{"id":30239,"date":"2019-10-28T12:50:08","date_gmt":"2019-10-28T14:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30239"},"modified":"2019-10-28T12:50:08","modified_gmt":"2019-10-28T14:50:08","slug":"estamos-com-o-povo-curdo-contra-a-agressao-da-turquia-apoiada-por-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/10\/28\/estamos-com-o-povo-curdo-contra-a-agressao-da-turquia-apoiada-por-trump\/","title":{"rendered":"Estamos com o povo curdo contra a agress\u00e3o da Turquia apoiada por Trump"},"content":{"rendered":"<p><em>Declara\u00e7\u00e3o sobre o ataque do ex\u00e9rcito turco a Rojava (Curdist\u00e3o s\u00edrio).<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Por: Liga Internacional dos Trabalhadores &#8211; LIT (QI)<\/em><\/p>\n<p><em>Este m\u00eas, por ordem do presidente Recep Tayyip Erdo\u011fan, o ex\u00e9rcito turco iniciou um ataque e uma invas\u00e3o sobre os cant\u00f5es curdos localizados no nordeste do territ\u00f3rio s\u00edrio (Rojava). A a\u00e7\u00e3o foi apoiada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, quem previamente tinha determinado a retirada de 2.000 soldados estadunidenses dessa regi\u00e3o e, com isso, a ruptura da alian\u00e7a que seu pa\u00eds mantinha com os curdos.<\/em><\/p>\n<p>Isto marca uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica do imperialismo ianque na S\u00edria: depois de ter se aproveitado do generoso esfor\u00e7o dos curdos na luta contra o ISIS \u2013 Estado Isl\u00e2mico (simbolizada na heroica defesa da cidade de Kobane), agora os abandona para recuperar as boas rela\u00e7\u00f5es com um aliado hist\u00f3rico (Turquia, e Erdo\u011fan). Este giro estava sendo preparado h\u00e1 v\u00e1rios meses.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o primeiro ataque que Erdo<em>\u011f<\/em>an realiza contra os curdos de Rojava. No final de 2016, realizou a opera\u00e7\u00e3o \u201cEscudo do Eufrates\u201d para \u201ccortar\u201d o corredor que os curdos tentavam formar entre os cant\u00f5es de Afrin e Jazira. O objetivo foi alcan\u00e7ado e as for\u00e7as turcas ficaram com o dom\u00ednio da cidade s\u00edria de Yarabulus e outros povoados menores. No in\u00edcio de 2018, lan\u00e7ou a \u201cCampanha Ramo de Oliveira\u201d que consolidou sua presen\u00e7a militar na regi\u00e3o de Afrin.<\/p>\n<p>Assim como nos casos anteriores, nossa posi\u00e7\u00e3o ante esta nova agress\u00e3o \u00e9 absolutamente n\u00edtida: <strong>apoiamos e defendemos o campo militar dos curdos contra o ataque turco apoiado por Trump.<\/strong> Repudiamos o ataque de Erdo<em>\u011f<\/em>an contra o povo curdo e chamamos a manifestar a solidariedade militante com a popula\u00e7\u00e3o de Rojava. Lutamos e continuaremos lutando pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do povo curdo em seu conjunto, pela constru\u00e7\u00e3o de um Estado confederado unificado do povo curdo, atualmente disperso entre a S\u00edria, a Turquia, o Ir\u00e3 e o Iraque.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta defini\u00e7\u00e3o, acreditamos que \u00e9 necess\u00e1rio retomar e aprofundar a an\u00e1lise e considera\u00e7\u00f5es que temos feito em diversos artigos nos \u00faltimos anos, pelos complexos fatores internacionais e regionais que se combinam (e as mudan\u00e7as dentro deles).<\/p>\n<p><strong>Os curdos<\/strong><\/p>\n<p>O povo curdo \u00e9 a maior nacionalidade do Oriente M\u00e9dio sem Estado pr\u00f3prio, j\u00e1 que o Tratado de Lausanne (assinado em 1923 para repartir os dom\u00ednios do imp\u00e9rio turco-otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial) lhes negou esse direito. Os curdos ficaram divididos entre quatro pa\u00edses (Turquia, Ir\u00e3, Iraque e S\u00edria), nos quais s\u00e3o uma nacionalidade oprimida, duramente reprimida quando lutam para tentar reverter esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em territ\u00f3rio s\u00edrio, s\u00e3o amplamente majorit\u00e1rios nos cant\u00f5es de Afrin, Jazira e Kobane, na faixa nordeste do pa\u00eds (fronteiri\u00e7a com Turquia ao norte, e Iraque a leste). Estes cant\u00f5es abarcam cerca de 15.000 km<sup>2\u00a0 <\/sup>onde vivem um pouco mais de 2.000.000 de curdos (e popula\u00e7\u00f5es de outras origens). Os curdos, em sua maioria, prov\u00eam de migra\u00e7\u00f5es a partir da Turquia. Como um exemplo da opress\u00e3o que sofriam neste pa\u00eds, digamos que at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, n\u00e3o tinham direito de serem cidad\u00e3os deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como marxistas revolucion\u00e1rios, se uma nacionalidade oprimida define que quer sua independ\u00eancia, passamos a apoiar e defender incondicionalmente esta decis\u00e3o. O caso curdo \u00e9 especial: \u00e9 evidente que se trata de uma na\u00e7\u00e3o oprimida, por\u00e9m n\u00e3o em um s\u00f3 pa\u00eds, mas est\u00e1 dividida e oprimida em quatro pa\u00edses. Por isso, a \u00fanica forma de exercer sua autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e9 romper essa divis\u00e3o e reunificar-se. Assim, como ponto de partida, reconhecemos e defendemos seu direito de separar seus territ\u00f3rios hist\u00f3ricos dos Estados que hoje integram e constituir o seu pr\u00f3prio Estado independente (e apoiamos plenamente sua luta neste sentido). Acreditamos que, neste caso n\u00e3o significaria uma atomiza\u00e7\u00e3o e sim uma reunifica\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter progressivo.<\/p>\n<p><strong>As autonomias curdas<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o povo curdo conseguiu o controle de duas regi\u00f5es aut\u00f4nomas: uma no Iraque (Basur) e outra na S\u00edria (Rojava). Em termos pr\u00e1ticos, trata-se de dois Estados ou embri\u00f5es de Estados pr\u00f3prios. Os processos que levaram a conquistar estas autonomias, dirigidos por Massoud Barzani e o PDK (Partido Democr\u00e1tico do Curdist\u00e3o) em Basur, e pelo PYD (Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica) em Rojava s\u00e3o muito diferentes. Ambos os partidos (PDK e PKK) disputam fortemente entre eles a dire\u00e7\u00e3o do povo curdo em seus territ\u00f3rios e pa\u00edses que habitam. O PYD \u00e9 a express\u00e3o do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o, fundado na Turquia) em Rojava.<\/p>\n<p>Basur n\u00e3o representou, at\u00e9 agora, nenhum problema para o imperialismo e para a Turquia. O governo de Barzani e o PDK se apoiam em uma grande riqueza agr\u00e1ria, e um desenvolvimento capitalista importante. Desde o ataque imperialista ao regime de Saddam Hussein, nasceu e est\u00e1 muito ligado ao imperialismo, e se transformou em s\u00f3cio econ\u00f4mico e pol\u00edtico de Erdo\u011fan, j\u00e1 que ele supre quase todo o petr\u00f3leo que a Turquia necessita, enquanto a burguesia turca investe em Basur. Como reflexo disso, Erdo\u011fan recebeu Barzani em Ankara com honras de chefe de Estado. Adicionalmente, a influ\u00eancia de Barzani desempenha um papel \u201cpacificador\u201d na burguesia e nos setores m\u00e9dios curdos da Turquia, aos quais encoraja a integrarem-se \u00e0s \u201cinstitui\u00e7\u00f5es\u201d atrav\u00e9s do partido HDP [4].<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, a autonomia de Rojava foi sim um fator profundamente desestabilizador para a Turquia, porque objetivamente sua exist\u00eancia \u00e9 um fator que encoraja a luta dos curdos na Turquia. Para a burguesia turca, al\u00e9m disso, \u00e9 especialmente preocupante o papel de dire\u00e7\u00e3o e a influ\u00eancia do PKK em ambos os lados da fronteira (uma perigos\u00edssima \u201cfronteira curda armada\u201d). Por isso, a pol\u00edtica de Erdo\u011fan foi, inicialmente, encorajar e apoiar o ISIS em seus ataques contra os curdos. Mas a pol\u00edtica dos EUA (que depois analisaremos mais profundamente) foi enfrentar o ISIS e armar os curdos de Rojava como sua principal for\u00e7a de apoio nessa tarefa.<\/p>\n<p>A base econ\u00f4mica de Rojava era muito diferente da de Basur: praticamente n\u00e3o existia uma burguesia curda na regi\u00e3o porque quase tudo era propriedade do Estado s\u00edrio. No contexto da revolu\u00e7\u00e3o iniciada em 2011 contra o regime de Al Assad (e a guerra civil posterior), os curdos de Rojava declaram sua autonomia e fazem um acordo de \u201cn\u00e3o agress\u00e3o\u201d com o regime s\u00edrio. Ao assumir uma regi\u00e3o de escasso desenvolvimento econ\u00f4mico capitalista e com seus pilares centrais em m\u00e3os do Estado, o PYD teve que adotar formas institucionais especiais e um funcionamento econ\u00f4mico centralizado. Isto levou diversos setores de esquerda a considerar que em Rojava havia nascido um novo Estado socialista (ou em transi\u00e7\u00e3o ao socialismo). Consideramos que esta \u00e9 uma opini\u00e3o apressada e subjetiva, dada a extrema debilidade econ\u00f4mica do territ\u00f3rio, a inexist\u00eancia de classe oper\u00e1ria e sua desvincula\u00e7\u00e3o de qualquer projeto socialista para um Curdist\u00e3o unido e para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m destas an\u00e1lises, consideramos que as autonomias conquistadas em Basur e em Rojava s\u00e3o um avan\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o de um Estado curdo unificado e, por isso, devem ser defendidas. Mas n\u00e3o t\u00eam que ser consideradas como o \u201cobjetivo final\u201d e sim devem ser colocadas a servi\u00e7o da luta por conseguir esse Estado unificado e uma confedera\u00e7\u00e3o socialista na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos nenhuma confian\u00e7a nas atuais dire\u00e7\u00f5es curdas, tanto pelo seu car\u00e1ter de classe (burgu\u00eas ou pequeno burgu\u00eas) como pela sua pol\u00edtica de abandono da luta pelo Estado curdo unificado. Estamos em seu campo militar, mas combatemos suas pol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao imperialismo norte-americano, com Assad ou com Erdo\u011fan.<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a de rumo de Trump<\/strong><\/p>\n<p>O governo de Trump completa uma mudan\u00e7a de rumo que j\u00e1 tinha come\u00e7ado a dar em 2018, apoiando a Turquia e Erdo\u011fan, e deixando os curdos de Rojava entregues \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte. Inclusive, segundo a pr\u00f3pria Casa Branca, os curdos se veriam obrigados a entregar os prisioneiros do ISIS \u00e0s for\u00e7as turcas. Entretanto, centenas de prisioneiros do ISIS aproveitaram o ataque para fugir.<\/p>\n<p>A principal raz\u00e3o desta mudan\u00e7a \u00e9, evidentemente, recuperar as boas rela\u00e7\u00f5es com um aliado hist\u00f3rico (Turquia) que, por diversas raz\u00f5es (entre elas, o apoio aos curdos) estavam deterioradas. Mas tamb\u00e9m implica que seu governo desconsidera o conflito s\u00edrio e deixa que sejam outros pa\u00edses, em particular a R\u00fassia, sejam o que acabem por defini-lo.<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a provocou um intenso debate dentro da burguesia imperialista. Nos EUA, n\u00e3o somente tem sido criticada pelos democratas, como tamb\u00e9m provocou uma crise dentro do pr\u00f3prio Partido Republicano.<\/p>\n<p>Outros pa\u00edses imperialistas tamb\u00e9m o criticam.\u00a0<em> Jonathan Marcus,\u00a0correspondente de Seguran\u00e7a e Defesa da BBC, analisa que: \u201cO caos potencial poderia facilitar um ressurgimento do Estado Isl\u00e2mico. Esta decis\u00e3o marca uma trai\u00e7\u00e3o de Washington para com seus aliados curdos, uma trai\u00e7\u00e3o que muitos outros pa\u00edses da regi\u00e3o receber\u00e3o com alarme. Tanto os sauditas como os israelenses est\u00e3o se dando conta de que a ret\u00f3rica de Trump quase nunca coincide com suas a\u00e7\u00f5es\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O debate que esta decis\u00e3o de Trump provocou dentro do imperialismo foi t\u00e3o grande que o presidente estadunidense se viu obrigado a anunciar san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas \u00e0 Turquia e tuitar amea\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Al Assad \u00e9 beneficiado<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos pr\u00f3ximos a 2011, Assad ficou encurralado, perdeu o controle de parte importante do territ\u00f3rio s\u00edrio, e esteve a ponto de cair ante a ofensiva militar dos rebeldes. Sobreviveu gra\u00e7as \u00e0 \u201cajuda estrangeira\u201d: as mil\u00edcias libanesas do Hezbollah e o apoio de armas do Ir\u00e3 e, principalmente, da R\u00fassia. Em 2015, as for\u00e7as militares russas entraram diretamente na guerra e permitiram uma forte ofensiva em dire\u00e7\u00e3o ao Leste, que desalojou as for\u00e7as rebeldes de muitos dos territ\u00f3rios e as atomizou.<\/p>\n<p>Os ataques turcos s\u00e3o uma viola\u00e7\u00e3o \u00e0 soberania da S\u00edria. Mas, em 2018, o regime s\u00edrio n\u00e3o fez nada e sequer pediram a Putin que o impedisse. Ainda que pare\u00e7a contradit\u00f3rio, Bashar al Assad sai beneficiado deste ataque turco. A tr\u00e9gua que tinha estabelecido serviu para concentrar-se no combate contra as for\u00e7as rebeldes, ao mesmo tempo em que os curdos freavam o avan\u00e7o do ISIS na S\u00edria.<\/p>\n<p>Mas, apoiadas pelos EUA, as YPG\/FDS tinham se fortalecido muito militar e territorialmente, ampliando seu controle para zonas n\u00e3o curdas. Isso \u00e9 uma amea\u00e7a estrat\u00e9gica para seu regime e para suas aspira\u00e7\u00f5es de recuperar o controle de todo o territ\u00f3rio s\u00edrio. O ataque turco debilita as for\u00e7as curdas, obriga as mesmas a retroceder e quebra a alian\u00e7a entre EUA e as YPG\/FDS.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas vantagens para Assad e o regime s\u00edrio, ainda permitiu retomar um acordo com a dire\u00e7\u00e3o curda de Rojava para defender a fronteira e limitar o avan\u00e7o turco, pactuando a entrada de tropas governamentais. Fala-se inclusive de que as YPG\/FDS se integrem ao ex\u00e9rcito s\u00edrio. J\u00e1 h\u00e1 cidades, como Hasaka ou Qamishli, na rota das refinarias de petr\u00f3leo do pa\u00eds, onde atuam em conjunto. As for\u00e7as russas presentes no pa\u00eds acompanham este movimento, se instalaram nas bases americanas abandonadas e atuam como uma esp\u00e9cie de linha divis\u00f3ria defensiva entre as for\u00e7as de Ankara e as de Bagd\u00e1.<\/p>\n<p><strong>O papel de Putin<\/strong><\/p>\n<p>A partir da subida de Trump \u00e0 presid\u00eancia dos EUA, foi estabelecido um consenso de fato com o governo de Putin, que determinava \u201c\u00e1reas de responsabilidade\u201d na S\u00edria: a oeste do rio Eufrates (R\u00fassia) e a leste (EUA), para evitar choques diretos entre suas for\u00e7as ou entre seus aliados. Isso j\u00e1 se expressava no ataque contra Afrin em 2018, quando as for\u00e7as russas n\u00e3o fizeram nada para impedir e liberaram o espa\u00e7o a\u00e9reo para a a\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito turco.<\/p>\n<p>O objetivo de Putin na S\u00edria \u00e9 a defesa do regime ditatorial de al Assad e sua estrat\u00e9gia de recuperar o controle de todo o territ\u00f3rio s\u00edrio, para assim beneficiar os oligarcas russos no neg\u00f3cio da reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e, antes de tudo, consolidar-se como pot\u00eancia regional. A retirada norte-americana s\u00f3 pode favorecer seus planos.<\/p>\n<p><strong>O alt\u00edssimo pre\u00e7o de uma pol\u00edtica de alian\u00e7as equivocada do PYD<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da S\u00edria \u00e9 um complexo e mut\u00e1vel \u201cpol\u00edgono de for\u00e7as\u201d. Essas for\u00e7as interv\u00eam e definem sua pol\u00edtica em uma combina\u00e7\u00e3o de interesses estrat\u00e9gicos e necessidades conjunturais e concretas. O \u201ctabuleiro s\u00edrio\u201d n\u00e3o s\u00f3 muda de modo constante nos dom\u00ednios territoriais que cada setor tem como tamb\u00e9m nas alian\u00e7as e acordos que v\u00e3o se configurando. Nesse jogo, nunca devemos esquecer que, como no xadrez, existem reis, bispos e pe\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, no marco de sua complexidade, se olharmos objetivamente, uma coisa se v\u00ea com clareza: detr\u00e1s do ataque turco se estabeleceu um acordo contrarrevolucion\u00e1rio contra os curdos, entre Erdo\u011fan, Putin, Trump, Assad, e os aiatol\u00e1s iranianos. \u00c9 o mesmo acordo que ajudou a infligir fortes derrotas \u00e0 parte importante dos rebeldes s\u00edrios e a fortalecer Assad.<\/p>\n<p>\u00c9 uma conclus\u00e3o que os curdos devem tirar com clareza: as \u201cpe\u00e7as grandes\u201d (EEUU e R\u00fassia) fazem seu pr\u00f3prio jogo em defesa de seus interesses, e os \u201cpe\u00f5es\u201d sempre podem ser sacrificados. A cegueira estrat\u00e9gica sobre a pol\u00edtica e as alian\u00e7as da dire\u00e7\u00e3o do PYP\/PKK (tr\u00e9gua com o regime de al Assad, recha\u00e7o a uma alian\u00e7a com os rebeldes s\u00edrios, aposta central ao apoio do imperialismo estadunidense) est\u00e1 cobrando agora um alt\u00edssimo pre\u00e7o.<\/p>\n<p>De nada servem os lamentos de que Trump os<em> \u201capunhalou pelas costas\u201d.<\/em> Era algo que podia ser antecipado h\u00e1 muitos anos. Manuel Martorell, autor do livro\u00a0<em>Curdos, <\/em>publicado em 2016, havia antecipado, ante o ataque turco do ano passado: <em>\u201cO que aconteceu em Afrin vai se repetir no norte da S\u00edria\u2026isto provocar\u00e1 um terr\u00edvel desastre humanit\u00e1rio. Talvez milh\u00f5es de pessoas tenham que fugir pela fronteira com Iraque\u2026Estados Unidos fez como sempre, respondeu aos seus interesses estrat\u00e9gicos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Com certeza, o povo e as mil\u00edcias curdas de Rojava lutar\u00e3o com o mesmo hero\u00edsmo de anos anteriores contra o ISIS. Mas sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dific\u00edlima: atacados pelo ex\u00e9rcito turco, muito superior em tropas e armas, debilitados em seus suprimentos, e tendo que fazer um acordo com o regime de Assad e as for\u00e7as russas.<\/p>\n<p>O fim da opress\u00e3o que os curdos sofrem e a conquista de seu pr\u00f3prio Estado nunca ser\u00e1 alcan\u00e7ado pela m\u00e3o de Trump e de Putin. Ainda que possam aproveitar suas contradi\u00e7\u00f5es, eles ser\u00e3o sempre estrategicamente seus inimigos, e sempre v\u00e3o preferir manter no jogo seus \u201cbispos\u201d (como Assad, Erdo\u011fan ou os aiatol\u00e1s iranianos) do que os pe\u00f5es. Foi a pol\u00edtica de alian\u00e7as seguida pelo PYD\/PKK que levou a esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A luta dos curdos s\u00f3 poder\u00e1 ser vitoriosa, em primeiro lugar, com a unidade do pr\u00f3prio povo curdo, independentemente do pa\u00eds em que s\u00e3o oprimidos. \u00c9 necess\u00e1rio exigir aos <em>peshmergas<\/em>\u00a0de Basur que defendam seus irm\u00e3os em Rojava. \u00c9 necess\u00e1rio exigir das mil\u00edcias do PKK na Turquia que (na medida de suas possibilidades) passem das meras declara\u00e7\u00f5es e os apoiem a partir do outro lado da fronteira.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica seguida pelo PYD-YPG-FDS (fazer uma tr\u00e9gua com Assad e atacar batalh\u00f5es dos rebeldes s\u00edrios e popula\u00e7\u00f5es controladas por eles) foi um erro e um crime pol\u00edtico. \u00c9 necess\u00e1rio um giro de 180\u00ba nessa pol\u00edtica e buscar imprescindivelmente uma alian\u00e7a com os setores mais progressivos das for\u00e7as opositoras a Assad que ainda combatem. Finalmente, fazer um chamado \u00e0 solidariedade internacional dos trabalhadores e \u00e0s massas do mundo.<\/p>\n<p><strong>Apoio incondicional \u00e0 luta dos curdos frente \u00e0 invas\u00e3o turca<\/strong><\/p>\n<p>Reafirmamos nossa posi\u00e7\u00e3o de apoio e defesa do campo militar dos curdos contra o ataque turco apoiado por Trump e nos somamos \u00e0 campanha internacional unit\u00e1ria para isso.<\/p>\n<p>Lutamos pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do povo curdo e pela constru\u00e7\u00e3o de um Estado federal unificado desse povo, atualmente disperso entre a S\u00edria, a Turquia, o Ir\u00e3 e o Iraque.<\/p>\n<p>Consideramos que a tarefa de construir um Estado curdo unificado s\u00f3 poder\u00e1 ser conquistada numa luta com o conjunto dos trabalhadores e dos povos do Oriente M\u00e9dio, na perspectiva da conforma\u00e7\u00e3o de uma grande federa\u00e7\u00e3o de rep\u00fablicas socialistas das na\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanas.<\/p>\n<p>Finalmente, ante as dire\u00e7\u00f5es curdas (tanto o PKK\/PYD como o PDK) \u00e9 mais necess\u00e1rio do que nunca a constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria curda que esteja disposta a levar essa luta at\u00e9 a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Declara\u00e7\u00e3o sobre o ataque do ex\u00e9rcito turco a Rojava (Curdist\u00e3o s\u00edrio).<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":30240,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[5224,3610,3677,6325,569,417],"tags":[6878,7928,7929,694,3611,278,6881,20],"class_list":["post-30239","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-curdistao","category-declaracao-lit-qi","category-europa-mundo","category-oriente-medio-mundo","category-siria","category-turquia","tag-assad","tag-autodeterminacao-curda","tag-declaracao-sobre-curdos","tag-erdogan","tag-lit-qi","tag-putin","tag-rojava","tag-trump"],"fimg_url":false,"categories_names":["Curdist\u00e3o","Declara\u00e7\u00f5es","Europa","Oriente M\u00e9dio","S\u00edria","Turquia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30239"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30239\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}