{"id":29151,"date":"2019-08-22T15:23:03","date_gmt":"2019-08-22T17:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29151"},"modified":"2019-08-22T15:23:03","modified_gmt":"2019-08-22T17:23:03","slug":"estamos-diante-do-inicio-de-uma-nova-recessao-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/08\/22\/estamos-diante-do-inicio-de-uma-nova-recessao-mundial\/","title":{"rendered":"Estamos diante do in\u00edcio de uma nova recess\u00e3o mundial?"},"content":{"rendered":"<p><em>Na semana passada houve uma queda nas bolsas de todo o mundo e o PIB da Alemanha, a principal economia da Europa, j\u00e1 apresenta n\u00fameros negativos. A maioria dos analistas econ\u00f4micos se pergunta se j\u00e1 n\u00e3o estamos no in\u00edcio de uma nova recess\u00e3o da economia mundial.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Alejandro Iturbe<\/strong><\/p>\n<p>A bolsa de Wall Street sofreu uma de suas piores quedas em muitos anos, com picos negativos nas empresas dos setores energ\u00e9tico (-4,12%) e financeiro (-3,57%) [1]. Um dado t\u00e9cnico \u00e9 que a rentabilidade dos b\u00f4nus do Tesouro a dez anos caiu abaixo da dos t\u00edtulos a dois anos (o que se chama de \u201cinvers\u00e3o da curva de rendimentos\u201d), algo que n\u00e3o ocorria desde 2017 e que \u00e9 considerado como indicativo de uma din\u00e2mica recessiva [2].<\/p>\n<p>Na Europa, os principais \u00edndices fecharam no vermelho: o da bolsa de Londres perdeu 1,13%, o de Frankfurt retrocedeu 0,7, o de Paris terminou com um negativo de 0,27 [3]. Na \u00c1sia, a bolsa de T\u00f3quio fechou com uma forte baixa de 1,21%, e Singapura encolheu 1,2%, enquanto que em Sidney (Austr\u00e1lia) o mercado caiu 2%.<\/p>\n<p>Os dados estruturais tamb\u00e9m mostram uma din\u00e2mica cada vez mais lenta. <em>\u201cO governo chin\u00eas divulgou que sua produ\u00e7\u00e3o industrial se expandiu 4,8% interanual em julho, o crescimento mais lento deste indicador desde fevereiro de 2002, o que evidencia a debilidade de sua demanda dom\u00e9stica em plena disputa comercial com os EUA\u201d<\/em> [4].<\/p>\n<p>Por sua vez <em>\u201cO PIB da eurozona <\/em>(pa\u00edses da Europa que tem o euro como moeda) <em>cresceu 0,2 % no segundo trimestre, a metade dos tr\u00eas meses anteriores\u201d <\/em>[5]. Nesse marco, a produ\u00e7\u00e3o industrial est\u00e1 em queda (-1,6 %) e, tal como assinalamos, o PIB da Alemanha, apresenta n\u00fameros negativos: -0,1%.<\/p>\n<p>A economia estadunidense est\u00e1 um pouco melhor que a europeia, mas, como nos \u00faltimos anos, n\u00e3o consegue \u201cacelerar na subida\u201d: est\u00e1 condicionada por fatores estruturais e tamb\u00e9m pelos conjunturais (o fim do efeito da redu\u00e7\u00e3o impositiva \u00e0s empresas), assim como pela indefini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se Trump ser\u00e1 reeleito. O pr\u00f3prio Trump tuitou contra a pol\u00edtica de taxas da Reserva Federal de seu pa\u00eds (a \u201cinvers\u00e3o da curva de rendimentos\u201d) porque conspirava contra a din\u00e2mica da economia [6].<\/p>\n<p><strong>Os fatores detonantes<\/strong><\/p>\n<p>Quase todos os organismos econ\u00f4micos e financeiros da burguesia no mundo acreditam que essa din\u00e2mica recessiva \u00e9 praticamente inevit\u00e1vel. Basta ver, por exemplo, os informes e progn\u00f3sticos, ao longo deste ano, nas p\u00e1ginas do FMI, do Banco Mundial da OCDE e do departamento financeiro da ONU.<\/p>\n<p>Todos eles consideram uma s\u00e9rie de fatores e processos que contribuem nessa perspectiva. Em primeiro lugar, a guerra comercial-tecnol\u00f3gica entre Estados Unidos e China. Em segundo lugar, as consequ\u00eancias negativas do Brexit cada vez mais \u201ctraum\u00e1tico\u201d (a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia). Em terceiro lugar, agora se agregou o desmoronamento aberto da economia e da moeda argentina, ap\u00f3s a contundente derrota eleitoral do governo de Mauricio Macri.<\/p>\n<p>Cada um destes processos tem, sem d\u00favida, um impacto negativo sobre a din\u00e2mica da economia mundial: a guerra comercial-tecnol\u00f3gica entre Estados Unidos e China dificulta ao extremo o clima do com\u00e9rcio mundial; o Brexit acabar\u00e1 prejudicando as economias de ambas as partes e a situa\u00e7\u00e3o argentina come\u00e7a a influir sobre a Am\u00e9rica Latina, em especial sobre o Brasil, a principal economia da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma grande tempestade de fundo<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, com toda sua import\u00e2ncia no momento atual, estes processos devem ser considerados como express\u00f5es de problemas muito mais estruturais da economia mundial e, neste sentido, como poss\u00edveis detonantes de uma queda muito mais profunda que uma recess\u00e3o c\u00edclica.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica mundial que estourou em 2007\/2008 \u00e9 considerada a pior desde o crack de 1929 e tinha uma din\u00e2mica devastadora para o capitalismo imperialista, no marco de um processo de acumula\u00e7\u00e3o cada vez voltado para a especula\u00e7\u00e3o e o parasitismo. Por isso, a consideramos como o in\u00edcio do que Trotsky denominava uma s\u00e9rie ou curva descendente de ciclos [7]. Esta curva descendente, para n\u00f3s, se mant\u00e9m at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Esta crise amea\u00e7ou derrubar o sistema banc\u00e1rio financeiro-mundial, hoje no centro da din\u00e2mica dessa acumula\u00e7\u00e3o. Os governos imperialistas e dos pa\u00edses n\u00e3o imperialistas mais fortes injetaram quantidades absurdas de dinheiro para salvar esse sistema (as famosas \u201cinje\u00e7\u00f5es de liquidez\u201d).<\/p>\n<p>Conseguiram evitar assim a quebra e deter a din\u00e2mica de \u201cplano inclinado\u201d da produ\u00e7\u00e3o e do comercio mundial. Mas o fizeram a um custo dobrado. Por um lado, os bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras tomaram esse dinheiro para cobrir suas perdas e recapitalizar-se, enquanto seu efeito sobre a produ\u00e7\u00e3o real foi muit\u00edssimo menor que os volumes de dinheiro injetado. Por outro lado, foi se armando o que se chama de \u201cbolha das d\u00edvidas\u201d: os Estados, as empresas e as fam\u00edlias t\u00eam d\u00edvidas que triplicam a base produtiva real.<\/p>\n<p>A curva descendente a que temos nos referido e este caminho eleito pelo capitalismo imperialista como sa\u00edda para os piores momentos posteriores a 2007-2008 s\u00e3o os que explicam que, desde ent\u00e3o, se houve alguns ciclos de recupera\u00e7\u00e3o, estes foram muito fracos. Explica tamb\u00e9m os temores dos economistas burgueses que estes fatos (guerra comercial-tecnol\u00f3gica, Brexit, desmoronamento argentino) abram n\u00e3o s\u00f3 uma recess\u00e3o c\u00edclica como tamb\u00e9m uma depress\u00e3o (queda muito mais profunda e prolongada que uma recess\u00e3o) igual e inclusive superior \u00e0 anterior.<\/p>\n<p>Podemos diagramar a situa\u00e7\u00e3o dizendo que o capitalismo imperialista \u00e9 como um motor semifundido. A burguesia n\u00e3o \u00e9 capaz de trocar o motor e tem profundas dificuldades para fazer uma retifica\u00e7\u00e3o completa do atual, tanto por sua pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o estrutural como pela luta de classes que deve enfrentar. Ent\u00e3o, apelou para colocar muitos litros de \u201c\u00f3leo pesado\u201d e o motor andou um pouco mais. Mas agora est\u00e1 em piores condi\u00e7\u00f5es que antes e j\u00e1 gastou quase todo o \u00f3leo pesado. Cada um dos processos analisados s\u00e3o express\u00f5es desse motor que rateia, expele fuma\u00e7a de \u00f3leo queimado e amea\u00e7a parar.<\/p>\n<p><strong>Haver\u00e1 ataques ainda mais duros aos trabalhadores e \u00e0s massas<\/strong><\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o da economia mundial tem importantes efeitos no terreno pol\u00edtico. Por um lado, agrava a luta entre os diferentes setores burgueses a n\u00edvel internacional e nacional pela disputa dos mercados, a apropria\u00e7\u00e3o da mais valia, e pelo controle do Estado e dos governos. Estas fendas e fraturas interburguesas s\u00e3o positivas para os trabalhadores porque, como dizia Lenin, abrem fissuras que favorecem a possibilidade de lutas e seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Entretanto, no marco de sua feroz disputa, h\u00e1 algo no qual todos os setores burgueses tem acordo: atacar ainda mais os trabalhadores e as massas para descarregar sobre suas costas o custo da crise e, mais profundamente, tentar \u201cretificar o motor\u201d da economia capitalista levando a um n\u00edvel superior de superexplora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, aumentam aceleradamente as demiss\u00f5es e o desemprego; atacam ou diretamente eliminam conquistas como a amplia\u00e7\u00e3o limitada da jornada de trabalho, os descansos semanais, as f\u00e9rias e a aposentadoria; reduzem ao m\u00ednimo os servi\u00e7os sociais dos Estados, e recrudesce a repress\u00e3o \u00e0s lutas dos trabalhadores e das massas. Todos os governos burgueses, sejam de direita ou falsamente \u201cpopulares\u201d, n\u00e3o t\u00eam outra alternativa do que serem ponta de lan\u00e7a desses ataques. Por sua vez, para os trabalhadores e as massas n\u00e3o fica outra alternativa do que lutar ferozmente contra esses ataques, em uma batalha que tem muito de sobreviv\u00eancia. Caso contrario, a perspectiva ser\u00e1 de muit\u00edssimo sofrimento.<\/p>\n<p>A realidade atual volta a apresentar a absoluta impossibilidade de \u201chumanizar\u201d o capitalismo a partir de dentro, como argumenta grande parte da esquerda mundial, e de sua consequ\u00eancia l\u00f3gica \u201cradicalizar a democracia [burguesa]\u201d. Algo que os setores burgueses populistas tamb\u00e9m nos prop\u00f5em.<\/p>\n<p>O caminho da luta surge, como vimos, de uma necessidade de sobreviv\u00eancia para os trabalhadores e as massas. Um caminho que cada vez mais apresenta como tarefa, ao mesmo tempo urgente e estrat\u00e9gica, a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista para derrotar o capitalismo imperialista e mudar a partir da raiz este sistema podre e inimigo da humanidade.<\/p>\n<p>[1] <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/08\/14\/business\/stock-market-today-bond-market.html?te=1&amp;nl=boletin&amp;emc=edit_bn_20190815?campaign_id=42&amp;instance_id=11650&amp;segment_id=16182&amp;user_id=00d43cf2b74587eee8cd749aa535ec7f&amp;regi_id=7524510220190815\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/08\/14\/business\/stock-market-today-bond-market.html?te=1&amp;nl=boletin&amp;emc=edit_bn_20190815?campaign_id=42&amp;instance_id=11650&amp;segment_id=16182&amp;user_id=00d43cf2b74587eee8cd749aa535ec7f&amp;regi_id=7524510220190815<\/a><\/p>\n<p>[2] <a href=\"https:\/\/www.cronica.com.ar\/mundo\/Se-desplomaron-las-principales-bolsas-del-mundo-por-temores-de-una-recesion-global-20190814-0053.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.cronica.com.ar\/mundo\/Se-desplomaron-las-principales-bolsas-del-mundo-por-temores-de-una-recesion-global-20190814-0053.html<\/a><\/p>\n<p>[3] <a href=\"https:\/\/www.infobae.com\/america\/mundo\/2019\/08\/15\/los-mercados-europeos-abrieron-en-rojo-tras-la-jornada-de-fuertes-perdidas-en-wall-street\/?fbclid=IwAR1BlE8cctTeflCZrPM3btPiG1rnddN-JKdLtdyv3sg5aLavvgbQ7znuxdg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.infobae.com\/america\/mundo\/2019\/08\/15\/los-mercados-europeos-abrieron-en-rojo-tras-la-jornada-de-fuertes-perdidas-en-wall-street\/?fbclid=IwAR1BlE8cctTeflCZrPM3btPiG1rnddN-JKdLtdyv3sg5aLavvgbQ7znuxdg<\/a><\/p>\n<p>[4] Idem.<\/p>\n<p>[5] <a href=\"https:\/\/www.elimparcial.es\/noticia\/203996\/economia\/el-temor-a-una-nueva-recesion-hace-caer-las-bolsas-de-todo-el-mundo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.elimparcial.es\/noticia\/203996\/economia\/el-temor-a-una-nueva-recesion-hace-caer-las-bolsas-de-todo-el-mundo.html<\/a><\/p>\n<p>[6] Idem.<\/p>\n<p>[7] Ver o artigo \u201cLa curva del desarrollo capitalista\u201d (1923) em:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1923\/junio\/21.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1923\/junio\/21.htm<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada houve uma queda nas bolsas de todo o mundo e o PIB da Alemanha, a principal economia da Europa, j\u00e1 apresenta n\u00fameros negativos. 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