{"id":30247,"date":"2019-10-28T20:15:02","date_gmt":"2019-10-28T22:15:02","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30247"},"modified":"2019-10-28T20:15:02","modified_gmt":"2019-10-28T22:15:02","slug":"os-desafios-da-revolucao-de-outubro-no-libano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/10\/28\/os-desafios-da-revolucao-de-outubro-no-libano\/","title":{"rendered":"Os desafios da revolu\u00e7\u00e3o de outubro no L\u00edbano"},"content":{"rendered":"<p><em>Desde dia 17 de outubro, um levante de massas sacode o L\u00edbano. Nesse dia o governo liban\u00eas anunciou a cobran\u00e7a de tarifas sobre liga\u00e7\u00f5es feitas por aplicativos como o Whatsapp no valor de USD 0,20 por dia. Foi o estopim para a maior mobiliza\u00e7\u00e3o de massas desde 2005, quando as tropas s\u00edrias tiveram que sair do pa\u00eds ap\u00f3s 29 anos de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Hassan Al-Barazili<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de outubro, como os libaneses a denominam, tem, at\u00e9 o momento, pelo menos tr\u00eas caracter\u00edsticas bem distintas com rela\u00e7\u00e3o a 2005. Naquele ano, os l\u00edderes dos partidos sect\u00e1rios conseguiram manter suas posi\u00e7\u00f5es, dividindo a popula\u00e7\u00e3o em dois campos pol\u00edticos burgueses:<\/p>\n<p>1) a coaliz\u00e3o 8 de mar\u00e7o, liderada pelos partidos a favor da perman\u00eancia das tropas s\u00edrias no pa\u00edso &#8211; Hezbollah, movimento Amal e PSNS.<\/p>\n<p>2) a coaliz\u00e3o 14 de mar\u00e7o, liderada pelo partido Futuro, as For\u00e7as Libanesas, o Partido Kataib e o Partido Social Progressista de Jumblat.<\/p>\n<p>Na revolu\u00e7\u00e3o de outubro, ao contr\u00e1rio, as massas se levantaram contra todos os l\u00edderes sect\u00e1rios, e cada comunidade religiosa contra os seus pr\u00f3prios l\u00edderes.<\/p>\n<p>Outra diferen\u00e7a importante \u00e9 o conte\u00fado abertamente de luta de classes, contra as elites privilegiadas, expresso na revolu\u00e7\u00e3o de outubro.<\/p>\n<p>Por fim, a revolu\u00e7\u00e3o de outubro ocorre ap\u00f3s as revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes de 2011.<\/p>\n<p>Muitas palavras de ordem fazem refer\u00eancia \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes: \u201cO povo quer o fim do regime\u201d, \u201cRevolu\u00e7\u00e3o, revolu\u00e7\u00e3o, revolu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201co povo liban\u00eas \u00e9 um s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es se estendem a todo o pa\u00eds, incluindo as bases eleitorais do partido Futuro, como \u00e9 o caso de Trablous (Tr\u00edpoli), e do Hezbollah, como Nabatiyeh e Sour (Tiro).<\/p>\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o central \u00e9 a ren\u00fancia de todo o gabinete e a convoca\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es livres sem a divis\u00e3o em distritos eleitorais nem a representa\u00e7\u00e3o por segmento religioso. Ou seja, nada menos que o fim do regime sect\u00e1rio inaugurado pelo mandato franc\u00eas em 1926, confirmado pelo Pacto Nacional e a constitui\u00e7\u00e3o de 1943 e mantido, com altera\u00e7\u00f5es, pelos acordos de Taif de 1990, ao final da guerra civil libanesa.<\/p>\n<p>O novo governo teria a responsabilidade de acabar com a corrup\u00e7\u00e3o, o desemprego e a austeridade, assistir aos pobres, baixar o pre\u00e7o do p\u00e3o e dos combust\u00edveis, garantir energia el\u00e9trica e \u00e1gua pot\u00e1vel 24h por dia, fazer a coleta de lixo, enfim, garantir uma vida digna a toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, os manifestantes desejam conquistar tudo isso atrav\u00e9s de uma participa\u00e7\u00e3o de massas pac\u00edfica, sem afrontar o ex\u00e9rcito ou os servi\u00e7os de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Primeiro desafio: garantir o direito de protestar<\/strong><\/p>\n<p>A for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o de massas garantiu at\u00e9 o momento o direito de protestar, apesar das escaramu\u00e7as com o Ex\u00e9rcito, que tem ordens de desbloquear as ruas e rodovias, e de alguns ataques realizados por mil\u00edcias ligadas a partidos sect\u00e1rios.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o interessam aos partidos sect\u00e1rios, pois se dirigem diretamente contra o seu poder constitu\u00eddo.<\/p>\n<p>Por isso, a qualquer momento, o regime e seus partidos podem desencadear uma onda de repress\u00e3o para p\u00f4r fim \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de outubro.\u00a0 Para tanto, podem utilizar tanto as for\u00e7as do Estado (Ex\u00e9rcito, pol\u00edcia e servi\u00e7os de seguran\u00e7a) como as mil\u00edcias ligadas aos partidos sect\u00e1rios. A experi\u00eancia hist\u00f3rica demonstra isso.<\/p>\n<p>A burguesia libanesa preferiu desencadear a guerra civil em 1975 a permitir que a classe trabalhadora e os movimentos progressistas derrubassem o regime sect\u00e1rio.<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu na vizinha S\u00edria. O regime s\u00edrio preferiu recorrer ao genoc\u00eddio do povo s\u00edrio e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de cidades inteiras a permitir qualquer mudan\u00e7a democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Fazer um movimento pac\u00edfico n\u00e3o \u00e9 nenhuma garantia de poder continuar nas ruas. Ao contr\u00e1rio. A \u00fanica forma de garantir o direito de protestar \u00e9 organizar a autodefesa, e trazer os soldados e os baixos oficiais para o lado da revolu\u00e7\u00e3o, rompendo com a c\u00fapula do Ex\u00e9rcito, que est\u00e1 ligada ao regime sect\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para organizar a autodefesa e defender a revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1ria a forma\u00e7\u00e3o de coordena\u00e7\u00f5es locais e nacional apontando para um poder alternativo dos trabalhadores e do povo pobre.<\/p>\n<p><strong>Segundo desafio: a derrubada do regime sect\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Criado pelo colonialismo franc\u00eas, o regime sect\u00e1rio se mostrou muito eficaz em manter dividida a classe trabalhadora, os camponeses e os pobres.<\/p>\n<p>Dividida, a classe trabalhadora acabou por manter sua lealdade \u00e0s velhas fam\u00edlias burguesas que disputam o poder pol\u00edtico no pa\u00eds desde a independ\u00eancia.<\/p>\n<p>O fim do regime sect\u00e1rio \u00e9 muito perigoso para a burguesia libanesa. Ainda mais se for conquistado pela a\u00e7\u00e3o das massas.<\/p>\n<p>Seu fim colocar\u00e1 em movimento reivindica\u00e7\u00f5es sociais, dos trabalhadores e da popula\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o represadas h\u00e1 d\u00e9cadas e que invariavelmente se voltar\u00e3o contra a burguesia e os interesses imperialistas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O \u00fanico meio para derrubar o regime sect\u00e1rio \u00e9 aprofundar a revolu\u00e7\u00e3o social que est\u00e1 em curso. Em meio a esse processo, \u00e9 necess\u00e1rio uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria consequente com essa tarefa.<\/p>\n<p><strong>Terceiro desafio: o fim das pol\u00edticas de austeridade econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>A economia libanesa est\u00e1 em crise pelo menos desde os anos 1960, quando a crise do banco Intra exp\u00f4s uma nova situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na divis\u00e3o internacional do trabalho: de entreposto de petrod\u00f3lares entre os pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo e o imperialismo americano e europeu (a chamada \u201cSu\u00ed\u00e7a\u201d do Oriente), o L\u00edbano se transformou em um exportador de m\u00e3o de obra e um importador de produtos agr\u00edcolas e industriais que fazem a riqueza da burguesia nacional.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o de economia subordinada na ordem econ\u00f4mica internacional se torna mais dram\u00e1tica se lembrarmos que o mundo caminha para uma recess\u00e3o internacional, o que torna distante qualquer possibilidade de \u201cajuda\u201d internacional substancial.<\/p>\n<p>A \u00fanica possiblidade de superar as pol\u00edticas de austeridade \u00e9 adotando pol\u00edticas socialistas: a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos e dos grandes neg\u00f3cios \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial para reunir os recursos para p\u00f4r fim ao desemprego e \u00e0 pobreza, para garantir alimentos e combust\u00edveis baratos e para desenvolver a infraestrutura necess\u00e1ria de energia el\u00e9trica, \u00e1gua pot\u00e1vel, coleta de lixo, al\u00e9m dos investimentos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Fora do poder, tudo \u00e9 ilus\u00e3o!<\/strong><\/p>\n<p>Vladimir L\u00eanin, l\u00edder de outra revolu\u00e7\u00e3o de outubro, a russa de 1917, escreveu que fora do poder tudo \u00e9 ilus\u00e3o. Ele quis dizer que qualquer conquista arrancada da burguesia est\u00e1 em risco enquanto a burguesia estiver no poder.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio tirar a burguesia. \u00c9 necess\u00e1rio colocar os trabalhadores e o povo pobre no poder. Isso \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Na luta pelo poder, \u00e9 importante ter consci\u00eancia de quem s\u00e3o os aliados e quem s\u00e3o os inimigos.<\/p>\n<p>Uma das institui\u00e7\u00f5es chave \u00e9 o Ex\u00e9rcito nacional. A c\u00fapula do Ex\u00e9rcito procura se apresentar como se estivesse acima do regime sect\u00e1rio, e n\u00e3o se pode ter nenhuma ilus\u00e3o. Na verdade ela \u00e9 garantidora n\u00e3o apenas do regime sect\u00e1rio e sua Constitui\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m do poder da burguesia libanesa e do imperialismo.<\/p>\n<p>Dentro do Ex\u00e9rcito, os aliados em potencial da revolu\u00e7\u00e3o de outubro s\u00e3o os soldados e os baixos oficiais. Mas \u00e9 necess\u00e1rio que estes rompam com a hierarquia do Ex\u00e9rcito e passem para o lado da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro aliado em potencial s\u00e3o os refugiados palestinos e s\u00edrios. Eles torcem pela vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o de outubro, que precisa trazer suas demandas e levantar a bandeira contra a xenofobia e o racismo, de modo a integr\u00e1-los de fato. Um risco que precisa ser superado nessa dire\u00e7\u00e3o \u00e9 o desvio nacionalista.<\/p>\n<p>H\u00e1 lutas e revolu\u00e7\u00f5es em curso no mundo \u00e1rabe e em todo o mundo. As mobiliza\u00e7\u00f5es no Iraque e na Catalunha, as revolu\u00e7\u00f5es na Arg\u00e9lia e no Sud\u00e3o e, mais recentemente, em Hong Kong, no Chile, na Cashemira e no Haiti colocam na ordem do dia a constru\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es entre as lutas e revolu\u00e7\u00f5es em todo o mundo. Afinal, todas t\u00eam o mesmo inimigo estrat\u00e9gico: o imperialismo e as burguesias nacionais que est\u00e3o a ele subordinadas.<\/p>\n<p>Uma nova onda de revolu\u00e7\u00f5es no mundo \u00e1rabe, como a primeira onda de 2011, \u00e9 um fator decisivo para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o no L\u00edbano, juntamente com a solidariedade internacional que est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde dia 17 de outubro, um levante de massas sacode o L\u00edbano. Nesse dia o governo liban\u00eas anunciou a cobran\u00e7a de tarifas sobre liga\u00e7\u00f5es feitas por aplicativos como o Whatsapp no valor de USD 0,20 por dia. Foi o estopim para a maior mobiliza\u00e7\u00e3o de massas desde 2005, quando as tropas s\u00edrias tiveram que sair [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":30248,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[154],"tags":[227,7931],"class_list":["post-30247","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-libano","tag-hassan-al-barazili","tag-revolucao-libano"],"fimg_url":false,"categories_names":["L\u00edbano"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30247"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30247\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}