{"id":29378,"date":"2019-09-04T11:29:24","date_gmt":"2019-09-04T13:29:24","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29378"},"modified":"2019-09-04T11:29:24","modified_gmt":"2019-09-04T13:29:24","slug":"as-atrocidades-cometidas-em-piribebuy-e-acosta-nu-foram-proprias-do-carater-genocida-da-guerra-contra-o-paraguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/09\/04\/as-atrocidades-cometidas-em-piribebuy-e-acosta-nu-foram-proprias-do-carater-genocida-da-guerra-contra-o-paraguai\/","title":{"rendered":"As atrocidades cometidas em Piribebuy e Acosta \u00d1\u00fa foram pr\u00f3prias do car\u00e1ter genocida da Guerra contra o Paraguai"},"content":{"rendered":"<p><em>A batalha de Acosta \u00d1\u00fa, ou de Campo Grande, completa 150 anos. E continua sendo uma ferida aberta para o povo paraguaio. A classe trabalhadora brasileira, argentina e uruguaia deve conhecer e repudiar este epis\u00f3dio atroz da Guerra contra o Paraguai [1864-1870]. Deve saber deste e de todos os crimes que suas classes dominantes cometeram contra esta na\u00e7\u00e3o historicamente oprimida.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Ronald Le\u00f3n \u00d1\u00fa\u00f1ez<\/p>\n<p>No Paraguai, no dia 16 de agosto se celebra o \u201cdia das crian\u00e7as\u201d. Por qu\u00ea? Porque na batalha de Acosta \u00d1\u00fa, cerca de 3.500 paraguaios esfarrapados e mal armados \u2013 a maior parte deles meninos ou adolescentes de 9 a 15 anos de idade -, enfrentaram os mais de 20.000 soldados que compunham a vanguarda do ex\u00e9rcito da Tr\u00edplice Alian\u00e7a, ainda que nesse momento estivesse integrado majoritariamente por tropas brasileiras e comandadas pelo genro do imperador brasileiro Pedro II, o franc\u00eas Gast\u00f3n de Orleans, conde d\u2019Eu.<\/p>\n<p>Ao final do massacre, o conde ordenou o inc\u00eandio do campo de batalha no qual havia centenas de meninos feridos, e as mulheres que sa\u00edam dos morros para resgatar seus filhos.<\/p>\n<p>A batalha ocorreu no contexto da fase final da Guerra. Lembremos que Assun\u00e7\u00e3o havia sido tomada \u2013 e saqueada \u2013 em janeiro de 1869. O pr\u00f3prio comandante supremo aliado, o marqu\u00eas de Caxias, entendeu que, com isso, a guerra havia terminado. A capital inimiga havia sido capturada e L\u00f3pez estava em completa retirada, em algum ponto do interior do pa\u00eds. Assim, Caxias se retirou do cen\u00e1rio de opera\u00e7\u00f5es, retornando sem autoriza\u00e7\u00e3o oficial ao Rio de Janeiro. Aparentemente, Caxias n\u00e3o parecia sentir-se \u00e0 vontade para seguir \u00e0 frente de uma campanha militar que a essa altura considerava que n\u00e3o passava de uma simples ca\u00e7ada a Solano L\u00f3pez: <em>\u201cQuanto tempo, quantos homens, quantas vidas e quantos elementos e recursos precisaremos para terminar a guerra, isto \u00e9, para converter em fuma\u00e7a e p\u00f3 toda a popula\u00e7\u00e3o paraguaia, para matar o feto do ventre da mulher?\u201d<\/em>, havia escrito ao imperador do Brasil j\u00e1 em 1867 ante a excessiva e custosa prolonga\u00e7\u00e3o da guerra, impensada no come\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas Pedro II, o \u201ccivilizador\u201d escravagista, estava disposto a levar a guerra at\u00e9 o final. Ou, em palavras atribu\u00eddas ao pr\u00f3prio Caxias, a<em> &#8220;converter em fuma\u00e7a e p\u00f3 toda a popula\u00e7\u00e3o paraguaia, para matar o feto do ventre da mulher\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Por este motivo, o monarca brasileiro teve que apelar para seu genro europeu, que cumpriu a ordem com relut\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>A batalha de Acosta \u00d1\u00fa expressa cabalmente o car\u00e1cter da guerra.<\/strong><\/p>\n<p>Por parte do Paraguai, uma guerra se fez total desde 1866, quando seu territ\u00f3rio foi invadido por tr\u00eas ex\u00e9rcitos materialmente superiores. Em agosto de 1869 j\u00e1 n\u00e3o podia se diferenciar aquilo que restava do ex\u00e9rcito \u201cregular\u201d da popula\u00e7\u00e3o civil (crian\u00e7as, mulheres, anci\u00f5es), que de uma ou outra forma se envolveram no esfor\u00e7o b\u00e9lico para recha\u00e7ar os invasores. As mulheres e as crian\u00e7as trabalhavam de 12 a 14 horas nos campos, sob regime de disciplina militar, para abastecer o ex\u00e9rcito. Mas chegou o momento em que lhes coube deixar o arado e empunhar as armas.<\/p>\n<p>Neste sentido, se existe algo que nem os chefes aliados puderam negar foi a ousadia, a bravura, e o desespero que o povo paraguaio demonstrou na hora de defender \u2013 n\u00e3o a Solano L\u00f3pez ou um conceito abstrato de \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cindepend\u00eancia\u201d \u2013 e sim o \u201cseu\u201d: suas terras, suas vilas, suas fam\u00edlias, seu modo de vida. Tudo isto, com raz\u00e3o, foi o que viram amea\u00e7ados com o avan\u00e7o da Tr\u00edplice Alian\u00e7a.<\/p>\n<p>No caso de Acosta \u00d1\u00fa, o general brasileiro Dion\u00edsio Cerqueira, que esteve presente na batalha, escreveu: <em>\u201cQue luta terr\u00edvel essa entre a piedade crist\u00e3 e o dever militar! Nossos soldados<\/em> <em>diziam que n\u00e3o dava gosto lutar com tantas crian\u00e7as\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Cerqueira comenta que <em>\u201co campo ficou cheio de mortos e feridos do inimigo, entre os quais nos causavam grande pena, pelo volumoso n\u00famero, os soldadinhos, cobertos de sangue, com as perninhas quebradas, alguns dos quais nem sequer haviam chegado \u00e0 puberdade\u201d.<\/em> E sentenciou: <em>\u201cQu\u00e3o valentes eram para o fogo os pobres meninos!\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a ditadura de Solano L\u00f3pez \u2013 que se negou a capitular a todo momento, e este \u00e9 um fato que se deve reconhecer -, \u00e0 medida que o ex\u00e9rcito paraguaio se despeda\u00e7ava, estabeleceu a mobiliza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de rapazes de 16, 14, 13 e at\u00e9 11anos.<\/p>\n<p>Entretanto, em um contexto de guerra total, de destrui\u00e7\u00e3o e morte em toda parte, o que devemos nos questionar quando nos deparamos com o caso de meninos enfrentando soldados adultos profissionais, infinitamente melhor armados, \u00e9: foram os meninos que foram \u00e0 guerra ou foi a guerra que os arrastou a um combate t\u00e3o desigual? Talvez as duas coisas, mas muitos deles j\u00e1 eram \u00f3rf\u00e3os, haviam perdido seus entes queridos, haviam perdido suas casas\u2026que lhes restava sen\u00e3o combater o inimigo? Pode-se contestar, com crit\u00e9rios atuais, o que fizeram?<\/p>\n<p>Por parte dos aliados, Campo Grande expressa de maneira cristalina o que significou uma guerra de conquista, de rapina, de exterm\u00ednio de quase toda uma nacionalidade. Estudos acad\u00eamicos n\u00e3o marxistas apontam que nos cinco anos que durou a contenda, desapareceu entre 60 e 69% da popula\u00e7\u00e3o total dessa pequena rep\u00fablica sul-americana chamada Paraguai. Um grau de exterm\u00ednio aterrorizante, quase sem paralelo na hist\u00f3ria moderna.<\/p>\n<p><strong>A batalha de Piribebuy<\/strong><\/p>\n<p>Em 12 de agosto, quatro dias antes de Acosta \u00d1\u00fa, foi lembrada a batalha de Piribebuy. Este \u00e9 outro caso emblem\u00e1tico. Piribebuy era um pequeno povoado que foi defendido por cerca de 1.600 soldados \u2013 entre eles, muitas mulheres e crian\u00e7as \u2013 ante o bombardeio e o ataque por terra de mais de 20.000 soldados aliados. O comando aliado intimou a rendi\u00e7\u00e3o, mas o comandante paraguaio Pedro Pablo Caballero a recha\u00e7ou.<\/p>\n<p>Depois de repelir alguns ataques com fuzis de fa\u00edsca e com canh\u00f5es obsoletos carregados com peda\u00e7os de vidro, a pra\u00e7a inevitavelmente sucumbiu. O conde d\u2019Eu, furioso, ordenou a decapita\u00e7\u00e3o do comandante Pedro Pablo Caballero \u2013 outras fontes s\u00e9rias dizem que, na realidade, Caballero foi amarrado a quatro cavalos, suspenso, e depois esquartejado.<\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeito, o conde d\u2019Eu ordenou a execu\u00e7\u00e3o dos prisioneiros e o inc\u00eandio do hospital de sangue, carbonizando seus aproximadamente 600 ocupantes. Estas atrocidades, para al\u00e9m de ser fruto de uma mente s\u00e1dica, <strong>constitu\u00edam atos intr\u00ednsecos ao car\u00e1ter pr\u00f3prio da guerra.<\/strong><\/p>\n<p>Depois da batalha de Piribebuy, o conde simplesmente anotou em seu di\u00e1rio: <em>\u201cA noite caiu, e n\u00e3o tenho no est\u00f4mago sen\u00e3o uma x\u00edcara de caf\u00e9 tomada, como habitualmente, antes do amanhecer e algumas gotas de conhaque de laranja, compartilhadas com meu Estado Maior em meio da a\u00e7\u00e3o. Jantamos muito alegremente com Victorino: deu-me uma tenda de campanha, visto que minhas bagagens n\u00e3o chegaram a tempo\u201d. <\/em>Uma janta alegre com seus oficiais.<\/p>\n<p>Para terminar, algo mais sobre nosso refinado conde, o protagonista das atrocidades de Piribebuy e Acosta \u00d1\u00fa. Em suas mem\u00f3rias, recentemente reeditadas no Brasil, existem anota\u00e7\u00f5es que ilustram perfeitamente seu pensamento xen\u00f3fobo, racista, al\u00e9m de completo desprezo n\u00e3o somente pelo Paraguai, a cuja popula\u00e7\u00e3o se referia como \u201cseres est\u00fapidos\u201d, como \u00e0 Am\u00e9rica do Sul como um todo, inclu\u00edda a composi\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria tropa.<\/p>\n<p>Rumo ao cen\u00e1rio de opera\u00e7\u00f5es, escreveu: <em>\u201cesses hispano-americanos n\u00e3o tem conhecimento algum de boas maneiras\u201d.<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 em Corrientes, anotou: <em>\u201cAs ruas de Corrientes s\u00e3o abomin\u00e1veis cloacas, e as casas, na maioria das vezes, s\u00e3o t\u00e9rreas. O aspecto geral \u00e9 de um grande vilarejo. Na pra\u00e7a do mercado, h\u00e1 certo n\u00famero de hediondos ind\u00edgenas vindo do Chaco. A maioria n\u00e3o compreende o espanhol\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Finalmente, leiamos o que opinou sobre o ex\u00e9rcito que comandaria na campanha contra o Paraguai:<\/p>\n<p><em>O aspecto geral do Ex\u00e9rcito me satisfez: est\u00e3o todos armados, vestidos e cal\u00e7ados de maneira completa. E, considerando-se o estado passado das tropas, houve total transforma\u00e7\u00e3o ap\u00f3s Uruguaiana. N\u00e3o quero dizer, contudo, que o aspecto seja igual ao dos Ex\u00e9rcitos europeus. Essa inferioridade adv\u00e9m de duas causas: 1. o detest\u00e1vel corte de nossos uniformes; 2.\u00a0<strong>a imensa preponder\u00e2ncia num\u00e9rica (na infantaria) de mulatos, que, de forma geral, n\u00e3o oferecem bons esp\u00e9cimes para a humanidade, embora haja tambores-mores negros que s\u00e3o magn\u00edficos.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Que o leitor tire, ent\u00e3o, suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Fonte: GOYENA SOARES, Rodrigo (org.). Conde d\u2019Eu: Di\u00e1rio do comandante em chefe das tropas brasileiras em opera\u00e7\u00e3o na Rep\u00fablica do Paraguai. 1\u00aa. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017, n\u00e3o paginado, recurso digital de Kindle.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A batalha de Acosta \u00d1\u00fa, ou de Campo Grande, completa 150 anos. E continua sendo uma ferida aberta para o povo paraguaio. A classe trabalhadora brasileira, argentina e uruguaia deve conhecer e repudiar este epis\u00f3dio atroz da Guerra contra o Paraguai [1864-1870]. 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