{"id":29642,"date":"2019-09-17T13:17:29","date_gmt":"2019-09-17T15:17:29","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29642"},"modified":"2019-09-17T13:17:29","modified_gmt":"2019-09-17T15:17:29","slug":"roubo-ou-exploracao-uma-resenha-de-stolen-de-grace-blakeley","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/09\/17\/roubo-ou-exploracao-uma-resenha-de-stolen-de-grace-blakeley\/","title":{"rendered":"Roubo ou explora\u00e7\u00e3o? Uma resenha de Stolen, de Grace Blakeley"},"content":{"rendered":"<p><em>Toda a nossa riqueza foi roubada pelo grande capital financeiro e, ao faz\u00ea-lo, deixou a economia de joelhos. Portanto, devemos nos salvar do grande capital financeiro. Essa \u00e9 minha sinopse de um novo livro, Stolen \u2013 how to save the world from financialisation, de Grace Blakeley.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Michael Roberts<\/p>\n<p>Grace Blakeley \u00e9 uma estrela em ascens\u00e3o no firmamento da esquerda radical do movimento trabalhista brit\u00e2nico. Blakeley formou-se em pol\u00edtica, filosofia e economia (PPE) na Universidade de Oxford e fez um mestrado em estudos africanos. Depois, Blakeley tornou-se pesquisadora do Instituto de Pesquisa de Pol\u00edticas P\u00fablicas (IIPPE), um &#8220;laborat\u00f3rio de ideias&#8221; (think tank) de esquerda, e agora se tornou correspondente econ\u00f4mica da revista <em>New Statesman<\/em>. Blakeley \u00e9 uma comentarista regular de ideias de esquerda em v\u00e1rios meios de difus\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha. Seu perfil e popularidade levaram seu livro, publicado esta semana, \u00e0 lista dos 50 mais vendidos pela <em>Amazon<\/em>.<\/p>\n<p>Stolen<em> \u2013 how to save the world from financialisation<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> <\/em>\u00e9 um relato ambicioso das contradi\u00e7\u00f5es e fracassos do capitalismo p\u00f3s-guerra, ou mais exatamente do capitalismo anglo-americano (porque o capitalismo europeu ou asi\u00e1tico \u00e9 pouco mencionado e a periferia da economia mundial \u00e9 coberta apenas de passagem). O livro tem como objetivo explicar como e por que o capitalismo transformou-se em um modelo de roubo pela financeiriza\u00e7\u00e3o, beneficiando poucos, enquanto destr\u00f3i (rouba?) o crescimento, o emprego e a renda de muitos.<\/p>\n<p><em>Stolen<\/em> leva o leitor pelos v\u00e1rios per\u00edodos do desenvolvimento capitalista anglo-americano de 1945 at\u00e9 a Grande Recess\u00e3o de 2008-9 e al\u00e9m. E termina com algumas propostas de pol\u00edtica para acabar com o roubo com um novo modelo econ\u00f4mico (p\u00f3s-financeiriza\u00e7\u00e3o) que beneficiar\u00e1 os trabalhadores. Isso \u00e9 algo atraente. Mas o relato de Blakeley sobre a natureza do capitalismo anglo-americano moderno e sobre as causas de crises recorrentes na produ\u00e7\u00e3o capitalista est\u00e1 correto?<\/p>\n<p>Pegue o t\u00edtulo do livro de Blakeley: \u201cRoubado\u201d. \u00c9 um t\u00edtulo atraente para um livro. Mas isso implica que os propriet\u00e1rios do capital, especificamente do capital financeiro, s\u00e3o ladr\u00f5es. Eles <em>roubaram<\/em> a riqueza produzida por outros; ou eles <em>extra\u00edram<\/em> a riqueza daqueles que a criaram. Isto \u00e9, lucro sem explora\u00e7\u00e3o. De fato, o lucro agora vem apenas do roubo.<\/p>\n<p>Marx chamou isso de &#8220;lucro sobre aliena\u00e7\u00e3o&#8221;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Para Marx, isso \u00e9 alcan\u00e7ado pela transfer\u00eancia de riqueza (valor) <em>j\u00e1 existente<\/em> criada no processo de acumula\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o capitalista. Mas n\u00e3o h\u00e1 cria\u00e7\u00e3o de valor por esse roubo financeiro. Para Marx, lucro ou mais-valia s\u00e3o criados apenas atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do trabalho na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias (coisas e servi\u00e7os). A for\u00e7a de trabalho dos trabalhadores n\u00e3o \u00e9 roubada, nem a riqueza que eles criam. Sob o capitalismo, os trabalhadores recebem um sal\u00e1rio dos empregadores pelas horas de trabalho, conforme negociado. Mas eles produzem mais valor em sua jornada de trabalho do que o valor (medido pelo tempo de trabalho) que recebem em forma de sal\u00e1rios. Assim, os capitalistas obt\u00eam uma mais-valia com a venda das mercadorias produzidas pelos trabalhadores que eles apropriam como propriet\u00e1rios do capital. Isso n\u00e3o \u00e9 roubo, mas explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Importa se \u00e9 roubo ou explora\u00e7\u00e3o? Bem, Marx achava que sim. Ele argumentou firmemente contra a ideia de Pierre-Joseph Proudhon, o socialista mais popular da \u00e9poca, que dizia que &#8220;propriedade \u00e9 roubo&#8221;. Dizer isso, argumentou Marx, era deixar de ver a maneira real pela qual a riqueza criada por muitos acaba nas m\u00e3os de poucos. Portanto, n\u00e3o se trata de acabar com o roubo, mas com o capitalismo.<\/p>\n<p>Em <em>Stolen<\/em>, Blakeley ignora essa descoberta cient\u00edfica mais importante (como Engels coloca), ou seja, a mais-valia. Em vez disso, Blakeley engole completamente os pontos de vista dos proudhonistas modernos, como Costas Lapavitsas, David Harvey e outros como Bryan e Rafferty, que rejeitam a vis\u00e3o de Marx de que o lucro vem da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Para eles, isso \u00e9 velharia. Hoje, o capitalismo moderno \u00e9 o &#8220;capitalismo financeirizado&#8221;, que obt\u00e9m sua riqueza roubando ou extraindo renda de todos, n\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Isso leva Blakeley, a certa altura, a aceitar a falsa an\u00e1lise de Thomas Piketty de que os retornos sobre o capital aumentam inexoravelmente por esse processo &#8211; quando a evid\u00eancia \u00e9 de que os retornos sobre o capital est\u00e3o caindo inexoravelmente.<\/p>\n<p>Mas esses argumentos ditos modernos s\u00e3o t\u00e3o falsos quanto os de Proudhon.\u00a0 Lapavitsas foi criticado pelo marxista brit\u00e2nico Tony Norfield<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>; eu envolvi David Harvey no debate sobre a teoria do valor de Marx<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>; e Bryan e Rafferty foram considerados falaciosos pelo marxista grego Stavros Mavroudeas<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Depois de ler essas cr\u00edticas, voc\u00ea pode se perguntar se a lei do valor de Marx pode ser ignorada para explicar as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo moderno.<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 o subt\u00edtulo do livro de Blakeley: \u201ccomo salvar o mundo da financeiriza\u00e7\u00e3o\u201d. A <em>financeiriza\u00e7\u00e3o<\/em> como categoria tornou-se extremamente popular na economia heterodoxa. A categoria veio originalmente da economia convencional, foi adotada por alguns marxistas e promovida por economistas p\u00f3s-keynesianos. Seu objetivo era explicar as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo e suas crises recorrentes com uma teoria que n\u00e3o envolvia a lei do valor de Marx e a lei da lucratividade<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> &#8211; ambas rejeitadas ou ignoradas pelos p\u00f3s-keynesianos.<\/p>\n<p>Blakeley adota a defini\u00e7\u00e3o deste termo de Epstein, Krippner e Stockhammer e faz dele a pe\u00e7a central da narrativa do livro (p. 11).\u00a0 Como descrevi em um post anterior, se o termo significa simplesmente um aumento do papel do setor financeiro e um aumento de sua participa\u00e7\u00e3o nos lucros nos \u00faltimos 40 anos, isso \u00e9 obviamente verdade &#8211; pelo menos nos EUA e no Reino Unido. Mas, se isso significa &#8220;o <em>surgimento de um novo modelo econ\u00f4mico &#8230; e uma profunda mudan\u00e7a estrutural no funcionamento da economia (capitalista)&#8221;<\/em> (Krippner), ent\u00e3o essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o totalmente nova.<\/p>\n<p>Como Stavros Mavroudeas coloca em seu excelente e novo artigo (<a href=\"https:\/\/thenextrecession.files.wordpress.com\/2018\/11\/393982858-qmul-2018-financialisation-london.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">393982858-QMUL-2018-Financialisation-London<\/a> ), a hip\u00f3tese da financeiriza\u00e7\u00e3o implica que\u00a0 <em>\u201co capital monet\u00e1rio torna-se totalmente independente do capital produtivo (pois pode explorar diretamente o trabalho atrav\u00e9s da usura) e remodela os outros setores do capital conforme suas prerrogativas\u201d.<\/em>\u00a0 E se\u00a0 <em>\u201cos lucros financeiros n\u00e3o s\u00e3o uma subdivis\u00e3o da mais-valia, ent\u00e3o &#8230; a teoria da mais-valia \u00e9, pelo menos, marginalizada. Consequentemente, a lucratividade (as principais especificidades diferenciadas da an\u00e1lise econ\u00f4mica marxista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia neocl\u00e1ssica e keynesiana) perde sua centralidade e o juro \u00e9 autonomizado dele<\/em>\u00a0 (ou seja, do lucro &#8211; MR)\u201d.<\/p>\n<p>E \u00e9 claramente assim que Blakeley o v\u00ea. Aceitar esse novo modelo implica que o capital financeiro \u00e9 o inimigo e n\u00e3o o capitalismo como um todo, ou seja, excluindo os setores produtivos (criadores de valor). Blakeley nega essa interpreta\u00e7\u00e3o no livro. O capital financeiro n\u00e3o \u00e9 uma camada separada do capital acima do setor produtivo. Isso porque <em>todo o<\/em> capitalismo agora est\u00e1 <em>financeirizado<\/em>! <em>\u201cQualquer an\u00e1lise que veja a financeiriza\u00e7\u00e3o como a \u2018degenera\u00e7\u00e3o\u2019 de uma forma mais pura e produtiva de capitalismo falha em compreender o contexto real. O que emergiu na economia global nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 um novo modelo de capitalismo, que \u00e9 muito mais integrado do que sugerem as dicotomias simples\u201d.<\/em> Segundo Blakeley, <em>&#8220;as empresas de hoje tornaram-se completamente financeirizadas, com algumas parecendo-se mais com bancos do que com empresas produtivas<\/em>&#8220;. Blakeley argumenta que \u201c<em>n\u00e3o estamos testemunhando a \u2018ascens\u00e3o dos rentistas\u2019 nesta era; antes, todos os capitalistas &#8211; industriais e n\u00e3o \u2013 tornaram-se rentistas &#8230; De fato, as empresas n\u00e3o financeiras est\u00e3o cada vez mais engajadas em atividades financeiras para garantir os maiores lucros poss\u00edveis<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Se isso fosse verdade, e que todo o valor prov\u00e9m de juros e renda <em>extra\u00eddos<\/em> de todo mundo e n\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o realmente seria como fazer dinheiro do nada e Marx estava falando bobagem. No entanto, a evid\u00eancia emp\u00edrica n\u00e3o confirma a tese da &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;. Sim, desde a d\u00e9cada de 1980, os lucros do setor financeiro aumentaram como uma parcela dos lucros totais em muitas economias, embora principalmente nos EUA. Mas mesmo no auge (2006), a participa\u00e7\u00e3o dos lucros do setor financeiro nos lucros totais atingiu apenas 40% nos EUA. Ap\u00f3s a Grande Recess\u00e3o (2008-2009), a participa\u00e7\u00e3o recuou acentuadamente e agora \u00e9 de cerca de 25% em m\u00e9dia. E muitos desses lucros acabaram sendo &#8220;fict\u00edcios&#8221;, como Marx os chamou, com base nos ganhos da compra e venda de a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos (e n\u00e3o nos lucros da produ\u00e7\u00e3o), que desapareceram na crise.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a narrativa de que os setores produtivos da economia capitalista transformaram-se em rentistas ou banqueiros simplesmente n\u00e3o \u00e9 confirmada pelos fatos. Joel Rabinovich, da Universidade de Paris, realizou uma an\u00e1lise minuciosa do argumento de que as empresas n\u00e3o financeiras obt\u00eam a maioria de seus lucros da <em>extra\u00e7\u00e3o<\/em> de juros, renda ou ganhos de capital e n\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho que emprega. Ele descobriu que: <em>\u201cAo contr\u00e1rio da hip\u00f3tese de rentabiliza\u00e7\u00e3o financeira, a receita financeira \u00e9 em m\u00e9dia 2,5% da receita total desde os anos 80, enquanto o lucro financeiro l\u00edquido fica ainda mais reduzido como porcentagem do lucro total das empresas n\u00e3o financeiras. Em termos de ativos, alguns dos supostos ativos financeiros realmente refletem outras atividades nas quais as empresas n\u00e3o financeiras t\u00eam se engajado cada vez mais: internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, reorienta\u00e7\u00e3o das atividades e fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es\u201d.<\/em> Veja o gr\u00e1fico abaixo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-29644 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-1.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"261\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 1: Receita financeira como porcentagem da receita total. De baixo para cima: preto: juros; cruzes: ganho l\u00edquido de capital; linhas diagonais: ganho l\u00edquido, ativos n\u00e3o-capital; linhas cruzadas: dividendos de corpora\u00e7\u00f5es locais; linhas horizontais: dividendos de corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras.<\/p>\n<p>Em outras palavras, empresas n\u00e3o financeiras como a General Motors, Caterpillar, Amazon, Google, Microsoft, Big Tobacco e Big Pharma e assim por diante ainda lucram com a venda de mercadorias da maneira usual. Os lucros da <em>financeiriza\u00e7\u00e3o<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao lucro total. Essas empresas n\u00e3o est\u00e3o <em>financeirizadas<\/em>.<\/p>\n<p>Blakely diz que &#8220;a <em>financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo iniciado nos anos 80 com a remo\u00e7\u00e3o de barreiras \u00e0 mobilidade do capital&#8221;. <\/em>\u00a0\u00a0Talvez sim, mas por que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1980 e n\u00e3o antes ou depois? Por que come\u00e7ou a desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor financeiro? Por que o neoliberalismo surgiu naquela \u00e9poca? Blakeley, ou dos p\u00f3s-keynesianos, n\u00e3o d\u00e3o respostas. Blakeley ressalta que o &#8220;modelo social-democrata&#8221; do p\u00f3s-guerra fracassou, mas ela n\u00e3o fornece nenhuma explica\u00e7\u00e3o para isso &#8211; exceto para sugerir que o capitalismo n\u00e3o poderia mais <em>&#8220;se dar ao luxo de continuar a tolerar as reivindica\u00e7\u00f5es sindicais por aumentos salariais no contexto da crescente concorr\u00eancia internacional e infla\u00e7\u00e3o alta\u201d<\/em> (p. 48). Blakeley sugere uma resposta: <em>&#8220;a concorr\u00eancia do exterior come\u00e7ou a corroer os lucros&#8221; <\/em>(p. 51). Mas isso levanta a quest\u00e3o de porque a concorr\u00eancia internacional causou um problema naquele momento e por que houve infla\u00e7\u00e3o alta.<\/p>\n<p>A economia marxista pode dar uma resposta. Foi o colapso da lucratividade do capital em todas as principais economias capitalistas. Isso est\u00e1 bem documentado pelos marxistas e pelos principais estudos. Este blog tem uma s\u00e9rie de posts sobre o assunto e eu forneci uma an\u00e1lise clara em meu livro, <em>The Long Depression<\/em> (n\u00e3o \u00e9 um best-seller). A queda na lucratividade for\u00e7ou o capitalismo a buscar formas de contrabalan\u00e7o: o enfraquecimento do movimento sindical por meio de quedas salariais e medidas antitrabalhistas; privatiza\u00e7\u00f5es etc., e uma guinada para o investimento em ativos financeiros (o que Marx chamou de &#8216;capital fict\u00edcio&#8217;) para aumentar os lucros financeiros. Tudo isso teve como objetivo reverter a queda na lucratividade geral do capital. Conseguiu at\u00e9 certo ponto.<\/p>\n<p>Mas Blakeley descarta essa explica\u00e7\u00e3o. A ocorr\u00eancia de crises regulares no capitalismo n\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 lucratividade do capital e a lucratividade nada tem a ver com a Grande Recess\u00e3o. Em vez disso, Blakeley segue servilmente a explica\u00e7\u00e3o de analistas p\u00f3s-keynesianos como Hyman Minsky e Michel Kalecki.\u00a0 Eu e outros economistas marxistas temos dedicado muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o de que sua an\u00e1lise est\u00e1 incorreta, pois deixa de fora o principal fator de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, lucro e lucratividade. Como resultado, eles n\u00e3o podem realmente explicar as crises.<\/p>\n<p>Kalecki diz que as crises s\u00e3o causadas pela falta de &#8216;demanda efetiva&#8217;, no estilo keynesiano e, embora os governos possam superar essa falta de demanda por meio de interven\u00e7\u00f5es fiscais e outras, elas s\u00e3o bloqueadas pela resist\u00eancia pol\u00edtica dos capitalistas. Como Blakeley diz, <em>\u201co argumento de Kalecki n\u00e3o \u00e9 que a socialdemocracia seja economicamente inst\u00e1vel, mas politicamente inst\u00e1vel\u201d.<\/em> Para Kalecki, crises causadas pelos capitalistas tornam-nos politicamente indispostos a concordar com as reformas. Ent\u00e3o, aparentemente, a socialdemocracia funcionaria sob o capitalismo se n\u00e3o fosse pela estupidez dos capitalistas!<\/p>\n<p>Minsky estava certo ao dizer que o setor financeiro \u00e9 inerentemente inst\u00e1vel e o crescimento maci\u00e7o da d\u00edvida nos \u00faltimos 40 anos aumenta essa vulnerabilidade &#8211; Marx afirmou esse ponto h\u00e1 150 anos em <em>O Capital<\/em>.\u00a0 Mas quebras financeiras nem sempre levam a quedas na produ\u00e7\u00e3o e no investimento. De fato, n\u00e3o houve crise financeira (fal\u00eancias banc\u00e1rias, colapso do mercado acion\u00e1rio, colapso dos pre\u00e7os das casas, etc.) que tenha levado a uma queda na produ\u00e7\u00e3o e no investimento capitalista, <em>a<\/em> <em>menos que<\/em> houvesse tamb\u00e9m uma crise na lucratividade do setor produtivo da economia capitalista. O \u00faltimo ainda \u00e9 decisivo.<\/p>\n<p>Em um cap\u00edtulo do livro, <em>World in Crisis<\/em>, editado por G. Carchedi e eu (infelizmente novamente n\u00e3o \u00e9 um best-seller), Carchedi fornece um apoio emp\u00edrico convincente para o v\u00ednculo entre os setores financeiro e produtivo nas crises capitalistas. Carchedi afirma: <em>\u201cDiante da queda da lucratividade na esfera produtiva, o capital passa de baixa rentabilidade nos setores produtivos para alta rentabilidade nos setores financeiro (ou seja, improdutivo). Mas os lucros nesses setores s\u00e3o fict\u00edcios; eles existem apenas nos livros cont\u00e1beis. Eles se tornam lucros reais apenas quando recebidos. Quando isso acontece, os lucros dispon\u00edveis para os setores produtivos diminuem. Quanto mais capitais tentam obter taxas de lucro mais altas movendo-se para os setores improdutivos, maiores s\u00e3o as dificuldades nos setores produtivos. Essa contratend\u00eancia &#8211; movimento de capital para os setores financeiro e especulativo e, portanto, taxas de lucro mais altas nesses setores &#8211; n\u00e3o pode conter a tend\u00eancia, isto \u00e9, a queda na taxa de lucro nos setores produtivos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Carchedi descobre que: <em>\u201cAs crises financeiras devem-se \u00e0 impossibilidade de pagar d\u00edvidas e surgem quando o crescimento percentual [dos lucros] est\u00e1 caindo <u>tanto<\/u> para lucros financeiros quanto para lucros reais\u201d. <\/em>\u00a0De fato, em 2000 e 2008, os lucros financeiros ca\u00edram mais do que os lucros reais pela primeira vez. Carchedi conclui que: <em>\u201cA deteriora\u00e7\u00e3o do setor produtivo nos anos anteriores \u00e0 crise \u00e9, portanto, a causa comum das crises financeiras e n\u00e3o financeiras. Se elas t\u00eam uma causa comum, \u00e9 irrelevante se uma precede a outra ou vice-versa. O ponto \u00e9 que o (deteriora\u00e7\u00e3o do) setor produtivo <u>determina<\/u> as (crises no) setor financeiro\u201d.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-29643 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-2.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-2.png 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-2-300x181.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Fig-2-150x90.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 2: Coluna preta: queda nos lucros financeiros; coluna cinza: queda nos lucros produtivos.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode perguntar: importa se as desigualdades e crises que experimentamos no capitalismo s\u00e3o causadas pela financeiriza\u00e7\u00e3o ou pelas leis de valor e rentabilidade de Marx? Afinal, todos podemos concordar que a resposta \u00e9 acabar com o sistema capitalista, n\u00e3o? Bem, acho que isso importa, porque a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica flui das teorias. Se aceitarmos a financeiriza\u00e7\u00e3o como a causa de todos os nossos problemas, isso significa que apenas as finan\u00e7as s\u00e3o inimigas do trabalho e dos trabalhadores e n\u00e3o os bons capitalistas produtivos, como a Amazon, que somente nos exploram no local de trabalho? N\u00e3o deveria, mas faz. Tome o pr\u00f3prio Minsky como exemplo. \u00a0Minsky come\u00e7ou como socialista, mas sua pr\u00f3pria teoria da financeiriza\u00e7\u00e3o nos anos 80 levou-o a n\u00e3o expor as falhas do capitalismo, mas a explicar como um capitalismo inst\u00e1vel poderia ser &#8220;estabilizado&#8221;.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida Blakeley \u00e9 feito de material mais severo. Blakeley diz que devemos enfrentar os banqueiros no mesmo grau de crueldade que Thatcher e Reagan enfrentaram o movimento sindical no per\u00edodo neoliberal a partir da d\u00e9cada de 1980. Blakeley diz que \u201c<em>o manifesto do Partido Trabalhista parece um retorno ao consenso do p\u00f3s-guerra &#8230; n\u00e3o podemos nos dar ao luxo de ser t\u00e3o defensivos hoje. N\u00f3s devemos lutar por algo mais radical\u2026. porque o modelo capitalista est\u00e1 ficando sem rumo. Se n\u00e3o conseguirmos substitu\u00ed-lo, n\u00e3o h\u00e1 como dizer que n\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o seu colapso pode trazer.\u201d<\/em> (P\u00e1g. 229). Isso soa como o rugido de um le\u00e3o do socialismo. Mas, quando se trata das pol\u00edticas reais para lidar com o capital financeiro, Blakeley torna-se um rato da socialdemocracia.<\/p>\n<p>Primeiro, Blakeley diz que \u201c<em>devemos adotar uma agenda pol\u00edtica que desafie a hegemonia do capital financeiro, revogando seus privil\u00e9gios e colocando os poderes do investimento novamente sob controle democr\u00e1tico\u201d.\u00a0 <\/em>Eu tenho argumentado nas reuni\u00f5es do movimento sindical da Gr\u00e3-Bretanha que a \u00fanica maneira de tornar o controle democr\u00e1tico \u00e9 trazer para a propriedade p\u00fablica os cinco grandes bancos que controlam 90% dos empr\u00e9stimos e dep\u00f3sitos na Gr\u00e3-Bretanha. Apenas a regulamenta\u00e7\u00e3o desses bancos n\u00e3o funciona e n\u00e3o funcionar\u00e1.<\/p>\n<p>No entanto, Blakeley ignora essa op\u00e7\u00e3o e pede medidas de &#8216;restri\u00e7\u00e3o&#8217; aos bancos existentes, ao mesmo tempo em que prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um banco p\u00fablico de varejo ou bancos postais em concorr\u00eancia junto com um <em>Banco Nacional de Investimento<\/em>. <em>\u201cO financiamento privado deve ser adequadamente restringido\u201d<\/em> (mas n\u00e3o controlado), <em>\u201cusando ferramentas reguladoras adotadas internacionalmente\u201d (pag. 285).\u00a0 <\/em>Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, Blakeley refere-se a Lenin. Talvez Blakeley deva se lembrar do que Lenin disse sobre os bancos. <em>\u201cOs bancos, como sabemos, s\u00e3o centros da vida econ\u00f4mica moderna, os principais centros nervosos de todo o sistema econ\u00f4mico capitalista. Falar sobre &#8220;regular a vida econ\u00f4mica&#8221; e, no entanto, fugir da quest\u00e3o da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos significa trair a mais profunda ignor\u00e2ncia ou enganar as pessoas comuns com palavras floridas e promessas grandiloquentes com a inten\u00e7\u00e3o deliberada de n\u00e3o cumprir essas promessas&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Quanto ao <em>Banco Nacional de Investimento (NIB)<\/em>, uma promessa do manifesto do Partido Trabalhista, ela deixa a maioria das decis\u00f5es e recursos de investimentos nas m\u00e3os do setor financeiro capitalista.\u00a0 Como mostrei antes, o NIB adicionaria apenas 1-2% do PIB em investimentos extras na economia brit\u00e2nica, em compara\u00e7\u00e3o com 15-20% em investimentos controlados pelo setor capitalista. Portanto, a <em>financeiriza\u00e7\u00e3o<\/em> n\u00e3o seria contida.<\/p>\n<p>A outra proposta-chave de Blakeley \u00e9 um <em>People&#8217;s Asset Manager<\/em> (PAM)<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, que gradualmente compraria a\u00e7\u00f5es das grandes multinacionais, <em>&#8220;socializando a propriedade em toda a economia&#8221;<\/em> e <em>&#8220;pressionando as empresas&#8221;<\/em> a apoiar investimentos em projetos socialmente \u00fateis.\u00a0 <em>\u201c\u00c0 medida que um sistema banc\u00e1rio p\u00fablico surge e cresce ao lado de um gerenciamento de ativos do povo, a propriedade ser\u00e1 constantemente transferida do setor privado para o setor p\u00fablico\u201d (pag. 268) \u201cem uma aposta para dissolver a distin\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho\u201d<\/em> (p. 267). Portanto, o objetivo de Blakeley n\u00e3o \u00e9 acabar com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, assumindo os principais setores de investimento e produ\u00e7\u00e3o capitalista, mas dissolver gradualmente a &#8220;distin\u00e7\u00e3o&#8221; entre capital e trabalho.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a \u00faltima palavra em termos de gradualismo ut\u00f3pico. Os capitalistas ficariam parados enquanto seus poderes de controle s\u00e3o gradualmente ou constantemente perdidos? Uma \u201cgreve de investimentos\u201d aconteceria e qualquer governo socialista seria confrontado com a tarefa de assumir o controle por completo. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o definir completamente um programa para uma economia p\u00fablica de controle democr\u00e1tico com um plano nacional de investimento, produ\u00e7\u00e3o e emprego?<\/p>\n<p><em>O<\/em> objetivo de <em>Stolen<\/em> \u00e9 oferecer uma an\u00e1lise radical das crises e contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo moderno e das pol\u00edticas que poderiam acabar com a <em>financeiriza\u00e7\u00e3o<\/em> e passar o controle do futuro econ\u00f4mico \u00e0 coletividade. Mas, como a an\u00e1lise est\u00e1 manca, as pol\u00edticas tamb\u00e9m s\u00e3o inadequadas.<\/p>\n<p>Fonte: Michael Roberts, <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2019\/09\/13\/theft-or-exploitation-a-review-of-stolen-by-grace-blakeley\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Theft or exploitation? &#8211; a review of Stolen by Grace\u00a0Blakeley<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Roubado: como salvar o mundo da financeiriza\u00e7\u00e3o, em tradu\u00e7\u00e3o literal.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cProfit upon alienation\u201d: isto \u00e9, a obten\u00e7\u00e3o de lucro sem cria\u00e7\u00e3o de valor. Por exemplo, a venda de um objeto mais caro do que o pre\u00e7o de compra ou ganhos de capital pela venda de propriedades.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/economicsofimperialism.blogspot.com\/2014\/01\/capitalist-production-good-capitalist.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/economicsofimperialism.blogspot.com\/2014\/01\/capitalist-production-good-capitalist.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2018\/04\/02\/marxs-law-of-value-a-debate-between-david-harvey-and-michael-roberts\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2018\/04\/02\/marxs-law-of-value-a-debate-between-david-harvey-and-michael-roberts\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <a href=\"https:\/\/stavrosmavroudeas.wordpress.com\/2019\/08\/08\/an-interview-with-bryan-and-rafferty-and-the-fallacies-of-financialisationism-some-comments-by-stavros-mavroudeas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/stavrosmavroudeas.wordpress.com\/2019\/08\/08\/an-interview-with-bryan-and-rafferty-and-the-fallacies-of-financialisationism-some-comments-by-stavros-mavroudeas\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Isto \u00e9, a lei da queda tendencial da taxa de lucros.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Gerenciamento de Ativos do Povo<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcos Margarido<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda a nossa riqueza foi roubada pelo grande capital financeiro e, ao faz\u00ea-lo, deixou a economia de joelhos. Portanto, devemos nos salvar do grande capital financeiro. Essa \u00e9 minha sinopse de um novo livro, Stolen \u2013 how to save the world from financialisation, de Grace Blakeley.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":29647,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[32],"tags":[7818,7819,34,7820],"class_list":["post-29642","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-financeirizacao","tag-grace-blakeley","tag-michael-roberts","tag-stolen"],"fimg_url":false,"categories_names":["Economia"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29642\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}