{"id":30432,"date":"2019-11-13T14:08:17","date_gmt":"2019-11-13T16:08:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30432"},"modified":"2019-11-13T14:08:17","modified_gmt":"2019-11-13T16:08:17","slug":"30-anos-sem-o-muro-de-berlim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/11\/13\/30-anos-sem-o-muro-de-berlim\/","title":{"rendered":"30 anos sem o Muro de\u00a0Berlim"},"content":{"rendered":"<p><em>A derrubada do Muro de Berlim, realizada pelas massas alem\u00e3s em 9 de novembro de 1989, estimula at\u00e9 hoje debates acalorados entre ativistas de esquerda sobre o que este fato acabou por representar.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por: Daniel Gajoni \u00a0&#8211; \u00a0Em Luta\/Portugal<\/p>\n<p>A vers\u00e3o mais recorrente \u00e9 que, em 1989, a Alemanha Oriental era um \u201cpa\u00eds socialista\u201d e que a queda do muro resultou na \u201cderrota do socialismo\u201d no leste europeu e na URSS, como afirma o Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP)\u00a0\u00a0e a m\u00e1quina de propaganda do imperialismo mundial.<\/p>\n<p>Esta falsa leitura deturpa a a\u00e7\u00e3o direta do povo alem\u00e3o e de outras nacionalidades do leste europeu em defesa de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e direitos democr\u00e1ticos contra ditaduras que j\u00e1 eram capitalistas. A deturpa\u00e7\u00e3o dos acontecimentos do leste europeu tenta impor a narrativa de que o \u201csocialismo morreu\u201d e n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa a n\u00e3o ser conformar-se com o capitalismo, ou tentar humaniz\u00e1-lo. Nada mais falso.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo foi restaurado antes da queda do muro<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, o que ruiu h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas junto com o muro de Berlim foi uma ditadura que j\u00e1 havia restaurado o capitalismo na ent\u00e3o Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA) em meados dos anos 80. O mesmo tamb\u00e9m ocorrera nos pa\u00edses do leste europeu, capitaneados pela URSS (Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas), a partir das reformas pr\u00f3-capitalismo de Gorbachev, sobretudo ap\u00f3s an\u00fancio da Perestroika, um plano que deu base para o fim do monop\u00f3lio do com\u00e9rcio externo, fim da economia planificada e in\u00edcio da progressiva participa\u00e7\u00e3o do capital privado em distintos ramos de produ\u00e7\u00e3o dos estados oper\u00e1rios europeus.<\/p>\n<p>Desta forma, quando organiza\u00e7\u00f5es como o PCP culpam a onda revolucion\u00e1ria do leste europeu pelo \u2018fim do socialismo\u201d, atuam como os que fazem a contra-propaganda do socialismo ao venderem a ideia de que os estados que restauraram o capitalismo ainda sob a tutela do estalinismo seriam ilhas de progresso socialistas. Infelizmente, antes do processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista avan\u00e7ar no Leste, os trabalhadores destas na\u00e7\u00f5es n\u00e3o haviam conseguido se organizar para fazer uma imprescind\u00edvel \u201crevolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d que tirasse a burocracia do poder e impedisse o restauracionismo naqueles pa\u00edses. Basta listar os fortes processos revolucion\u00e1rios na pr\u00f3pria Alemanha em 1953, na Hungria em 1956, a Primavera de Praga em 1968, e na Pol\u00f3nia, no in\u00edcio dos anos 80, todos derrotados na tarefa de fazer revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contra a burocracia estalinista.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias do que foram os estados oper\u00e1rios mostram que houve conquistas sociais important\u00edssimas para o povo a partir da revolu\u00e7\u00e3o e da expropria\u00e7\u00e3o da burguesia. Conquistas estas que foram sendo atacadas \u00e0 medida que a burocracia restaurava o capitalismo e tirava os oper\u00e1rios do centro do exerc\u00edcio do poder, com o esvaziamento dos conselhos que garantiam democracia, de facto, para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora pode e deve governar, com democracia oper\u00e1ria, a partir de conselhos populares (sovietes), onde os dirigentes possuam mandatos revog\u00e1veis e sem privil\u00e9gios. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel construir uma sociedade socialista onde os trabalhadores governem, sem patr\u00f5es, e sem ditaduras burocr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>A \u201csupremacia\u201d capitalista \u00e9 uma\u00a0fake news<\/strong><\/p>\n<p>Os que comemoram a queda do Muro de Berlim pelo que ele n\u00e3o representou \u2013 a suposta invencibilidade do sistema capitalista \u2013 n\u00e3o explicam at\u00e9 hoje por que o capitalismo n\u00e3o foi capaz de resolver nem mesmo os problemas sociais do povo alem\u00e3o, ainda dividido por um muro de desigualdades que estimula o renascimento neonazi e todo o tipo de opress\u00f5es contra imigrantes.<\/p>\n<p>Considerada uma das economias mais fortes e pr\u00f3speras do globo, a Alemanha n\u00e3o consegue esconder que \u201cmais de metade dos moradores do que antes foi a Alemanha Oriental se sentem cidad\u00e3os de segunda classe e que apenas 38% consideram a Reunifica\u00e7\u00e3o como um sucesso\u201d, de acordo com reportagem da DW (03\/10\/2019), ag\u00eancia de not\u00edcias alem\u00e3. N\u00e3o passava de\u00a0fake news\u00a0a promessa de \u201creunifica\u00e7\u00e3o\u201d alem\u00e3 com desenvolvimento social para todos. Isto nunca ser\u00e1 poss\u00edvel numa economia capitalista, voltada para o lucro e a riqueza de poucos.<\/p>\n<p><strong>A degrada\u00e7\u00e3o das conquistas dos estados oper\u00e1rios e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong><\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista nos chamados estados oper\u00e1rios degenerados (primeiramente com a China\/1979; posteriormente com Alemanha, URSS\u2026 e, posteriormente, Cuba) foi realizada a partir de uma pol\u00edtica deliberada dos agentes burocratas e tecnocratas que ali governaram (ou at\u00e9 hoje governam, como os casos chin\u00eas e cubano).<\/p>\n<p>O restauracionismo impulsionado por uma casta burocr\u00e1tica foi prevista, d\u00e9cadas antes, por uma corrente pol\u00edtica encabe\u00e7ada por Leon Trotsky. Trotsky e centenas de revolucion\u00e1rios que participaram ativamente da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 denunciavam a pol\u00edtica de \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d de Stalin, e a burocratiza\u00e7\u00e3o do estado sovi\u00e9tico a favor de uma minoria. Por isso, foram brutalmente perseguidos pela casta burocr\u00e1tica dirigente de vertente estalinista, que governou de forma similar, com muitos privil\u00e9gios materiais, nos diferentes estados oper\u00e1rios degenerados. Tais governantes atuavam como agentes da burguesia internacional e tiveram papel fundamental em restaurar o capitalismo nos anos 80, at\u00e9 que os processos revolucion\u00e1rios do leste europeu os expulsassem do poder.<\/p>\n<p>Previamente \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o capitalista, as dire\u00e7\u00f5es dos estados oper\u00e1rios impuseram perdas progressivas das conquistas que haviam resultado do modelo de planifica\u00e7\u00e3o da economia, como emprego pleno, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e moradia.\u00a0\u00a0Para que o curso da restaura\u00e7\u00e3o fosse poss\u00edvel, era necess\u00e1rio que a burocracia estalinista dos estados oper\u00e1rios suprimisse qualquer oposi\u00e7\u00e3o (muitos foram assassinados, inclusive Trotsky) e destru\u00edsse a democracia oper\u00e1ria que se havia fundado a partir dos conselhos (sovietes).<\/p>\n<p>Infelizmente, a previs\u00e3o de Trotsky cumpriu-se: se os trabalhadores n\u00e3o realizassem uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para expulsar a casta burocr\u00e1tica do poder, a revolu\u00e7\u00e3o socialista e as suas conquistas estariam mortalmente amea\u00e7adas pelo restauracionismo capitalista.<\/p>\n<p><strong>O muro estalinista no 25 de Abril<\/strong><\/p>\n<p>Em vez de impulsionar a revolu\u00e7\u00e3o socialista a n\u00edvel mundial, o estalinismo continuou, enquanto foi poss\u00edvel, a pol\u00edtica de \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d e \u201cconviv\u00eancia pac\u00edfica\u201d com o imperialismo, o que resultou em derrotas enormes do proletariado a n\u00edvel internacional, sobretudo ap\u00f3s a II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A ordem que vinha da URSS era de estimular a conforma\u00e7\u00e3o de \u201cfrentes populares\u201d, governos de concilia\u00e7\u00e3o de classes que sujeitaram os diversos PCs no mundo a serem base de apoio da burguesia, ao inv\u00e9s de estimular novas revolu\u00e7\u00f5es socialistas. \u00c9 neste contexto que devemos ler o papel da dire\u00e7\u00e3o do PCP na revolu\u00e7\u00e3o portuguesa de 25 de abril.<\/p>\n<p>Em vez de criar e fortalecer organismos de poder oper\u00e1rio para que os trabalhadores pudessem governar (como foi o caso das Comiss\u00f5es de Trabalhadores, por exemplo), o PCP \u2013 que tinha enorme influ\u00eancia nas organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias portuguesas \u2013 decidiu pelo caminho da concilia\u00e7\u00e3o de classes, permitindo que a burguesia reassumisse o controle pol\u00edtico do pa\u00eds no 25 de Novembro e o processo de \u201crea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, que se abriu a partir da\u00ed.<\/p>\n<p><strong>Um mundo verdadeiramente socialista \u00e9 urgente e necess\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois da queda dos regimes ditatoriais do leste europeu, n\u00e3o resta qualquer esperan\u00e7a de que o capitalismo ser\u00e1 capaz de resolver os problemas da humanidade. O presente e futuro est\u00e3o em constante risco, justamente num momento em que a ci\u00eancia e a tecnologia j\u00e1 permitiram a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, e o pleno emprego, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o racional de alimentos para todo o planeta e servi\u00e7os p\u00fablicos gratuitos e de boa qualidade para todos.<\/p>\n<p>Para evitar que o capitalismo nos leve \u00e0 barb\u00e1rie e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental, n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda a n\u00e3o ser destruir este sistema, que sobrevive da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o (machismo, lgbtfobia, racismo, xenofobia). \u00c9 ao servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o socialista, em Portugal e a n\u00edvel mundial, que existem organiza\u00e7\u00f5es como o\u00a0Em Luta\u00a0e a Liga Internacional dos Trabalhadores \u2013 LIT.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A derrubada do Muro de Berlim, realizada pelas massas alem\u00e3s em 9 de novembro de 1989, estimula at\u00e9 hoje debates acalorados entre ativistas de esquerda sobre o que este fato acabou por representar.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":30433,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[140,10],"tags":[1243,1949,897,7965,7950],"class_list":["post-30432","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-portugal","category-teoria","tag-daniel-gajoni","tag-em-luta-portugal","tag-partido-comunista-portugues","tag-queda-muro","tag-restauracao-do-capitalismo"],"fimg_url":false,"categories_names":["Portugal","TEORIA"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30432\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}