{"id":29177,"date":"2019-08-23T17:14:47","date_gmt":"2019-08-23T19:14:47","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29177"},"modified":"2019-08-23T17:14:47","modified_gmt":"2019-08-23T19:14:47","slug":"osmarino-amancio-siringueiro-da-amazonia-a-gente-sonha-com-uma-sociedade-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/08\/23\/osmarino-amancio-siringueiro-da-amazonia-a-gente-sonha-com-uma-sociedade-melhor\/","title":{"rendered":"Osmarino Am\u00e2ncio, siringueiro da Amazonia: \u201cA gente sonha com uma sociedade melhor\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>O presente texto foi retirado do livro &#8220;P\u00e3o, Paz e Terra&#8221;, produzido pela Editora Lorca em 2017, juntamente com o filme de mesmo nome, por ocasi\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o dos 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. O cap\u00edtulo 5, que reproduzimos aqui, mostra com toda a dureza as conseq\u00fc\u00eancias do desmantelamento da Amaz\u00f4nia no capitalismo, que Osmarino relata em todos os seus violentos detalhes de persegui\u00e7\u00e3o e morte e em que, no entanto, acende uma luz de esperan\u00e7a a partir da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e dos povos, tamb\u00e9m pela defesa dos recursos naturais, t\u00e3o necess\u00e1rios para a sobreviv\u00eancia dos &#8220;Syringueros&#8221; e dos povos ind\u00edgenas que habitam a Amaz\u00f4nia.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Osmarino Am\u00e2ncio Rodrigues, sou um seringueiro[1], nasci no seringal Bela Flor, Coloca\u00e7\u00e3o Revolta[2], e hoje estou vivendo no seringal Humait\u00e1, Coloca\u00e7\u00e3o Pega Fogo, dentro da reserva extrativista Chico Mendes.<\/p>\n<p>Durante a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, os bolcheviques defendiam uma alian\u00e7a entre os oper\u00e1rios da cidade e os camponeses. Depois da queda da monarquia, continuaram lutando at\u00e9 que os soviets tomassem o poder.<\/p>\n<p>Os bolcheviques tamb\u00e9m perdoaram as d\u00edvidas de todos os camponeses que podiam perder suas terras. A R\u00fassia tinha quatro vezes o tamanho do Brasil: tinha 128 milh\u00f5es de habitantes e deles 100 milh\u00f5es eram camponeses. Mas a R\u00fassia era muito pobre e, como no Brasil, as terras estavam concentradas nas m\u00e3os de poucos. A nobreza controlava mais de 50% das terras na R\u00fassia, apesar de ser menos de 1%. Podemos fazer um paralelo com a Amaz\u00f4nia, principalmente no Acre, onde s\u00f3 10 pessoas j\u00e1 dominaram mais da metade do Estado do Acre com o latif\u00fandio, igualmente como a nobreza controlava as terras na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Aqui na Amaz\u00f4nia, no Brasil, vivemos muito isso, as terras est\u00e3o concentradas pelo agroneg\u00f3cio e pela UDR[3]. Podemos dar o exemplo do Acre, onde eles controlaram mais de 8 milh\u00f5es das terras neste Estado que tem 15 milh\u00f5es, ou seja, o latif\u00fandio improdutivo do Brasil controlou mais de metade das terras do Estado.<\/p>\n<p>Para Lenin e os bolcheviques, a burguesia n\u00e3o era uma aliada na luta pela reforma agr\u00e1ria na R\u00fassia. Aqui \u00e9 igual. N\u00f3s aqui n\u00e3o podemos pensar que o agroneg\u00f3cio ou a UDR s\u00e3o aliados na luta pela reforma agr\u00e1ria. Nem as centrais sindicais CUT, For\u00e7a Sindical, CTB, etc., mesmo que falem de reforma agr\u00e1ria. Esse \u00e9 um elemento em comum que temos com a R\u00fassia daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>L\u00e1 na R\u00fassia, para os bolcheviques e Lenin s\u00f3 com a alian\u00e7a entre camponeses pobres e oper\u00e1rios era poss\u00edvel derrubar a monarquia e tirar a terra dos latifundi\u00e1rios, dos fazendeiros; aqui, s\u00f3 com a alian\u00e7a dos oper\u00e1rios, dos camponeses pobres e dos estudantes \u00e9 poss\u00edvel fazer a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, existia tamb\u00e9m a servid\u00e3o, que exigia dos camponeses que ficassem nas terras sem possu\u00ed-las nem usufruir delas. Aqui na Amaz\u00f4nia brasileira e em muitos lugares do Brasil n\u00e3o existia a servid\u00e3o, mas sim a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s, os primeiros seringueiros, viemos do Nordeste para a Amaz\u00f4nia e fomos entregues para os seringalistas, os propriet\u00e1rios desta grande selva. Depois fomos vendidos para o latif\u00fandio, que se apropriou das terras da Amaz\u00f4nia, com os seringueiros, os \u00edndios e a popula\u00e7\u00e3o camponesa que estava aqui. Depois, expulsaram milhares dessas pessoas da selva e do campo para as periferias das cidades; foi onde come\u00e7ou a resist\u00eancia dos seringueiros, que fizeram a reforma agr\u00e1ria adequada \u00e0 Amaz\u00f4nia, contra o latif\u00fandio.<\/p>\n<p>O Acre hoje tem \u00e1reas de terra \u2013 das quais os seringueiros se apropriaram e tomaram conta\u2013 de um milh\u00e3o de hectares, de 800.000 hectares.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu acredito que existe uma compara\u00e7\u00e3o entre a servid\u00e3o na R\u00fassia e a escravid\u00e3o na Amaz\u00f4nia. \u00c9 uma quest\u00e3o semelhante, cuja luta \u00e9 igual. Esta \u00e9 uma compara\u00e7\u00e3o importante de entender, porque em todo o mundo a luta pela terra tem a mesma dor e o mesmo gemido.<\/p>\n<p>Os ataques que sofremos<\/p>\n<p>N\u00f3s viv\u00edamos aqui um tipo de escravid\u00e3o. Os seringalistas arrendavam esses seringais e dominavam. Por exemplo, em Humait\u00e1 um seringalista mandava em 150 fam\u00edlias de seringueiros que eles trouxeram do Nordeste para aqui. Durante a II Guerra Mundial vieram para c\u00e1 90.000 fam\u00edlia de seringueiros do Nordeste e a metade morreu na viagem, de paludismo, de mal\u00e1ria\u2026<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da II Guerra, nos pegaram de surpresa e foram contrabandeadas milhares de sementes da Amaz\u00f4nia e levadas para os pa\u00edses asi\u00e1ticos, para a Mal\u00e1sia, assim o imperialismo se apropriou da borracha. Investiu-se em muita tecnologia para se apropriar de tudo isso.<\/p>\n<p>E na d\u00e9cada dos anos 1970 veio uma \u201cra\u00e7a ruim\u201d, que na \u00e9poca n\u00f3s cham\u00e1vamos de \u201cfazendeiros\u201d, os \u201csulistas\u201d, os \u201cpaulistas\u201d. Eles conseguiam dinheiro dos bancos, e o governo da ditadura fez uma grande propaganda dizendo que a Amaz\u00f4nia era um \u201cvazio demogr\u00e1fico\u201d e que era preciso \u201cocup\u00e1-la\u201d para que houvesse progresso e desenvolvimento.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a Amaz\u00f4nia estava ocupada pelos seringueiros. N\u00f3s fomos ignorados pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica]. Nas estat\u00edsticas, n\u00e3o fomos contados at\u00e9 as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, porque n\u00e3o \u00e9ramos considerados pessoas. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00ednhamos sa\u00fade, n\u00e3o t\u00ednhamos documentos. Est\u00e1vamos na periferia da sociedade deste pa\u00eds. Ent\u00e3o, os paulistas chegaram, trouxeram um documento do governo da ditadura e, com esse documento, ocuparam v\u00e1rios seringais dizendo que \u201co progresso ir\u00e1 chegar\u201d; eles nos diziam que t\u00ednhamos que desocupar a selva porque eles iriam implementar a agricultura porque tinha que ter riqueza, e que iriam acabar com a pobreza do povo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os fazendeiros chegaram querendo nos dizer como dever\u00edamos viver aqui. E, segundo eles, n\u00e3o era poss\u00edvel viver com a selva em p\u00e9. Ela tinha que cair, porque o progresso s\u00f3 chegaria se a selva fosse destru\u00edda, se fosse desmantelada. N\u00f3s n\u00e3o entend\u00edamos esse progresso que eliminava milhares de fam\u00edlias que viviam aqui h\u00e1 muitos anos. Foi muito agressivo. Muitas pessoas perderam tudo, porque tirar os seringueiros e os \u00edndios de dentro da selva \u00e9 como tirar um peixe da \u00e1gua, porque acaba com a vida deles. Eles n\u00e3o t\u00eam como sobreviver: se v\u00e3o para a cidade, principalmente hoje, os traficantes est\u00e3o disputando qualquer seringueiro que sai daqui. Os traficantes transformam os seringueiros em \u201cmulas\u201d, usam-nos para cruzar toda a fronteira com coca\u00edna. E esta \u00e9 uma quest\u00e3o muito complicada.<\/p>\n<p><strong>Come\u00e7a nossa resposta<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s, os \u00edndios e os seringueiros, fomos pegos de surpresa e a\u00ed come\u00e7ou a expuls\u00e3o, porque tanto uns como outros nos recusamos a sair. N\u00f3s nos consider\u00e1vamos donos. Meu pai, que veio do Nordeste, perguntava-se: \u201cpara onde vamos?\u201d. Eles expulsaram 5.000 fam\u00edlias, que foram para a Bol\u00edvia. Incendiaram aproximadamente 4.000 casas dentro desta selva, estupraram, assassinaram. A ditadura militar fez muitos companheiros desaparecerem, muitas pessoas foram torturadas.<\/p>\n<p>A UDR foi organizada como uma entidade que realizava festas para juntar dinheiro para pagar pistoleiros para matar padres, freiras, sindicalistas e deputados que estivessem do lado dos seringueiros, lutando pela reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 1973, come\u00e7aram as Comunidades Eclesiais da Base falando da \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00f3s acredit\u00e1vamos que t\u00ednhamos que nos libertar das garras do latif\u00fandio. Um grupo de seringueiros de Assis Brasil, da Brasil\u00e9ia, de Xapur\u00ed e da Boca do Acre, de Tarabac\u00e1, de v\u00e1rios lugares, decidiram agir.<\/p>\n<p>Resolvemos que ir\u00edamos\u201c fazer um \u2018Empate\u2019[4]. N\u00f3s n\u00e3o desmontamos e nem vamos deixar eles desmatar, e assim foi organizado esse movimento. O primeiro foi em Brasil\u00e9ia, no seringal Carmo e no seringal Pov\u00ed, liderado por Wilson Pinheiro, Chico Mendes e outros companheiros, como Iva\u00ed, como Z\u00e9 Pretinho e tantos outros. Todos assassinados. Eles eliminaram quatorze grandes sindicalistas da nossa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca havia v\u00e1rias companheiras que estavam dirigindo o movimento, como Dercy Teles, que assumiu a presid\u00eancia do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapur\u00ed. Foi a primeira mulher a dirigir um sindicato rural. Depois veio Chico Mendes, que foi o primeiro secret\u00e1rio dos trabalhadores rurais da Brasil\u00e9ia. Daqui ele foi organizar outros sindicatos do Estado do Acre.<\/p>\n<p>Eu acredito que o \u201cempate\u201d foi um movimento que se transformou em cultura. Foi politizado porque n\u00f3s come\u00e7amos a discutir a reforma agr\u00e1ria, a compreender essa coisa ecol\u00f3gica, porque os ambientalistas chegaram e disseram que aqui estavam os maiores ambientalistas e ecologistas do mundo.<\/p>\n<p>Eu disse: \u201cChico, eles est\u00e3o nos dando um apelido. Isso \u00e9 de comer?\u201d Aqui uma pessoa nos explicou, porque n\u00f3s n\u00e3o entend\u00edamos nada disso de \u201cambientalismo\u201d. Mas o Chico tinha uma sabedoria muito grande. Ele escutava, e quando as pessoas de fora iam embora, nos reun\u00edamos para discutir as vantagens que tinham as discuss\u00f5es que t\u00ednhamos feito com as pessoas que vinham de fora para ver nosso movimento, que eram estudantes, ambientalistas, intelectuais, etc.<\/p>\n<p>Eles diziam: \u201cvoc\u00eas s\u00e3o os verdadeiros ambientalistas\u201d. Mas nos parecia bonito dizer que \u00e9ramos sindicalistas. A\u00ed escut\u00e1vamos a palavra socialismo e para n\u00f3s o socialismo era o para\u00edso, porque o capitalismo s\u00f3 trazia viol\u00eancia, o capitalismo para n\u00f3s era o que vinha para eliminar as pessoas da selva, e tamb\u00e9m o que os fazendeiros diziam: isso de que tinha que desmatar para chegar ao progresso. Ent\u00e3o, a palavra socialismo se encaixou em n\u00f3s, e tamb\u00e9m o sindicalismo. Foi uma arma importante o movimento sindical da \u00e9poca, e tamb\u00e9m as comunidades eclesiais de base, na metodologia introduzida pelo Clodovil Boff, pelo Leonardo Boff, que era a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Eles tinham seus limites, mas eles nos davam apoio, nos informando. Na \u00e9poca da ditadura, a Igreja nos dava o sal\u00e3o paroquial para nos reunirmos e discutir o sindicato que a ditadura proibia.<\/p>\n<p>E os ambientalistas chegaram aqui, viram esse movimento e passaram a dizer: \u201cn\u00f3s precisamos fazer uma alian\u00e7a com voc\u00eas, porque no mundo h\u00e1 uma camada de gelo dissolvendo por causa do aumento da temperatura \u2013e ela vai aumentar a cada ano se a selva for desmatada, incendiada\u2013, o mar vai subir entre 8 e 12 metros\u201d. N\u00f3s estamos longe do mar, ent\u00e3o, para n\u00f3s, isso n\u00e3o era problema. A\u00ed eles nos disseram: \u201ch\u00e1 uma camada no espa\u00e7o, chamada oz\u00f4nio, que tem um buraco como o de um len\u00e7ol. Esse buraco est\u00e1 aumentando e os raios do sol v\u00e3o causar c\u00e2ncer de pele, particularmente nas pessoas brancas\u201d. Mas n\u00f3s trabalh\u00e1vamos na sombra, ent\u00e3o isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um problema. Eles nos deram uma s\u00e9rie de explica\u00e7\u00f5es que depois n\u00f3s avaliamos e dissemos: \u201cBom, eles n\u00e3o querem o monte para eles como os paulistas, alguma coisa nesse monte tem um significado l\u00e1 fora\u201d. Passamos ent\u00e3o a discutir a pol\u00edtica internacional sobre toda essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>E foi a\u00ed que o Chico Mendes se destacou. Porque ele foi a uma assembleia da ONU onde eles iriam discutir o investimento de milh\u00f5es de d\u00f3lares em um projeto de desmatamento que se estendia de Rond\u00f4nia at\u00e9 o Acre para construir uma grande rodovia (a BR- 249).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, essa alian\u00e7a que fizemos com o movimento ambientalista, ecologista, fizemos com um programa bem pensado, quer\u00edamos levar o que estava acontecendo para fora daqui, porque ningu\u00e9m sabia disso. E a primeira quest\u00e3o era esse projeto de desmatamento, porque ele iria acabar com os seringueiros e os \u00edndios, iria destruir as aldeias ind\u00edgenas, os seringais, de Rond\u00f4nia at\u00e9 Brasil\u00e9ia.<\/p>\n<p>Os ambientalistas fizeram uma credencial de jornalista para Chico Mendes, para que ele participasse da assembleia de banqueiros nos Estados Unidos. E o Chico foi, se apresentou como jornalista da Amaz\u00f4nia com sua credencial. Claro que o Chico Mendes era um seringueiro, mas tudo havia sido organizado para que pud\u00e9ssemos entrar no ninho deles, do grande capital, que queria vir aqui para acabar com n\u00f3s.<\/p>\n<p>O Chico foi para l\u00e1 preparado com muitos documentos, provas concretas do que era o projeto do Banco Mundial na Amaz\u00f4nia: que n\u00e3o servia para trazer progresso nem desenvolvimento, mas para destruir a vida, a cultura e o grande potencial natural. E foi a\u00ed que o Chico come\u00e7ou a falar e apresentou essa posi\u00e7\u00e3o e a assembleia dos banqueiros rachou no meio. Os banqueiros su\u00ed\u00e7os retiraram o recurso, assim como os da Su\u00e9cia e outros banqueiros da Europa para estudar isso bem, ver os documentos. Isso fez com que se suspendesse o projeto por um ano e permitiu que o movimento ganhasse um novo est\u00edmulo para organizar e preparar o \u201cempate\u201d.<\/p>\n<p>Assim, criamos uma s\u00e9rie de regras que deveriam cumprir para que essa rodovia (BR) fosse feita. Mas a\u00ed o mundo caiu em cima de n\u00f3s, porque fomos considerados como os grandes obst\u00e1culos para o progresso e o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Agora, n\u00f3s, os seringueiros n\u00e3o tinham carros, ent\u00e3o, por que uma BR na Amaz\u00f4nia? N\u00f3s n\u00e3o and\u00e1vamos de avi\u00e3o, ent\u00e3o, por que um aeroporto aqui na Amaz\u00f4nia? N\u00e3o t\u00ednhamos navio, ent\u00e3o, por que organizar tantos portos aqui?<\/p>\n<p>Entendemos que tudo era com um objetivo: introduzir aqui os garimpos[5], introduzir a soja e a agropecu\u00e1ria na Amaz\u00f4nia para a exporta\u00e7\u00e3o, introduzir o manejo madeireiro. Pela forma como eles trouxeram este projeto de grande expans\u00e3o para a regi\u00e3o, n\u00f3s tivemos que enfrentar este projeto, e isso foi muito violento.<\/p>\n<p>Eles chegaram a jogar agente laranja dos avi\u00f5es, em cima dos seringueiros, nos seringais da Brasil\u00e9ia, no seringal Carmo e no seringal Pov\u00ed, para desmatar a selva e nos fazer abandonar nossas Coloca\u00e7\u00f5es. Muitas pessoas morreram naquela \u00e9poca, muita agricultura de subsist\u00eancia acabou naquela regi\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos o que diabos era esse tal de agente laranja. Depois acabamos sabendo que \u00e9 um veneno, e que tinha sido usado nas selvas vietnamitas pelos americanos, quando os vietnamitas estavam ganhando a guerra contra eles. Os latifundi\u00e1rios, os fazendeiros, usavam isso aqui, tinham toda a liberdade de compr\u00e1-lo porque n\u00e3o havia nenhuma regra. Nos seringais Carmo e Pov\u00ed foram encontrados 92 tambores de 200 litros de agente de laranja, que j\u00e1 haviam derramado.<\/p>\n<p>Por exemplo, eu fiquei cego por um ano e isso sendo que eu n\u00e3o tinha estado em contato direto com o veneno, s\u00f3 respirei. Muitas pessoas morreram, inclusive crian\u00e7as, foi destru\u00edda a ca\u00e7a e a pesca, tudo. Foi b\u00e1rbaro o que aconteceu com os seringueiros. Muitas pessoas foram empurradas para as periferias das cidades.<\/p>\n<p><strong>Dizem que n\u00e3o somos seringueiros<\/strong><\/p>\n<p>Isso aqui [ver imagen] se chama \u201cfolha de borracha\u201d (borracha bruta) e \u00e9 o \u201cin\u00edcio\u201d da borracha final, que \u00e9 muito maior, de aproximadamente 50 quilos. Quando est\u00e1 desse tamanho, ele pesa entre 12 e 15 quilos. Eu fiquei com essa porque foi uma troca que fiz com Chico Mendes.<\/p>\n<p>Quando chegou a moderniza\u00e7\u00e3o est\u00e1vamos, na \u00e9poca, tanto aqui no Brasil como na Bol\u00edvia, com um \u201cprinc\u00edpio\u201d para trabalhar a borracha, que \u00e9 feita com folhas defumadas e pressionada. Aqui eu disse para o Chico: \u201cvamos guardar uma folha de borracha porque daqui a um tempo ningu\u00e9m mais vai ouvir falar disso\u201d.<\/p>\n<p>Uma vez eu fui sequestrado no Rio de Janeiro, me levaram para um pr\u00e9dio e, \u00e0 meia-noite, chegou um \u201ccara\u201d no lugar onde eu estava preso no quarto, e disse:<\/p>\n<p>\u201cChico Mendes era um vagabundo, ele era um traidor, nunca foi castanheiro, nunca foi seringueiro; foi sempre um representante dos americanos e foi sempre uma trava para o desenvolvimento e o progresso\u201d. E acrescentou: \u201cEu sou dono de dois milh\u00f5es de plantas de caf\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Era um fazendeiro que tinha chegado no pr\u00e9dio onde eu estava e queria discutir sobre o Chico comigo, chamando ele de traidor e de um mont\u00e3o de coisas.<\/p>\n<p>Naquele momento, ali sequestrado, lembrei-me desta folha de borracha\u2026 Ele, que acredita que n\u00f3s n\u00e3o somos seringueiros, castanheiros, camponeses, deveria vir aqui, ver onde moro, como vivo, porque h\u00e1 muitas pessoas que dizem que n\u00e3o sou castanheiro, que n\u00e3o sei quebrar castanhas, que n\u00e3o sou campon\u00eas. As pessoas da direita sempre dizem isso e eu sempre me lembro daquilo, porque quando aquele \u201ccara\u201d disse que Chico Mendes nunca foi um extrativista, isto aqui \u00e9 uma prova, porque isto aqui foi feito pelas m\u00e3os de Chico Mendes. Ele ficou com um que foi feito por mim junto com o companheiro Jaquiro, que foi do movimento com n\u00f3s e que j\u00e1 faleceu h\u00e1 3 ou 4 anos. Ningu\u00e9m sabe disso, porque \u00e9 a primeira vez que estou mostrando, apresentando, e ningu\u00e9m em nenhum lugar trabalha com isso na Amaz\u00f4nia, com esse processo t\u00e3o primitivo. Mas voc\u00eas v\u00e3o conhecer um trabalho que foi feito por Chico Mendes, um homem que n\u00e3o era s\u00f3 um seringueiro, mas tamb\u00e9m um militante pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Chico Mendes nunca foi um ecologista, foi um sindicalista, um pol\u00edtico, ele defendia o socialismo. Muitas vezes nas discuss\u00f5es pol\u00edticas, ele dizia \u2013 n\u00f3s sofr\u00edamos muito preconceito porque n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma leitura, n\u00e3o t\u00ednhamos forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica\u2013, que, t\u00ednhamos uma coisa que era muito importante, t\u00ednhamos vontade de viver e sab\u00edamos que para viver, s\u00f3 depend\u00edamos de n\u00f3s, e que para garantir nossa sobreviv\u00eancia t\u00ednhamos que garantir nossa perman\u00eancia na selva.<\/p>\n<p>E esta selva estava sendo disputada pelo grande latif\u00fandio. A ditadura trouxe o latif\u00fandio aqui para exterminar os seringueiros, os \u00edndios, os castanheiros, os quebradeiros de cocos e o baba\u00e7u[6], tudo o que era natural, e n\u00f3s que faz\u00edamos este produto e outros artesanatos, como cestas de p\u00e3o, vasos, panelas de barro. Tudo isso n\u00f3s que faz\u00edamos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em nossas reuni\u00f5es, lembro-me que o Chico dizia:<\/p>\n<p>\u201cGente, n\u00f3s n\u00e3o temos nenhum valor para essa sociedade l\u00e1 fora, ningu\u00e9m l\u00e1 nos considera como seres humanos, n\u00e3o somos dessa sociedade, estamos inclusive al\u00e9m da margem da sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Eu nunca me esqueci de quando ele dizia essas coisas, porque eu n\u00e3o tinha nenhuma leitura, n\u00e3o sabia ler, n\u00e3o tinha nem um \u00fanico documento, n\u00e3o era contado pelo IBGE, n\u00e3o figurava no censo deste pa\u00eds. Ent\u00e3o, naquela \u00e9poca eles poderiam nos eliminar que n\u00e3o haveria nenhum problema para esse sistema que os militares e o grande capital implantaram. Porque n\u00e3o \u00e9ramos nem sequer reconhecidos pela sociedade; n\u00e3o t\u00ednhamos escola nem documentos, n\u00e3o vot\u00e1vamos\u2026<\/p>\n<p>Mas o que prevaleceu foi essa vontade de organiza\u00e7\u00e3o dos seringueiros, dos \u00edndios, de resistir, de n\u00e3o aceitar ser escravos dos fazendeiros, de n\u00e3o viver na submiss\u00e3o a essa pol\u00edtica que o sistema implantava para n\u00f3s aqui.<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos um processo de escravid\u00e3o, um processo de preconceito, fomos ignorados, mas resistimos. Quando eles chegaram para nos eliminar, n\u00f3s n\u00e3o aceitamos ser derrotados e assim estes seringueiros se levantaram. Ent\u00e3o, quando o Chico dizia que s\u00f3 dependia de n\u00f3s a nossa sobreviv\u00eancia, quando organizamos esse \u201cEmpate\u201d, veio toda essa energia que era passada pelo Wilson Pinheiro, pelo Raimundo Rocha, pelo Z\u00e9 Pretinho, pelo Chico Mendes, pelo Iva\u00ed, pelo Jesus Mat\u00edas e por v\u00e1rios outros dirigentes sindicais que eu conto entre quatorze ou dezesseis, e que foram assassinados.<\/p>\n<p>Esta selva tinha quase 4.000 casas incendiadas pelo pessoal da ditadura militar, pelo pessoal da UDR, pelo grande latif\u00fandio, que deixou de ser\u00a0 UDR para se tornar agora o agroneg\u00f3cio, que organizava a viol\u00eancia aqui.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esta \u00e9 uma folha de borracha hist\u00f3rica, porque quando as pessoas diziam que o Chico Mendes era um ecologista (tentaram fazer com que acreditassem nisso), ningu\u00e9m entendia naquela \u00e9poca a quest\u00e3o da ecologia. Mas o Chico Mendes tinha no\u00e7\u00e3o de nossa import\u00e2ncia no movimento, e do isolamento em que viv\u00edamos. N\u00e3o t\u00ednhamos poder econ\u00f4mico nem poder pol\u00edtico, \u00e9ramos analfabetos e n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma entidade que nos representasse, a CUT ignorou nossa forma de vida e a forma que t\u00ednhamos de sobreviver aqui dentro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00f3s t\u00ednhamos que criar consci\u00eancia nacional; tivemos que criar os \u201cEmpates\u201d aqui na Amaz\u00f4nia para demonstrar l\u00e1 fora que o grande produtor de borracha, que faz as rodas dos avi\u00f5es, que faz a borracha das panelas de press\u00e3o, que faz a \u201ccamisinha de V\u00eanus\u201d [preservativos] \u00e9 o seringueiro, o extrativista natural. A borracha sint\u00e9tica n\u00e3o serve para as panelas de press\u00e3o nem para os preservativos; \u00e9 a borracha natural a que serve.<\/p>\n<p><strong>A vida do seringueiro<\/strong><\/p>\n<p>Bem, na vida de um seringueiro, de n\u00f3s, as pessoas que vivem aqui nas \u00e1reas rurais, na selva, a primeira coisa que fazemos pela manh\u00e3 \u00e9 acender o fogo e fazer comida para as galinhas, porcos, cachorros, alimentar os animais, e fazer caf\u00e9. Eu acredito que o lugar mais importante para n\u00f3s \u00e9 o fog\u00e3o, porque ele nos d\u00e1 a sustenta\u00e7\u00e3o que precisamos: comida e calor.<\/p>\n<p>E aqui fazemos tudo natural. Tudo era muito mais independente at\u00e9 o sulista [do Sul] ter vindo para c\u00e1. Os europeus vieram aqui e invadiram o pa\u00eds. E n\u00f3s nunca imaginamos que a Amaz\u00f4nia sofreria tamanha viol\u00eancia, porque se a Amaz\u00f4nia for um monstro, \u00e9 um monstro delicado. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe como lidar com esse monstro ou voc\u00ea o destr\u00f3i ou ele devora voc\u00ea, porque h\u00e1 muitas coisas aqui que dependem de que voc\u00ea saiba respeit\u00e1-las. Por exemplo, a mordida de uma cobra: aqui n\u00f3s inventamos um rem\u00e9dio, o chamamos de caseiro, que tem bile de paca[7], que serve para mordida de cobra, um ch\u00e1 de namb\u00fa[8], plumas de namb\u00fa azul[9], tripa de galinha. Ent\u00e3o, para quem vem de fora, este \u00e9 um lugar monstruoso; para n\u00f3s \u00e9 uma coisa simples, pelo fato de que estamos muito enraizados aqui, e n\u00e3o conseguimos viver fora daqui.<\/p>\n<p>Vou fazer 60 anos, tenho mais de 40 anos de milit\u00e2ncia e gra\u00e7as \u00e0 natureza estou l\u00facido ainda para tentar mostrar que a luta s\u00f3 tem sentido quando nos organizamos por nossos ideais. Eu considero que temos direito de estar nesta selva, aqui, ainda que sem energia el\u00e9trica, com esta fogueira ou com uma lanterna, sem sentir falta das outras coisas.<\/p>\n<p>O ser humano n\u00e3o precisa de tanto, mas o sistema coloca muitas coisas para que as pessoas consumam\u2026 e s\u00e3o coisas t\u00e3o sup\u00e9rfluas. A energia el\u00e9trica \u00e9 sup\u00e9rflua, mas muitas pessoas n\u00e3o vivem hoje se n\u00e3o tiverem energia el\u00e9trica, \u00e9 imposs\u00edvel viver sem internet. Se o sistema n\u00e3o tivesse nos trazido esse \u201cprogresso\u201d, essa tal \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o teria sofrido toda essa viol\u00eancia que passamos aqui: todas aquelas milhares de casas que foram incendiadas Amaz\u00f4nia adentro, no Acre, Par\u00e1, Rond\u00f4nia, em todo o Estado do Amazonas, que nas d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990 tiveram mais de mil camponeses assassinados.<\/p>\n<p>Agress\u00e3o para n\u00f3s \u00e9 sair daqui. Porque quando um seringueiro sai daqui para ir para a cidade \u2013 e nunca estudou, n\u00e3o tem nenhuma forma\u00e7\u00e3o\u2013, a primeira coisa que perde \u00e9 a identidade. Os seringueiros, colonos, pessoal da agricultura familiar, castanheiros, ribeirinhos, quebradeiros de cocos, para n\u00f3s s\u00e3o todos camponeses, porque vivem da terra.<\/p>\n<p>Para se manter aqui, voc\u00ea deve fazer um esfor\u00e7o monstruoso, porque n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o de qualidade nem uma pol\u00edtica de sa\u00fade. Muitas pessoas aqui curam mordidas de cobras ou dor de dente com rem\u00e9dios caseiros. Agora imagine: as infec\u00e7\u00f5es, os tipos de bact\u00e9rias, os tipos de febre, todas as doen\u00e7as tropicais desta regi\u00e3o s\u00e3o enfrentadas com a sabedoria do caboclo, da minha m\u00e3e, do meu pai, que a transmitiram para mim, e que eu vou transmitindo para os outros, e isso mant\u00e9m nossa independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A selva \u00e9 um monstro delicado, por\u00e9m, este monstro delicado ficou ofendido desde que chegaram aqui os interesses econ\u00f4micos, e aqui h\u00e1 muitas coisas que d\u00e3o muito dinheiro. Assim vieram os garimpos da cassiterita [estanho], depois os do ouro, os do diamante. Agora a disputa pela \u00e1gua, e com um interesse cada vez maior porque h\u00e1 escassez. H\u00e1 muitas inunda\u00e7\u00f5es, mas quando chega aqui n\u00f3s j\u00e1 sofremos uma seca de dois anos, onde n\u00e3o fica nada de \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que n\u00f3s percebemos a import\u00e2ncia, porque aqui na minha coloca\u00e7\u00e3o n\u00e3o houve um igarap\u00e9[10] que n\u00e3o tenha secado. S\u00f3 tinha a seis quil\u00f4metros, mas \u00e9 dentro da minha coloca\u00e7\u00e3o. Eu ia pegar \u00e1gua l\u00e1. Mas aqui onde estou, eu cavei uma fonte e descobri que estou em cima de um len\u00e7ol fre\u00e1tico. Uma vez tivemos uma seca de onze meses sem chover e tivemos \u00e1gua a um metro e meio de profundidade.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma regi\u00e3o que tem que ser tratada de forma diferente. N\u00e3o se pode levar a terra da Amaz\u00f4nia e reparti-la em pequenos lotes e encher ela de gente, porque as terras n\u00e3o s\u00e3o boas para a agricultura; a agricultura n\u00e3o se move; e n\u00f3s estamos em um lugar totalmente isolado. Na \u00e9poca de chuva aqui ningu\u00e9m sai, n\u00e3o tem como sair para a cidade para levar um produto para vender. Ent\u00e3o, para n\u00f3s \u00e9 importante poder diversificar nossos produtos.<\/p>\n<p>A castanha pode ser armazenada e um carreteiro com um burro pode ir buscar as castanhas no seringal, mas ele n\u00e3o vai buscar arroz, nem milho nem as outras coisas. Ent\u00e3o, o que veio para c\u00e1 foi um incentivo \u00e0 pecu\u00e1ria, um incentivo \u00e0 agricultura, um incentivo \u00e0 explora\u00e7\u00e3o madeireira, e isso est\u00e1 agredindo muito nossa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que a Amaz\u00f4nia tem uma vida pr\u00f3pria? Ela n\u00e3o consegue viver com certos projetos que s\u00e3o implementados e que v\u00e3o tirar seus aspectos de natureza. N\u00f3s a chamamos de \u201cmonstro\u201d porque as pessoas aqui t\u00eam que sobreviver de uma forma muito independente. Aqui voc\u00ea n\u00e3o tem como depender das pol\u00edticas governamentais, ou seja, \u00e9 um monstro em todos os sentidos, na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na nossa economia\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 uma \u00e1rea vasta, uma selva densa, onde h\u00e1 \u00e1rvores com mais de 1.500 anos e as \u00e1rvores mais novas t\u00eam 200 anos de exist\u00eancia, e n\u00f3s conseguimos superar todas essas epidemias que ocorrem, como a mal\u00e1ria, hepatite, febre tifoide, sarampo, paludismo, var\u00edola, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 um monstro delicado porque voc\u00ea tem que trat\u00e1-lo com respeito. A Amaz\u00f4nia precisa que a respeitemos. N\u00e3o se deve agredi-la.<\/p>\n<p>Por exemplo, ao desmatar a cabeceira de um igarap\u00e9, porque dessa forma est\u00e1 acabando com a \u00e1gua. Se voc\u00ea desmatar as margens do igarap\u00e9 est\u00e1 acabando com a vida. A \u00e1gua que eu bebo \u00e9 do igarap\u00e9 da minha Coloca\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o possui um s\u00f3 desmatamento. A partir do momento em que se come\u00e7a a querer fazer disto aqui um lucro imediato, como vemos agora, esse monstro vai ser afetado e ent\u00e3o voc\u00ea vai sentir as consequ\u00eancias, e n\u00f3s vamos sofrer com esse monstro.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia pode ser considerada o maior ar condicionado, o maior ventilador da Terra. Ela consegue refrescar a Terra e n\u00f3s. Ent\u00e3o, a partir do momento em que voc\u00ea destruir esse monstro, todos vamos sofrer consequ\u00eancias irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Nossa luta \u00e9 mais atual do que nunca<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante que os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o compreendam que, para n\u00f3s, a reforma agr\u00e1ria \u00e9 a selva. Por isso, a reforma agr\u00e1ria tinha que ser adaptada ao nosso meio de vida aqui. \u00c0 nossa cultura, nossos costumes e nossa forma de viver aqui. N\u00f3s trabalhamos na sombra, n\u00e3o sab\u00edamos trabalhar ao sol. A reforma agr\u00e1ria da Amaz\u00f4nia n\u00e3o pode ser a reforma agr\u00e1ria do Rio Grande do Sul, porque l\u00e1 eles precisam do t\u00edtulo, l\u00e1 o campon\u00eas s\u00f3 sobrevive se ele tem um t\u00edtulo de propriedade para, por exemplo, pedir um empr\u00e9stimo no banco, e muitas vezes ele perde a terra por uma hipoteca.<\/p>\n<p>A luta pela reforma agr\u00e1ria aqui \u00e9 um processo totalmente diferente do que a luta no centro-oeste ou no sul do pa\u00eds. Porque s\u00f3 garantiremos a perman\u00eancia do campon\u00eas na terra se expropriarmos a terra, se fazemos a expropria\u00e7\u00e3o coletiva como fizemos aqui, onde um seringal s\u00f3 tem 500 fam\u00edlias e nela est\u00e1 a coloca\u00e7\u00e3o, e naquela coloca\u00e7\u00e3o est\u00e1 a moradia do seringueiro. Como est\u00e1 a minha, por exemplo. E o seringal est\u00e1 dentro do munic\u00edpio da Amaz\u00f4nia. Se fiz\u00e9ssemos uma compara\u00e7\u00e3o, seria como um conjunto habitacional dentro de uma grande cidade. Um seringal \u00e9 assim: dentro do conjunto h\u00e1 as quadras e dentro delas, as casas. O seringal \u00e9 um conjunto: dentro dele est\u00e3o as coloca\u00e7\u00f5es e dentro delas, as moradias, e entre elas est\u00e3o os \u201cvaradouros\u201d [caminhos ou trilhas abertas na mata], que s\u00e3o os caminhos por onde n\u00f3s andamos, e que nas cidades se chamam ruas. E nosso principal meio de vida e sobreviv\u00eancia \u2013 por isso esse movimento\u2013 era a ca\u00e7a, a pesca, a borracha, o a\u00e7a\u00ed[11] s\u00f3 produtos bem nativos. A agropecu\u00e1ria veio depois, mas antes chegou o garimpo, o merc\u00fario, o randape[12]. Chegaram aqui n\u00e3o com o objetivo de ajudar o \u00edndio e o campon\u00eas, mas com o objetivo de ajudar o grande latif\u00fandio improdutivo e os grandes empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Por\u00e9m os seringueiros, os povos tradicionais e os camponeses continuam enfrentando os grandes projetos de expans\u00e3o. Esses projetos s\u00e3o implementados pelo agroneg\u00f3cio e n\u00e3o trazem nenhum resultado para que ocorra a reforma agr\u00e1ria. Esses projetos concentram a terra, s\u00e3o projetos como hidrel\u00e9tricas, aeroportos, grandes rotas e rodovias. S\u00e3o projetos que destroem a cultura das popula\u00e7\u00f5es daqui e que concentram a riqueza. A energia dessas hidrel\u00e9tricas que est\u00e3o sendo constru\u00eddas na Amaz\u00f4nia vai inundar milh\u00f5es de hectares da selva e n\u00e3o vai trazer energia para as grandes popula\u00e7\u00f5es, mas para dois ou tr\u00eas empres\u00e1rios, portanto, \u00e9 um projeto do agroneg\u00f3cio. E o que \u00e9 mais triste \u00e9 que esses projetos t\u00eam o aval de pessoas como Marina [Silva], que fez uma festa com o agroneg\u00f3cio dizendo que vai governar com eles.<\/p>\n<p>O PT e o PSDB[13] fazem coro e levam para seus minist\u00e9rios os que dirigem o agroneg\u00f3cio, e isso \u00e9 complicado porque a luta pela reforma agr\u00e1ria hoje est\u00e1 totalmente esquecida. Os \u00fanicos que t\u00eam uma proposta de reforma agr\u00e1ria e est\u00e3o implementando ela \u2013e que j\u00e1 deram um passo importante\u2013- s\u00e3o os seringueiros.<\/p>\n<p>O MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] come\u00e7ou em 1985 junto com n\u00f3s, os seringueiros, mas abandonou essa luta. Pensou que o governo do PT iria fazer essa reforma agr\u00e1ria, mas n\u00e3o a fez. Agora ele quer faz\u00ea-la com as ONGs que s\u00f3 fazem discursos.<\/p>\n<p>Mas os seringueiros criaram as reservas extrativistas como uma proposta de reforma agr\u00e1ria, adequada para a regi\u00e3o. Foi uma proposta que inclusive era discutida internamente no movimento, na \u00e9poca. Uma proposta socialista, de ter uma terra coletiva para evitar o \u00eaxodo do campo para a cidade.<\/p>\n<p>Primeiro come\u00e7amos a discutir a expropria\u00e7\u00e3o desses grandes seringais da regi\u00e3o, que estava cheia de seringais: 500.000 hectares, que tinham 1.500 fam\u00edlias. Seringais de 100.000 hectares, de 50.000 hectares. Se fosse loteada e n\u00f3s reivindic\u00e1ssemos o t\u00edtulo de propriedade dessa terra, em pouco tempo voltaria para o latif\u00fandio. Porque quando algu\u00e9m entrega a escritura de t\u00edtulo e essa pessoa n\u00e3o se adapta \u00e0 \u00e1rea rural, ela vende. Por isso n\u00f3s s\u00f3 exig\u00edamos o direito a usufruir e que o t\u00edtulo fosse da Uni\u00e3o [o Estado brasileiro]. Era uma proposta socialista, discutida dentro do movimento. S\u00f3 que sofremos uma trai\u00e7\u00e3o muito grande. Os militantes que confiaram no governo do PT sofreram uma trai\u00e7\u00e3o muito grande. As centrais sindicais tra\u00edram essa proposta.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, a import\u00e2ncia de levar os oper\u00e1rios \u00e0 luta pela reforma agr\u00e1ria, para que se juntem aos seringueiros, aos camponeses, \u00e9 para tirar a concentra\u00e7\u00e3o de terras do agroneg\u00f3cio, do latif\u00fandio, do grande capital. \u00c9 importante que se diga: hoje o dono da terra n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o dono da terra. O dono da terra \u00e9 tamb\u00e9m o dono da televis\u00e3o; \u00e9 o dono da hidroneg\u00f3cio; \u00e9 o dono do agroneg\u00f3cio. \u00c9 o dono da mercantiliza\u00e7\u00e3o. E a log\u00edstica que foi aplicada na Amaz\u00f4nia para implementar este projeto foi brutal.<\/p>\n<p>\u00c9 vis\u00edvel como o PT, a Marina, organizaram isso como uma continua\u00e7\u00e3o do que fez o PSDB. O Fernando Henrique Cardoso (FHC) come\u00e7ou esses projetos. N\u00f3s criamos o Conselho Nacional de Seringueiros e eles criaram a lei do SNUC [Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o]. Porque antes tudo era decidido pelos seringueiros. O SNUC tirou o poder dos seringueiros de decidir as coisas. A Marina, como ministra do Lula, chegou l\u00e1 e criou o SNUC, e quem dirige hoje as reservas que antes eram dos seringueiros \u00e9 o SNUC, junto com o ministro. E o chefe atualmente \u00e9 uma pessoa indicada pelo ministro da Reforma Agr\u00e1ria. Assim, n\u00f3s fomos tra\u00eddos, com todas essas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os oper\u00e1rios come\u00e7arem a entender que esses trabalhadores informais, o movimento acad\u00eamico, principalmente aqueles que t\u00eam o poder de escrever, de transmitir essas quest\u00f5es, que eles [o SNUC] adotaram o discurso de nossos inimigos, da Marina junto com o governo do Acre principalmente, que \u00e9 a nova proposta de uma \u201ceconomia verde\u201d\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 o novo projeto que eles est\u00e3o implementando com a REDE[14], que \u00e9 um projeto de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es por degrada\u00e7\u00e3o. Isso faz com que os seringueiros que n\u00e3o est\u00e3o dentro da reserva assinem um acordo pelo qual se estabelece que os empres\u00e1rios v\u00e3o entrar, eles dizem que para ajud\u00e1-los. Eles assinam esse acordo e os empres\u00e1rios v\u00eam e come\u00e7am a expuls\u00e1-los, porque eles n\u00e3o v\u00e3o poder mais ca\u00e7ar nem pescar. N\u00e3o v\u00e3o poder usar a madeira para construir as casas, nada. Tudo fica intoc\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, hoje, o projeto sobre o manejo madeireiro \u00e9 o projeto da REDE, o projeto das hidrel\u00e9tricas, e tudo est\u00e1 em disputa. A conquista da terra da Amaz\u00f4nia est\u00e1 dando um trabalho grande para o Estado. O Estado precisa vender esta selva, precisa mercantilizar estes produtos naturais. Mas para isso ele vai ter que expulsar os \u00edndios, os seringueiros, vai ter que expulsar os camponeses, os quebradeiros de coco baba\u00e7u[15]. \u00c9 um projeto brutal e violento, porque o Estado n\u00e3o mede as consequ\u00eancias para incriminar e criminalizar.<\/p>\n<p>Eu fui criminalizado, processado inclusive. Fui absolvido pela justi\u00e7a, mas fui condenado a pagar 80.000 reais de multa. Poderia sofrer n\u00e3o sei quantos anos de pris\u00e3o porque eu disse que n\u00e3o iria pagar a multa. Eu teria ido preso se n\u00e3o tivesse sido defendido pelo movimento sindical, pela CONLUTAS, o movimento dos oper\u00e1rios de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro. Todo mundo se juntou e sa\u00edram em minha defesa porque sabiam que eu sou um dos mentores da cria\u00e7\u00e3o da reserva extrativista. Eu jamais degradaria esse monte porque eu tenho o maior carinho por ele.<\/p>\n<p>Os seringueiros est\u00e3o sendo criminalizados porque cortam madeira para fazer uma cerca, porque cortam e tiram palha para fazer uma casa. Agora, o governo est\u00e1 tirando toda a madeira. Eu penso que nossa luta aqui na Amaz\u00f4nia \u00e9 muito atual. S\u00f3 falta que seja implantada a forma\u00e7\u00e3o, a capacita\u00e7\u00e3o, para que os trabalhadores compreendam que esta n\u00e3o \u00e9 mais uma luta dos extrativistas: \u00e9 uma luta de toda a humanidade. Tem que ser tamb\u00e9m uma luta de todos os estudantes, de todos os intelectuais, do mundo acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Mas o que mais nos enfurece \u00e9 que depois de criar a reserva extrativista, pela qual Chico Mendes e muitos outros foram mortos nessa luta pela reforma agr\u00e1ria, por uma vida dentro da selva da Amaz\u00f4nia, depois de toda essa luta, vemos pessoas que estavam com n\u00f3s, como Lula nos anos 1980 quando Wilson Pinheiro foi assassinado, ou Marina Silva, que veio daqui, do seringal Baga\u00e7o, depois estudou e se formou como professora e foi para o movimento, destacou-se e tornou-se ministra\u2026 e depois disso tudo, essas pessoas foram para l\u00e1, fizeram alian\u00e7a com o agroneg\u00f3cio, com a UDR. Parece que est\u00e3o loucos, levaram a K\u00e1tia Abreu[16] ao governo da Dilma, eles se juntaram com Renan Calheiros, com Cunha, com Collor[17], com todo esse pessoal que n\u00f3s enfrentamos na \u00e9poca da ditadura; juntaram-se com Sarney, que assassinou muitas pessoas no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu sinto uma grande repulsa, porque n\u00e3o d\u00e1 para entender por que \u00e9 que o Lula, por exemplo, saiu da presid\u00eancia dizendo que os \u201cusineiros\u201d[18] eram os grandes her\u00f3is. Quando ele veio aqui em 1980 ele disse que faria a reforma agr\u00e1ria \u201cde um s\u00f3 golpe\u201d neste pa\u00eds. Por\u00e9m, a terra concentrou-se ainda mais, e ele disse que nunca os banqueiros e os empres\u00e1rios tinham ganhado tanto quanto com ele como presidente.<\/p>\n<p>\u00c9 triste v\u00ea-los privatizando nossos recursos, a Marina criou uma Lei de Concess\u00e3o de Florestas P\u00fablicas que lhes d\u00e1 por 40 anos o direito de concess\u00e3o de, digamos, um milh\u00e3o de hectares. Vencidos esses 40 anos de contrato de concess\u00e3o com o Estado brasileiro, esse pode ser prolongado por outros 30 anos. Quer dizer: a Marina privatizou a selva amaz\u00f4nica por 70 anos, e o Lula criou a lei que regulamenta todo o desmatamento feito pela UDR e pelo agroneg\u00f3cio, ou seja, aqueles que fizeram o grande desmatamento at\u00e9 2008 est\u00e3o perdoados.<\/p>\n<p>E quem foi? A Volkswagen, os grandes empres\u00e1rios e latifundi\u00e1rios que desmataram para apropriar-se da terra, tirando dos seringueiros e dos \u00edndios todos esses recursos e prejudicando toda a humanidade. Porque este \u00e9 um terreno que pode servir para investigar, porque nesta selva pode estar a cura para muitos tipos de doen\u00e7as, porque aqui s\u00f3 foi feito o levantamento de 20% do potencial natural dessa selva, e s\u00f3 foi estudado 7% dessa porcentagem.<\/p>\n<p>O que temos a dizer para a sociedade, para a humanidade inteira \u00e9 que primeiro temos que conhecer este monstro aqui para depois poder decidir se ser\u00e1 destru\u00eddo, porque aqui a \u00e1gua \u00e9 providencial assim como a selva, porque ambas resolvem nossos problemas. Por isso para n\u00f3s a reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma necessidade, mas dentro da realidade de cada regi\u00e3o. Aqui precisamos da reforma agr\u00e1ria com a selva em p\u00e9. Ent\u00e3o, temos que implementar pesquisas, mas para modernizar o tradicional, temos que ter engenhos de castanha, mas para colocar castanhas na merenda escolar. O a\u00e7a\u00ed \u00e9 todo arruinado, o mesmo com o baba\u00e7u\u2026, aqui se destr\u00f3i tudo, e isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Aqui pode se trabalhar tudo isso.<\/p>\n<p>\u00c9 importante que n\u00f3s, os seringueiros, os \u00edndios, mantenhamos essa luta pela reforma agr\u00e1ria, mas n\u00e3o aderindo \u00e0 esses projetos de explora\u00e7\u00e3o madeireira, mercados de carv\u00e3o, prospec\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, de g\u00e1s\u2026 Tudo isso \u00e9 o que destr\u00f3i nosso grande potencial, nossos recursos.<\/p>\n<p>Eu vou recitar o Pai Nosso como os seringueiros faziam na \u00e9poca do \u201cempate\u201d, essa luta que os seringueiros fizeram para n\u00e3o deixar que a selva se perdesse. Foram adiante, enfrentaram os fazendeiros e n\u00e3o deixaram eles desmatarem. E tamb\u00e9m fizeram sua poesia, porque a UDR tinha S\u00e9rgio Reis, que fez shows para eles aqui, com leil\u00e3o de 5.000 cabe\u00e7as de gado para comprar armas para matar sindicalistas, sacerdotes, jornalistas, para matar todos aqueles que estavam do lado do movimento seringueiro. E nosso Pai Nosso diz assim:<\/p>\n<p><em>Seringueira que estais na selva<\/em><\/p>\n<p><em>Multiplicados sejam os vossos dias<\/em><\/p>\n<p><em>Venha a n\u00f3s o vosso leite<\/em><\/p>\n<p><em>E seja feita a nossa borracha<\/em><\/p>\n<p><em>Assim na prensa como na caixa<\/em><\/p>\n<p><em>Para o sustento de nossas fam\u00edlias<\/em><\/p>\n<p><em>Nos dai hoje e todos os dias<\/em><\/p>\n<p><em>Perdoai nossa ingratid\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Assim como n\u00f3s enfrentamos<\/em><\/p>\n<p><em>As maldades do patr\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>E ajudai a libertar-nos<\/em><\/p>\n<p><em>Das garras do regat\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Am\u00e9m!<\/em><\/p>\n<p>E depois a Ave Maria, que diz assim:<\/p>\n<p><em>Ave madeira, que desgra\u00e7a<\/em><\/p>\n<p><em>Se preciso eu te cortar<\/em><\/p>\n<p><em>Bendito \u00e9s o teu leite<\/em><\/p>\n<p><em>Pra meus filhos sustentar<\/em><\/p>\n<p><em>Por\u00e9m a tua borracha<\/em><\/p>\n<p><em>Faz os bar\u00f5es farrear.<\/em><\/p>\n<p><em>Santa madeira m\u00e3e do leite<\/em><\/p>\n<p><em>Rogai pela nossa vit\u00f3ria<\/em><\/p>\n<p><em>Pra conseguirmos mais Reservas<\/em><\/p>\n<p><em>Extrativistas nesta hora<\/em><\/p>\n<p><em>Am\u00e9m!<\/em><\/p>\n<p><strong>Olhando para tr\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bom relembrar agora, porque est\u00e1 fazendo 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, na qual os bolcheviques e os camponeses expropriaram e fizeram a reforma agr\u00e1ria na R\u00fassia. Aqui no Brasil, naquela \u00e9poca, o seringueiro vivia em luta contra os grandes seringalistas.<\/p>\n<p>Depois da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, n\u00f3s conseguimos fazer esse movimento na Amaz\u00f4nia e mesmo que n\u00e3o expropriamos a terra, n\u00f3s seringueiros a tiramos das m\u00e3os do latif\u00fandio aqui no Estado do Acre. Conseguimos que mais de 30 milh\u00f5es de hectares de selva e de terra ficassem nas m\u00e3os dos \u00edndios e dos seringueiros nos Estados da Amaz\u00f4nia \u2013Par\u00e1, Acre, Rond\u00f4nia, Tocantins, Maranh\u00e3o, Amap\u00e1, todos\u2013. O movimento dos Sem Terra conseguiu ocupar muitas fazendas neste pa\u00eds. Foram dois movimentos importantes no Brasil lutando pela reforma agr\u00e1ria: o MST e os seringueiros na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Trinta dias antes de morrer, Chico Mendes estava em reuni\u00e3o conosco, discutindo o socialismo e todas essas quest\u00f5es e escreveu um sonho para os jovens do futuro, dizendo o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cAten\u00e7\u00e3o, jovem do futuro, no ano de 2120 acontecer\u00e1 a primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial, que vai p\u00f4r fim a todos os inimigos do planeta\u201d. E foi falando desse sonho, dizendo: \u201cNessa sociedade n\u00e3o haver\u00e1 terra concentrada, prostitui\u00e7\u00e3o, desigualdade social; ser\u00e1 uma terra de uma s\u00f3 classe, n\u00e3o haver\u00e1 luta de classes\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Chico no final disse: \u201cVoc\u00eas me desculpem por descrever estes acontecimentos que eu mesmo n\u00e3o verei, mas tenho o prazer de ter sonhado com eles\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para mim, n\u00f3s sonhamos com uma sociedade melhor, mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o acreditemos nesse sistema, que ilude a grande maioria com esmolas. Com o Bolsa Fam\u00edlia e com outras Bolsas. O que est\u00e3o fazendo conosco, o que fazem na ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica agora, n\u00e3o \u00e9 o que pensaram os bolcheviques, nem Lenin, nem Trotsky, nem Marx, nem Rosa Luxemburgo\u2026 N\u00e3o \u00e9 o que pensaram todos os que lutaram por essa sociedade na qual a classe teria o que \u00e9 seu e o inimigo desapareceria, uma sociedade justa.<\/p>\n<p>E eu continuo sonhando, acreditando nisso, como o Chico. Para n\u00f3s, o Chico n\u00e3o morreu, ele est\u00e1 aqui, nesta luta que estamos fazendo, como Wilson Pinheiro n\u00e3o morreu, para mim foi um grande dirigente, secret\u00e1rio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Brasil\u00e9ia, inventor da palavra \u201cempate\u201d, porque quando os seringueiros chegaram dizendo que no Carmo e em Povi estavam os fazendeiros mandando desocupar os seringais, o Wilson disse:<\/p>\n<p>\u201cn\u00f3s n\u00e3o vivemos com a selva desmatada, s\u00f3 viveremos com ela em p\u00e9; ent\u00e3o n\u00e3o a desmataremos nem deixaremos que eles fa\u00e7am isso\u201d .<\/p>\n<p>Foram palavras do Wilson Pinheiro, e n\u00f3s as agarramos e dizemos: vamos fazer esse \u201cempate\u201d. E o Chico saiu pelo mundo todo dizendo isso, e ent\u00e3o eu e tantos outros camaradas fizemos o mesmo.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00f3s que estamos fazendo essa discuss\u00e3o pelos 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, vivemos essa realidade dura e cruel, e sei que muitos seringueiros a vivem tamb\u00e9m, e muitos camponeses a vivem aqui e na R\u00fassia. E est\u00e3o lutando, como tamb\u00e9m fazem na S\u00edria, na Europa e em todo e qualquer canto do mundo, e aqui no Brasil, principalmente contra a concentra\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, temos que fazer com que os trabalhadores ignorem esse sistema e possamos dar continuidade a esta luta por uma sociedade justa. Eu penso que a reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma necessidade. A concentra\u00e7\u00e3o de terras tem que deixar de existir, mas isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel quando a popula\u00e7\u00e3o se levantar e n\u00e3o acreditar mais nesses partidos do sistema capitalista. As pessoas t\u00eam que se indignar todos os dias contra o sistema, contra essa ordem que para n\u00f3s \u00e9 desordem.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Trabalhador que extrai a borracha da seringueira.<\/p>\n<p>[2] Coloca\u00e7\u00e3o \u00e9 o lugar onde os seringueiros t\u00eam suas moradias. Tem essa denomina\u00e7\u00e3o quando do boom da borracha na Amaz\u00f4nia no s\u00e9culo xix, os imigrantes eram alocados em \u00e1reas pr\u00e9-determinadas. Ou seja, eram\u00a0 \u201ccolocados\u201d em tal lugar.<\/p>\n<p>[3] A UDR (Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista) agrupa os grandes propriet\u00e1rios rurais. Luta contra a preserva\u00e7\u00e3o da selva amaz\u00f4nica e contra a reforma agr\u00e1ria. \u00c9 acusada, por muitas organiza\u00e7\u00f5es camponesas, de manter trabalho escravo em suas fazendas e pelo assassinato de centenas de trabalhadores rurais. S\u00f3 entre 1985 (ano de sua funda\u00e7\u00e3o) e 1989 foram assassinados 640 camponeses.<\/p>\n<p>[4] Um Empate consistia na reuni\u00e3o de homens, mulheres e crian\u00e7as nos seringais, sob a lideran\u00e7a dos sindicatos, para tratar de impedir, com sua presen\u00e7a, o desmatamento da selva por parte dos fazendeiros criadores de gado.<\/p>\n<p>[5] Garimpo \u00e9 a denomina\u00e7\u00e3o dada \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o, tanto manual quanto mecanizada, de subst\u00e2ncias minerais como o ouro, os diamantes, etc, de maneira tradicional e muitas vezes, ilegal.<\/p>\n<p>[6] O baba\u00e7u \u00e9 um tipo de palmeira brasileira. Apresenta-se como um importante recurso utilizado h\u00e1 s\u00e9culos para produ\u00e7\u00e3o de \u00f3leo, sendo um vegetal em destaque para mais de 300 mil fam\u00edlias extrativistas que t\u00eam na quebra manual do coco, para retirada da am\u00eandoa, sua principal fonte de renda..<\/p>\n<p>[7] A paca \u00e9 um tipo de roedor que habita as matas tropicais e se alimenta de frutas, folhas, sementes e ra\u00edzes.<\/p>\n<p>[8] O ch\u00e1 de namb\u00fa \u00e9 uma infus\u00e3o que \u00e9 feita por derramamento de \u00e1gua fervente sobre as plantas postas em um recipiente, que depois \u00e9 tampado e deixado em repouso por alguns minutos.<\/p>\n<p>[9] Inhambu-galinha, conhecida no Brasil como namb\u00fa ou lamb\u00fa, e outras denomina\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma ave parecida com o perdiz, que habita planta\u00e7\u00f5es e \u00e1reas de pasto, comuns no Estado do Amazonas e outras regi\u00f5es com caracter\u00edsticas similares, e que p\u00f5e ovos de cor azul-esverdeado.<\/p>\n<p>[10] Em termos geogr\u00e1ficos um igarap\u00e9 \u00e9 um pequeno rio que corre entre ilhas, que formam bra\u00e7os estreitos ou canais, e que existe em grande quantidade na bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>[11] O a\u00e7a\u00ed \u00e9 o fruto da palmeira que cresce no estado silvestre, no Norte do Brasil<\/p>\n<p>[12] O veneno randape (de Roundap) \u00e9 um herbicida a base de glifosato, tamb\u00e9m conhecido como \u201cmata-mato\u201d, que ao ser absorvido pelas folhas, atua nas ra\u00edzes, matando elas<\/p>\n<p>[13] Partido do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso (FHC).<\/p>\n<p>[14] Partido da Marina Silva.<\/p>\n<p>[15] Esp\u00e9cie de palmeira.<\/p>\n<p>[16] Representante dos fazendeiros, Ministra da Agricultura do \u00faltimo governo da Dilma.<\/p>\n<p>[17] Renan Calheiros e Cunha s\u00e3o parlamentares do PMDB, partido ao qual pertence Temer e Collor de Melo, ex-presidentes do Brasil.<\/p>\n<p>[18] Donos de engenhos a\u00e7ucareiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente texto foi retirado do livro &#8220;P\u00e3o, Paz e Terra&#8221;, produzido pela Editora Lorca em 2017, juntamente com o filme de mesmo nome, por ocasi\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o dos 100 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. O cap\u00edtulo 5, que reproduzimos aqui, mostra com toda a dureza as conseq\u00fc\u00eancias do desmantelamento da Amaz\u00f4nia no capitalismo, que Osmarino [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":73455,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3498,3840,31,3766,3767],"tags":[1252,5416,6872],"class_list":["post-29177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-crise-climatica-e-ambiental","category-defesa-da-amazonia","category-ecologia","category-meio-ambiente","category-mudancas-climaticas","tag-amazonia","tag-defesa-da-amazonia","tag-osmarino-amancio"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/osmarino-2.png","categories_names":["Brasil","Crise clim\u00e1tica e ambiental","Defesa da amaz\u00f4nia","Ecolog\u00eda","Meio Ambiente","Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29177"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29177\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73455"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}