{"id":29688,"date":"2019-09-20T12:39:28","date_gmt":"2019-09-20T14:39:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29688"},"modified":"2019-09-20T12:39:28","modified_gmt":"2019-09-20T14:39:28","slug":"por-onde-caminha-a-revolucao-na-argelia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/09\/20\/por-onde-caminha-a-revolucao-na-argelia\/","title":{"rendered":"Por onde caminha a revolu\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia"},"content":{"rendered":"<p><em>Muitos acreditavam que a revolu\u00e7\u00e3o argelina tinha acabado, por causa da diminui\u00e7\u00e3o das mobiliza\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos meses e porque o governo do general Ga\u00efd Salah apresentou algumas propostas que tinham o objetivo de conter o movimento. Mas povo argelino as recha\u00e7ou e retomou as ruas.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito e seus aliados civis frente a for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o tentam manter o controle da situa\u00e7\u00e3o e por isso foram obrigados a apresentar a proposta de elei\u00e7\u00e3o presidencial, ainda este ano, indicando-a para a dezembro. Mas com o controle do pr\u00f3prio governo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que n\u00e3o est\u00e3o convencendo os trabalhadores e o povo pobre da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>O regime conta com o apoio do ex presidente da Assembleia Nacional, pol\u00edtico burgu\u00eas, Karim Youn\u00e8s, que foi perseguido pela ditadura e agora preside o \u201c<em>F\u00f3rum de Di\u00e1logo e Media\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Ele aceitou o papel de coordenar a prepara\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, para tentar salvar o regime, frente ao ascenso dos trabalhadores. Mas Karim n\u00e3o conseguiu levar a cabo o processo, e mesmo ele, frente a resist\u00eancia das massas, agora apresenta algumas exig\u00eancias para que a elei\u00e7\u00e3o seja realizada. Entre elas: a demiss\u00e3o do Primeiro Ministro, Nouredine Bedoui; a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos; autonomia a comiss\u00e3o eleitoral para um trabalho Independente; a modifica\u00e7\u00e3o da lei eleitoral; liberdade de imprensa, com supress\u00e3o da censura.<\/p>\n<p>Este fato obrigou o Conselho de Ministros a se reunir e aprovar projetos de lei que criaram um organismo encarregado de organizar as elei\u00e7\u00f5es e uma lei eleitoral, e est\u00e3o convocando a Assembleia Nacional para aprovar estas propostas e dar um \u201cverniz\u201d democr\u00e1tico ao processo.<\/p>\n<p>Os movimentos sociais que est\u00e3o nas ruas sabem que as propostas de Karim Youn\u00e8s s\u00e3o uma manobra para dividir al\u00a0H<em>irak<\/em> (movimento de protesto) e acabar com a mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois ao mesmo tempo que a ditadura aponta uma sa\u00edda democr\u00e1tica, incrementam a repress\u00e3o contra os movimentos sociais e os meios de comunica\u00e7\u00e3o, prendendo ativistas e censurando a imprensa. O general Salah, chefe do r\u00e9gime argelino desde a ren\u00fancia de Buteflika, em abril passado, trouxe para o governo dirigentes odiados do antigo regime, que participaram dele por mais de 20 anos, como Abdelkader Bensalah, e o ex- primeiro ministro Nouredine Bedoui. Pol\u00edticos que provocam a ira da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo o general se expressa dos quarteis, de maneira cada vez mais amea\u00e7adora e provocadora. Anunciando que n\u00e3o aceitara \u201c<em>um complot de estrangeiros e<\/em> <em>agentes infiltrados<\/em>\u201d que visam \u201c<em>desestabilizar o pa\u00eds<\/em>\u201d, e promete \u201c<em>raios e trovoadas se as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o se realizam\u201d<\/em>. (discurso de 2 de setembro).<\/p>\n<p>Demonstrando que mesmo depois de oito meses de revolu\u00e7\u00e3o o ex\u00e9rcito, \u00faltimo basti\u00e3o do regime, tenta se impor. Salah exige que a Assembleia Nacional convoque as elei\u00e7\u00f5es para dezembro, buscando por um lado fechar a crise institucional que vive o pa\u00eds e por outro manter um processo sob controle dos militares e civis que sustentaram a ditadura.<\/p>\n<p>Buscando realizar, o que Nahuel Moreno caracterizou como \u201crea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, para sufocar a revolu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o conseguem sufoc\u00e1-la com a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas os manifestantes continuam indo as ruas de Argel e outras grandes cidades, desta vez sem aceitar este processo eleitoral manipulado pelos velhos generais. Denunciam: <em>\u201cN\u00e3o votaremos at\u00e9 que forem embora: os generais ao lixo\u201d e \u201cNada de elei\u00e7\u00f5es com aparatos corruptos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Mostrando que de fato o movimento n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se esgotou, como o H<em>irak<\/em>\u00a0continua e est\u00e1 ganhando mais for\u00e7a no m\u00eas de setembro.<\/p>\n<p><strong>Derrota atr\u00e1s de derrota<\/strong><\/p>\n<p>O general Ga\u00efd Salah, era um homem vinculado ao regime ditatorial, por isso teve sua primeira derrota com a derrubada de Abdelaziz Bouteflika; agora est\u00e1 tentando \u201c<em>perder os an\u00e9is, mas conservar os dedos<\/em>\u201d (um processo similar ao que est\u00e1 ocorrendo no Sud\u00e3o). Mas teve mais uma grande derrota, por que n\u00e3o conseguiu realizar as elei\u00e7\u00f5es em 4 de julho.<\/p>\n<p>Novamente em virtude dos protestos e das manifesta\u00e7\u00f5es populares. Que com sua for\u00e7a impediram que as elei\u00e7\u00f5es, controladas pelo regime, ocorressem em julho. Candidatos parlamentares se recusaram a se inscrever e os ju\u00edzes de organizar a vota\u00e7\u00e3o. \u00c0s v\u00e9speras foi declarada: <em>&#8220;a impossibilidade de celebrar as elei\u00e7\u00f5es presidenciais em 4 de julho de 2019 &#8220;<\/em>.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o que permanece \u00e9 que o chefe de Estado \u201c<em>interino<\/em>\u201d, que se manter\u00e1, est\u00e1 a\u00ed contra a vontade do povo. E pretende ficar por mais algum tempo, apesar de seu mandato ter terminado em 9 de julho. Colocando o pa\u00eds frente \u00e0 o que poderia ser chamado de \u201c<em>vazio constitucional\u201d <\/em>aumentado a crise institucional<em>.<\/em><\/p>\n<p><strong>Liberdade para os presos pol\u00edticos e de imprensa<\/strong><\/p>\n<p>Como n\u00e3o querem perder o controle do processo, e manter o regime ditatorial, os dirigentes acenam com elei\u00e7\u00f5es, mas mantem e aumentam a repress\u00e3o. Colocando muitos ativistas na cadeia. Como por exemplo Louisa Hanoune, dirigente do PT (Partido dos Trabalhadores), presa quatro meses e Lakhdar Bouregaa, personagem da guerra da independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de centenas de militantes da \u201c<em>For\u00e7as de Alternativa Democr\u00e1tica\u201d<\/em>\u00a0que agrupa organiza\u00e7\u00f5es que defendem mais concess\u00f5es democr\u00e1ticas, como o PT, a Liga Argelina dos Direitos Humanos e sindicatos. Recha\u00e7am \u201c<em>a agenda das elei\u00e7\u00f5es presidenciais<\/em>\u201d, e prop\u00f5em: demiss\u00e3o dos dirigentes atuais; um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o; um \u201c<em>governo provis\u00f3ria Independiente<\/em>\u201d; e a realiza\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte. \u201c<em>para romper com o r\u00e9gime atual<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Para tentar convencer o povo de sua proposta o regime argelino mante o controle dos \u00f3rg\u00e3os de imprensa e comunica\u00e7\u00e3o e a censura continua. Fechando meios de comunica\u00e7\u00e3o e impedindo jornalistas de trabalhar e divulgar as informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O general Salin se aproveita do sentimento antifrancofano para tentar ganhar alguma popularidade e denuncia que n\u00e3o aceitara qualquer inger\u00eancia exterior, por isso a imprensa oficial publica virulentos ataques contra o presidente da ag\u00eancia francesa e denunciam a AFP na cobertura da crise no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A import\u00e2ncia internacional desta revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Tem muita gente preocupada com o que est\u00e1 acontecendo na Arg\u00e9lia. A classe trabalhadora deste pa\u00eds tem uma hist\u00f3ria e trajet\u00f3ria de luta revolucion\u00e1ria, imortalizados com os enfrentamentos pela independ\u00eancia, que culminou em 1962. Por isso \u00e9 uma refer\u00eancia para os povos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o imperialismo, principalmente o franc\u00eas, as v\u00e9speras da entrada de uma crise econ\u00f4mica de grandes propor\u00e7\u00f5es, tem muitos interesses no pa\u00eds. Simbolicamente o presidente franc\u00eas, Emmanuel Macron, explicitou a participa\u00e7\u00e3o de seu governo neste processo: &#8220;<em>Sem inger\u00eancia, mas sem indiferen\u00e7a<\/em>&#8220;. Na Fran\u00e7a vivem cerca de dois milh\u00f5es de argelinos; principalmente jovens desesperados pela falta de futuro e a pen\u00faria em que vivem, que se lan\u00e7am ao mar para chegar clandestinamente as costas francesas. Assim como os pol\u00edticos corruptos e milion\u00e1rios que v\u00e3o a Fran\u00e7a com suas propriedades.<\/p>\n<p>A Arg\u00e9lia tamb\u00e9m \u00e9 um dos baluartes da luta internacional contra o Yihadismo. Por isso est\u00e1 cheia de bases militares instaladas, de v\u00e1rios pa\u00edses imperialistas, em especial instala\u00e7\u00f5es militares norte-americanas e francesas.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer das companhias petroleiras norte-americanas totalmente envolvidas na ind\u00fastria de hidrocarburetos nacional, que \u00e9 o centro da economia nacional e o que da mais rendimentos para o governo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m deles, a China tamb\u00e9m est\u00e1 preocupada porque se converteu no principal investidor no pa\u00eds, principalmente na constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas. Seguindo sua pol\u00edtica geral de investir em ditaduras africanas. Os russos tamb\u00e9m, pois a Arg\u00e9lia \u00e9 o principal destinat\u00e1rio de compra de armamento deste pa\u00eds no continente africano, e em um crescente comprador de energia nuclear.<\/p>\n<p>A instabilidade na L\u00edbia agrava a uma potencial amea\u00e7a para todo continente. O pa\u00eds tem uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica no Mediterr\u00e2neo e \u00c1frica. Al\u00e9m de ser uma refer\u00eancia no mundo \u00e1rabe-mu\u00e7ulmano. Hoje uma revolu\u00e7\u00e3o, mesmo democr\u00e1tica, na Arg\u00e9lia, assusta as potencias do Golfo e todo o mundo \u00e1rabe-mu\u00e7ulmano, pois pode ser um exemplo para a classe trabalhadora destes pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>Os trabalhadores da Arg\u00e9lia devem seguir na luta e derrubar o regime<\/strong><\/p>\n<p>Em 2 de abril, as mobiliza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e do povo da Arg\u00e9lia derrubou mais um ditador africano: Abdelaziz Bouteflika. Mas os militares e os governantes ditatoriais, que rodeavam a Buteflika por cerca de 20 anos, n\u00e3o abandonaram o poder. Por isso as mobiliza\u00e7\u00f5es continuam para derrubar todo o regime.<\/p>\n<p>Junto com isso os trabalhadores, e oper\u00e1rios est\u00e3o avan\u00e7ando na sua auto-organiza\u00e7\u00e3o e sua determina\u00e7\u00e3o. Agora que est\u00e1 acabando o per\u00edodo de f\u00e9rias se espera que as mobiliza\u00e7\u00f5es cres\u00e7am. E os manifestantes prometem que o H<em>irak<\/em>\u00a0n\u00e3o ser\u00e1 interrompido durante o Ramadan.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 fundamental neste processo construir uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, formada pelos pr\u00f3prios trabalhadores, que ajude ao conjunto da classe a estabelecer um novo governo e n\u00e3o cair nas manobras que militares e pol\u00edticos burgueses que querem manter suas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De maneira geral as mobiliza\u00e7\u00f5es tiveram como sua dire\u00e7\u00e3o setores da intelectualidade de classe m\u00e9dia e da pequena burguesia.<\/p>\n<p>Mas em um pa\u00eds com a economia em ru\u00ednas, baseada na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e g\u00e1s, que constituem 97% das exporta\u00e7\u00f5es e dois ter\u00e7os dos ingressos do Estado, s\u00f3 mudan\u00e7as democr\u00e1ticas n\u00e3o bastam.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio avan\u00e7ar na perspectiva de uma Assembleia Constituinte controlada pelos trabalhadores e o povo pobre argelino, isso \u00e9, uma etapa de um processo com din\u00e2mica revolucion\u00e1ria que necessita ter a classe operaria a frente, com suas organiza\u00e7\u00f5es, para conduzir esta luta a tomada de poder pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos acreditavam que a revolu\u00e7\u00e3o argelina tinha acabado, por causa da diminui\u00e7\u00e3o das mobiliza\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos meses e porque o governo do general Ga\u00efd Salah apresentou algumas propostas que tinham o objetivo de conter o movimento. 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