{"id":29409,"date":"2019-09-06T13:22:09","date_gmt":"2019-09-06T15:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29409"},"modified":"2019-09-06T13:22:09","modified_gmt":"2019-09-06T15:22:09","slug":"coisificacao-chibata-e-tortura-as-marcas-da-historia-nas-costas-de-um-jovem-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/09\/06\/coisificacao-chibata-e-tortura-as-marcas-da-historia-nas-costas-de-um-jovem-negro\/","title":{"rendered":"\u201cCoisifica\u00e7\u00e3o\u201d, chibata e tortura: as marcas da Hist\u00f3ria nas costas de um jovem negro"},"content":{"rendered":"<p><em>Quando cheguei \u00e0 faculdade para dar aula, ontem \u00e0 noite, fiquei sabendo da lament\u00e1vel hist\u00f3ria sobre o garoto de 17 anos (chamado de E., pela imprensa) que, pego roubando barras de chocolate, foi preso num quartinho, humilhado e brutalmente torturado no supermercado Ricoy, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo,<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por:Wilson Hon\u00f3rio da Silva, da Secretaria Nacional de Forma\u00e7\u00e3o do PSTU<\/p>\n<p>Por uma daquelas coincid\u00eancias da vida, a disciplina era Hist\u00f3ria da \u00c1frica e o tema era a rela\u00e7\u00e3o entre tr\u00e1fico negreiro e as ideologias racistas criadas para justificar a escravid\u00e3o, transformada em pe\u00e7a-chave para o projeto de ac\u00famulo de capital pela burguesia e o desenvolvimento do capitalismo na sua primeira etapa, o chamado Mercantilismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o teria como o assunto n\u00e3o vir \u00e0 tona em sala de aula. E o texto que segue reflete um pouco desta conversa inicial que tive com meus alunos, ampliada pela revolta, indigna\u00e7\u00e3o e profundo \u00f3dio que se acumularam em mim depois que, chegando em casa, me vi obrigado a assistir as cenas e ler as reportagens sobre mais este epis\u00f3dio de pura barb\u00e1rie racista.<\/p>\n<p>Ver os poucos segundos registrados no v\u00eddeo \u00e9 de embrulhar o est\u00f4mago, principalmente por sabermos que aquilo se estendeu por 40 minutos. Uma explos\u00e3o violenta e cruel de racismo que teve como palco um \u201cmercadinho\u201d num dos bairros mais empobrecidos da periferia de S\u00e3o Paulo (a Vila Joaniza, na Cidade Ademar), mas reflete toda perversidade de um sistema que surgiu assentado na criminosa pr\u00e1tica de mercantilizar gente.<\/p>\n<p>Estalos de chicote, desespero e choro abafado que ecoam s\u00e9culos de pelourinhos e chibatas. Cenas de tortura registradas pelos pr\u00f3prios carrascos com um prazer s\u00e1dico alimentado pela quase total garantia de impunidade em um pa\u00eds que, da mesma forma que nunca reparou os crimes da escravid\u00e3o, jamais prestou contas com aqueles que, nas d\u00e9cadas recentes, transformaram a tortura em pr\u00e1tica corriqueira.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/violencia-negro-agredido-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-29410 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/violencia-negro-agredido-1.jpg\" alt=\"\" width=\"689\" height=\"315\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Desumaniza\u00e7\u00e3o: a ess\u00eancia do racismo<\/strong><\/p>\n<p>Na aula, a conversa veio \u00e0 tona quando comecei a discutir como, nos anos 1500, as bases da ideologia racista foram criadas como justificativa para as necessidades econ\u00f4micas da ascendente burguesia, vinculadas n\u00e3o s\u00f3 ao uso de m\u00e3o-de-obra escrava na explora\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias, mas, tamb\u00e9m, do tr\u00e1fico negreiro, transformado, ele pr\u00f3prio, num dos neg\u00f3cios mais rent\u00e1veis da hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>Um projeto de escravid\u00e3o completamente distinto de qualquer outro (seja na antiguidade grego-romana ou dentre ind\u00edgenas americanos, asi\u00e1ticos ou, inclusive, africanos) porque partia de um principio que se transformou na ess\u00eancia do tipo de racismo que se volta particularmente contra os descendentes da Di\u00e1spora negra: a permanente tentativa de desumaniza\u00e7\u00e3o, coisifica\u00e7\u00e3o, animaliza\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Ou, como dizia Marx, da \u201creifica\u00e7\u00e3o\u201d; a forma mais radical de aliena\u00e7\u00e3o (no sentido de \u201csepara\u00e7\u00e3o\u201d) do ser humano em rela\u00e7\u00e3o a sua pr\u00f3pria humanidade e que se baseia na tentativa de <em>\u201ctransforma\u00e7\u00e3o dos seres humanos em seres semelhantes a coisas, que n\u00e3o se comportam de forma humana, mas de acordo com as leis do mundo das coisas\u201d<\/em>, como foi definido pelo <strong>Dicion\u00e1rio do Pensamento Marxista<\/strong> (Tom Bottomore, 2001, p. 314)<\/p>\n<p>Uma tentativa feita sob medida para satisfazer o projeto burgu\u00eas. Em <em><strong>\u201cCapitalismo e Escravid\u00e3o\u201d<\/strong><\/em>, o historiador marxista Eric Williams lembra que a escolha de negros e negras para esse projeto n\u00e3o se deu, a princ\u00edpio, em fun\u00e7\u00e3o da cor de nossas peles. E, de fato, \u201c<em>a raz\u00e3o era econ\u00f4mica, n\u00e3o racial\u201d<\/em><strong><em>. <\/em><\/strong>Pros gananciosos olhos europeus, a \u00c1frica era uma alternativa cheia de \u201cvantagens\u201d como, por exemplo, a proximidade geogr\u00e1fica, a popula\u00e7\u00e3o vast\u00edssima e, inclusive, a exist\u00eancia de sociedades que tinham excelente dom\u00ednio da metalurgia, centro do projeto financeiro mercantilista.<\/p>\n<p>Assim, para a burguesia, a \u00c1frica Negra surgiu como a solu\u00e7\u00e3o \u201cmelhor e mais barata\u201d para fornecer milh\u00f5es e milh\u00f5es de homens e mulheres que pudessem ser \u201ctransformados\u201d simultaneamente em <strong>moeda<\/strong> (colocados num circuito de compra, venda, aluguel, empr\u00e9stimos etc.), <strong>ferramenta<\/strong> (cujo \u201cdesgaste\u201d pouco importava, contanto que produzisse ao m\u00e1ximo), e <strong>objeto<\/strong> (podendo ser usados tanto para o trabalho quanto para prazeres s\u00e1dicos, abusos sexuais, entretenimento ou o que mais se passasse pela cabe\u00e7a dos sinhozinhos).<\/p>\n<p>Homens, mulheres, crian\u00e7as, jovens ou idosos que poderiam ser tratados como qualquer coisa. Menos como gente. E, por isso mesmo, como tamb\u00e9m foi destacado por Eric Williams, as ideologias racistas e os preconceitos associados a ela come\u00e7aram a ser criados em torno da desqualifica\u00e7\u00e3o de tudo que aproximasse negros e negras do resto da humanidade, em base \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos sobre coisas como o \u201c<em><strong>aspecto f\u00edsico dos homens, seu cabelo, sua cor e denti\u00e7\u00e3o, suas caracter\u00edsticas \u2018subumanas\u2019 (\u2026)\u201d <\/strong><\/em>etc.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, at\u00e9 hoje, tudo em n\u00f3s \u00e9 \u201cmenos\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d humano. Nosso cabelo \u00e9 de \u201cbom-bril\u201d. Nosso nariz, \u201cde batata\u201d. Nossas mulheres s\u00e3o potrancas. Nossos homens, jegues. E nossas costas s\u00e3o lombos. Carne revestida de uma pele preta que, a partir de ent\u00e3o, \u00e9 vista como sinal de que o ser a habita n\u00e3o \u00e9 digno de nenhum tipo de tratamento humano.<\/p>\n<p>E, at\u00e9 mesmo pelo momento em que vivemos, \u00e9 preciso lembrar que este foi um ensinamento imposto pela Igreja Crist\u00e3.\u00a0 Algo que n\u00e3o pode ser desconsiderado quando nos vemos amea\u00e7ados por um governo cujo fundamentalismo religioso \u00e9 herdeiro direto dos piores inquisidores medievais e dos mesmos \u201cdoutores\u201d que tiveram a \u201cgrande sacada\u201d de usar um vers\u00edculo b\u00edblico para, atrav\u00e9s dos p\u00falpitos e imposi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, convencerem o povo de que negros e negras eram todos \u201cCanitas\u201d, ou seja, descendentes de Can, o filho de No\u00e9 e, portanto, destitu\u00eddos daquilo que, na concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3, faz de algu\u00e9m um ser humano: uma alma.<\/p>\n<p>Pra quem n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria que faz parte da mitologia judaico-crist\u00e3, segundo um vers\u00edculo do G\u00eanesis, Can teria sido amaldi\u00e7oado por Deus depois de ter ridicularizado seu pai, ao v\u00ea-lo embriagado e nu. Para que fosse reconhecido, Can teria recebido uma \u201cmarca\u201d.\u00a0 No s\u00e9culo XVI, a Igreja divulgou a ideia de que esta marca seria a pele negra dos povos africanos que, consequentemente, teriam o mesmo status das \u201ccoisas e animais\u201d (igualmente desalmados).<\/p>\n<p>No supermercado, representantes de um poder min\u00fasculo e ilus\u00f3rio quando comparado com o daqueles que de fato se beneficiam e lucram cotidianamente com o racismo, os dois guardas trataram o garoto como um animal cuja vida n\u00e3o vale nada ou muit\u00edssimo menos que o chocolate que originou a apreens\u00e3o, algo evidente nos gritos que podem ser ouvidos entre uma chicotada e outra. <em>\u201cVai tomar mais uma. N\u00f3s vamos ter que te matar, moleque. Vai voltar? Voc\u00ea \u00e9 corajoso (\u2026) Caso falar algo para algu\u00e9m, vou te matar\u201d<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_29411\" style=\"width: 509px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/redenc\u0327a\u0303o-de-can-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-29411\" class=\"wp-image-29411 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/redenc\u0327a\u0303o-de-can-1.jpg\" alt=\"\" width=\"499\" height=\"599\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-29411\" class=\"wp-caption-text\">A Reden\u00e7\u00e3o de Can, 1895. De Modesto Brocos, no Museu Nacional de Belas Artes. A pintura \u00e9 a ilustra\u00e7\u00e3o da ideologia racista e religiosa da \u00e9poca e da \u201cteoria do embranquecimento\u201d. \u00c0 esquerda, a av\u00f3 agradece a Deus pelo neto de pele clara, livre portanto da \u201cmarca de Can\u201d.<\/p><\/div>\n<p><strong>A naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Repito, aqui, a mesma pergunta que fiz aos meus alunos depois de contar esta hist\u00f3ria: <em>\u201cOs seguran\u00e7as teriam feito o que fizeram se o garoto que furtou chocolates fosse branco?\u201d<\/em>. N\u00e3o, com certeza! A f\u00faria s\u00e1dica que eles demonstraram jamais seria \u201cadmiss\u00edvel\u201d contra algu\u00e9m visto como minimamente \u201cigual\u201d ou da mesma esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Coisifica\u00e7\u00e3o e animaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o portas de entrada para a naturaliza\u00e7\u00e3o e banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra negros e negras. Algo, inclusive, que a Igreja (movida n\u00e3o pela f\u00e9 do povo, mas por seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos com a coloniza\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m ajudou a justificar. E de uma forma particularmente hip\u00f3crita, ao tentar associar a submiss\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia com a \u201creconquista da alma\u201d ou da gra\u00e7a divina perdida com Can.<\/p>\n<p>Um dos maiores defensores desta ideia foi o famoso escritor e padre Antonio Vieira (1608 \u2013 1697) para quem, <em>\u201cos negros foram escolhidos por Deus e feitos \u00e0 semelhan\u00e7a de Cristo para salvar a humanidade atrav\u00e9s do sacrif\u00edcio<\/em>\u201d. Ou seja, que a escravid\u00e3o era <em>\u201cum estado de milagrosa felicidade, por meio do qual o africano podia se salvar do inferno\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Uma tese estapaf\u00fardia, mas muito perniciosa, que o padre desenvolveu com todas as letras em seu \u201cSerm\u00e3o 14\u201d, pronunciado em 1633 aos escravos da Irmandade dos Pretos de um engenho: <em>\u201cEm um engenho sois imitadores de Cristo crucificado (\u2026) porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paix\u00e3o (\u2026) Os ferros, as pris\u00f5es, os a\u00e7oites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isso se comp\u00f5e a vossa imita\u00e7\u00e3o, que se for acompanhada de paci\u00eancia, tamb\u00e9m ter\u00e1 merecimento de mart\u00edrio\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Em suma, para os poderosos da \u00e9poca, negros e negras n\u00e3o deveriam apenas ficar calados diante do sofrimento, das humilha\u00e7\u00f5es e da viol\u00eancia. Deveriam ser gratos. E se \u00e9 verdade que, por maiores estragos que as ideologias provoquem, a negrada, cedo ou tarde, percebe que n\u00e3o nasceu pra sofrer e que, muito menos, merece apanhar de tudo e de todos; tamb\u00e9m \u00e9 um fato que, pa\u00eds afora, corre solta uma persistente naturaliza\u00e7\u00e3o de que as coisas s\u00e3o assim mesmo. Que nossa carne n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 a mais barata do mercado, como tamb\u00e9m a \u201cmais boa\u201d de bater.<\/p>\n<p>No decorrer dos s\u00e9culos, essa ideia n\u00e3o poderia se sustentar apenas numa ideologia religiosa constru\u00edda atrav\u00e9s de um vers\u00edculo b\u00edblico e, inevitavelmente, na medida em que as formas de ser e os interesses do capitalismo foram mudando, tamb\u00e9m foram sendo criadas novas justificavas para banalizar a viol\u00eancia contra negros e negras.<\/p>\n<p>Na nossa hist\u00f3ria, uma das teorias que cumpre um papel fundamental para mascarar e, ao mesmo tempo, contribuir para que epis\u00f3dios como o do Ricoy se repitam \u00e9 o mito da democracia racial, sintetizado Gilberto Freyre, particularmente em <em><strong>Casa Grande &amp; Senzala<\/strong><\/em> (1933). Aqui, n\u00e3o cabe discutir os muitos aspectos do mito que, de forma ultra sint\u00e9tica, baseia-se na tentativa sistem\u00e1tica de mascarar\u00a0 e negar a exist\u00eancia do racismo.<\/p>\n<p>Mas, pra entender at\u00e9 onde pode se chegar para naturalizar cenas com a do Ricoy, basta lembrar que, no livro, Freyre faz um verdadeiro malabarismo intelectual, com distor\u00e7\u00f5es absurdas das ideias psicanal\u00edticas que come\u00e7avam a circular na \u00e9poca, para tentar nos convencer de como sua tese central (a quase inexist\u00eancia de conflitos raciais) pode ser aplicada em um pa\u00eds em que negros e negras foram torturados di\u00e1ria e sistematicamente por quase 400 anos.<\/p>\n<p>Afinal, como explicar os pelourinhos, se, nas palavras do autor, \u201c<em>a sociedade brasileira \u00e9 de todas da Am\u00e9rica a que <\/em><strong><em>se construiu mais harmoniosamente quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es raciais<\/em><\/strong><em>, dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural\u201d (p. 91)? <\/em>Como justificar os grilh\u00f5es, gargalheiras, correntes, chibatas, membros cortados etc., se os \u00a0portugueses tratavam os escravos como <em>\u201cse fossem agregados ou pessoas da fam\u00edlia\u201d? <\/em><\/p>\n<p>Incapaz de responder isto em base aos fatos hist\u00f3ricos ou de forma minimamente l\u00f3gica, Freyre (no melhor estilo de Bolsonaro e seus ministros) literalmente apelou, defendendo, como foi sintetizado por Elide Rugai num ensaio sobre o livro, que, no Brasil, as rela\u00e7\u00f5es senhor\/escravo foram <strong><em>\u201c<\/em><\/strong><em>marcadas pelo<\/em><strong><em> sadismo do primeiro <\/em><\/strong><em>e o<\/em><strong><em> masoquismo do segundo\u201d. \u00a0\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O sadismo estaria na raiz do <strong><em>\u201csimples e puro gosto de mando<\/em><\/strong>, caracter\u00edstico de todo brasileiro nascido ou criado em casa-grande de engenho\u201d, enquanto o masoquismo dos oprimidos seria decorrente do <strong><em>\u201cgosto pela domina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/strong> Afinal,<em> \u201cno \u00edntimo, o que o grosso do que se pode chamar \u2018povo brasileiro\u2019 ainda <\/em><strong><em>goza \u00e9 a press\u00e3o sobre ele de um governo m\u00e1sculo e corajosamente autocr\u00e1tico<\/em><\/strong><em>\u201d <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que Bolsonaro sequer chegou perto do livro de Freyre, mas n\u00e3o \u00e9 preciso muito pra perceber o quanto o seu milicianismo machista e autorit\u00e1rio se assemelha \u00e0s ideias do autor que, diga-se de passagem (e como prova das \u201cvoltas\u201d da Hist\u00f3ria) estavam completamente sintonizadas com as necessidades e perspectiva do repressivo, autorit\u00e1rio e conversador Estado Novo de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>O problema, contudo, \u00e9 que Bolsonaro \u00e9 representante apenas daqueles que levem os del\u00edrios reacion\u00e1rios de Freyre aos extremos do conservadorismo. A ideia de que nascemos pra apanhar \u00e9 de tal forma difundida que se manifesta at\u00e9 nas situa\u00e7\u00f5es mais inusitadas.<\/p>\n<p>Um exemplo que sempre recordo ocorreu em junho de 2015, quando o ent\u00e3o t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o nacional, Dunga, em uma entrevista dada no Paraguai, praticamente citou Freyre para reclamar do tratamento que vinha recebendo da imprensa:<em> \u201cTudo que fazia era de ruim. Ent\u00e3o, eu <\/em><strong><em>at\u00e9 acho que sou afrodescendente, de tanto que apanhei e gosto de apanhar<\/em><\/strong><em>. Os caras olham e batem\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Por mais absurda que seja a analogia saindo da boca de um sujeito como Dunga, o fato \u00e9 que a negrada sabe muito bem o quando de verdade existe nela. Na perifa \u00e9 assim\u2026 <em>\u201cos caras olham e batem\u2026\u201d<\/em>. N\u00e3o tem pergunta, \u201cn\u00e3o tem \u2018mas\u2019 nem \u2018porqu\u00ea\u2019\u201d. \u00c9 tapa na cara. \u00c9 soco no est\u00f4mago. \u00c9 cano na boca.<\/p>\n<p>E quanto surge a oportunidade\u2026 \u00e9 Ricoy, \u00e9 Candel\u00e1ria, \u00e9 Carandiru, \u00e9 Eldorado dos Caraj\u00e1s, \u00e9 o boteco da quebrada, \u00e9 Marielle, \u00e9 a trans negra esfaqueada, \u00e9 o mendigo queimado, \u00e9 o garoto estrangulado no Extra, \u00e9 Claudia arrastada como lixo por um cambur\u00e3o nas ruas do Rio. \u00c9 mais um corpo estendido no ch\u00e3o e, de prefer\u00eancia, deixado em pra\u00e7a p\u00fablica como exemplo.<\/p>\n<p>Porque, pro racista (assim como o lgbtf\u00f3bico e o machista), n\u00e3o \u00e9 apenas a surra ou a brutalidade do assassinato que importam. A intensidade da viol\u00eancia tamb\u00e9m fundamental. \u00c9 preciso, pra al\u00e9m de destro\u00e7ar o corpo, ferir a ess\u00eancia do ser e n\u00e3o deixar d\u00favidas sobre quem \u201cmanda\u201d. Da mesma forma \u00e9 preciso expor o massacre. Coisas que, diga-se de passagem, tamb\u00e9m s\u00e3o t\u00e3o velhas quanto as ideologias racistas, com comprovam dois depoimentos de religiosos da \u00e9poca colonial.<\/p>\n<p>Um deles, em 1758, defendia que \u201ca <em>primeira hospedagem que lhes fazem logo que comprados <\/em>(\u2026) <em>\u00e9 mand\u00e1-los a\u00e7oitar rigorosamente, <\/em>(\u2026) <em>incul\u00adcando-lhes, que s\u00f3 eles nasceram para competentemente dominar escravos, e para serem por eles temidos e respeitados, <\/em>(\u2026) <em>e para que desde o princ\u00edpio se fa\u00e7am, e sejam bons\u201d. <\/em>Uma li\u00e7\u00e3o que ecoava a deixada pelo jesuita Jorge Benci, que, em 1700, quando se apresentava como defensor de castigos moderado, pregava: \u201c<em>Haja a\u00e7oites, haja correntes e grilh\u00f5es, tudo a seu tempo e com regra e modera\u00e7\u00e3o de vida e vereis como em breve tempo fica domada a rebeldia dos servos; <\/em><strong><em>porque as pris\u00f5es e acoites <\/em>(\u2026) <\/strong><em><strong>lhes abatem o orgulho e quebram os brios\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_29412\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/pelourinho_debret-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-29412\" class=\"wp-image-29412 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/pelourinho_debret-2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-29412\" class=\"wp-caption-text\">Pelourinho, de Jean-Baptiste Debret<\/p><\/div>\n<p><strong>A chibata como controle social<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi discutido amplamente por gente como Cl\u00f3vis Moura e Frantz Fanon, a viol\u00eancia contra negros e negras tem que ser, sempre, \u201cespetacular\u201d. No pelourinho. No meio da pra\u00e7a. \u00c9 sempre um ato de \u201cterror\u201d na mais pura acep\u00e7\u00e3o da palavra: tem como objetivo causar medo constante e generalizado atrav\u00e9s do emprego sistem\u00e1tico da viol\u00eancia (f\u00edsica e\/ou psicol\u00f3gica).<\/p>\n<p>E numa hist\u00f3ria como a nossa, essa pr\u00e1tica sempre foi facilitada pelo Estado, ora recoberta por uma legalidade criminosa; ora aben\u00e7oada pela cumplicidade e impunidade garantidas pelos pr\u00f3prios governantes e suas institui\u00e7\u00f5es. Como lembrei ontem aos meus alunos, vivemos num pa\u00eds onde, durante quase quatro s\u00e9culos, a tortura, o estupro e a pena de morte n\u00e3o s\u00f3 eram \u201clegais\u201d como tamb\u00e9m recomend\u00e1veis no que se refere \u00e0 gigantesca maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 como ouvir o estalar dos fios el\u00e9tricos na costa do garoto da Vila Joaniza e n\u00e3o sentir os ecos das chibatas que (at\u00e9 que o Almirante Negro e seus marinheiros se rebelassem) comiam, literalmente, o couro de nosso povo. Em novembro de 1910, o marinheiro negro Marcelino Rodrigues Menezes, o \u201cBaiano\u201d, foi condenado a receber 250 chibatadas por, supostamente, ter levado duas garrafas de cacha\u00e7a para dentro do navio. Passados 109, um punhado de chocolate serviu como justificativa para dezenas de mais a\u00e7oites.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, estamos diante de um tipo especial de viol\u00eancia. Algo que vai al\u00e9m da t\u00edpica viol\u00eancia do Estado capitalista centrada na defesa da propriedade privada e da manuten\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da burguesia no poder. A viol\u00eancia racista \u00e9 destinada ao controle social particularmente diante da constante resist\u00eancia e da luta incessante que, desde a \u00e9poca dos quilombos, t\u00eam caracterizado a hist\u00f3ria de negros e negras no Brasil.<\/p>\n<p>E uma viol\u00eancia \u201cpreventiva\u201d (e, por isso mesmo, n\u00e3o justificada) que tamb\u00e9m busca destruir a identidade, a dignidade e os v\u00ednculos sociais como forma de acirrar tanto a opress\u00e3o quanto a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma necessidade t\u00e3o grande que, no caso do Ricoy, foi o que, no fim das contas, permitiu que o caso viesse a p\u00fablico. Afinal, dentre as muitas coisas absurdas nesta hist\u00f3ria est\u00e1 o fato de que o crime ocorreu h\u00e1 um m\u00eas. E como circulou em todos os jornais televisivos, o respons\u00e1vel pelo rapaz n\u00e3o tinha feito a den\u00fancia at\u00e9 agora exatamente por temer repres\u00e1lia. Como tamb\u00e9m, \u00e9 evidente que o vazamento do v\u00eddeo foi obra dos pr\u00f3prios carrascos ou gente pr\u00f3xima deles, muito provavelmente motivados n\u00e3o s\u00f3 pela sensa\u00e7\u00e3o de impunidade como tamb\u00e9m pela vontade de mostrar o que haviam feito.<\/p>\n<div id=\"attachment_29413\" style=\"width: 415px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/crianc\u0327as-navio-negreiro2-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-29413\" class=\"wp-image-29413 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/crianc\u0327as-navio-negreiro2-2.jpg\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"307\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-29413\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as no navio negreiro<\/p><\/div>\n<p><strong>Voltar os canh\u00f5es contra a chibata: derrotar o capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>Seria dif\u00edcil acreditar (se n\u00e3o houvesse tantos fatos e exemplos que demonstram o contr\u00e1rio) que algu\u00e9m possa ver as cenas do jovem sendo brutalmente chicoteado, nu, com as m\u00e3os amarradas e a boca amorda\u00e7ada, sem\u00a0 sentir a menor empatia pelo rapaz ou se revoltar contra o mundo que o jogou nas ruas quando tinha apenas 12 anos, colocando-o numa situa\u00e7\u00e3o de tamanha vulnerabilidade que at\u00e9 mesmo uma barra de chocolate pode virar quest\u00e3o de vida ou morte.<\/p>\n<p>Mas, infelizmente, at\u00e9 mesmo por tudo discutido acima, sabemos que as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim. E, antes de acabar, acho que n\u00e3o d\u00e1 pra deixar em aberto a impress\u00e3o de que o que ocorreu no Ricoy \u00e9 mais uma express\u00e3o exclusiva da atual conjuntura e uma decorr\u00eancia direta da Era Bolsonaro. Aqui, como em rela\u00e7\u00e3o a tantos outros aspectos nefastos de nossa realidade atual, n\u00e3o d\u00e1 pra a aplicar a apocal\u00edptica e limitad\u00edssima l\u00f3gica do <em>\u201ca.B. \/ d.B.\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a chegada de Bolsonaro ao poder e suas sistem\u00e1ticas, furiosas e nojentas manifesta\u00e7\u00f5es de racismo, machismo, lgbtfobia, xenofobia, etnocentrismo, fundamentalismo e tudo do que h\u00e1 de mais opressivo e desumano t\u00eam servido como combust\u00edvel para elevar aos extremos todas e quaisquer formas opress\u00e3o e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3bvio que canalhas como os do Ricoy (propriet\u00e1rios incluso) s\u00e3o cotidianamente estimulados pelo car\u00e1ter l\u00fampen-miliciano de um governo onde as pessoas se cumprimentam fazendo sinais de porte de arma e atuam constantemente como uma verdadeira quadrilha que v\u00ea, com cinismo deslavado, sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado como garantia de impunidade.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 um fato. Mas, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que temos que voltar aos anos 1500 pra entender a profundidade e gravidade de epis\u00f3dios como estes. O mergulho na Hist\u00f3ria tem uma \u00fanica raz\u00e3o: a constata\u00e7\u00e3o de que as correntes, chibatas e morda\u00e7as que caracterizam as pr\u00e1ticas racistas desde a escravid\u00e3o confundem-se com as ra\u00edzes de um sistema, de um modo de conceber o mundo: o capitalismo.<\/p>\n<p><em><strong>\u201cN\u00e3o h\u00e1 capitalismo sem racismo\u201d<\/strong><\/em> n\u00e3o \u00e9 um mantra inspirado em Malcolm X. \u00c9 o ponto de partida para que se entenda que qualquer um que governe sem se enfrentar com este sistema estar\u00e1 mentindo se disser que se enfrenta com o racismo ou tem um projeto para, de fato, por fim \u00e0 viol\u00eancia racial.<\/p>\n<p>Bolsonaro e seu governo s\u00e3o particularmente odiosos e perigosos porque dizem abertamente que n\u00e3o querem fazer o m\u00ednimo esfor\u00e7o pra mudar esta hist\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o expl\u00edcitos na defesa de que a opress\u00e3o tem que ser ainda mais radical. E sabemos que, hoje, n\u00e3o est\u00e3o sozinhos nisto. S\u00e3o parte de uma extrema direita mundial que cuja podrid\u00e3o \u00e9 t\u00edpica de momentos de profunda crise econ\u00f4mica, como o atual. Gente, de Trump a seus similares na Europa ou no resto das Am\u00e9ricas, disposta a usar da opress\u00e3o como mecanismo cotidiano para o aumento da explora\u00e7\u00e3o e tentativa de manuten\u00e7\u00e3o das taxas de lucro.<\/p>\n<p>Contudo, se quisermos realmente construir um projeto de sociedade em que cenas como a da Cidade Ademar n\u00e3o se repitam, n\u00e3o podemos vender a ilus\u00e3o de que <em>\u201cantes era TOTALMENTE diferente\u201d<\/em>. Algo que, inclusive, os dados da realidade n\u00e3o permitem afirmar. E basta citar uma fonte como exemplo, o <em><strong>Atlas da Viol\u00eancia\/2019<\/strong><\/em>, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA) e F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>Analisando os \u00edndices de homic\u00eddios entre 2007 e 2017 (ou seja, de meados do segundo mandato de Lula at\u00e9 o vice de Dilma, Michel Temer, assumir a presid\u00eancia), o Atlas constatou que, na d\u00e9cada pesquisada, em termos globais, houve um significativo aumento de cerca de 24% nas taxas de homic\u00eddios, mas, combinados com o fator racial, os n\u00fameros demonstram que a viol\u00eancia continuam tendo cor. E cada vez mais.<\/p>\n<p>Segundo o levantamento, em 2017, <strong>75,5% das v\u00edtimas de homic\u00eddios foram indiv\u00edduos negros<\/strong> (definidos como a soma de indiv\u00edduos pretos ou pardos, segundo a classifica\u00e7\u00e3o do IBGE), o que significa que a taxa de homic\u00eddios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de n\u00e3o-negros (brancos, amarelos e ind\u00edgenas) foi de 16,0. Resumindo, em 2017, para cada indiv\u00edduo n\u00e3o-negro que foi assassinado, aproximadamente 2,7 afrodescendentes foram mortos.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada em quest\u00e3o, os \u00edndices s\u00e3o ainda mais assustadores. Entre 2007 a 2017, a taxa de negros mortos violentamente cresceu 33,1%, j\u00e1 a de n\u00e3o-negros apresentou um pequeno crescimento de 3,3%.<\/p>\n<p>Analisando especificamente o caso das mulheres, o car\u00e1ter epid\u00eamico da viol\u00eancia resultantes da combina\u00e7\u00e3o de racismo e machismo tamb\u00e9m salta aos olhos. Enquanto, durante a d\u00e9cada analisada, a taxa de homic\u00eddios de mulheres n\u00e3o-negras teve crescimento de 4,5%; entre as mulheres negras cresceu 29,9%. Como \u00e9 destacado pelo Atlas, <em>\u201cem n\u00fameros absolutos a diferen\u00e7a \u00e9 ainda mais brutal, j\u00e1 que entre n\u00e3o negras o crescimento \u00e9 de 1,7% e entre mulheres negras de 60,5%\u201d<\/em>, o que \u00e9 determinante para entender o porque de que <em>\u201c66% de todas as mulheres assassinadas no pa\u00eds em 2017\u201d<\/em> (p. 37\/38)<\/p>\n<p>Resgatar estes n\u00fameros evidentemente n\u00e3o pode servir para cobrir a atual situa\u00e7\u00e3o de normalidade. Seria absurdo e imposs\u00edvel, at\u00e9 mesmo porque, n\u00e3o temos d\u00favidas, as pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es do Atlas, lamentavelmente, ir\u00e3o indicar saltos alarmantes nestes dados.<\/p>\n<p>Contudo, eles s\u00e3o importantes para lembrar algo que n\u00f3s do PSTU, principalmente atrav\u00e9s das elabora\u00e7\u00f5es dos companheiros e companheiras que atuam em torno dos temas das opress\u00f5es, temos destacado h\u00e1 tempos: se \u00e9 verdade que Bolsonaro \u00e9 um agente direto do racismo, do machismo e da LGBTfobia, tamb\u00e9m \u00e9 o um fato que, ao terem pregado a \u201cconviv\u00eancia pacifica\u201d, a concilia\u00e7\u00e3o de classes e governado com o que pior havia da burguesia at\u00e9 ent\u00e3o (Maluf, K\u00e1tia Abreu, Kassab, Sarneys, oligarcas do Nordeste e banqueiros, empres\u00e1rios e latifundi\u00e1rios por todos os cantos), os governos petistas enganaram o povo quando diziam que estavam combatendo o racismo.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do abismo nos dados que constatam o corte racial no que se refere \u00e0 viol\u00eancia s\u00e3o lament\u00e1veis provas de que mesmo as medidas compensat\u00f3rias que incidiram de alguma forma positiva sobre a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o nunca foram sequer suficientes para retirar a maioria delas da \u00e1rea de vulnerabilidade social que alimenta a viol\u00eancia e exp\u00f5e milh\u00f5es \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Sem podar o mal pela raiz, sem fazer com que o capitalismo pague a d\u00edvida que tem para com a humanidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 imposs\u00edvel garantir qualidade de vida para os setores historicamente marginalizados. \u00c9 imposs\u00edvel garantir sequer que eles vivam.<\/p>\n<p>Lembrar disso n\u00e3o tem a ver somente com acertar as contas com o passado. A barb\u00e1rie jogada em nossas caras pelo v\u00eddeo mostrando a sess\u00e3o de tortura grita por posturas concretas e a\u00e7\u00f5es urgentes, no presente.<\/p>\n<p>E, isto, inegavelmente, agora, significa unir todas as for\u00e7as no rep\u00fadio ao epis\u00f3dio, na exig\u00eancia de justi\u00e7a (inclusive com a puni\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios do mercado que, agora, de forma irritantemente hip\u00f3critas, fingem que nunca souberam da hist\u00f3ria) e o combate a um governo que estimula de forma odiosa o aumento da opress\u00e3o.<\/p>\n<p>E, neste sentido, \u00e9 importante, desde j\u00e1, contribuir para a constru\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/events\/2165399190426581\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>Ato contro a o racismo e a tortura<\/strong><\/em><\/a>, que est\u00e1 sendo convocado pela \u201cRede de Prote\u00e7\u00e3o e Resist\u00eancia Contra o Genoc\u00eddio\u201d,\u00a0 para o s\u00e1bado, 07 de setembro, \u00e0s 12 horas, em frente o mercado Ricoy, na Av. Yervant Kissajikian, 1918, Vila Joaniza.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos parar por a\u00ed. A \u00fanica forma de colocar um ponto final neste tipo de hist\u00f3ria \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do sistema que lan\u00e7ou suas ra\u00edzes, a naturalizou e, at\u00e9 hoje, a utiliza pra garantir seus benef\u00edcios e regalias. E pra fazer isto, o passado recente comprova, n\u00e3o h\u00e1 atalho reformista ou solu\u00e7\u00f5es \u201cacordadas\u201d e \u201cnegociadas\u201d com a burguesia.<\/p>\n<p>A men\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolta da Chibata n\u00e3o pode se limitar aos castigos impostos. \u00c9 preciso lembrar, tamb\u00e9m, o caminho encontrado pelos marinheiros para por fim a eles: tomar todos os barcos da marinha de guerra brasileira, voltar os canh\u00f5es para a capital do pa\u00eds e mandar bomba. T\u00e3o simples quanto isto. E o resultado poderia ter sido muito melhor se, naquele momento, eles tivessem conseguido unificar os demais setores dos trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o em torno de suas bandeiras.<\/p>\n<p>Mais do que nunca, socialismo ou barb\u00e1rie se contrap\u00f5em como os \u00fanicos dois caminhos colocados diante da humanidade. E impedir que a barb\u00e1rie que corre solta da Cidade Ademar \u00e0 Amaz\u00f4nia tome conta de tudo \u00e9 uma luta dif\u00edcil. N\u00e3o somos ing\u00eanuos.<\/p>\n<p>Contudo, estamos entre aqueles e aquelas que acreditam que est\u00e1 \u00e9 uma luta que podemos vencer. E, pra qual, nenhum esfor\u00e7o, sacrif\u00edcio, obst\u00e1culo ou dificuldade pode ser comparado, sequer por um segundo, com o sofrimento enfrentado pelo garoto no Ricoy, todos(as) demais que, cotidianamente, enfrentam situa\u00e7\u00f5es iguais ou piores mundo afora e, tamb\u00e9m, os milh\u00f5es de nossos antepassados e ancestrais que tamb\u00e9m sofreram na ponta da chibata.<\/p>\n<p>E por isso que dizemos que, em defesa da juventude negra e contra todas as manifesta\u00e7\u00f5es do racismo, nossa luta ser\u00e1 sempre de \u201cra\u00e7a e classe\u201d. Ser\u00e1 sempre uma luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando cheguei \u00e0 faculdade para dar aula, ontem \u00e0 noite, fiquei sabendo da lament\u00e1vel hist\u00f3ria sobre o garoto de 17 anos (chamado de E., pela imprensa) que, pego roubando barras de chocolate, foi preso num quartinho, humilhado e brutalmente torturado no supermercado Ricoy, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo,<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":73611,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3501],"tags":[258,2325,735],"class_list":["post-29409","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-negras-os","tag-racismo","tag-violencia","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/violencia-negro-agredido-1.jpg","categories_names":["Brasil","Negras\/os"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29409"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29409\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}