{"id":30480,"date":"2019-11-15T12:04:10","date_gmt":"2019-11-15T14:04:10","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30480"},"modified":"2019-11-15T12:04:10","modified_gmt":"2019-11-15T14:04:10","slug":"sangue-lagrimas-e-a-heroica-resistencia-em-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/11\/15\/sangue-lagrimas-e-a-heroica-resistencia-em-gaza\/","title":{"rendered":"Sangue, l\u00e1grimas e a heroica resist\u00eancia em Gaza"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Gaza \u00e9 o cap\u00edtulo expl\u00edcito da limpeza \u00e9tnica na Palestina, que segue h\u00e1 mais de 71 anos, desde a Nakba.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Em apenas dois dias, 34 palestinos assassinados em Gaza e 111 feridos. Esse \u00e9 o saldo da nova ofensiva israelense, que se iniciou no \u00faltimo 12 de novembro. Tudo come\u00e7ou com o lan\u00e7amento de uma bomba sobre a casa da lideran\u00e7a do partido Jihad Isl\u00e2mica, Bahaa Abu Al-Ata, e de sua companheira.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Soraya Misleh*<\/p>\n<p>O ataque que os matou tamb\u00e9m deixou feridos os filhos e outros membros da fam\u00edlia, al\u00e9m de vizinhos. Sob a j\u00e1 desgastada ret\u00f3rica de \u201cseguran\u00e7a\u201d e \u201cdefesa\u201d \u2013 do ocupante \u2013, a desculpa era de que Abu Al-Ata coordenava o lan\u00e7amento de foguetes a \u201cIsrael\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, como sempre, a a\u00e7\u00e3o planejada teve a ver com c\u00e1lculo pol\u00edtico sionista. A crise interna se expressa e se aprofunda \u2013 assim como o decl\u00ednio desse projeto colonial ante o mundo. Desde as segundas elei\u00e7\u00f5es gerais israelenses em setembro \u00faltimo, n\u00e3o conseguiram sequer formar seu \u201cgoverno de unidade nacional\u201d \u2013 a primeira foi em abril, mesmo impasse, que levou \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o do processo de vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00edder do partido Likud, o criminoso Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel por uma d\u00e9cada e respons\u00e1vel por in\u00fameros massacres, \u00e9 apontado como \u201cfrouxo\u201d em rela\u00e7\u00e3o a Gaza. A recente ofensiva buscava responder a esse argumento e mant\u00ea-lo no jogo pol\u00edtico (o que pode inclusive livr\u00e1-lo da cadeia, frente a acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Um dos que chamaram Netanyahu de \u201cfrouxo\u201d \u00e9 seu sucessor como primeiro-ministro, Benny Gantz. A despeito disso, segundo o\u00a0Times of Israel, ele teria declarado que essa \u201ccrise\u201d n\u00e3o o for\u00e7aria ao governo de unidade. Para analistas, na sua pretens\u00e3o de se mostrar o \u201chomem forte\u201d, Netanyahu estaria mais interessado em uma terceira elei\u00e7\u00e3o geral, que se aproxima. Bombardear Gaza seria parte dessa prepara\u00e7\u00e3o e campanha para ver se emplaca como primeiro-ministro na nova tentativa.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, de olho nos frios c\u00e1lculos, declaradamente n\u00e3o pretendia manter os bombardeios sobre aqueles que despreza, mata e desumaniza h\u00e1 tempos. E a Jihad Isl\u00e2mica e o Hamas estiveram no Cairo, capital do Egito, discutindo acordo de cessar-fogo que come\u00e7ou a vigorar neste dia 14 \u2013 e que j\u00e1 demonstra sua fragilidade.<\/p>\n<p>Bombardeios como os vivenciados pelos palestinos agora t\u00eam ainda outra fun\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o intrinsecamente ligados ao teste de novas tecnologias militares para posterior exporta\u00e7\u00e3o \u2013 destino de 70% dessa produ\u00e7\u00e3o israelense. Os palestinos s\u00e3o as cobaias. O que os mata sustenta a ocupa\u00e7\u00e3o sionista criminosa.<\/p>\n<p>E governos de todo o mundo s\u00e3o c\u00famplices: a cada dia, firmam novos acordos para aquisi\u00e7\u00e3o dessas armas. O Brasil est\u00e1 no topo da lista: nos \u00faltimos anos, tornou-se um dos cinco maiores importadores dessas tecnologias. E Bolsonaro, representante expl\u00edcito do sionismo na cadeira do Planalto, est\u00e1 doido para al\u00e7ar novos degraus. Os governos estaduais, como o de Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, seguem o mau exemplo: armas israelenses est\u00e3o nas m\u00e3os das pol\u00edcias que matam pobres e negros nas periferias.<\/p>\n<p><strong>Limpeza \u00e9tnica<\/strong><\/p>\n<p>Nada de novo. Israel segue a massacrar Gaza de forma criminosa, seja a conta-gotas, seja via bombardeios massivos, como em 2008-2009, 2012 e 2014, o mais intenso entre eles. E se n\u00e3o joga bombas sobre as cabe\u00e7as de palestinos, mata lentamente: segundo a pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), Gaza pode se tornar inabit\u00e1vel j\u00e1 em 2020, diante de grave crise humanit\u00e1ria imposta por bombardeios frequentes em meio a um cerco desumano que j\u00e1 dura 12 anos. S\u00e3o 2 milh\u00f5es nessa pris\u00e3o a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Apenas quatro horas de eletricidade por dia. Noventa e seis por cento da \u00e1gua pot\u00e1vel contaminada. Metade das crian\u00e7as com quadro de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. E desde mar\u00e7o de 2018, em meio a protestos pelo retorno dos refugiados e contra o bloqueio criminoso, mais de 300 mortos e 30 mil feridos.<\/p>\n<p>Gaza \u00e9 o cap\u00edtulo expl\u00edcito da limpeza \u00e9tnica na Palestina, que segue h\u00e1 mais de 71 anos, desde a Nakba (a cat\u00e1strofe com a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel em 15 de maio de 1948). Na estreita faixa, 80% s\u00e3o deslocados internamente \u2013 ou seja, refugiados dentro de sua pr\u00f3pria terra, oriundos daqueles 800 mil expulsos na Nakba e parte dos hoje 5 milh\u00f5es \u00e0 espera do retorno.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong><em>Mas Gaza tamb\u00e9m \u00e9 um s\u00edmbolo da resist\u00eancia de quem nada tem a perder. Diante da quarta pot\u00eancia b\u00e9lica do globo, uma resist\u00eancia heroica que se fortalece e inspira lutadores na Am\u00e9rica Latina e no mundo.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nesses dois dias, a resposta palestina, obviamente sem o mesmo poderio militar, tanto que n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtimas israelenses, veio sob a forma de centenas de foguetes. Vergonhosamente, de acordo com o\u00a0Middle East Monitor, o coordenador especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente M\u00e9dio, Nickolay Mladenov, condenou o lan\u00e7amento desses como \u201cinaceit\u00e1vel\u201d, e n\u00e3o o massacre em Gaza. Muito diferente da verdadeira e urgente solidariedade internacional, que encontra sua express\u00e3o entre os oprimidos e explorados mundo afora.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m, os palestinos persistem. Resistem. \u201cQuando tivermos sede, espremeremos as pedras. E comeremos terra, quando estivermos famintos. Mas n\u00e3o iremos embora. E n\u00e3o seremos avarentos com nosso sangue. Aqui temos um passado. E um presente. Aqui est\u00e1 nosso futuro\u201d, ecoam as palavras do poeta palestino Tawfiq Zayyad.<\/p>\n<p>* Artigo originalmente publicado em: https:\/\/www.cartacapital.com.br\/mundo\/sangue-lagrimas-e-a-heroica-resistencia-em-gaza\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gaza \u00e9 o cap\u00edtulo expl\u00edcito da limpeza \u00e9tnica na Palestina, que segue h\u00e1 mais de 71 anos, desde a Nakba. Em apenas dois dias, 34 palestinos assassinados em Gaza e 111 feridos. Esse \u00e9 o saldo da nova ofensiva israelense, que se iniciou no \u00faltimo 12 de novembro. 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