{"id":29618,"date":"2019-09-15T12:49:47","date_gmt":"2019-09-15T14:49:47","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29618"},"modified":"2019-09-15T12:49:47","modified_gmt":"2019-09-15T14:49:47","slug":"daniel-ruiz-estou-bem-porque-estou-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/09\/15\/daniel-ruiz-estou-bem-porque-estou-vivo\/","title":{"rendered":"Daniel Ruiz: \u00abEstou bem porque estou vivo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Daniel Ruiz \u00e9 a \u00fanica pessoa privada da liberdade pelas manifesta\u00e7\u00f5es populares que ganharam as ruas argentinas durante a discuss\u00e3o pela Reforma da Previd\u00eancia. H\u00e1 \u00a0um ano de sua deten\u00e7\u00e3o em uma causa com v\u00e1rios pontos obscuros e sem data de julgamento, Daniel falou com C\u00edtrica na penitenci\u00e1ria de Marcos Paz.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Volkind, da Revista C\u00edtrica<\/p>\n<p>Fotos: Nicol\u00e1s Cardello<\/p>\n<p>A primeira dificuldade com Daniel Ruiz \u00e9 que poucos o conhecem.<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 Daniel Ruiz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>O trabalhador que hoje cumpleta um ano preso por enfrentar a Reforma da Previdencia? O delegado que terminou organizando seus companheiros de pavilh\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>O fan\u00e1tico do River que escreve uma cr\u00f4nica na pris\u00e3o sobre o Supercl\u00e1ssico e cita Marx? O petroleiro de Comodoro Rivadavia que se fortaleceu sob as geadas? O pai que s\u00f3 quer voltar a estar com sua filha?<\/p>\n<p><strong>O moreno que tem sangue mapuche no corpo? O demitido que aprendeu a democracia nas assembleias piqueteiras dos anos 90? O preso que come\u00e7ou h\u00e1 uns dias uma greve de fome na penitenci\u00e1ria de Marcos Paz porque est\u00e1 sem condena\u00e7\u00e3o e sem data de julgamento?<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Daniel Ruiz \u00e9 a de uma injusti\u00e7a que precisa ser conhecida.<\/p>\n<h5><em>\u00abPrecisam de mim preso\u00bb,disse Daniel Ruiz para explicar porque n\u00e3o est\u00e1 em liberdade em um processo sem data de julgamento.<\/em><\/h5>\n<p><strong>Uma ca\u00e7ada ampliada pela m\u00eddia<\/strong><\/p>\n<p>A primeira derrota de Macri foi nas ruas. E foi um dezembro. O Governo tinha ganhado confortavelmente as elei\u00e7\u00f5es de 2017 e considerou que era o momento adequado para avan\u00e7ar com seus objetivos de fundo: destruir o sistema da previd\u00eancia e os direitos trabalhistas. \u201c A mudan\u00e7a custa, mas n\u00e3o h\u00e1 desculpas: \u00e9 agora ou nunca\u201d, advertiu o Presidente da Na\u00e7\u00e3o quando apresentou os projetos das reformas trabalhista e da previd\u00eancia no Congresso.<\/p>\n<p>Mas a prepot\u00eancia do \u201cagora\u201d topou com um obst\u00e1culo: o povo. <strong>Naquele dezembro, milhares e milhares de trabalhadores sa\u00edram \u00e0s ruas e desafiaram os planos do macrismo. Daniel Ruiz foi um deles. <\/strong><strong>Motivos n\u00e3o lhe faltavam: \u201cOs petroleiros \u2013 diz agora em uma pequena sala em Marcos Paz, enquanto acontece a conversa com <\/strong><em>C\u00edtrica<\/em>\u2013 trabalhamos na intemp\u00e9rie, no meio dos campos petrol\u00edferos, em clima hostil. Por isso nos aposentamos aos 50 anos. Com a Reforma da previd\u00eancia querem que nos aposentemos aos 65 anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>A insol\u00eancia dos trabalhadores foi respondida com balas de borracha. Em 14 de dezembro, a repress\u00e3o nos arredores do Congresso foi t\u00e3o escandalosa que tiveram que suspender a sess\u00e3o. <\/strong>\u201c\u00c9 agora ou nunca\u201d, havia dito Macri e reprogramou a discuss\u00e3o parlamentar para quatro dias depois.<\/p>\n<p>Em 18 de dezembro, \u201ca melhor equipe dos \u00faltimos 50 anos\u201d organizou um operativo de acordo com suas inten\u00e7\u00f5es: <strong>bloqueou o Congresso com barreiras, colocou em marcha os carros hidrantes e deslocou 1200 policiais da Cidade com seu c\u00e3es para os arredores do Parlamento.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O dia de luta foi, logicamente, uma ca\u00e7ada<\/strong><\/p>\n<p>Sete manifestantes receberam balas de borracha em seus olhos (quatro deles perderam a vista), outros receberam rajadas a menos de um metro de distancia, v\u00e1rios aposentados foram atropelados por motos policiais e atingidos com g\u00e1s pimenta na cara, e at\u00e9 foi necess\u00e1rio evacuar a esta\u00e7\u00e3o S\u00e1enz Pe\u00f1a do metr\u00f4 A porque n\u00e3o era poss\u00edvel respirar por causa dos gases.<strong> A Reforma da previd\u00eancia foi aprovada, mas ferida de morte.<\/strong><\/p>\n<p>Nessa mesma noite, milhares de pessoas autoconvocadas marcharam dos os bairros at\u00e9 o Congresso e se concentraram em diversas pra\u00e7as de todo o pa\u00eds repudiando o ajuste e a repress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O esp\u00edrito de 2001 se fez presente e, nesse contexto, o Governo procurou ocupar o lugar de v\u00edtima. A estrat\u00e9gia foi colocar na capa dos jornais Sebasti\u00e1n Romero, um militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU)<\/strong>\u00a0que esteve na primeira fila atirando um morteiro pirot\u00e9cnico, como o verdadeiro perigo para a democracia. E enquanto a m\u00eddia reproduzia at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o as imagens do \u201cgordo do morteiro\u201d, a ministra da Seguran\u00e7a, Patricia Bullrich, come\u00e7ou a ca\u00e7\u00e1-lo como se tratasse de um foragido nazista.<\/p>\n<h5><em>Com milhares de pessoas mobilizadas contra a Reforma da previd\u00eancia, o Governo desatou uma ca\u00e7ada.<\/em><\/h5>\n<p>Mas os meses passavam e a ministra de ferro come\u00e7ou a mostrar os fios de sua imper\u00edcia. Em julho de 2018, enquanto assegurava que Romero estava \u201ccercado\u201d, elevou a um milh\u00e3o de pesos a recompensa para quem fornecesse informa\u00e7\u00e3o sobre seu paradeiro, o dobro do oferecido para criminosos de lesa humanidade e narcotraficantes.<\/p>\n<p><strong>Sem dados sobre Romero, Bullrich decidiu deter Daniel, seu companheiro do partido.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMinha deten\u00e7\u00e3o \u2013 disse \u2013 \u00e9 uma expl\u00edcito ataque contra Sebasti\u00e1n Romero, para que o companheiro se entregue\u201d. Ruiz n\u00e3o tem condena\u00e7\u00e3o nem data de julgamento. Em meio desse limbo judicial, esta semana come\u00e7ou uma greve de fome para exigir ser recebido nos tribunais, junto a seus advogados e \u00e0 Promotoria.<\/p>\n<p>Se a justi\u00e7a n\u00e3o escuta suas palavras, ser\u00e1 o estomago que ter\u00e1 que falar.<\/p>\n<h5><em>\u00abMinha deten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma <\/em><em>arremetida<\/em><em> contra Sebasti\u00e1n Romero, para que o companheiro se entregue\u00bb<\/em><\/h5>\n<p><strong>Voce \u00e9 Ruiz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sozinho, na cela, Daniel escutou a pergunta e sem levantar os olhos empunhou com for\u00e7a a garrafa t\u00e9rmica. Rec\u00e9m chegado em Marcos Paz, tudo era um alerta. Compartilhava o pavilh\u00e3o com presos por homic\u00eddio, piratas do asfalto e sequestradores. Sabia que o Servi\u00e7o Penitenci\u00e1rio tinha colocado no ar que pagariam um milh\u00e3o de pesos a quem localizasse Sebasti\u00e1n Romero. Era quest\u00e3o de horas para que algu\u00e9m fisgasse e se aproximasse para perguntar.<\/strong><\/p>\n<p>-Voce \u00e9 Ruiz?<\/p>\n<p>Daniel amea\u00e7ou com a garrafa t\u00e9rmica, a \u00fanica coisa que tinha em m\u00e3os.<\/p>\n<p>-N\u00e3o, para \u2013 o tranquilizaram &#8211; &#8211; Voc\u00ea tem contato com as pessoas dos Direitos Humanos?<\/p>\n<p>A pergunta, impensada, lhe devolveu a respira\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m lhe abriu um novo horizonte no pavilh\u00e3o: o de porta-voz das reivindica\u00e7\u00f5es. Sem procurar, Daniel se deu conta de que, ainda que detido, continuaria na luta porque Marcos Paz \u00ab\u00e9 um lugar atroz para as pessoas presas\u00bb. A defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sua, e sim da pr\u00f3pria Justi\u00e7a, que h\u00e1 dois meses acabou proibindo novas entradas na penitenci\u00e1ria: h\u00e1 2800 presos, enquanto as vagas s\u00e3o para 1472.<\/p>\n<p><strong>Daniel fala sobre a realidade carcer\u00e1ria: \u201cAqui havia muita quentura porque, pela superpopula\u00e7\u00e3o, impuseram \u00e0 for\u00e7a a cela para dois, tiraram a gin\u00e1stica e diminu\u00edram a quadra de futebol para agregar pavilh\u00f5es\u201d. \u201cNo final organizando uma peti\u00e7\u00e3o\u201d, <\/strong>acrescenta.<\/p>\n<h5><em>O Servi\u00e7o Penitenci\u00e1rio fez circular nos pavilh\u00f5es que havia uma recompensa milion\u00e1ria para encontrar o foragido Romero. <\/em><\/h5>\n<p>A resposta da penitenci\u00e1ria ante a organiza\u00e7\u00e3o dos presos foi o medo. E o castigo. \u201cEm meia hora tem que desalojar o pavilh\u00e3o\u201d, lhes ordenaram uns dias mais tarde. Os 50 internos foram transferidos para outro pavilh\u00e3o completamente destru\u00eddo, com vasos sanit\u00e1rios sem descarga, vidros quebrados e muitas celas sem \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>Os presos chegaram com vontade de ir para o choque. Daniel falou: \u201cNo calor do momento nada. Tenho experi\u00eancia em greves, n\u00e3o em motins. E nunca vi um motim vitorioso\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>No outro dia, pela primeira vez, fizeram uma assembleia. <strong>\u201cNa pris\u00e3o se diz que a pessoa entra sozinha e vai embora sozinha, mas isso \u00e9 o que eles querem que acreditemos, querem nos dividir\u201d, <\/strong>disse Daniel enquanto os penitenci\u00e1rios apontavam desde cima. \u201cMas n\u00e3o estamos s\u00f3s, est\u00e3o nossas fam\u00edlias e nossos companheiros. H\u00e1 muitas coisas pelas quais lutar. O pavilh\u00e3o tem que se levantar e daqui vamos todos juntos. N\u00e3o vamos lhes dar esse gosto\u201d.<\/p>\n<h5><em>Daniel conseguiu organizar uma assembleia e entre os detidos <\/em><em>organizaram<\/em><em> uma peti\u00e7\u00e3o pelas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de deten\u00e7\u00e3o.<\/em><\/h5>\n<p><strong>Comodoro<\/strong><\/p>\n<p>Na pris\u00e3o, apelidaram Daniel de \u00abComodoro\u00bb por sua origem chubutense.\u00a0 <strong>\u201cNada daqui \u00e9 diferente do meu bairro\u201d, explica. <\/strong>Diz Comodoro Rivadavia, sua cidade, \u00ab\u00e9 muito violenta, com profundas desigualdades\u00bb. Exemplifica: \u00abPan American Energy fatura 4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano e a cidade n\u00e3o tem rede de \u00e1gua, nem hospitais de alta complexidade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Capital nacional do petr\u00f3leo nos anos\u201990, Comodoro Rivadavia tamb\u00e9m foi ber\u00e7o de desempregados, da fome e da luta. Nesse fogo se forjou Daniel:<\/strong><strong> \u201cMinha primeira assembleia foi em 1998 por um corte de luz. Tinham demitido 3 mil trabalhadores e ningu\u00e9m podia pagar\u201d. Assim surgiu a Coordena\u00e7\u00e3o de Trabalhadores Demitidos, emblema do movimento de demitidos em sua prov\u00edncia, e Daniel se transformou em um de seus dirigentes.<\/strong><\/p>\n<p>Passou esses anos entre piquetes e fraldas: \u201cMinha filha nasceu em 2001, quando caiu Lopez Murphy. Me lembro porque tenho uma foto na estrada onde a tenho em meus bra\u00e7os\u201d.<\/p>\n<p><strong>Em 2002 e depois de uma longa luta, Daniel conseguiu entrar na Repsol. \u201cL\u00e1 senti mais hostilidade\u00a0 do que ao entrar na pris\u00e3o\u201d, compara. <\/strong><strong>\u201cComo era piqueteiro me mandaram fazer os piores trabalhos. Estive um ano inteiro cavando com um frio de 17 graus abaixo de zero, mas aguentei por dignidade. Queria ganhar o respeito dos meus companheiros\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Depois come\u00e7ou a trabalhar no po\u00e7o e foi eleito delegado.<\/strong> \u201cNo petr\u00f3leo trabalhamos em equipe, com barras que pesam 300 kilos. <strong>Quando perfuras, v\u00eas somente a m\u00e3o de teu companheiro. Tens que confiar no n\u00f3 que fez\u201d. <\/strong>\u00a0Ressalta : \u201cQuando faz isso em uma greve, n\u00e3o pode perder\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma confian\u00e7a que tem em seu companheiro Sebasti\u00e1n Romero.\u00a0<strong>\u201cEstou muito orgulhoso de ti porque este governo vai sair, e com ele Patricia Bullrich, que gosta de reprimir e matar pelas costas, <\/strong><strong>mas n\u00e3o conseguiram te encontrar\u201d, lhe escreveu em uma carta aberta. \u201cSe tenho que estar preso para que voc\u00ea esteja bem o farei, porque sei que tua liberdade \u00e9 o pior castigo para o governo capacho e antioper\u00e1rio de Cambiemos\u201d, afirma com convic\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<h5><em>\u00abNa Repsol senti mais hostilidade que ao entrar n<\/em><em>a pris\u00e3o<\/em><em>\u00bb<\/em><\/h5>\n<p><strong>Um trof\u00e9u para o Governo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA incid\u00eancia do Poder Executivo no caso \u00e9 n\u00edtida\u201d, disse Mart\u00edn Alderete, o advogado de Ruiz. Seu defendido <strong>est\u00e1 acusado de ter participado no dia 18 de dezembro em \u201cuma esp\u00e9cie de compl\u00f4\u201d para arrancar barreiras e lesionar policiais utilizando uma arma de \u201cfabrica\u00e7\u00e3o caseira\u201d. <\/strong>Entretanto , <strong>durante a investiga\u00e7\u00e3o judicial nada disso p\u00f4de ser comprovado e terminou sendo processado por intimida\u00e7\u00e3o p\u00fablica, atentado e resist\u00eancia \u00e0 autoridade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u201cA prova que h\u00e1 contra ele \u00e9 uma imagem que dura menos de dois minutos onde \u00e9 visto a 15 metros do cord\u00e3o policial <\/strong>e utilizando material pirot\u00e9cnico de venda livre, disparando para cima\u201d, assegura Alderete e proporciona mais detalhes: \u201cH\u00e1 sete horas de grava\u00e7\u00e3o desse dia, entre c\u00e2meras da Pol\u00edcia e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, e nesse lapso h\u00e1 um mont\u00e3o de pessoas que s\u00e3o vistas atirando pedras, derrubando as barreiras, enfrentando a Pol\u00edcia. S\u00f3 se v\u00ea Daniel dois minutos disparando para cima um tipo de pirotecnia que gera ru\u00eddo e que s\u00f3 \u00e9 arriscada para quem a est\u00e1 manipulando\u201d.<\/p>\n<p>Para o Governo, em contrapartida, tratou-se de uma arma de fabrica\u00e7\u00e3o caseira.\u00a0 A Justi\u00e7a nunca avan\u00e7ou nesse sentido: \u201cN\u00f3s solicitamos que um especialista em explosivos explique como \u00e9 seu funcionamento e os riscos que acarreta \u2013 disse Alderete &#8211; .\u00a0 N\u00e3o fugimos da discuss\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, queremos ir a fundo. <strong>Com as imagens do v\u00eddeo, qualquer perito se d\u00e1 conta que n\u00e3o \u00e9 uma arma de fabrica\u00e7\u00e3o caseira, e sim, somente um elemento pirot\u00e9cnico<\/strong>, mas a per\u00edcia nos foi negada sistematicamente\u201d.<\/p>\n<p>Nem as inconsist\u00eancias da acusa\u00e7\u00e3o nem a perman\u00eancia de Daniel na pris\u00e3o tem explica\u00e7\u00f5es coerentes. De fato, <strong>o delito pelo qual \u00e9 acusado \u00e9 de regime aberto e inclusive poderia receber uma pena provis\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu advogado \u00e9 claro: n\u00e3o deveria ter passado um s\u00f3 dia detido. <\/strong>Entretanto, o Tribunal Oral Federal N\u00b0 3 negou sua liberta\u00e7\u00e3o em pelo menos duas oportunidades com o argumento de que, ao ser membro do mesmo partido pol\u00edtico que Romero, h\u00e1 perigo de fuga.<\/p>\n<h5><em>O juiz Torres recebeu Daniel em sua sala antes de sua deten\u00e7\u00e3o, mas o mandou para <\/em><em>a pris\u00e3o<\/em><em> por uma poss\u00edvel fuga do pa\u00eds.<\/em><\/h5>\n<p><strong>A<\/strong> <strong>suspeita resulta, pelo menos, infundada. <\/strong>Entre dezembro de 2017 e setembro de 2018 \u2013 momento em que o det\u00e9m por ordem do juiz federal Sergio Torres-,\u00a0<strong>Ruiz viajou duas vezes ao Brasil para atividades sindicais e depois voltou ao pa\u00eds. Em junho, tr\u00eas meses antes de o prenderem, encabe\u00e7ou um ato em Comodoro Py para reivindicar o fim da persegui\u00e7\u00e3o a Romero e at\u00e9 se viu cara a cara com o juiz que depois disso pediu sua deten\u00e7\u00e3o:<\/strong> \u201cEu subi \u00e0 sala de Torres para entregar-lhe uma peti\u00e7\u00e3o e ele pr\u00f3prio o recebeu em pessoa, tenho a c\u00f3pia com o carimbo\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cPrecisam de mim preso\u201d, disse Daniel.<\/strong> No transcurso deste ano detido em Marcos Paz, fizeram trinta e nove \u00a0jogos de fichas de impress\u00f5es digitais, que circularam por todo o pa\u00eds e tamb\u00e9m no exterior. Querem descobrir algum delito passado: <strong>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada, toda a vida fui trabalhador. N\u00e3o passei nem uma noite em uma delegacia. Na pris\u00e3o tenho dez em conduta. Poderiam me dar a pris\u00e3o domiciliar com a tornozeleira\u201d. <\/strong>A que se deve a negativa? \u201cPrecisam de mim preso\u201d, insiste.<\/p>\n<p><strong>A luta se leva no sangue<\/strong><\/p>\n<p>Sua fama de sindicalista correu rapidamente dentro da penitenci\u00e1ria. <strong>\u201cVoc\u00ea \u00e9 Ruiz?\u201d, voltou a escutar a pergunta, mas desta vez da boca de um agente penitenci\u00e1rio. \u201cSabe se vamos receber o abono?\u201d, lhe perguntou. <\/strong>Ruiz respondeu o que p\u00f4de e ent\u00e3o soube que ainda que n\u00e3o quisesse, iria continuar militando dentro da pris\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Com o pavilh\u00e3o em plena organiza\u00e7\u00e3o e tendo conseguido v\u00e1rias conquistas, o Diretor da penitenci\u00e1tria ofereceu transferi-lo para um lugar melhor, <\/strong>\u201conde tem fog\u00e3o para esquentar a \u00e1gua\u201d. Daniel recusou a oferta: \u201c Eu j\u00e1 me fiz aqui, e ainda teria que pagar um favor. Al\u00e9m disso, n\u00e3o seria uma forma elegante de ir-me\u201d.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, continua esquentando a \u00e1gua de improviso. \u201cS\u00e3o dois cabos e um ferro\u201d, explica. Com isso tamb\u00e9m se cozinha. <strong>Na pris\u00e3o h\u00e1 o costume de receber as visitas com alguma coisa, o pouco que possa. A primeira vez que a filha veio visit\u00e1-lo, Daniel tinha feito uns p\u00e3ezinhos, mas seus companheiros lhe deram uma pizza: \u201cAqui dentro vamos construindo la\u00e7os. Para o Estado, a vida humana n\u00e3o vale nada, mas confio nas pessoas. <\/strong>Aqui h\u00e1 talento desperdi\u00e7ado. Um est\u00edmulo para reduzir a pena \u00e9 estudar, mas quem te d\u00e1 uma folha de papel? A pris\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reabilita\u00e7\u00e3o, \u00e9 um castigo\u201d.<\/p>\n<h5><em>Pela organiza\u00e7\u00e3o dos presos, o Diretor d<\/em><em>a penitenci\u00e1ria<\/em><em> lhe ofereceu um<\/em><em>a tranfer\u00eancia<\/em><em> para um lugar mais c\u00f4modo. Daniel recusou.<\/em><\/h5>\n<p>Daniel afirma que seu caso \u00e9 um entre milhares. \u201c57% dos presos deste pa\u00eds est\u00e3o com pris\u00e3o preventiva, o que quer dizer que muitos dos que estamos aqui tranquilamente poder\u00edamos estar livres\u201d, afirma. Qual \u00e9 a medida do ajuste na pris\u00e3o? <strong>\u201cO corte or\u00e7ament\u00e1rio que h\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o e na sa\u00fade, tamb\u00e9m se v\u00ea aqui: cada vez menos quantidade e qualidade da comida que se entrega aos companheiros dos pavilh\u00f5es, os insumos da limpeza&#8230;a superpopula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria faz com que os esgotos colapsem, que a \u00e1gua n\u00e3o seja suficiente, que haja cortes de luz cont\u00ednuos porque n\u00e3o h\u00e1 abastecimento\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Esse contexto, ao inv\u00e9s de desanim\u00e1-lo, lhe d\u00e1 novos motivos para defender suas convic\u00e7\u00f5es: <strong>\u201cAt\u00e9 o \u00faltimo dia da minha vida vou lutar pelos presos, porque este sistema \u00e9 uma m\u00e1quina atroz. Quando era piqueteiro lutava para que os piqueteiros desaparecessem. E aqui \u00e9 o mesmo\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>-Como voc\u00ea est\u00e1? -lhe pergunto.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Eu estou bem porque estou vivo.<\/strong><\/p>\n<p>. A casa onde transcorre a conversa \u00e9 cinza, \u00famida, austera e sem janelas do Complexo Penitenci\u00e1rio Federal II de Marcos Paz.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u201cJ\u00e1 demos muitos m\u00e1rtires para a causa: <\/strong>Teresa Rodr\u00edguez, Rafael Nahuel\u00bb, enumera. Como continua isto? <strong>\u201cTenho a paciencia necess\u00e1ria. Esta promiss\u00f3ria n\u00e3o ficar\u00e1 impune: ou a cobro ou outro a cobrar\u00e1\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>-Quem \u00e9 Daniel Ruiz?<\/p>\n<p><strong>-Um lutador. Algu\u00e9m que n\u00e3o cruza os bra\u00e7os.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Daniel-1-3-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-29620 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Daniel-1-3-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" \/><\/a><\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/revistacitrica.com\/libertad-daniel-ruiz-reforma-previsional.html<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Ruiz \u00e9 a \u00fanica pessoa privada da liberdade pelas manifesta\u00e7\u00f5es populares que ganharam as ruas argentinas durante a discuss\u00e3o pela Reforma da Previd\u00eancia. H\u00e1 \u00a0um ano de sua deten\u00e7\u00e3o em uma causa com v\u00e1rios pontos obscuros e sem data de julgamento, Daniel falou com C\u00edtrica na penitenci\u00e1ria de Marcos Paz.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":29620,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[94,1371,4311],"tags":[7803,7811,878,7812],"class_list":["post-29618","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-argentina","category-daniel-ruiz","category-solidaridade-daniel-ruiz","tag-12s-daniel-ruiz","tag-alejandro-volkind","tag-daniel-ruiz","tag-revista-critica"],"fimg_url":false,"categories_names":["Argentina","Daniel Ruiz","Solidariedade Daniel Ruiz"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29618\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}