{"id":30126,"date":"2019-10-15T19:32:03","date_gmt":"2019-10-15T21:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=30126"},"modified":"2019-10-15T19:32:03","modified_gmt":"2019-10-15T21:32:03","slug":"a-china-e-uma-ditadura-capitalista-disfarcada-de-vermelha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/10\/15\/a-china-e-uma-ditadura-capitalista-disfarcada-de-vermelha\/","title":{"rendered":"A China \u00e9 uma ditadura capitalista disfar\u00e7ada de \u201cvermelha\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Completaram os 70 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa. O regime de Beijing festejou com um impressionante desfile militar, exibindo modernos armamentos, rodeados de s\u00edmbolos comunistas e bandeiras vermelhas. A China \u00e9 um pa\u00eds comunista como afirmam muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais e diversas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda?<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por: Alejandro Iturbe<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 1\u00b0 de outubro completaram 70 anos do momento em que as for\u00e7as comunistas de base camponesa, encabe\u00e7adas por Mao Ts\u00e9-Tung, derrotaram o ex\u00e9rcito burgu\u00eas do general Chiang Kaishek e tomaram o poder. Foi uma grande revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa que logo daria origem a um novo Estado oper\u00e1rio e a uma economia de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, no pa\u00eds mais povoado da terra. Por isso, consideramos um dos processos da luta de classes mais importantes do s\u00e9culo XX [1]<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio foi um estado oper\u00e1rio burocratizado, dominado pelo regime ditatorial do Partido Comunista estalinista e sua c\u00fapula. Dentro dele, Mao tinha o papel de \u201c\u00e1rbitro supremo\u201d entre as distintas fra\u00e7\u00f5es do partido. Era um regime pol\u00edtico sem nenhuma liberdade democr\u00e1tica real para os trabalhadores. Durante quinze anos, o mao\u00edsmo foi parte do aparato estalinista mundial, hegemonizado pela burocracia da URSS. Mas, na d\u00e9cada de 1960, se produziu uma ruptura entre ambos os setores e o mao\u00edsmo (mantendo sua matriz estalinista) passou a construir seu pr\u00f3prio aparato pol\u00edtico mundial [2].<\/p>\n<p>A pesar do car\u00e1ter burocr\u00e1tico e ditatorial do Estado oper\u00e1rio, a economia planificada centralmente deu frutos muito importantes. Entre os mais destacados est\u00e3o, sem d\u00favidas, acabar com a fome e, tamb\u00e9m, com as doen\u00e7as fruto da pobreza cr\u00f4nica. Houve tamb\u00e9m avan\u00e7os muito grandes na educa\u00e7\u00e3o e na elimina\u00e7\u00e3o dos tra\u00e7os mais retr\u00f3grados da opress\u00e3o feminina (como o costume de obrigar a meninas a amarrar seus p\u00e9s para evitar que crescessem \u2013 p\u00e9s de l\u00f3tus). Ao mesmo tempo, a infraestrutura de servi\u00e7os e comunica\u00e7\u00f5es melhorou notavelmente e tamb\u00e9m se iniciou um processo incipiente de industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas estes avan\u00e7os partiam de uma base atrasad\u00edssima (que continuava sendo essencialmente agr\u00e1ria) e, ao mesmo tempo, chocavam com dois obst\u00e1culos que colocavam limites intransit\u00e1veis. Em primeiro lugar, a concep\u00e7\u00e3o estalinista (adotada pelo mao\u00edsmo) de que era poss\u00edvel construir o \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Uma ideia que Marx (no s\u00e9culo XIX) havia combatido e que, em um pa\u00eds t\u00e3o atrasado como a China, seria ainda mais imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O segundo obst\u00e1culo era que a economia era centralizadamente planificada, mas de modo totalmente burocr\u00e1tico e arbitr\u00e1rio pela c\u00fapula do PC que, em muitas ocasi\u00f5es, colocava objetivos delirantes. Assim ocorreu durante o chamado Grande Salto Adiante (1958-1961) onde se impulsionou a cria\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de \u201cmini sider\u00fargicas\u201d nas fazendas camponesas. O metal obtido era de p\u00e9ssima qualidade e praticamente inutiliz\u00e1vel, o que significou um grande desperd\u00edcio de esfor\u00e7o, trabalho e materiais. Ou com a \u201ccoletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada\u201d do campo (realizada nesses mesmos anos, segundo o modelo estalinista russo dos anos 30) que provocou milh\u00f5es de mortes por fome.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia destas profundas contradi\u00e7\u00f5es, a economia planificada sofria grandes oscila\u00e7\u00f5es, e o aparato burocr\u00e1tico chin\u00eas e sua c\u00fapula foram sempre muito inst\u00e1veis, com choques e mudan\u00e7as permanentes entre as distintas fra\u00e7\u00f5es que o compunham (por exemplo, durante a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Cultural). [3]<\/p>\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Nos finais da d\u00e9cada de 1960 e inicios de 1970, a economia do estado oper\u00e1rio chin\u00eas estava em uma situa\u00e7\u00e3o de estancamento. Com esta conjuntura de fundo, e o debate sobre como enfrentar a situa\u00e7\u00e3o, Mao morre em 1976 e se acentua ao extremo a luta entre as fra\u00e7\u00f5es (da burocracia). Finalmente, em 1978, triunfa o setor de Deng Xiao Ping que fuzila os principais l\u00edderes oponentes (conhecida como o Grupo dos Quatro).<\/p>\n<p>Deng expressava a fra\u00e7\u00e3o mais de direita da burocracia e inicia o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista no pa\u00eds, associado ao imperialismo estadunidense (em 1979 Deng realiza a primeira viajem de um l\u00edder comunista chin\u00eas aos EUA e se entrevista com o ent\u00e3o presidente Jimmy Carter). Um feito simb\u00f3lico da restaura\u00e7\u00e3o que foi que, j\u00e1 nos finais de 1978, a Coca Cola anuncia seu projeto de instalar uma planta de produ\u00e7\u00e3o em Shangai.<\/p>\n<p>Deng aplicou duas medidas centrais. A primeira foi a elimina\u00e7\u00e3o das comunas agr\u00e1rias de produ\u00e7\u00e3o, que foram substitu\u00eddas pelo chamado \u201csistema de responsabilidade familiar\u201d que autorizava as fam\u00edlias a vender diretamente as colheitas e lucrar com elas. Os setores mais din\u00e2micos e favorecidos come\u00e7aram a acumular pequenos capitais, a procurar novas explora\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias (a partir da aprova\u00e7\u00e3o do direito de aluguel por 30 anos e da autoriza\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancia destes direitos) e tamb\u00e9m a investir em pequenas empresas comercias e industriais, originando assim uma incipiente burguesia rural.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ao longo de d\u00e9cadas, isso significou a expuls\u00e3o de milh\u00f5es de camponeses que perdiam sua base de sustento e alimenta\u00e7\u00e3o, e eram obrigados a imigrar para as grandes cidades para buscar empregos como assalariados. Calcula-se que estre processo afetou a mais de cem milh\u00f5es de pessoas (que se somaram a uma migra\u00e7\u00e3o preexistente, consequ\u00eancia da coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada). Formou-se assim um imenso e d\u00f3cil \u201cex\u00e9rcito industrial de reserva\u201d que aceitava baix\u00edssimos sal\u00e1rios e foi a base social que permitiu os grandes investimentos e a r\u00e1pida industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda medida foi a cria\u00e7\u00e3o de quatro \u201czonas francas\u201d para investimentos em cidades da costa sul, com o objetivo inicial de fabricar produtos baratos (t\u00eaxtis e roupas, r\u00e1dios e metalurgia pequena) destinado ao mercado interno. Mas rapidamente essa produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser exportada e a competir com a dos chamados \u201ctigres da \u00c1sia).<\/p>\n<p><strong>Uma combina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica in\u00e9dita<\/strong><\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China tem um tra\u00e7o comum e um diferenciado com o processo que se deu na ex URSS e no Leste Europeu. O elemento comum \u00e9 que a restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 levada adiante pelo pr\u00f3prio Partido Comunista (no caso russo, foi dirigida por Mikhail Gorbatchov). O elemento diferente \u00e9 que na URSS e nos pa\u00edses do Leste Europeu, pouco depois, a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas derrubou o aparato estalinista restaurador (o s\u00edmbolo deste processo foi a queda do muro de Berlin). Na China, esse processo de massas triunfante p\u00f3s restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deu (e tamb\u00e9m n\u00e3o se deu em Cuba).<\/p>\n<p>Assim se produz uma combina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica in\u00e9dita: o pr\u00f3prio aparato estalinista que havia dirigido a revolu\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio burocratizado n\u00e3o somente restaura o capitalismo, mas continua no poder depois da restaura\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que agora j\u00e1 n\u00e3o defende as bases econ\u00f4mico-sociais do Estado oper\u00e1rio, mas est\u00e1 ao servi\u00e7o do capitalismo imperialista.<\/p>\n<p>Do ponto de vista formal e de seu funcionamento, o regime e seu aparato continua sendo os mesmos: burocr\u00e1ticos e ditatoriais, disfar\u00e7ados atr\u00e1s das bandeiras vermelhas e a linguagem \u201csocialista\u201d. Mas seu conte\u00fado social agora \u00e9 totalmente diferente pois est\u00e1 ao servi\u00e7o de uma economia capitalista at\u00e9 a medula. Bastaria ver, por exemplo, a quantidade de quadros importantes e membros da dire\u00e7\u00e3o do PCCh que s\u00e3o burgueses ou pertencem a fam\u00edlias burguesas.<\/p>\n<p>Na China se d\u00e1 ent\u00e3o o que os brasileiros chamam de \u201co pior dos dois mundos\u201d: uma sangrenta ditadura de matriz estalinista junto com uma das express\u00f5es mais ferozes e exploradoras do capitalismo atual. \u00c9 a partir dessa base que chegaram os grandes investimentos imperialistas e, associado com eles, o surgimento de uma burguesia nacional chinesa. Um processo que d\u00e1 um salto a partir da derrota da luta contra o regime que teve com cen\u00e1rio a Pra\u00e7a Tienanmen, depois de uma feroz repress\u00e3o, em 1989 [4].<\/p>\n<p><strong>A \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A China teve assim um grande desenvolvimento industrial e se transformou assim na chamada \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d. Mas n\u00e3o como pot\u00eancia dominante e sim como pa\u00eds subordinado, em um modelo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista dominado pelos capitais imperialistas, especialmente os estadunidenses. Basta ver, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o entre as empresas Apple (EUA) e Foxconn (Chinesa) [5].<\/p>\n<p>No contexto desse modelo de acumula\u00e7\u00e3o, a burguesia chinesa e o regime de Beijing come\u00e7am a procurar um certo desenvolvimento aut\u00f4nomo no campo da tecnologia de celulares atrav\u00e9s da empresa Huawei. \u00c9 o que est\u00e1 no fundo da guerra comercial-tecnol\u00f3gica que iniciou o governo de Trump com grande impacto desestabilizador no com\u00e9rcio mundial [6].<\/p>\n<p><strong>A classe oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>A China possui hoje a segunda economia do mundo. A base desse crescimento tem sido o alt\u00edssimo n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria do pa\u00eds. Segundo dados das pr\u00f3prias estat\u00edsticas oficiais, na China, existe cerca de 500 milh\u00f5es de assalariados [7]. Dentro desse total, o estudo informa que 29,3% da for\u00e7a laboral total trabalha em \u201c<em>ind\u00fastria, constru\u00e7\u00e3o e energia\u201d. <\/em>Isso significa que falamos de um proletariado industrial de 260 milh\u00f5es de pessoas (engloba a ind\u00fastria privada e as empresas do Estado, nacionais, provinciais e municipais com atividades industriais, de constru\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o de energia).<\/p>\n<p>Uma classe oper\u00e1ria que o regime de Beijing se encarregou de \u201cdividir para reinar\u201d. Em primeiro lugar, entre os trabalhadores do Estado (com melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho) e os das empresas privadas. Em segundo lugar, atrav\u00e9s de um sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal diferenciado, segundo as regi\u00f5es do pa\u00eds: varia desde 166,40 d\u00f3lares na prov\u00edncia de Anhui at\u00e9 540,2 em Shangai [8]. [Nota: utilizaremos o nome yuan para a moeda, ainda que internamente se utilize renminbi de valor equivalente, mas n\u00e3o convert\u00edvel]. Finalmente, a maior das divis\u00f5es: o <em>houkou, <\/em>o passaporte interno requerido para se deslocar do interior para as cidades da costa e que determina o acesso a moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores que requerem o <em>houkou <\/em>s\u00e3o tratados de fato como estrangeiros e devem aceitar sempre piores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Nas ind\u00fastrias mais avan\u00e7adas, como as montadoras de autom\u00f3veis, os sal\u00e1rios podem chegar a 728 d\u00f3lares mensais como na planta da General Motors, com uma semana de trabalho de 6 dias por 12 horas de trabalho di\u00e1rios [9]. No topo da pir\u00e2mide, est\u00e3o os trabalhadores da Huawei que podem superar os 900 d\u00f3lares [10].<\/p>\n<p>A este panorama, cabe acrescentar a proibi\u00e7\u00e3o de organizar sindicatos que n\u00e3o perten\u00e7am a FNSC (Federa\u00e7\u00e3o Nacional Sindical Chinesa \u2013 ACTFU na sigla do ingl\u00eas), controlada por funcion\u00e1rios do partido nas empresas do Estado e por gerentes e supervisores na ind\u00fastria privada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m est\u00e3o proibidos as greves e os ativistas que a encabe\u00e7am est\u00e3o condenados a ser demitidos e, inclusive, presos. Apesar disso, acontecem permanentemente, por diversos motivos. Segundo informe da organiza\u00e7\u00e3o China Labour Bulletin, com sede em Hong Kong (<a href=\"https:\/\/clb.org.hk\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/clb.org.hk\/<\/a>\u00a0), entre 2014 e 2016, houve 6.700 greves e protestos em diferentes partes do pa\u00eds [11].<\/p>\n<p><strong>A luta de Hong Kong<\/strong><\/p>\n<p>Um processo muito importante que est\u00e1 se desenvolvendo na China, \u00e9 a luta, por reinvindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticos atacados pelo regime de Beijing, dos trabalhadores e do povo de Hong Kong, ao que dedicamos v\u00e1rios artigos neste site [12]. Esta luta representa uma grande amea\u00e7a e uma forte contradi\u00e7\u00e3o para um regime ditatorial.<\/p>\n<p>A ditadura chinesa tentou derrotar atrav\u00e9s da dura repress\u00e3o das for\u00e7as policiais locais, mas n\u00e3o conseguiu. Subiu seu n\u00edvel de amea\u00e7as ao instalar tropas do ex\u00e9rcito chin\u00eas <em>na cidade de Shenzhen, localizada a 27 km do centro do territ\u00f3rio, com soldados transportados em caminh\u00f5es e ve\u00edculos blindados [13]. Como resposta os trabalhadores e o povo de Hong Kong redobraram a luta.<\/em><\/p>\n<p>Ainda que as profundas contradi\u00e7\u00f5es que apresentam ao regime de Beijing uma alternativa de uma a\u00e7\u00e3o militar direta, est\u00e3o at\u00e9 agora no plano da amea\u00e7a, a entrada de tropas do ex\u00e9rcito chin\u00eas para reprimir o povo de Hong Kong \u00e9 uma possibilidade cada vez mais real.<\/p>\n<p><strong>Sobre o desfile militar <\/strong><\/p>\n<p>Voltamos agora ao espetacular desfile que se realizou no anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o. Para quem ia destinado essa exibi\u00e7\u00e3o de poder militar?<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que um dos destinat\u00e1rios era Trump e o imperialismo estadunidense para mostra-los que seria uma loucura tentar qualquer aventura militar contra China. Se esta hipot\u00e9tica situa\u00e7\u00e3o chegasse a acontecer n\u00e3o ter\u00edamos nenhuma d\u00favida em defender a China contra a agress\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Mas essa hip\u00f3tese est\u00e1 muito longe da realidade atual. Por uma combina\u00e7\u00e3o de razoes da realidade pol\u00edtica mundial e do pr\u00f3prio imperialismo, Trump nem sequer pode desenvolver atualmente uma a\u00e7\u00e3o militar contra Venezuela [14].<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, esse desfile militar tem hoje como objetivo principal amea\u00e7ar aos trabalhadores e as massas chineses, e especial a luta democr\u00e1tica de Hong Kong. A mensagem do regime de Beijing \u00e9: \u201ctemos poder suficiente para fazer novamente (corregida e maior) uma repress\u00e3o como a que fizemos em Tienanmen\u201d.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 a China atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>Podemos agora responder claramente \u00e0 pergunta inicial: A China \u00e9 um pa\u00eds capitalista at\u00e9 a medula governado por um regime ditatorial controlado pelo Partido Comunista, que tenta esconder esta realidade atr\u00e1s de bandeiras vermelhas e s\u00edmbolos de esquerda. Isso gera uma grande confus\u00e3o entre muitos trabalhadores do mundo.<\/p>\n<p>Uma confus\u00e3o que \u00e9 elevada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais. Uma parte, ataca a partir da direita, como uma mat\u00e9ria de <em>Euronews, <\/em>que diz aos trabalhadores: \u201c<em>veem, isso \u00e9 o comunismo, uma ditadura sem liberdades democr\u00e1ticas\u201d <\/em>[15]. Outra parte reivindica o processo deste suposto \u201csocialismo\u201d t\u00e3o bom para o capitalismo, como a BBC brit\u00e2nica [16].<\/p>\n<p>O mais grave, por\u00e9m, \u00e9 que in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es de esquerda ainda reivindicam a China como \u201csocialista\u201d; falam de uma continuidade desde a revolu\u00e7\u00e3o de 1949 at\u00e9 agora e a apresentam como a potencialidade do \u201csocialismo\u201d para enfrentar o imperialismo. Outras correntes que buscam se identificar com um tardio nacionalismo burgu\u00eas a definem como capitalista, mas como uma mostra de um hipot\u00e9tico desenvolvimento do capitalismo aut\u00f4nomo e anti-imperialista.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica das organiza\u00e7\u00f5es que falam da China \u201csocialista\u201d \u00e9 duas vezes criminal. Por um lado, apresentam como \u201csocialismo\u201d uma sangrenta ditadura que garante um dos n\u00edveis de super explora\u00e7\u00e3o mais altos do mundo. Frente a essa identifica\u00e7\u00e3o, milh\u00f5es de trabalhadores no mundo dizem: \u201csim isso \u00e9 o socialismo, eu n\u00e3o o quero\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 totalmente falso que a China hoje joga um papel progressivo e anti-imperialista no mundo. A pol\u00edtica exterior do regime de Beijing \u00e9 profundamente reacion\u00e1ria ou diretamente contrarrevolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por um lado, as in\u00fameras empresas chinesas com investimentos no exterior atuam da mesma forma que as multinacionais imperialistas: super explora\u00e7\u00e3o para os trabalhadores para extra\u00edrem mais-valia, roubam recursos naturais e tamb\u00e9m enviam grande parte de seus lucros \u00e0 casa matriz. Basta ver, por exemplo, seu papel na ind\u00fastria do Peru, da que possui quase 40% ou sua atua\u00e7\u00e3o no petr\u00f3leo e na minera\u00e7\u00e3o venezuelana. N\u00e3o tem nenhum problema em investir em pa\u00edses com governos de direita ou de extrema direita, como o de Macri na Argentina ou de Bolsonaro no Brasil. Por outro lado, s\u00e3o parte da atua\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria para manter sangrentas ditaduras e regimes repressores como fazem em v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1frica e na Venezuela [17].<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o s\u00f3 sujam o nome e as bandeiras do socialismo, mas tamb\u00e9m acabam dando ao imperialismo e seus agentes nacionais as bandeiras das liberdades democr\u00e1ticas, que estes utilizam com total hipocrisia para confundir e enganar aos trabalhadores e as massas.<\/p>\n<p><strong>Algumas considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Por tudo que expusemos, atualmente na China, para os trabalhadores e as massas, est\u00e1 colocada a necessidade de uma nova revolu\u00e7\u00e3o. Uma revolu\u00e7\u00e3o cuja tarefa imediata \u00e9 derrubar o regime ditatorial de Beijing. Ou seja, Abaixo a Ditadura! para obter liberdades democr\u00e1ticas como o direito de formar organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas por fora do PCCh, a liberdade de imprensa, o direito de organizar sindicatos independentes, o fim da repress\u00e3o aos trabalhadores e as massas e a liberdade dos presos pol\u00edticos e sindicais. Um processo em que a luta atual de Hong Kong possa jogar um papel muito importante.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, esta primeira tarefa, essencial no atual momento, \u00e9 parte de uma luta mais profunda que deve continuar: uma nova revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista. Uma revolu\u00e7\u00e3o que leve aos trabalhadores e as massas ao poder e que construa um novo Estado oper\u00e1rio chin\u00eas. Sem as profundas deforma\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas que teve o processo de 1949, dirigido pelo mao\u00edsmo-estalinismo, mas baseado em organismos democr\u00e1ticos dos trabalhadores e as massas.<\/p>\n<p>Tal como apontamos, hoje na China existe uma imensa classe trabalhadora e, dentro dela, um gigantesco proletariado industrial. Ent\u00e3o n\u00e3o seria um processo de base camponesa, como o de 1949, mas que estaria apoiado em um desenvolvimento industrial muito mais avan\u00e7ado e no maior proletariado do mundo.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s de sua aparente fortaleza, o regime de Beijing est\u00e1 sobre tanque de p\u00f3lvora que s\u00f3 vimos suas primeiras fagulhas. Quando explodir, o mundo se comover\u00e1 com isso e sua influ\u00eancia ser\u00e1 imensamente superior a que teve a importante revolu\u00e7\u00e3o de 1949.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Para conhecer mais sobre esse processo recomendamos ler o livro de Nahuel Moreno <em>Las Revoluciones China e Indochina\u00a0<\/em>en:\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/06_nm.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/06_nm.htm<\/a><\/p>\n<p>[2] Sobre este e outros conceitos ver <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/china\/certezas-e-interrogantes-que-plantea-la-crisis-economica-en-china\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/china\/certezas-e-interrogantes-que-plantea-la-crisis-economica-en-china\/<\/a><\/p>\n<p>[3] <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/lit-ci-y-partidos\/partidos\/pdac-italia\/la-revolucion-cultural-una-revolucion-politica-abortada\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/lit-ci-y-partidos\/partidos\/pdac-italia\/la-revolucion-cultural-una-revolucion-politica-abortada\/<\/a><\/p>\n<p>[4] Ver subt\u00edtulo \u201cUn hecho clave: la derrota de Tienanmen\u201d no artigo citado na nota [2]<\/p>\n<p>[5] Ver subt\u00edtulos \u201cEl modelo capitalista chino\u201d e \u201cUn capitalismo dependiente at\u00edpico\u201d no artigo citado na nota [2]<\/p>\n<p>[6] Sobre este tema ver\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/armas-de-guerra\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/norteamerica\/estados-unidos\/armas-de-guerra\/<\/a><\/p>\n<p>[7]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias\/2013\/01\/130129_china_trabajadores_mj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias\/2013\/01\/130129_china_trabajadores_mj<\/a><\/p>\n<p>[8]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.china-briefing.com\/news\/salarios-minimos-en-china-2018-19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.china-briefing.com\/news\/salarios-minimos-en-china-2018-19\/<\/a><\/p>\n<p>[9] Dados extra\u00eddos de CHEN, Vincent\/CHAN, Anita;\u00a0<em>Regular and Agency Workers: Attitudes and Resistance in Chinese Auto Joint Ventures;\u00a0<\/em>Revista\u00a0<em>China Quarterly 224\u00a0<\/em><strong>(<\/strong>Marzo 2018) en:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/322520102_Yiu_Por_Vincent_Chen_and_Anita_Chan_Regular_and_Agency_Workers_Attitudes_and_Resistance_in_Chinese_Auto_Joint_Ventures_China_Quarterly_March_2018_no_224\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/322520102_Yiu_Por_Vincent_Chen_and_Anita_Chan_Regular_and_Agency_Workers_Attitudes_and_Resistance_in_Chinese_Auto_Joint_Ventures_China_Quarterly_March_2018_no_224<\/a>\u00a0y\u00a0<a href=\"https:\/\/www.elfinanciero.com.mx\/tech\/100-celulares-por-hora-y-mejor-salario-que-en-mexico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.elfinanciero.com.mx\/tech\/100-celulares-por-hora-y-mejor-salario-que-en-mexico<\/a><\/p>\n<p>[10]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.china.org.cn\/english\/2002\/Nov\/48588.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.china.org.cn\/english\/2002\/Nov\/48588.htm<\/a><\/p>\n<p>[11] Sobre estas greves, recomendamos ler o informe \u201cChina: as greves e protestos oper\u00e1rios continuam a pesar da ca\u00edda da produ\u00e7\u00e3o industrial\u201den\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cetri.be\/IMG\/pdf\/China_las_huelgas_y_protestas_obreras_continuan-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.cetri.be\/IMG\/pdf\/China_las_huelgas_y_protestas_obreras_continuan-1.pdf<\/a>\u00a0y el art\u00edculo\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/china\/brazos-cruzados-maquinas-paradas\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/china\/brazos-cruzados-maquinas-paradas\/<\/a><\/p>\n<p>[12] Ver esta serie en\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/?s=Hong+Kong\">https:\/\/litci.org\/es\/?s=Hong+Kong<\/a><\/p>\n<p>[13]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/china\/ejercito-chino-despliega-tropas-la-frontera-hong-kong\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/china\/ejercito-chino-despliega-tropas-la-frontera-hong-kong\/<\/a><\/p>\n<p>[14] Sobre este tema ver o artigo \u201cLos dilemas del imperialismo\u201d na Revista Correio Internacional 21, Editora Lorca, San Pablo, Brasil, mayo 2019.<\/p>\n<p>[15] Ver por exemplo, o seguinte v\u00eddeo:\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/WTEMhV3lyJA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/youtu.be\/WTEMhV3lyJA<\/a><\/p>\n<p>[16]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-49898646?fbclid=IwAR3G4UskbOrdJHHaRpkMY6Tgvpf03cRpPq1-r5-Wdf7AuIR2DxLYjMPyAZs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-49898646?fbclid=IwAR3G4UskbOrdJHHaRpkMY6Tgvpf03cRpPq1-r5-Wdf7AuIR2DxLYjMPyAZs<\/a><\/p>\n<p>[17] Sobre este tema os artigos \u201cEl nuevo papel de China en \u00c1frica\u201d na Revista Correio Internacional 19, Editora Lorca, San Pablo, Brasil, marzo 2019\u00a0 e \u201cEs progresivo el papel de China y Rusia\u201d en la revista citada en la nota [14]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Completaram os 70 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa. O regime de Beijing festejou com um impressionante desfile militar, exibindo modernos armamentos, rodeados de s\u00edmbolos comunistas e bandeiras vermelhas. A China \u00e9 um pa\u00eds comunista como afirmam muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais e diversas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda?<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":30127,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[365],"tags":[7897,1551,7898,6153,7899],"class_list":["post-30126","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-china","tag-70-anos-revolucao-chinesa","tag-alejandro-iturbe","tag-china-hoje","tag-mao-tse-tung","tag-revolucao-chinesa"],"fimg_url":false,"categories_names":["China"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30126","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30126"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30126\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30126"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30126"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30126"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}