{"id":29173,"date":"2019-08-23T10:00:47","date_gmt":"2019-08-23T12:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29173"},"modified":"2019-08-23T10:00:47","modified_gmt":"2019-08-23T12:00:47","slug":"por-que-a-amazonia-esta-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/08\/23\/por-que-a-amazonia-esta-em-chamas\/","title":{"rendered":"Por que a Amaz\u00f4nia est\u00e1 em chamas?"},"content":{"rendered":"<p><em>A fuma\u00e7a escura que pairou sobre o Centro Sul do Brasil no \u00faltimo dia 19 \u00e9 um alerta das chamas que consomem o Cerrado e a Amaz\u00f4nia. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), s\u00e3o 71.497 focos de inc\u00eandio de janeiro at\u00e9 agosto, 82% a mais do que no ano passado. No mesmo per\u00edodo, mais de 53 mil focos foram registrados nos estados que comp\u00f5em a Amaz\u00f4nia Brasileira. Obviamente que o aumento das queimadas tem a ver com a pol\u00edtica de Bolsonaro, que praticamente desmontou todo sistema de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental e combate ao desmatamento, al\u00e9m de estimular explicitamente a invas\u00e3o e a grilagem de terras p\u00fablicas, Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o e Terras Ind\u00edgenas. Como se n\u00e3o bastasse, quer calar o Inpe e agora culpa as ONGs pelas queimadas na Amaz\u00f4nia.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jeferson Choma<\/p>\n<p>Deste modo, a explos\u00e3o dos \u00edndices de desmatamento e queimadas registradas em 2019 \u00e9 consequ\u00eancia do passe-livre dado pelo governo de Bolsonaro para extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira, e para a amplia\u00e7\u00e3o da agricultura e da minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um Nero, o imperador enlouquecido que ateou fogo em Roma. \u00c9 apenas a face cruel e b\u00e1rbara desse sistema. Mas por que ent\u00e3o a Amaz\u00f4nia est\u00e1 em chamas? Por que a maior floresta tropical do mundo chega pr\u00f3ximo ao limite a partir da qual pode passar por mudan\u00e7as irrevers\u00edveis, tornando-se uma savana como alertam os cientistas?<\/p>\n<p>Aparentemente, o ministro do Meio Ambiente, um criminoso condenado pela Justi\u00e7a por fraudar mapas do Plano de Manejo da V\u00e1rzea do Rio Tiet\u00ea para beneficiar empresas de minera\u00e7\u00e3o, chegou mais perto da resposta quando disse que \u201c<em>a solu\u00e7\u00e3o para a Amaz\u00f4nia era o capitalismo<\/em>\u201d. Na verdade, o ministro deve ser corrigido. H\u00e1 muito tempo o capitalismo vem se expandindo pela Amaz\u00f4nia, e o real culpado pelos inc\u00eandios da maior floresta tropical do mundo \u00e9 justamente a expans\u00e3o da propriedade privada capitalista.<\/p>\n<p>Sabe-se hoje que a Amaz\u00f4nia come\u00e7ou a ser habitada pelos seres humanos h\u00e1 mais de 10 mil anos. A regi\u00e3o chegou a ser densamente povoada antes da conquista colonial europeia por complexas civiliza\u00e7\u00f5es como a marajoara, tapaj\u00f4nicas, os Om\u00e1guas (onde hoje se encontra Manaus), e outras an\u00f4nimas, como aquela que habitou o Acre e produziu enormes geoglifos, semelhantes as linhas de Nazca. H\u00e1 ind\u00edcios arqueol\u00f3gicos de grandes cidades e estradas que interligavam cada uma delas. Tamb\u00e9m se sabe que elas se relacionavam culturalmente ou comercialmente com a civiliza\u00e7\u00e3o Inca, entre outras sociedades andinas. Todas foram liquidadas pelo conquistador europeu, que trazia no seu peito o bras\u00e3o real da corte, e no seu esp\u00edrito o fervor em acumular capital.<\/p>\n<p>Mas restaram outras popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. Algumas delas s\u00e3o produtos da fuga do apocalipse provocado pelo capitalismo colonial mercantil. Para sobreviver, milhares se refugiaram mata a dentro e subiram a cabeceira dos rios.<\/p>\n<p>Anos mais tarde foram encontrados por gananciosos latifundi\u00e1rios, chamados seringalistas, que enriqueciam com o chamado ciclo da borracha. A produ\u00e7\u00e3o em larga escala de borracha ocorreu por demanda do capitalismo industrial que necessitava do produto, sobretudo, para ind\u00fastria de elast\u00f4meros e de pneus nos Estados Unidos e na Europa. A explora\u00e7\u00e3o da borracha era fruto da subordina\u00e7\u00e3o do Brasil, como fonte de mat\u00e9rias-primas, ao mercado capitalista global.<\/p>\n<p>Para ocupar esses territ\u00f3rios, os seringalistas realizavam as chamadas \u201ccorrerias\u201d, matan\u00e7as organizadas de \u00edndios. Mulheres e crian\u00e7as que escapavam \u00e0s matan\u00e7as eram levadas como pr\u00eamios. A propriedade privada era assim erigida.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, o capitalismo n\u00e3o precisava mais da borracha da Amaz\u00f4nia. A regi\u00e3o foi apresentada como um imenso \u201cvazio demogr\u00e1fico e econ\u00f4mico\u201d, \u201ccompar\u00e1vel \u00e0s regi\u00f5es polares\u201d, conforme propaganda institucional da ditadura militar na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d, e a solu\u00e7\u00e3o foi incentivar a expans\u00e3o da propriedade privada capitalista com muito dinheiro p\u00fablico atrav\u00e9s de isen\u00e7\u00f5es fiscais para grandes empresas nacionais e multinacionais. Deu certo e logo muitos empreendimentos capitalistas come\u00e7aram a investir pesadamente na agropecu\u00e1ria e minera\u00e7\u00e3o. Agora, o desenvolvimento era contra a floresta, considerada mato a ser derrubado, obst\u00e1culo ao progresso. A\u00ed come\u00e7ou o grande inc\u00eandio da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<div id=\"attachment_29175\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/transamazonica-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-29175\" class=\"wp-image-29175 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/transamazonica-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-29175\" class=\"wp-caption-text\">Abertura da Transamaz\u00f4nica pela ditadura em 1970, parte do processo de \u2018coloniza\u00e7\u00e3o\u2019 da regi\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Foi esse processo que trouxe uma no\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o estranha \u00e0s popula\u00e7\u00f5es locais: a concep\u00e7\u00e3o propriedade privada capitalista da terra. Muitos foram expropriados e liquidados. Calcula-se que no per\u00edodo da ditadura mais de 8.300 ind\u00edgenas e cerca 1.200 camponeses foram assassinados.\u00a0 Muitos deles tamb\u00e9m resistiram e conquistaram seus territ\u00f3rios nos anos subsequentes.<\/p>\n<p>O ato da queima da mata pode ser simult\u00e2neo ou se constituir no momento seguinte \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o dessas popula\u00e7\u00f5es. \u00c9 parte de um processo que significa a cria\u00e7\u00e3o da fazenda como meio de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Por vezes, elementos da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o expropriada, cuja sociedade foi destro\u00e7ada, s\u00e3o recrutados para fazer a derrubada da mata e abrir a fazenda. Em outros casos, camponeses desterrados de outras regi\u00f5es do pa\u00eds s\u00e3o atra\u00eddos pela falsa promessa de terras em abund\u00e2ncia. Promessas vazias que serviam ao prop\u00f3sito de ser apenas uma v\u00e1lvula de escape para os conflitos agr\u00e1rios de regi\u00f5es como o Nordeste, Sul e Sudeste. Como lembra o soci\u00f3logo Ot\u00e1vio Ianni, os projetos de coloniza\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia realizados pelo Incra foram, na verdade, uma contrarreforma agr\u00e1ria para preservar a enorme concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria no pa\u00eds. Sem recursos e abandonadas no meio da mata, essa popula\u00e7\u00e3o logo perdeu suas terra e foi facilmente recrutada pelos \u201cgatos\u201d do latif\u00fandio.<\/p>\n<p>Da\u00ed vem o moderno trabalho escravo na Amaz\u00f4nia. Um processo totalmente capitalista (para constituir a fazenda como meio de produ\u00e7\u00e3o para produzir mercadorias) mas que se funda em uma rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o-capitalista, quer dizer, n\u00e3o no trabalho assalariado, mas na recria\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida como peonagem.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Jos\u00e9 de Souza Martins foi um dos poucos pesquisadores a se embrenhar na Amaz\u00f4nia na d\u00e9cada de 1970 e registrou esse processo. Como tamb\u00e9m \u00e9 fot\u00f3grafo, registrou um grupo desses trabalhadores em farrapos em uma imagem emblem\u00e1tica dos escravos que derrubavam a mata e abriam a fazenda da Volkswagen, de 140 mil hectares, localizada no sul do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Ele explica o que consistia \u201cabrir uma fazenda\u201d naquela \u00e9poca: \u201c<em>A funda\u00e7\u00e3o de fazendas ou ind\u00fastrias) na Amaz\u00f4nia era o meio de obter recursos dos incentivos fiscais. Mas isso dependia de mecanismos atrasados e arcaicos de explora\u00e7\u00e3o do trabalho e acumula\u00e7\u00e3o de capital, como a peonagem e a expropria\u00e7\u00e3o violenta dos ocupantes originais da terra, os \u00edndios e posseiros<\/em>\u201d (Fronteira: a degrada\u00e7\u00e3o do outro nos confins do humano, p. 84)<\/p>\n<p>A grande maioria das florestas amaz\u00f4nicas s\u00e3o terras devolutas, terras do Estado. S\u00e3o milh\u00f5es de hectares ocupados por ind\u00edgenas e camponeses. Lembremos, a Amaz\u00f4nia nunca foi um vazio demogr\u00e1fico, como dizia a ditadura. O processo de queimada sempre foi um processo do avan\u00e7o do capitalismo na regi\u00e3o, associado ao genoc\u00eddio e a grilagem para a institui\u00e7\u00e3o da grande propriedade privada. \u00c9 por isso que Chico Mendes dizia que a manuten\u00e7\u00e3o da floresta em p\u00e9 dependia da perman\u00eancia dos povos que nela habitam. \u00c9 por isso que ele e seus companheiros seringueiros recusaram receber t\u00edtulos de propriedade de pequenos lotes oferecidos pelo Estado. Defendiam o usufruto, a apropria\u00e7\u00e3o comum do territ\u00f3rio, a autogest\u00e3o comunit\u00e1ria, caracter\u00edsticas da ent\u00e3o proposta original de cria\u00e7\u00e3o das Reservas Extrativistas.\u00a0 Inspiraram-se na cria\u00e7\u00e3o das Terras Ind\u00edgenas, como me explicou o indigenista acreano Ant\u00f4nio \u201cTxai\u201d Macedo:<\/p>\n<p>\u201c<em>Em 1984 n\u00f3s reunimos 84 lideran\u00e7as e convidamos tamb\u00e9m o Chico Mendes que veio com junto com o Osmarino para que a gente pudesse tamb\u00e9m dar um recado ao Chico, que era interessante pra eles naquele momento. <\/em><\/p>\n<p><em>Foi tipo o seguinte: o que se conhecia antes era que os patr\u00f5es jogavam os seringueiros contra os \u00edndios, e os \u00edndios contra os seringueiros. Eles n\u00e3o podiam \u00e9 se integrar, formar uma alian\u00e7a ou coisa do g\u00eanero. Tinha que t\u00e1 separado para o patr\u00e3o poder tirar proveito na explora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, nos falamos o seguinte: \u2018Chico, os seringueiros e os \u00edndios n\u00e3o s\u00e3o inimigos. Eles s\u00e3o separados por um inimigo dos dois que \u00e9 o patr\u00e3o, o marreteiro. Eles [ind\u00edgenas e seringueiros] bebem da mesma \u00e1gua, eles comem da mesma comida. Eles vivem praticamente junto. \u00c9 muito bom essa quest\u00e3o do empate, mas, ao mesmo tempo, [tem] a luta pela terra. Tem que lutar por uma terra de uso social semelhante o que \u00e9 as terras ind\u00edgenas para os seringueiros, que s\u00e3o sociedades similar as pula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u2019<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Da\u00ed tamb\u00e9m surgiu a Alian\u00e7a dos Povos da Floresta, unindo camponeses e popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u00c9 a produ\u00e7\u00e3o da grande propriedade privada, de fazendas, que sempre orientou e ainda norteia o atual desenvolvimento desigual, contradit\u00f3rio e subordinado do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p>O que vemos com Bolsonaro \u00e9 radicaliza\u00e7\u00e3o deste processo. O aumento do desmatamento \u00e9 consequ\u00eancia direta do avan\u00e7o da agricultura capitalista sobre a Amaz\u00f4nia, o que \u00e9 efeito direto da semi-reprimariza\u00e7\u00e3o da economia brasileira. A divis\u00e3o internacional do trabalho recriou a velha plantantion de exporta\u00e7\u00e3o, agora fundida com a grande empresa capitalista. Enquanto o Brasil enfrentou um processo parcial de desindustrializa\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ao mesmo tempo tornou-se um grande produtor de produtos prim\u00e1rios para o mercado externo. Com o governo Bolsonaro, esse projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o se aprofunda. Como prova de seu servilismo, ele j\u00e1 disse que seu objetivo \u00e9 explorar a Amaz\u00f4nia com os Estados Unidos de Trump.<\/p>\n<p>Por isso Bolsonaro estimula a invas\u00e3o das terras ind\u00edgenas e Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o. Como lembrou em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MDkJyhdOess\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista ao Opini\u00e3o<\/a>, Neidinha Suru\u00ed, ativista que atua na defesa de mais de vinte povos ind\u00edgenas, todas terras ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia foram invadidas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da devasta\u00e7\u00e3o e genoc\u00eddio da Amaz\u00f4nia \u00e9 a hist\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o da propriedade privada capitalista na regi\u00e3o. Esse \u00e9 o processo social que est\u00e1 por tr\u00e1s das imagens de sat\u00e9lites que registram as queimadas. Mas a hist\u00f3ria de sua preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria de 500 anos de lutas e resist\u00eancias dos chamados povos da floresta. N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda al\u00e9m da resist\u00eancia. Os povos da floresta precisam resistir, em alian\u00e7a com os trabalhadores urbanos e todos os oprimidos, para defender as suas vidas e a de todos n\u00f3s. Mas a Amaz\u00f4nia s\u00f3 vai parar de arder quando superarmos o sistema capitalista e grande propriedade privada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fuma\u00e7a escura que pairou sobre o Centro Sul do Brasil no \u00faltimo dia 19 \u00e9 um alerta das chamas que consomem o Cerrado e a Amaz\u00f4nia. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), s\u00e3o 71.497 focos de inc\u00eandio de janeiro at\u00e9 agosto, 82% a mais do que no ano passado. 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