomia [11]. Com respeito \u00e0 economia e \u00e0 propriedade, foi estabelecido que \u201cos recursos naturais, situados acima e abaixo da terra, s\u00e3o a riqueza p\u00fablica da sociedade. Os processos de extra\u00e7\u00e3o, gest\u00e3o, licen\u00e7as e outros acordos contratuais relacionados com tais recursos ser\u00e3o regulados pela lei\u201d. Ademais, que \u201cos edif\u00edcios e terrenos s\u00e3o propriedade da sociedade\u201d e \u201cadministrados pelo governo\u201d. Expressa tamb\u00e9m que todos os habitantes t\u00eam \u201cdireito ao uso e gozo de seus bens privados\u201d.<\/p>\n<p>Afirma que \u201co sistema econ\u00f4mico deve orientar-se para proporcionar bem-estar geral e, em particular, deve conceder financiamento \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 tecnologia. Ter\u00e1 por objeto garantir as necessidades di\u00e1rias das pessoas para garantir uma vida digna. O monop\u00f3lio est\u00e1 proibido por lei. Os direitos trabalhistas e o desenvolvimento sustent\u00e1vel est\u00e3o garantidos\u201d. Finalmente, \u201co capital privado n\u00e3o \u00e9 proibido, mas est\u00e1 de acordo com nossas ideias e sistema\u201d.<\/p>\n<p>Em outras palavras, sobre a base espec\u00edfica que analisamos (escasso desenvolvimento econ\u00f4mico pr\u00e9vio e alt\u00edssimo n\u00edvel de propriedade estatal) o projeto de \u201cconfederalismo democr\u00e1tico\u201d do PYD n\u00e3o era avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de um pequeno Estado oper\u00e1rio e em uma transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, mas sim o de construir um estado burgu\u00eas \u201cat\u00edpico\u201d, diferente dos que conhecemos habitualmente, tanto pelas bases objetivas das quais partia como pela express\u00e3o parcial dessa pr\u00f3pria ideologia.<\/p>\n<p>Era um projeto do tipo que Trotsky, em seu livro A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda, definiu como \u201ccapitalismo de Estado\u201d:\u00a0\u201cquando um estado burgu\u00eas assume o comando direto de empresas industriais\u201d. Buscando uma analogia hist\u00f3rica, guarda alguma similaridade com o que ocorreu durante toda uma parte do s\u00e9culo XIX no Paraguai (depois de sua independ\u00eancia) com os governos de Gaspar Rodr\u00edguez de Francia, Carlos L\u00f3pez e Francisco Solano L\u00f3pez. Isto \u00e9, n\u00e3o se tratava de construir uma economia n\u00e3o capitalista, mas sim, uma vez estabelecida uma certa base produtiva, desenvolver o capitalismo.<\/p>\n<p>Essa realidade se explicava tanto pelo car\u00e1ter de classe pequeno-burgu\u00eas da dire\u00e7\u00e3o do PYD como por sua base social (tamb\u00e9m pequeno-burguesa, com setores de aspira\u00e7\u00f5es burguesas) sem que exista a press\u00e3o ou a a\u00e7\u00e3o de um proletariado forte pelas suas pr\u00f3prias reivindica\u00e7\u00f5es e programa.<\/p>\n<p>N\u00e3o fomos os \u00fanicos a perceber esse car\u00e1ter capitalista do projeto do PYD. Andrea Glioti \u00e9 um jornalista italiano residente em Londres, simpatizante do processo de Rojava, que viajou \u00e0 regi\u00e3o e permaneceu v\u00e1rios meses para conhec\u00ea-lo diretamente e se informar sobre essa experi\u00eancia. Ao retornar a Londres, em um artigo escrito para a p\u00e1gina da Al Jazeera, Glioti (repetimos, um simpatizante do processo) realiza diversas cr\u00edticas ao governo do PYD sobre as fortes contradi\u00e7\u00f5es entre sua proposta \u201cno papel\u201d e o que fazia na realidade: \u201cA propriedade privada est\u00e1 oficialmente consagrada na Carta [Constitui\u00e7\u00e3o de Rojava], uma provis\u00e3o que salvaguarda os privil\u00e9gios dos propriet\u00e1rios de terras uma vez que os incentiva a investir em projetos agr\u00edcolas patrocinados pelas autoridades de Rojava\u201d. Em outras palavras, o governo do PYD estava promovendo o surgimento de uma \u201cburguesia da terra\u201d [12].<\/p>\n<p>Este fato foi corroborado pela revista brit\u00e2nica The Economist\u00a0 que analisa que a economia de Rojava come\u00e7ava a ser \u201cvi\u00e1vel\u201d\u00a0 porque, al\u00e9m de abastecer-se, j\u00e1 tinha excedentes na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo cru, gado ovino, gr\u00e3os (s\u00f3 consumiam 30% do produzido) e algod\u00e3o, que come\u00e7avam a exportar atrav\u00e9s da fronteira com o Curdist\u00e3o iraquiano (Basur) aberta a partir dos primeiros meses de 2016 [13].<\/p>\n<p><strong>O debate com o anarquismo e o \u201cn\u00e3o Estado\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em nosso artigo \u201cSobre a luta do povo curdo\u201d (dezembro 2015) [14], realizamos um debate com correntes que consideravam que em Rojava \u201cas concep\u00e7\u00f5es anarquistas est\u00e3o sendo aplicadas: governar e defender um pa\u00eds a partir da base popular sem que exista um Estado\u201d. Estamos no mesmo \u201clado\u201d que eles na defesa do povo curdo e no apoio \u00e0 sua luta. Mas sua vis\u00e3o do processo estava equivocada, suas propostas pol\u00edtico-militares n\u00e3o respondiam \u00e0s necessidades da luta e, ao serem aplicadas, levavam por um caminho perigos\u00edssimo para a derrota.<\/p>\n<p>Voltava \u00e0 tona assim o velho debate entre marxistas e anarquistas no qual reafirmamos a posi\u00e7\u00e3o de nossos mestres: nas atuais condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento da humanidade n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel governar e defender um pa\u00eds sem um Estado e suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse debate te\u00f3rico, essa defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o refletia a realidade. Em Rojava existia sim um Estado que, na realidade, era muito forte em rela\u00e7\u00e3o ao tamanho do pa\u00eds. Em primeiro lugar, existia uma for\u00e7a armada com comando centralizado (as YPG), coluna principal de qualquer tipo de Estado. Em segundo lugar, existiam institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas centralizadas em um Parlamento e um governo. Finalmente, esse Estado e esse governo desempenhavam um papel determinante na planifica\u00e7\u00e3o e no impulso da economia.<\/p>\n<p>Uma vez definido que havia sim um Estado, h\u00e1 que se definir que tipo de Estado ele era. Em primeiro lugar, seu car\u00e1ter de classe (um problema conceitual que os anarquistas n\u00e3o consideram). Para n\u00f3s, como j\u00e1 analisamos, trata-se de um \u201cestado burgu\u00eas at\u00edpico\u201d.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, qual \u00e9 o mecanismo de funcionamento de suas institui\u00e7\u00f5es. As defini\u00e7\u00f5es do anarquismo partem de uma premissa falsa: todo Estado (independentemente de seu car\u00e1ter de classe) \u00e9 o instrumento central da explora\u00e7\u00e3o e, portanto, \u00e9 antidemocr\u00e1tico. Como consequ\u00eancia, toda estrutura democr\u00e1tica constru\u00edda de baixo para cima aplica os princ\u00edpios anarquistas.<\/p>\n<p>Essa falsa premissa se baseia em uma dupla contraposi\u00e7\u00e3o: por um lado, \u00e0s democracias burguesas nas quais na verdade a democracia \u00e9 forma e n\u00e3o conte\u00fado j\u00e1 que, como definia Marx, s\u00e3o uma forma disfar\u00e7ada de ditadura da burguesia; pelo outro, com a da URSS burocratizada pelo estalinismo, na qual n\u00e3o existia democracia pol\u00edtica para os trabalhadores e as massas, e que foi apresentada como o \u201cmodelo de socialismo\u201d.<\/p>\n<p>Mas essa URSS burocratizada era na realidade (no terreno das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas) uma caricatura profundamente desfigurada do verdadeiro modelo de institui\u00e7\u00f5es e de funcionamento de um Estado oper\u00e1rio que propomos para a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo.<\/p>\n<p>Um modelo que, com a dire\u00e7\u00e3o de L\u00eanin e Trotsky, foi colocado em pr\u00e1tica entre 1917 e 1919, at\u00e9 que uma dur\u00edssima guerra civil (provocada pelo ataque conjunto de v\u00e1rios ex\u00e9rcitos imperialistas e dos contrarrevolucion\u00e1rios russos contra o jovem Estado oper\u00e1rio) obrigou-os conjunturalmente a deix\u00e1-lo de lado. Esse modelo se baseava nos sovietes (conselhos de deputados oper\u00e1rios e camponeses) como institui\u00e7\u00e3o central.<\/p>\n<p>Esse modelo constitui uma democracia constru\u00edda a partir da base: os oper\u00e1rios votavam em seus representantes nas f\u00e1bricas e locais de trabalho, e os camponeses em suas assembleias (isto \u00e9, milh\u00f5es interviam de modo direto na vida pol\u00edtica). Da\u00ed para cima, se elegiam os representantes para os sovietes distritais, provinciais e nacional. Os representantes e deputados sovi\u00e9ticos podiam ser revogados e substitu\u00eddos por sua base se n\u00e3o cumprissem o mandato votado nas reuni\u00f5es e assembleias. O governo central era eleito pelo soviete nacional que (como nos n\u00edveis menores) atuava por sua vez como organismo legislativo e executivo (era o respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o das resolu\u00e7\u00f5es aprovadas). Era um Estado baseado em uma democracia constru\u00edda de baixo para cima e, ao mesmo tempo, tinha um conte\u00fado de classe: oper\u00e1rio em alian\u00e7a com os camponeses pobres. N\u00e3o podiam votar nem ser eleitos para os sovietes os burgueses ou qualquer um que houvesse explorado trabalhadores. Ao mesmo tempo destinava-se a reprimir os burgueses e a elimin\u00e1-los como classe.<\/p>\n<p>Como elemento complementar, digamos que a maioria das correntes anarquistas russas da \u00e9poca se op\u00f4s a esta constru\u00e7\u00e3o devido \u00e0 premissa de lutar contra toda forma de Estado (ainda que alguns dirigentes oper\u00e1rios anarquistas apoiaram os sovietes de modo individual). De fato, aliaram-se com a oposi\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria e, inclusive com os setores mais extremos, realizaram um atentado contra L\u00eanin em 1918.<\/p>\n<p>Como dissemos anteriormente, o governo de L\u00eanin e Trotsky foi obrigado, conjunturalmente, a deixar de lado essa plena democracia devido \u00e0 guerra civil, mas seu projeto era retom\u00e1-la completamente quando esta terminasse. O estalinismo transformou a \u201cnecessidade em virtude\u201d e avan\u00e7ou qualitativamente na burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado e de suas institui\u00e7\u00f5es, dizendo que este era \u201co verdadeiro modelo\u201d. Mas Trotsky e os trotskistas russos combateram o estalinismo e a burocratiza\u00e7\u00e3o da URSS \u2013 e tentaram defender a democracia sovi\u00e9tica. Como trotskistas, n\u00e3o nos consideramos respons\u00e1veis pela caricatura que foi constru\u00edda e defendida pelo estalinismo, e tampouco pelo seu fracasso.<\/p>\n<p><strong>Uma quest\u00e3o central: o problema militar<\/strong><\/p>\n<p>Outro debate com os anarquistas se referia \u00e0 quest\u00e3o militar que, nesse momento, baseava-se em grupos de mil\u00edcias populares. A estrutura de mil\u00edcias e as t\u00e1ticas guerrilheiras pr\u00f3prias dessa modalidade (ainda mais se existe uma moral revolucion\u00e1ria e apoio de massas) podem ser muito efetivas se tratar-se de uma luta defensiva contra um inimigo que, ainda que superior militarmente, n\u00e3o tem base popular.<\/p>\n<p>Mas se a tarefa apresentada \u00e9 superior e ofensiva, as mil\u00edcias n\u00e3o podem ser a ferramenta militar central (mas podem ser um elemento complementar). As mil\u00edcias curdas podiam defender Kobane das for\u00e7as do Estado Isl\u00e2mico, mas se a quest\u00e3o era derrot\u00e1-lo de modo definitivo, era necess\u00e1ria uma ferramenta militar superior: um ex\u00e9rcito completo, com suas divis\u00f5es, e um comando estrat\u00e9gico centralizado. A realidade mostrou que essas considera\u00e7\u00f5es estavam totalmente acertadas: para derrotar o EI, sobre a base das YPG, formaram-se as FDS (For\u00e7as Democr\u00e1ticas S\u00edrias), um verdadeiro ex\u00e9rcito centralizado.<\/p>\n<p>Isso que diz\u00edamos em rela\u00e7\u00e3o ao EI se ampliava exponencialmente se a tarefa era lutar contra as for\u00e7as do regime de Assad (apoiada por tropas russas) e, mais ainda, se a quest\u00e3o era lutar por um Estado curdo unificado, que deveria enfrentar o ex\u00e9rcito turco e o iraniano. Pouco depois a realidade colocaria o combate contra o ex\u00e9rcito turco como uma necessidade imediata.<\/p>\n<p>Propor as mil\u00edcias populares como uma forma imut\u00e1vel (porque isso \u00e9 adequado a um n\u00e3o Estado) \u00e9 um idealismo ut\u00f3pico que n\u00e3o prepara a constru\u00e7\u00e3o da ferramenta militar necess\u00e1ria para as tarefas pol\u00edticas que estavam colocadas pela realidade. Esse \u00e9 um caminho garantido para a derrota.<\/p>\n<p><strong>Uma \u201cdemocracia a partir da base\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m desses debates sobre teoria pol\u00edtica, a economia de Rojava e as quest\u00f5es militares, essa vis\u00e3o dos anarquistas tamb\u00e9m se chocava com o funcionamento profundo das institui\u00e7\u00f5es que havia nesse Estado.<\/p>\n<p>Para os anarquistas, era verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o do PYD que ele estava construindo uma \u201cdemocracia de base\u201d em Rojava com uma estrutura piramidal de comit\u00eas populares que definiam as pol\u00edticas \u201cde baixo para cima\u201d. Mas essa descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o correspondia \u00e0 realidade. Em primeiro lugar, a for\u00e7a dominante em Rojava, o PYD-PKK conserva (desde sua \u00e9poca estalinista-mao\u00edsta) uma estrutura de interven\u00e7\u00e3o altamente centralizada \u201cde cima para baixo\u201d e, de fato, transfere esse mecanismo ao novo Estado e \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O analista pol\u00edtico s\u00edrio de esquerda Joseph Daher, em uma entrevista muito interessante, analisou: \u201cO PYD mant\u00e9m a autoridade suprema de decis\u00e3o, reduzindo os conselhos a um papel fundamentalmente simb\u00f3lico para tudo que v\u00e1 al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o do combust\u00edvel e da ajuda humanit\u00e1ria. A institui\u00e7\u00e3o municipal, um dos elementos-chave do sistema da nova Rojava (cujo papel \u00e9 proporcionar a ajuda humanit\u00e1ria aos habitantes dos arredores), foi acusada de servir para refor\u00e7ar o controle das organiza\u00e7\u00f5es vinculadas ao PYD\u201d. [15]<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o PYD reprimia de modo sistem\u00e1tico os partidos que a disputavam politicamente (como o Yekiti e o CNK) e opositores n\u00e3o alinhados partidariamente. Havia mais de 100 presos pol\u00edticos, expulsaram de Rojava dirigentes da oposi\u00e7\u00e3o e fecharam meios de comunica\u00e7\u00e3o, como a r\u00e1dio independente Arta em 2014 e 2016 etc. Essas informa\u00e7\u00f5es foram corroboradas em diversas fontes ver\u00eddicas: o artigo de Joseph Daher, o artigo j\u00e1 citado de Andrea Glioti e o excelente livro Burning country\u00a0: Syrians in Revolution and War\u00a0de Robin de Yassin-Kassab e Leila al-Shami sobre o conflito s\u00edrio [16]. Uma repress\u00e3o sistem\u00e1tica em defesa de um Estado burgu\u00eas que desmente com fatos a \u201cdemocracia a partir de baixo\u201d que o PYD afirma estar construindo em Rojava.<\/p>\n<p><strong>As alian\u00e7as perigosas que o PYD fez<\/strong><\/p>\n<p>A caracteriza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de classe da dire\u00e7\u00e3o do PYD \u00e9 muito importante para entender tanto o tipo de Estado que estava construindo em Rojava como a pol\u00edtica de alian\u00e7as que desenvolveu para defender e consolidar essa autonomia, tema que temos abordado em v\u00e1rios artigos. Nos referimos, por um lado, \u00e0 tregua que de fato havia estabelecido a partir de 2012 com o regime ditatorial de Bashar al-Assad e, por outro, ao fato de colocar no centro de sua pol\u00edtica a alian\u00e7a com o imperialismo estadunidense.<\/p>\n<p>Essa colabora\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a forjar-se na luta contra o Estado Isl\u00e2mico na defesa de Kobane e foi refor\u00e7ada posteriormente, no cerco e tomada de Racqa\u00a0por parte das For\u00e7as Democr\u00e1ticas S\u00edrias, que recebeu fortes suprimentos de armas, treinamento e apoio a\u00e9reo dos ianques.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, \u00e9 t\u00e1tico e n\u00e3o um princ\u00edpio que um movimento que luta em um campo militar progressivo receba armas do imperialismo. \u00c9 uma t\u00e1tica v\u00e1lida se serve a essa luta. Assim aconteceu, por exemplo, com as for\u00e7as que combatiam a invas\u00e3o japonesa na China na Segunda Guerra Mundial ou na exig\u00eancia para que os imperialismos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d (EEUU, Inglaterra e Fran\u00e7a) enviassem armas aos republicanos espanh\u00f3is em sua guerra contra os fascistas.<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a quando se deixa de dizer \u00e0s massas que se trata apenas de uma encruzilhada, um curto epis\u00f3dio no qual se concorda temporariamente com nosso principal inimigo, o qual deveremos combater, com absoluta certeza, no futuro. Pior ainda, quando se convoca a depositar confian\u00e7a nesse inimigo. Esse \u00e9 o caminho que o PYD\/PKK estava percorrendo.<\/p>\n<p>Em anos anteriores, fizemos o alerta de que essa pol\u00edtica significava uma cegueira estrat\u00e9gica. O imperialismo pode usar diversos pe\u00f5es nas t\u00e1ticas regionais com que defende seus interesses. Mas s\u00f3 s\u00e3o isso (pe\u00f5es) que ser\u00e3o sacrificados quando j\u00e1 n\u00e3o forem mais necess\u00e1rios. Depois eles tentam destru\u00ed-los, como ocorreu com os talib\u00e3s no Afeganist\u00e3o. A realidade atual (a atitude do governo dos EUA frente ao ataque turco) demonstrou muito rapidamente a corre\u00e7\u00e3o desse alerta.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a pol\u00edtica do PYD de estabelecer uma tr\u00e9gua de fato com o regime de Assad isolou os curdos de Rojava daqueles que deveriam ser seus verdadeiros aliados: os setores mais progressivos das for\u00e7as rebeldes que combatem a ditadura. Pior ainda, quando as YPG\/FDS avan\u00e7am sobre territ\u00f3rio n\u00e3o curdo, muitas vezes combatem essas for\u00e7as e desalojam violentamente popula\u00e7\u00f5es \u00e1rabes s\u00edrias.<\/p>\n<p>Assim ocorreu, por exemplo, em 2017, quando as FDS tentaram aproveitar a batalha pelo controle de Alepo para estabelecer um corredor que unisse os cant\u00f5es de Afrin e Jazira, tentativa que foi derrotada por uma invas\u00e3o anterior do ex\u00e9rcito turco. Esse grav\u00edssimo erro pol\u00edtico-militar do PYD contribuiu para que muitas for\u00e7as rebeldes considerassem os curdos como \u201cinimigos\u201d, e ajudou a justificar a pol\u00edtica tamb\u00e9m equivocada de alguns batalh\u00f5es do ELS (Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria que combatia o regime de Assad) de ser parte do reacion\u00e1rio ataque turco contra os curdos.<\/p>\n<p><strong>O momento atual<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da S\u00edria \u00e9 um complexo e mutante \u201cpol\u00edgono de for\u00e7as\u201d. Essas for\u00e7as interv\u00eam e definem sua pol\u00edtica em uma combina\u00e7\u00e3o de interesses estrat\u00e9gicos e necessidades conjunturais e concretas. O \u201ctabuleiro s\u00edrio\u201d n\u00e3o s\u00f3 muda de modo constante nos dom\u00ednios territoriais que cada setor tem, como tamb\u00e9m nas alian\u00e7as e acordos que v\u00e3o se configurando. Nesse jogo, nunca devemos esquecer que, como no xadrez, existem reis, bispos e pe\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, no marco de sua complexidade, se olharmos objetivamente, uma coisa se v\u00ea com clareza: por tr\u00e1s do ataque turco se estabeleceu um acordo contrarrevolucion\u00e1rio contra os curdos, entre Erdo\u011fan, Putin, Trump, Assad, e os aiatol\u00e1s iranianos. \u00c9 o mesmo acordo que ajudou a infligir fortes derrotas a parte importante dos rebeldes s\u00edrios e a fortalecer Assad.<\/p>\n<p>De nada servem os lamentos de que Trump nos \u201capunhalou pelas costas\u201d\u00a0[17]. Era algo que podia ser antecipado havia muitos anos. N\u00e3o o dissemos s\u00f3 n\u00f3s, Manuel Martorell, autor do livro\u00a0Curdos, publicado em 2016, havia antecipado, ante o ataque turco do ano passado: \u201cO que aconteceu em Afrin vai se repetir no norte da S\u00edria\u2026 isso provocar\u00e1 um terr\u00edvel desastre humanit\u00e1rio. Talvez milh\u00f5es de pessoas ter\u00e3o que fugir pela fronteira com o Iraque\u2026 Os Estados Unidos fizeram como sempre, responderam aos seus interesses estrat\u00e9gicos\u201d [18].<\/p>\n<p>\u00c9 uma conclus\u00e3o que os curdos devem tirar com clareza: as \u201cpe\u00e7as grandes\u201d (EUA e \u00a0R\u00fassia) fazem seu pr\u00f3prio jogo em defesa de seus interesses, e os \u201cpe\u00f5es\u201d sempre podem ser sacrificados. A cegueira estrat\u00e9gica sobre a pol\u00edtica e as alian\u00e7as da dire\u00e7\u00e3o do PYD\/PKK (tr\u00e9gua com o regime de al-Assad, recha\u00e7o a uma alian\u00e7a com os rebeldes s\u00edrios, aposta principal no apoio do imperialismo estadunidense) cobra agora um alt\u00edssimo pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Certamente, o povo e as mil\u00edcias curdas de Rojava lutar\u00e3o com o hero\u00edsmo com que o fizeram em anos anteriores contra o Estado Isl\u00e2mico. Mas, apesar da grande simpatia que sua luta gerou no mundo, sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dific\u00edlima: s\u00e3o atacados pelo ex\u00e9rcito turco, muito superior em tropas e armas, est\u00e3o debilitados em seus suprimentos e a dire\u00e7\u00e3o curda teve que fazer um acordo com o regime de Assad e as for\u00e7as russas.<\/p>\n<p>Sabemos que muitas vezes a luta militar, quando as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o extremamente dif\u00edceis, obriga a acordos transit\u00f3rios que n\u00e3o s\u00e3o agrad\u00e1veis, como esta unidade de a\u00e7\u00e3o militar objetiva com as for\u00e7as russas e do regime de Assad, para n\u00e3o serem massacrados. Frente a isso, reiteramos o alerta que fizemos a respeito do imperialismo ianque.<\/p>\n<p>Em 2015 escrevemos: \u201cA pol\u00edtica internacional que a dire\u00e7\u00e3o do PYD vem promovendo \u00e9 equivocada e perigos\u00edssima. Uma ala majorit\u00e1ria prop\u00f5e uma alian\u00e7a com Putin e R\u00fassia (cujo eixo real hoje \u00e9 atacar os rebeldes anti Assad). Outro setor prop\u00f5e aprofundar uma alian\u00e7a com o imperialismo ianque (segundo o modelo do l\u00edder curdo iraquiano, Barzani). S\u00e3o pol\u00edticas que conjunturalmente podem oferecer alguma vantagem, mas que n\u00e3o consideram que no futuro, os curdos de Rojava voltar\u00e3o a ser \u2018moeda de troca\u2019 para estes \u2018aliados\u2019 no jogo maior de seus interesses na S\u00edria e no Oriente M\u00e9dio. O terreno conquistado em Rojava pelos curdos s\u00f3 poder\u00e1 ser defendido realmente se, por um lado, se aprofundar a alian\u00e7a com os rebeldes s\u00edrios (que ajudou a derrotar o Estado Isl\u00e2mico em Kobane) e se estender a luta para derrotar Assad e, pelo outro, se utilizar como plataforma para avan\u00e7ar na luta por um estado curdo unificado. Rojava sobreviver\u00e1 como parte desta luta regional (e mais em geral, como parte da revolu\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio) ou, lamentavelmente, est\u00e1 condenada a perecer\u201d.<\/p>\n<p>Lamentamos que esse progn\u00f3stico tenha se cumprido: o embri\u00e3o de Estado de Rojava j\u00e1 n\u00e3o existe; o objetivo de conseguir um Estado curdo est\u00e1 hoje ainda mais longe. Muitos inimigos combateram contra um avan\u00e7o nessa dire\u00e7\u00e3o, mas a pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o do PYD\/PKK contribuiu para essa derrota.<\/p>\n<p><strong>Algumas considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Neste marco, \u00e9 necess\u00e1rio que o povo curdo compreenda que o fim da opress\u00e3o que sofre e a conquista de seu pr\u00f3prio Estado nunca ser\u00e3o alcan\u00e7adas pelas m\u00e3os de Trump e de Putin. Ainda que possam aproveitar suas contradi\u00e7\u00f5es, eles sempre ser\u00e3o estrategicamente seus inimigos, e sempre preferir\u00e3o manter no jogo seus \u201cbispos\u201d (como Assad, Erdo\u011fan ou os aiatol\u00e1s iranianos) aos pe\u00f5es.<\/p>\n<p>A luta dos curdos s\u00f3 poder\u00e1 triunfar, em primeiro lugar, com a unidade do pr\u00f3prio povo curdo, independentemente do pa\u00eds em que s\u00e3o oprimidos. \u00c9 necess\u00e1rio exigir dos peshmergas de Basur que ajudem na defesa de seus irm\u00e3os em Rojava. \u00c9 necess\u00e1rio exigir das milicias do PKK na Turquia que (na medida de suas possibilidades) passem de meras declara\u00e7\u00f5es e os apoiem desde o outro lado da fronteira.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, \u00e9 muito importante que os curdos de Rojava compreendam que a pol\u00edtica seguida pelo PYD-YPG-FDS (firmar uma tr\u00e9gua com Assad e atacar batalh\u00f5es dos rebeldes s\u00edrios e popula\u00e7\u00f5es controladas por eles) foi um crime pol\u00edtico. \u00c9 necess\u00e1rio que fa\u00e7am um giro de 180\u00ba nessa pol\u00edtica e busquem imprescindivelmente uma alian\u00e7a com os setores mais progressivos das for\u00e7as opositoras a Assad que ainda combatem.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 necess\u00e1rio fazer um chamado \u00e0 solidariedade internacional dos trabalhadores e das massas do mundo.<\/p>\n<p>Queremos terminar, em primeiro lugar, reafirmando nossa posi\u00e7\u00e3o de apoio e defesa do campo militar dos curdos contra o ataque turco apoiado por Trump e convocamos a realiza\u00e7\u00f5 de uma grande campanha internacional unificada para isso.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, lutamos e o continuaremos fazendo pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do povo curdo e pela constru\u00e7\u00e3o de um Estado federal unificado desse povo, atualmente disperso entre S\u00edria, Turquia, Ir\u00e3 e Iraque.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, ante a posi\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es curdas (tanto o PKK\/PYD como o PDK) que abandonaram essa luta, \u00e9 mais necess\u00e1ria do que nunca a constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria curda que esteja disposta a lev\u00e1-la adiante at\u00e9 seu triunfo.<\/p>\n<p>Finalmente, consideramos que essa tarefa de construir um Estado curdo unificado s\u00f3 poder\u00e1 ser alcan\u00e7ada em uma luta comum com o conjunto dos trabalhadores e dos povos do Oriente M\u00e9dio, na perspectiva da conforma\u00e7\u00e3o de uma grande federa\u00e7\u00e3o de rep\u00fablicas socialistas das na\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanas.<\/p>\n<p>Colocamos esta proposta de balan\u00e7o a servi\u00e7o do objetivo de desenvolver essa luta para a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/siria\/la-victoria-del-pueblo-kurdo-en-kobane\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/siria\/la-victoria-del-pueblo-kurdo-en-kobane\/<\/a><\/p>\n<p>[2]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/opresiones\/mujeres\/la-lucha-de-las-mujeres-kurdas\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/opresiones\/mujeres\/la-lucha-de-las-mujeres-kurdas\/<\/a><\/p>\n<p>[3]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/europa\/turquia\/repudiamos-el-ataque-del-ejercito-turco-contra-rojava-kurdistan-sirio\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/europa\/turquia\/repudiamos-el-ataque-del-ejercito-turco-contra-rojava-kurdistan-sirio\/<\/a><\/p>\n<p>[4] Extra\u00eddo da vers\u00e3o em portugu\u00eas de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/carta-solidaria-com-rojava\/63895\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/carta-solidaria-com-rojava\/63895<\/a>, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/p>\n<p>[5]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/siria\/rojava-kurdistan-sirio-un-estado-burgues-atipico-parte-1\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/siria\/rojava-kurdistan-sirio-un-estado-burgues-atipico-parte-1\/<\/a><\/p>\n<p>[6]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/siria\/rojava-kurdistan-sirio-las-alianzas-peligrosas-del-pyd\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/siria\/rojava-kurdistan-sirio-las-alianzas-peligrosas-del-pyd\/<\/a><\/p>\n<p>[7] A s\u00e9rie completa de artigos sobre o Curdist\u00e3o pode ser encontrada em <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/categoria\/menu\/mundo\/medio-oriente\/kurdistan\/\">https:\/\/litci.org\/es\/categoria\/menu\/mundo\/medio-oriente\/kurdistan\/<\/a>. Em especial, recomendamos ler \u201cSobre a luta do povo curdo\u201d: <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/teoria\/sobre-la-lucha-del-pueblo-kurdo\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/teoria\/sobre-la-lucha-del-pueblo-kurdo\/<\/a>.<\/p>\n<p>[8]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/irak\/masivo-plebiscito-la-independencia-basur-kurdistan-iraqui\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/medio-oriente\/irak\/masivo-plebiscito-la-independencia-basur-kurdistan-iraqui\/<\/a><\/p>\n<p>[9] Publicada originalmente em\u00a0\u00d6zg\u00fcr G\u00fcnden\u00a0e reproduzida parcialmente no artigo de Leandro Albani, em uma edi\u00e7\u00e3o especial do boletim Resumen Latinoamericano\u00a0Inc\u00f3gnitas, desaf\u00edos y realidades \u2013 La econom\u00eda en Rojava, territorio liberado kurdo.<\/p>\n<p>[10]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.economist.com\/news\/middle-east-and-africa\/21628887-syrias-kurds-are-enjoying-more-autonomy-striking-out-their-own\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.economist.com\/news\/middle-east-and-africa\/21628887-syrias-kurds-are-enjoying-more-autonomy-striking-out-their-own<\/a><\/p>\n<p>[11]\u00a0<a href=\"https:\/\/rojavaazadimadrid.org\/contrato-social-de-la-federacion-democratica-del-norte-de-siria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/rojavaazadimadrid.org\/contrato-social-de-la-federacion-democratica-del-norte-de-siria\/<\/a><\/p>\n<p>[12]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aljazeera.com\/indepth\/opinion\/2016\/08\/rojava-libertarian-myth-scrutiny-160804083743648.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.aljazeera.com\/indepth\/opinion\/2016\/08\/rojava-libertarian-myth-scrutiny-160804083743648.html<\/a>\u00a0\u2013 Original em ingl\u00eas, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/p>\n<p>[13]\u00a0Idem \u00e0 nota 10.<\/p>\n<p>[14] Link na nota 7.<\/p>\n<p>[15]\u00a0<a href=\"https:\/\/syriafreedomforever.wordpress.com\/2016\/11\/28\/le-mouvement-national-kurde-en-syrie-objectifs-politiques-controverses-et-dynamiques\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/syriafreedomforever.wordpress.com\/2016\/11\/28\/le-mouvement-national-kurde-en-syrie-objectifs-politiques-controverses-et-dynamiques\/<\/a>\u00a0(original em franc\u00eas, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p>[16] YASSIN-KASSAB, Robin; AL-SHAMI, Leila.\u00a0Burning country: Syrians in Revolution and War. New York: Pluto Press, 2016.<\/p>\n<p>[17]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dAt3fmVmSW0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dAt3fmVmSW0<\/a><\/p>\n<p>[18]\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/10\/15\/actualidad\/1571149380_027433.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/10\/15\/actualidad\/1571149380_027433.html<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Alejandro Iturbe Republicamos este artigo de julho\/2019 sobre o povo curdo para contribuir no debate atual. Tropas dos ex\u00e9rcitos s\u00edrio e russo tomaram o controle da cidade curda de Kobane, a mesma cidade que, anos atr\u00e1s, foi um s\u00edmbolo em sua heroica defesa e vit\u00f3ria contra as for\u00e7as do Estado Isl\u00e2mico (ISIS). Naquele momento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":30749,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[5224],"tags":[1551,7943,6881],"class_list":["post-30748","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-curdistao","tag-alejandro-iturbe","tag-curdistao-sirio","tag-rojava"],"fimg_url":false,"categories_names":["Curdist\u00e3o"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30748"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30748\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80209,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30748\/revisions\/80209"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}