{"id":30393,"date":"2019-11-09T11:56:32","date_gmt":"2019-11-09T13:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30393"},"modified":"2019-11-09T11:56:32","modified_gmt":"2019-11-09T13:56:32","slug":"haiti-se-levanta-contra-moise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/11\/09\/haiti-se-levanta-contra-moise\/","title":{"rendered":"Haiti se levanta contra Mo\u00efse"},"content":{"rendered":"<p><em>O mundo est\u00e1 em ebuli\u00e7\u00e3o. Aos impressionantes processos de mobiliza\u00e7\u00e3o que atravessam Hong Kong, L\u00edbano, Iraque, Arg\u00e9lia, Catalunha e outras cidades, somou-se a Am\u00e9rica Latina: Porto Rico, Equador, Chile, Honduras, Bol\u00edvia.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Daniel Sugasti<\/p>\n<p>Ainda que com muito menos cobertura da m\u00eddia, a rebeli\u00e3o popular que sacode o Haiti h\u00e1 sete semanas merece toda nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O povo haitiano empreendeu um novo ciclo de lutas para derrubar o presidente Jovenel Mo\u00efse. Nesta ocasi\u00e3o, a gota d\u2019\u00e1gua foi um grotesco esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o. Mas o pano de fundo \u00e9 a crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e humanit\u00e1ria que flagela o pa\u00eds caribenho.<\/p>\n<p>Desde 15 de setembro as manifesta\u00e7\u00f5es acontecem quase que diariamente. Segundo a organiza\u00e7\u00e3o Batay Ouvriy\u00e9, o n\u00famero parcial de mortos \u00e9 de cerca de 250, com centenas de feridos e presos. Rodovias bloqueadas, barricadas nas ruas, enfrentamentos com a pol\u00edcia, paralisia do sistema educativo e do servi\u00e7o de coleta de lixo, etc., comp\u00f5em o panorama das principais cidades.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Haiti.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-30395 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Haiti.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"440\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os protestos foram crescendo em n\u00famero e radicalidade. Incorporam oper\u00e1rios do setor t\u00eaxtil, artistas, estudantes, professores, policiais, trabalhadores da sa\u00fade, e at\u00e9 setores patronais e das igrejas. Muitos destes sindicatos respondem ao chamado do Setor Democr\u00e1tico e Popular, uma mesa de coordena\u00e7\u00e3o das lutas. A vasta amplitude social e pol\u00edtica da mobiliza\u00e7\u00e3o denota o profundo cansa\u00e7o pelas d\u00e9cadas de saque por parte do imperialismo e de seus agentes locais. O espasmo social \u00e9 simplesmente um sintoma de um Estado falido e ultrajado de mil maneiras.<\/p>\n<p>Destacamos alguns elementos que pensamos contribuir para entender o contexto imediato deste processo. Alguns s\u00e3o conhecidos, mas n\u00e3o podem ser camuflados. Haiti \u00e9 o pa\u00eds mais pobre das Am\u00e9ricas. Quase 60% dos 11 milh\u00f5es de haitianos sobrevivem sob a linha da pobreza (estabelecida em 2,44 d\u00f3lares por dia) e 24% na extrema pobreza (1,24 d\u00f3lares por dia). O sal\u00e1rio m\u00e9dio \u00e9 de 60 d\u00f3lares por m\u00eas. A expectativa de vida ao nascer \u00e9 de 63 anos. 41% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 desempregada. A infla\u00e7\u00e3o atual \u00e9 de 18%, principalmente em alimentos e rem\u00e9dios. Al\u00e9m disso, existe uma crise cr\u00f4nica no fornecimento de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Em julho de 2018, Mo\u00efse eliminou os subs\u00eddios dos combust\u00edveis como parte de um pacote de medidas de ajuste acertadas com o FMI em troca de um cr\u00e9dito de 96 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Isto fez com que o pre\u00e7o da gasolina aumentasse 38%, do diesel 48% e do querosene 51%. Para se ter uma ideia do impacto deste tarifa\u00e7o nos bolsos do povo, basta saber que o querosene e o carv\u00e3o s\u00e3o os combust\u00edveis mais usados pela popula\u00e7\u00e3o para iluminar suas casas e cozinhar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Haiti-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30397 size-full alignleft\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Haiti-5.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"180\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em janeiro de 2019, o Tribunal Superior de Contas revelou um informe no qual acusou o presidente Mo\u00efse e outros altos funcion\u00e1rios de ter desviado n\u00e3o menos de 3.8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em empr\u00e9stimos do programa Petrocaribe da Venezuela, que prov\u00ea petr\u00f3leo e combust\u00edveis de maneira subsidiada. Uma auditoria revelou irregularidades entre 2008 e 2016 que envolvem 15 ex-ministros e outros tantos funcion\u00e1rios ativos. Tamb\u00e9m aponta a empresa Agitrans, de propriedade do pr\u00f3prio Mo\u00efse, de beneficiar-se com contratos p\u00fablicos para construir projetos bananeiros e rodovias que jamais se concretizaram.<\/p>\n<p>Ante estes esc\u00e2ndalos e uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica desesperadora, a raiva popular estourou de maneira espont\u00e2nea em 7 de fevereiro. Durante as primeiras jornadas, carros de luxo foram incendiados e centenas de pessoas atiraram pedras na casa do presidente.\u00a0 Em 12 de fevereiro, um setor de manifestantes incendiou um mercado popular, saqueou v\u00e1rias lojas e propiciou a fuga de v\u00e1rios prisioneiros de uma pris\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro Jean Henry Ceant foi destitu\u00eddo em mar\u00e7o e em seu lugar assumiu Jean-Michel Lapin. Assim, o Estado haitiano nomeou seu terceiro primeiro ministro em dois anos. Em junho se deram outras jornadas de protesto em Porto Pr\u00edncipe e outras cidades. Ao menos duas pessoas morreram.<\/p>\n<p><strong>Uma nova fase da rebeli\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>E assim chegou setembro, quando a rebeli\u00e3o adquiriu contornos definidos.<\/p>\n<p>A luta contra a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica reivindica\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores exigem, al\u00e9m da queda de Mo\u00efse, um aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Por exemplo, o SOTA-BO (Sindicato de ind\u00fastrias t\u00eaxteis e de vestimenta, segundo sua sigla em crioulo haitiano), ligado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o Batay Ouvriy\u00e9, junto com outras duas centrais sindicais do mesmo ramo, reivindicam ajuste de sal\u00e1rio, redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, al\u00e9m de transporte, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas. Isto \u00e9 muito importante, porque implica a irrup\u00e7\u00e3o de um setor da classe oper\u00e1ria em um processo amplo e com um matiz anticorrup\u00e7\u00e3o, com uma plataforma pr\u00f3pria e questionando de fato a domina\u00e7\u00e3o imperialista e seus s\u00f3cios haitianos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/litci.cuartainternacional\/videos\/2345452629026198\/?t=9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.facebook.com\/litci.cuartainternacional\/videos\/2345452629026198\/?t=9<\/a><\/p>\n<p>Por seu lado, Mo\u00efse disse que n\u00e3o est\u00e1 apegado ao poder e sim \u00e0s reformas (do FMI) que devem ser implementadas. Entretanto, nunca demonstrou inten\u00e7\u00e3o de renunciar. Repete que o pa\u00eds precisa de um governo de unidade nacional para restabelecer a paz e a estabilidade.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que este governo nasceu questionado pela gigantesca fraude eleitoral que possibilitou sua chegada ao poder. Desde 2017, existe um ascenso de massas que enfrenta suas principais medidas. Em 2018, um processo insurrecional, que incluiu uma fort\u00edssima greve geral, derrotou o aumento dos combust\u00edveis.<\/p>\n<p>O governo entreguista de Mo\u00efse e do regime semicolonial est\u00e3o em profunda crise na Ilha. As mobiliza\u00e7\u00f5es se chocam diretamente com a domina\u00e7\u00e3o imperialista e contra seus s\u00f3cios menores haitianos.<\/p>\n<p>O ascenso, quase ininterrupto desde a chegada de Mo\u00efse ao poder, tamb\u00e9m demonstra o fracasso da miss\u00e3o militar da ONU (Minustah). Nenhuma melhoria social ou humanit\u00e1ria foi realizada durante os mais de 13 anos de ocupa\u00e7\u00e3o militar estrangeira, liderada pelas tropas brasileiras. O \u00fanico legado da Minustah foi a repress\u00e3o, os estupros, os massacres nos bairros mais pobres, a cobertura da fraude que garantiu a subida de Mo\u00efse ao comando. Mas nem a Minustah nem sua sucessora, a Minusjusth e a reorganizada pol\u00edcia haitiana conseguiram esmagar a rebeli\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>Este processo de mobiliza\u00e7\u00f5es deve dar base a uma nova revolu\u00e7\u00e3o no Haiti, que ter\u00e1 uma dupla tarefa:<\/p>\n<p>1- A tarefa democr\u00e1tica da libera\u00e7\u00e3o nacional do jugo semicolonial do imperialismo, principalmente do estadunidense.<\/p>\n<p>2- Como parte desse mesmo processo de revolu\u00e7\u00e3o permanente, a transforma\u00e7\u00e3o do combate pela libera\u00e7\u00e3o nacional, a resolu\u00e7\u00e3o do problema da terra e outras tarefas democr\u00e1ticas pendentes, em uma din\u00e2mica de luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou morte encarar a tarefa de construir uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Estamos falando de um partido revolucion\u00e1rio, com peso no proletariado industrial, que possa dirigir o processo de mobiliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 alcan\u00e7ar a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o socialista no Haiti, a regi\u00e3o e o mundo.<\/p>\n<p>Um partido oper\u00e1rio que defenda uma sa\u00edda socialista para a crise cr\u00f4nica da Ilha: isto \u00e9, que parta da necessidade de derrubar o governo de Mo\u00efse; passe pela defesa das reivindica\u00e7\u00f5es mais sentidas das massas trabalhadoras, desde o sal\u00e1rio at\u00e9 o emprego; e chegue \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o das grandes empresas estrangeiras e nacionais; a ruptura completa com o imperialismo; e a forma\u00e7\u00e3o de um governo do proletariado e das massas populares. S\u00f3 um programa com este car\u00e1ter pode estar \u00e0 altura do hero\u00edsmo e da energia revolucion\u00e1ria desdobrada historicamente pelo povo haitiano.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo est\u00e1 em ebuli\u00e7\u00e3o. Aos impressionantes processos de mobiliza\u00e7\u00e3o que atravessam Hong Kong, L\u00edbano, Iraque, Arg\u00e9lia, Catalunha e outras cidades, somou-se a Am\u00e9rica Latina: Porto Rico, Equador, Chile, Honduras, Bol\u00edvia.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":30396,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[103],"tags":[114,2411,6217],"class_list":["post-30393","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-haiti","tag-daniel-sugasti","tag-jovenel-moise","tag-rebeliao-haiti"],"fimg_url":false,"categories_names":["Haiti"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30393"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30393\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}