{"id":29254,"date":"2019-08-29T13:30:16","date_gmt":"2019-08-29T15:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29254"},"modified":"2019-08-29T13:30:16","modified_gmt":"2019-08-29T15:30:16","slug":"dia-da-visibilidade-lesbica-um-alerta-pelo-fim-do-lesbocidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/08\/29\/dia-da-visibilidade-lesbica-um-alerta-pelo-fim-do-lesbocidio\/","title":{"rendered":"Dia da Visibilidade L\u00e9sbica: Um alerta pelo fim do lesboc\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><em>As mulheres l\u00e9sbicas sofrem uma viol\u00eancia espec\u00edfica dentro da sociedade, uma combina\u00e7\u00e3o de machismo e homofobia que se expressa de diversas formas cotidianamente, desde a dificuldade de conseguir um emprego ou a rejei\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito familiar, at\u00e9 suas formas mais cru\u00e9is, nos \u00edndices de assassinatos motivados pelo \u00f3dio. Nesse 29 de agosto, dia da Visibilidade L\u00e9sbica, fazemos um alerta de urg\u00eancia para o combate \u00e0 viol\u00eancia lesbof\u00f3bica \u2013 viol\u00eancia que \u00e9 apoiada abertamente pelo governo atual \u2013 e refor\u00e7amos que a nossa luta \u00e9 a \u00fanica forma de garantir a vida das oprimidas.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Debora Leite<\/p>\n<p><strong>Os dados do \u00f3dio: Dossi\u00ea sobre Lesboc\u00eddio no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>No ano passado foi publicado, a partir da pesquisa de um grupo de estudos do N\u00facleo de Inclus\u00e3o Social, ligado \u00e0 Universidade Federal do Rio de Janeiro, o primeiro Dossi\u00ea Sobre Lesboc\u00eddio no Brasil. As pesquisadoras definem o termo \u201clesboc\u00eddio\u201d como \u201c<em>morte de l\u00e9sbicas por motivo de lesbofobia ou \u00f3dio, repulsa e discrimina\u00e7\u00e3o contra a exist\u00eancia l\u00e9sbica<\/em>\u201d, e contabilizam dados tanto de assassinatos quanto de suic\u00eddios, uma vez que tamb\u00e9m s\u00e3o resultado da opress\u00e3o e das diversas formas de viol\u00eancia que as mulheres l\u00e9sbicas enfrentam diariamente.<\/p>\n<p>Encontrar dados precisos a respeito da l\u00e9sbica no Brasil, ou mesmo internacionalmente, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A invisibiliza\u00e7\u00e3o desse setor, at\u00e9 mesmo na morte, e o desprezo pelo recorte da orienta\u00e7\u00e3o sexual nos debates sobre feminic\u00eddio, ou pelo recorte das mulheres nos debates sobre a popula\u00e7\u00e3o LGBT em geral, s\u00e3o mais sintomas da marginaliza\u00e7\u00e3o que o capitalismo nos imp\u00f5e. O governo e seus \u00f3rg\u00e3os oficiais viram as costas para essa parte da popula\u00e7\u00e3o, e ocultam o verdadeiro cen\u00e1rio de barb\u00e1rie que se passa no pa\u00eds. Sobre isso, as autoras do Dossi\u00ea alertam:<\/p>\n<p>\u201c<em>A aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es sobre as mortes de l\u00e9sbicas no mundo inteiro \u00e9 assustadora, quando somada \u00e0s aus\u00eancias de informa\u00e7\u00f5es sobre mortes de mulheres negras e ind\u00edgenas os dados se tornam ainda mais inconsistentes. O que podemos afirmar \u00e9 que, acima de tudo, estas pesquisas s\u00e3o negligenciadas de forma sistem\u00e1tica e a invisibilidade das mortes \u00e9 s\u00f3 mais uma das priva\u00e7\u00f5es sofridas por todas as pessoas que de alguma forma s\u00e3o marginalizadas em nossa sociedade<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Os dados analisados pelo Dossi\u00ea v\u00e3o de 2014 e 2017, e mostram uma tend\u00eancia crescente no lesboc\u00eddio. Foi percebido um crescimento de 150% nos assassinatos no per\u00edodo compreendido, sendo que 2017 foi o ano com maior n\u00famero de casos, tanto de assassinatos quanto de suic\u00eddios.<\/p>\n<p>A parte mais atingida do setor s\u00e3o as jovens, sendo que 53% das mortes daquele ano eram de l\u00e9sbicas com menos de 24 anos. No caso dos suic\u00eddios isso \u00e9 mais gritante ainda: entre os tr\u00eas anos estudados, 69% dos suic\u00eddios eram de jovens.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea tamb\u00e9m traz dados sobre as circunst\u00e2ncias dos assassinatos, sendo que, entre os tr\u00eas anos pesquisados, 72% aconteceram em espa\u00e7os p\u00fablicos e 28% dentro da resid\u00eancia da v\u00edtima. Quanto aos assassinos, 30% eram conhecidos da v\u00edtima, 34% eram familiares ou pessoas com v\u00ednculos afetivos com a v\u00edtima e 36% eram desconhecidos \u2013 ou seja, a vida da mulher l\u00e9sbica est\u00e1 sempre em risco. Em todos os anos, o m\u00e9todo mais comum de assassinatos foram tiros.<\/p>\n<p>As pesquisadoras tamb\u00e9m buscaram realizar um recorte \u00e9tnico-racial entre os casos, encontrando em todos os anos uma maioria de not\u00edcias sobre v\u00edtimas brancas. Sobre isso, elas fazem um apontamento importante, que em nosso pa\u00eds existe uma pol\u00edtica de genoc\u00eddio das popula\u00e7\u00f5es negra e ind\u00edgena, e que provavelmente os dados apresentam mais mortes de mulheres brancas apenas porque s\u00e3o essas as mortes que aparecem nos jornais.<\/p>\n<p>\u201c<em>A popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 composta majoritariamente por pessoas negras, de acordo com dados do IBGE (2014), 54% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 negra. Segundo o BBC (2017), a cada vinte e tr\u00eas minutos uma pessoa jovem e negra \u00e9 assassinada no Brasil. S\u00f3 em 2014, 138 \u00edndios foram assassinados no Brasil (CIMI, 2014), isso sem considerar a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria de mais de 4 milh\u00f5es de povos origin\u00e1rios em territ\u00f3rio nacional desde 1500. Com esse cen\u00e1rio, como \u00e9 poss\u00edvel afirmar que l\u00e9sbicas brancas morrem mais do que l\u00e9sbicas negras? \u00c9 muito prov\u00e1vel que os n\u00fameros reais de mortes de l\u00e9sbicas ind\u00edgenas e negras seja superior ao n\u00famero de mortes de l\u00e9sbicas brancas, no entanto, de acordo com os registros feitos a partir de dados coletados da m\u00eddia brasileira, as notifica\u00e7\u00f5es das mortes de l\u00e9sbicas brancas s\u00e3o superiores ao das l\u00e9sbicas das demais ra\u00e7as\/etnias<\/em>.\u201d<\/p>\n<p><strong>Que li\u00e7\u00f5es podemos tirar?<\/strong><\/p>\n<p>As conclus\u00f5es que podemos tirar do Dossi\u00ea Sobre Lesboc\u00eddio s\u00e3o diversas. Vemos o crescimento das mortes de mulheres l\u00e9sbicas, mesmo com as tentativas de nos fazerem esquecer tais dados. Uma \u00eanfase nas l\u00e9sbicas jovens, que muitas vezes sofrem uma press\u00e3o gigantesca da fam\u00edlia ou no ambiente escolar e est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. Um desprezo ainda maior da m\u00eddia pelas mortes das l\u00e9sbicas negras e ind\u00edgenas, parte da desvaloriza\u00e7\u00e3o das vidas n\u00e3o brancas. O \u00f3dio pela exist\u00eancia da l\u00e9sbica no espa\u00e7o p\u00fablico, uma vez que \u00e9 nesse em que ocorreram a maior parte dos casos, mas a amea\u00e7a tamb\u00e9m no interior de casa e com conhecidos.<\/p>\n<p>Enfim, h\u00e1 de se concordar com as pesquisadoras quando dizem que apenas a apresenta\u00e7\u00e3o desses dados deveria ser impactante o suficiente para demonstrar a demanda pela garantia dos direitos da mulher l\u00e9sbica no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Combate ao lesboc\u00eddio: desafios no governo Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>Desde a publica\u00e7\u00e3o do Dossi\u00ea, tivemos uma grande vit\u00f3ria que foi a criminaliza\u00e7\u00e3o da LGBTfobia este ano. Esse \u00e9 um passo importante para o reconhecimento da necessidade de se combater o crime de \u00f3dio contra as LGBTs no pa\u00eds. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 suficiente, e n\u00e3o garante na pr\u00e1tica o nosso direito \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Apesar de a LGBTfobia agora ser considerada crime, ela \u00e9 incentivada abertamente pelo pr\u00f3prio presidente, Jair Bolsonaro. Desde suas declara\u00e7\u00f5es homof\u00f3bicas ao longo das elei\u00e7\u00f5es, at\u00e9 ataques diretos como a interven\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para suspender o vestibular com reserva de vaga para transsexuais na Unilab, ou a suspens\u00e3o do edital da Ag\u00eancia Nacional do Cinema para as categorias \u201cdiversidade de g\u00eanero\u201d e \u201csexualidade\u201d.<\/p>\n<p>O discurso de \u00f3dio, somado a essas medidas, contribui para dar carta branca para os assassinatos continuarem acontecendo, e aumenta a sensa\u00e7\u00e3o de medo e isolamento que levam aos suic\u00eddios. \u00c9 sintom\u00e1tico que a maior parte dos assassinatos demonstrados no Dossi\u00ea foram realizados por tiros, pois s\u00e3o justamente os setores oprimidos que as armas de Bolsonaro v\u00e3o atingir.<\/p>\n<p>Existe um projeto de fundo para os governos como Bolsonaro-Mour\u00e3o: aumentar a opress\u00e3o, para que com isso possam aumentar a explora\u00e7\u00e3o; retirar direitos b\u00e1sicos de todos os trabalhadores, como a aposentadoria; dividir os trabalhadores para que estes n\u00e3o possam se mobilizar, incentivando o \u00f3dio aos negros e negras, \u00e0s mulheres e \u00e0s LGBTs; se necess\u00e1rio, aumentar o autoritarismo para conter o movimento. \u00c9 um plano bastante lucrativo para os banqueiros e empres\u00e1rios imperialistas, e completamente destruidor para os explorados e oprimidos.<\/p>\n<p><strong>Um chamado urgente<\/strong><\/p>\n<p>Soamos o alarme: as mulheres l\u00e9sbicas no Brasil est\u00e3o sendo agredidas, mortas e levadas ao suic\u00eddio, cada vez mais a cada ano. O governo apoia essa viol\u00eancia, e o capitalismo a transforma em lucro. Fazemos um chamado com urg\u00eancia para fortalecer o combate ao lesboc\u00eddio e \u00e0 lesbofobia da \u00fanica forma poss\u00edvel: nas ruas, combatendo em unidade com a classe trabalhadora e seus setores oprimidos. A falta de pol\u00edticas p\u00fablicas para o combate da viol\u00eancia machista, racista e LGBTf\u00f3bica tamb\u00e9m nos coloca a necessidade de organizar a autodefesa da classe trabalhadora e seus setores oprimidos. Somente nossa mobiliza\u00e7\u00e3o pode derrotar esse governo e construir uma alternativa de sociedade onde a nossa vida n\u00e3o seja moeda de troca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres l\u00e9sbicas sofrem uma viol\u00eancia espec\u00edfica dentro da sociedade, uma combina\u00e7\u00e3o de machismo e homofobia que se expressa de diversas formas cotidianamente, desde a dificuldade de conseguir um emprego ou a rejei\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito familiar, at\u00e9 suas formas mais cru\u00e9is, nos \u00edndices de assassinatos motivados pelo \u00f3dio. 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