{"id":29709,"date":"2019-09-23T09:39:25","date_gmt":"2019-09-23T11:39:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29709"},"modified":"2019-09-23T09:39:25","modified_gmt":"2019-09-23T11:39:25","slug":"colombia-o-risco-de-ser-mulher-na-cartagena-turistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/09\/23\/colombia-o-risco-de-ser-mulher-na-cartagena-turistica\/","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia | O risco de ser mulher na Cartagena tur\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p><em>Cartagena, o principal destino tur\u00edstico do pa\u00eds, foi protagonista de grandes manchetes. Lamentavelmente n\u00e3o pelas lutas dos trabalhadores de uma das maiores zonas industriais do pa\u00eds, na qual h\u00e1 uma importante propor\u00e7\u00e3o de mulheres, e sim pelos altos n\u00edveis de prostitui\u00e7\u00e3o e por ser um destino privilegiado do \u201cturismo sexual\u201d.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Comiss\u00e3o da Mulher PST-Col\u00f4mbia<\/p>\n<p>Cartagena \u00e9 uma cidade industrial apesar da imagem que a m\u00eddia nos apresenta da bela muralha de pedra, a cidade fortificada e os passeios de carruagem, como um sonho rom\u00e2ntico. Mas, para as mulheres e meninas da cidade, o turismo sexual que tomou o centro hist\u00f3rico, converteu-se em um pesadelo no qual se conjugam o machismo, o racismo e agora a xenofobia contra as migrantes venezuelanas.<\/p>\n<p>Nestes dias, viralizou nas redes sociais a denuncia de uma mulher que depois do trabalho como gar\u00e7onete em um restaurante foi comer em outro estabelecimento. Um grupo de mulheres policiais a abordou e a capturou duas vezes na mesma noite porque sup\u00f5em que s\u00e3o prostitutas e devem ser recenseadas.<\/p>\n<p>Assim, o estigma acompanha as mulheres cartagenas, cujos corpos foram elevados a s\u00edmbolo sexual e degradados no n\u00edvel de uma mercadoria de livre consumo, que as colocou como objetos poss\u00edveis de se adquirir por alguns d\u00f3lares ou euros. As mulheres que transitam pelo centro hist\u00f3rico depois de certa hora, s\u00e3o confundidas e tratadas como se fossem prostitutas em potencial, independente de como ganham a vida. Gar\u00e7ons, taxistas, empregados do comercio e at\u00e9 policiais s\u00e3o protagonistas da viol\u00eancia verbal, humilha\u00e7\u00f5es, ass\u00e9dios, provoca\u00e7\u00f5es e at\u00e9 deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias.<\/p>\n<p>Cartagena tem duas caras. Uma dos ricos e a outra dos pobres. Por um lado, luxuosos centros comerciais, bairros nobres, centros de neg\u00f3cios, grandes hot\u00e9is. Do outro, extrema mis\u00e9ria, desemprego e aus\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos. Da\u00ed prov\u00e9m a maioria de jovens e adolescentes que optam pela prostitui\u00e7\u00e3o como uma forma de conseguir o p\u00e3o de cada dia e tamb\u00e9m das meninas cuja virgindade \u00e9 vendida pela sua pr\u00f3pria fam\u00edlia em meio ao desespero de sobreviver. Esta se converte em parte trabalho tempor\u00e1rio e da\u00ed para cair nas redes de explora\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 s\u00f3 um passo.<\/p>\n<p>Segundo um estudo da Funda\u00e7\u00e3o Renacer: \u201cEm Cartagena, um turista paga a uma menor de idade entre 100 e 150 d\u00f3lares pela noite, e se for s\u00f3 um per\u00edodo curto (de 15 a 20 minutos), d\u00e1 50, \u2026.encarregados da investiga\u00e7\u00e3o, afirmam que se evidenciou que muitos dos turistas vem com o conceito de que tudo se comercializa na cidade. Pensam que tudo \u00e9 mercadoria, tanto um colar como uma menina\u201d. \u00c9 t\u00e3o repudi\u00e1vel que os menores entrem nestas redes de prostitui\u00e7\u00e3o, como s\u00e3o inaceit\u00e1veis as viola\u00e7\u00f5es e assassinatos de meninas e meninos, e os feminic\u00eddios.<\/p>\n<p><strong>A prostitui\u00e7\u00e3o, um trabalho como qualquer outro?<\/strong><\/p>\n<p>Temos que se dizer com clareza e em voz alta. A prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de escravid\u00e3o na qual quem se veem obrigados \u2013 historicamente as mulheres, ainda que hoje \u00a0tamb\u00e9m homens e transg\u00eaneros \u2013 a viver dela s\u00e3o submetidos a todo tipo de vexames n\u00e3o somente por parte dos cafet\u00f5es que os exploram, mas tamb\u00e9m dos \u201cclientes\u201d que ao comprar a \u201cmercadoria\u201d , podem fazer com ela o que lhes der vontade. A prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser considerada um trabalho como qualquer outro. Esta postura n\u00e3o implica a estigmatiza\u00e7\u00e3o nem discrimina\u00e7\u00e3o para os que a exercem, e muito menos negar seus direitos como seres humanos. Propor que \u00e9 necess\u00e1rio abolir a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 elevar a condi\u00e7\u00e3o humana dos que a exercem para que tenham direito a um verdadeiro trabalho produtivo.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o existem no pa\u00eds cifras exatas sobre a prostitui\u00e7\u00e3o, a Secretaria de Integra\u00e7\u00e3o Social de Bogot\u00e1 estima que 45.000 mulheres se dedicam a ela. A revista Semana disse: \u201cRecrutar universit\u00e1rias para que trabalhem como modelos webcam, damas de companhia e trabalhadoras sexuais \u00e9 um esquema de neg\u00f3cio amplo em universidades de v\u00e1rias cidades da Col\u00f4mbia\u2026os motivos s\u00e3o v\u00e1rios, mas destaca que as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas das estudantes e os altos custos\u00a0 dos estudos universit\u00e1rios s\u00e3o os fatores que predominam para que as jovens sejam cooptadas por estas redes\u201d.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que a causa fundamental de que as mulheres recorram \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 um imperativo econ\u00f4mico social e n\u00e3o uma simples \u201cop\u00e7\u00e3o pessoal\u201d. \u00c9 dif\u00edcil imaginar que uma menina que brinca de \u201co que vou ser quando crescer\u201d diga eu quero ser \u201ctrabalhadora sexual\u201d.<\/p>\n<p>Nenhuma mulher teria que ser submetida a esta infame condi\u00e7\u00e3o para sobreviver. Em 2017 houve uma tentativa para adotar o modelo sueco. Esse pa\u00eds passou a considerar que, sem exce\u00e7\u00f5es, toda forma de prostitui\u00e7\u00e3o implica o tr\u00e1fico de pessoas com fins de explora\u00e7\u00e3o sexual e constitui um delito, e as mulheres nesta condi\u00e7\u00e3o seriam suas v\u00edtimas, portanto, deve-se penalizar o cafet\u00e3o e quem paga. Ao contrario, na Alemanha est\u00e1 legalizada. Na Su\u00e9cia hoje o n\u00famero de mulheres nesta condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a cem, enquanto que na Alemanha a psic\u00f3loga Ingeborg Kraus, que \u00e9 psicoterapeuta de v\u00edtimas de tr\u00e1fico e prostitui\u00e7\u00e3o, assegura que: a lei n\u00e3o tem cumprido com seu prop\u00f3sito, j\u00e1 que n\u00e3o foi contundente em proteger as mulheres na prostitui\u00e7\u00e3o e em troca favoreceu o tr\u00e1fico de mulheres e a viol\u00eancia sexual, convertendo o pa\u00eds no \u2018bordel da Europa\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Em Cartagena houve protestos diante do aumento da prostitui\u00e7\u00e3o e suas consequ\u00eancias, entretanto, o que mais preocupa alguns personagens n\u00e3o \u00e9 tanto a vida das mulheres e as crian\u00e7as em tal condi\u00e7\u00e3o, e sim que se permita tal espet\u00e1culo a poucos metros da prefeitura e da cidade hist\u00f3rica, seria um problema n\u00e3o de \u00e9tica e sim de est\u00e9tica. Por isso seriam partid\u00e1rios de regulament\u00e1-la e permitir somente em zonas de toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Os trabalhadores devemos entrar nesta discuss\u00e3o e a\u00e7\u00e3o. Exigir a aboli\u00e7\u00e3o do turismo sexual e condi\u00e7\u00f5es de normaliza\u00e7\u00e3o e trabalho para os setores mais deprimidos da cidade. Oportunidades de trabalho e de estudo para toda a juventude de maneira que n\u00e3o caiam nas garras das redes de explora\u00e7\u00e3o, e castigo para cafet\u00f5es e turistas sexuais.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartagena, o principal destino tur\u00edstico do pa\u00eds, foi protagonista de grandes manchetes. 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