{"id":29041,"date":"2019-08-15T15:12:18","date_gmt":"2019-08-15T17:12:18","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=29041"},"modified":"2019-08-15T15:12:18","modified_gmt":"2019-08-15T17:12:18","slug":"a-luta-nos-campos-de-refugiados-dignidade-contra-a-colonizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/08\/15\/a-luta-nos-campos-de-refugiados-dignidade-contra-a-colonizacao\/","title":{"rendered":"A luta nos campos de refugiados: dignidade contra a coloniza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Nos \u00faltimos dois meses, partidos de direita libaneses est\u00e3o competindo para saber quem \u00e9 o mais patriota. Em outras palavras, quem \u00e9 o mais racista. O Ministro do Trabalho come\u00e7ou a implementar seu plano contra os trabalhadores imigrantes ilegais. O foco dos ataques eram os refugiados s\u00edrios. A alega\u00e7\u00e3o da campanha \u00e9 que buscava regularizar os trabalhadores estrangeiros em todas as regi\u00f5es do L\u00edbano, come\u00e7ando por fechar as lojas e com\u00e9rcio de propriedade de s\u00edrios. Enquanto isso, diversos relatos mostravam que s\u00edrios estavam sendo deportados para &#8220;\u00e1reas seguras&#8221;, e os partidos libaneses e suas m\u00eddias adotaram campanhas contr\u00e1rias aos s\u00edrios.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Por: Islam Khatib<br \/>\n<\/em><br \/>\nDurante esse per\u00edodo, nenhuma lideran\u00e7a palestina acreditava que esses planos se estenderiam a n\u00f3s, palestinos refugiados no L\u00edbano. Essa expectativa se atribu\u00eda \u00e0 ado\u00e7\u00e3o da ret\u00f3rica do Estado e da dualidade &#8220;refugiado bom&#8221;\/ &#8220;refugiado mau&#8221;. No entanto, isso mudou rapidamente, quando o Minist\u00e9rio do Trabalho mandou invadir lojas de palestinos seis dias atr\u00e1s, expulsando os trabalhadores, sob o pretexto de que n\u00e3o tinham permiss\u00e3o de trabalho, classificando-os, ent\u00e3o, como ilegais. A r\u00e1pida escalada desses acontecimentos teve efeitos sobre a opini\u00e3o p\u00fablica dos palestinos.<\/p>\n<p>A resposta do Minist\u00e9rio do Trabalho foi de que sua campanha \u201cn\u00e3o se destina a ningu\u00e9m especificamente\u201d, &#8220;leis se aplicam a todos, sem exce\u00e7\u00e3o&#8221;, argumentando que \u201cpalestinos gostam de discrimina\u00e7\u00e3o\u201d. Ainda segundo declarou, em favor deles, no L\u00edbano, os palestinos \u201cs\u00e3o isentos do pagamento de taxas de licen\u00e7a para trabalhar\u201d e tem \u201cinstala\u00e7\u00f5es\u201d que nenhum outro trabalhador estrangeiro tem. A declara\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o respondeu \u00e0s nossas perguntas: como se aplicam as particularidades que alega em rela\u00e7\u00e3o aos palestinos \u00e0 luz da nova lei do estrangeiro? Como pode ignorar tais especificidades em suas campanhas contra a m\u00e3o de obra estrangeira?<br \/>\nPalestinos no L\u00edbano est\u00e3o sujeitos ao chamado princ\u00edpio da reciprocidade, em que s\u00e3o obrigados a obter visto para o trabalho.<\/p>\n<p>Contudo, o artigo VII da Conven\u00e7\u00e3o Relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951 afirma que esses est\u00e3o isentos do princ\u00edpio da reciprocidade e, por isso, podem trabalhar sem permiss\u00e3o se estiverem no pa\u00eds h\u00e1 mais de tr\u00eas anos. Mas o L\u00edbano cria barreiras de modo a proibir vistos de trabalho para os refugiados, especialmente em profiss\u00f5es regulamentadas. A nega\u00e7\u00e3o aos refugiados se d\u00e1 especialmente \u00e0s mulheres, o que favorece somente os patr\u00f5es.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o de palestinos no L\u00edbano n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mecanismos de prote\u00e7\u00e3o ou direitos devido \u00e0 forma como o pa\u00eds trata os trabalhadores estrangeiros. Os campos de refugiados palestinos n\u00e3o s\u00e3o feitos nas fronteiras do pa\u00eds, mas nas periferias das cidades, para atender os interesses dos empres\u00e1rios que buscam m\u00e3o de obra barata. Em abril de 1949 o n\u00famero de refugiados palestinos no L\u00edbano chegou a 125 mil, o que chamou a aten\u00e7\u00e3o de Michel Shiha, um nacionalista liban\u00eas e proeminente personalidade do sistema econ\u00f4mico, chamando \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o de refugiados palestinos \u00e0 S\u00edria, Jord\u00e2nia e Gaza. Caminh\u00f5es do Ex\u00e9rcito j\u00e1 chegaram a transportar refugiados palestinos de Jabal Amel para as fronteiras norte e leste com a S\u00edria, e as autoridades do pa\u00eds vizinho se recusaram a receb\u00ea-los.<\/p>\n<p><strong>Resumo da rela\u00e7\u00e3o do L\u00edbano com os refugiados palestinos.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nIsso nos leva ao hist\u00f3rico das rela\u00e7\u00f5es legais e institucionais entre o Estado liban\u00eas e os refugiados palestinos. Desde aquela \u00e9poca at\u00e9 1969, os refugiados palestinos no L\u00edbano estavam sujeitos a uma constante e dura vigil\u00e2ncia tanto dentro como fora dos campos. Todas as tentativas de organiza\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e at\u00e9 mesmo cultural e esportiva foram reprimidas pelo governo. Nos anos 1950, por exemplo, a juventude palestina n\u00e3o tinha autoriza\u00e7\u00e3o para criar times de futebol ou se juntar a grupos de escoteiros. Os campos de palestinos tamb\u00e9m estavam sob controle de for\u00e7as policiais. A pol\u00edtica oficial para os palestinos era baseada no medo da politiza\u00e7\u00e3o dos campos de refugiados, e eles eram vistos como amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a nacional, sobretudo a partir da postura &#8220;pr\u00f3-Ocidente&#8221; adotada pelo L\u00edbano.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, pol\u00edticas arbitr\u00e1rias e injustificadas foram criadas, como a imposi\u00e7\u00e3o de permiss\u00f5es de trabalho com renova\u00e7\u00e3o anual obrigat\u00f3ria. Essas medidas levaram os palestinos \u00e0 informalidade no emprego dentro dos campos, que o governo busca eliminar hoje.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de repress\u00e3o seguiu at\u00e9 1958, especificamente at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o do General Fuad Chehab como presidente do L\u00edbano. O pa\u00eds passou a enfrentar crise pol\u00edtica que obrigou o novo governo a fazer concess\u00f5es e algumas reformas m\u00ednimas, incluindo facilidades para incluir os palestinos no mercado de trabalho. Essa pol\u00edtica, contudo, n\u00e3o significou uma mudan\u00e7a radical no tratamento dado aos palestinos, mas se caracterizou pela forma velada, ao inv\u00e9s de aberta, da mesma repress\u00e3o de antes. Mesmo nesse novo governo n\u00e3o eram permitidas organiza\u00e7\u00f5es ou atividades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Os palestinos s\u00f3 puderam fazer pol\u00edtica e se organizar abertamente no L\u00edbano ap\u00f3s a guerra de 1967. A derrota dos ex\u00e9rcitos \u00e1rabes e a desestabiliza\u00e7\u00e3o desses regimes produziu um v\u00e1cuo pol\u00edtico que as organiza\u00e7\u00f5es palestinas puderam ocupar. A resist\u00eancia palestina passou a ser de massas entre os \u00e1rabes e representar um s\u00edmbolo da restaura\u00e7\u00e3o da dignidade desses povos.<\/p>\n<p>Contudo, essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era muito comum no L\u00edbano. Entre junho de 1967 e abril de 1969, as organiza\u00e7\u00f5es palestinas estavam lutando em duas frentes: a primeira era tentar entrar nos campos que estavam sob forte vigil\u00e2ncia das for\u00e7as de seguran\u00e7a; a segunda eram as frentes militares no sul do L\u00edbano, que impunha \u00e0 for\u00e7a o controle sobre os palestinos. Ainda que houvesse uma divis\u00e3o interna e instabilidade no governo, havia um acordo geral entre os partidos de direita no L\u00edbano sobre o tratamento que deveria ser dado aos palestinos.<\/p>\n<p>Posteriormente, no acordo de Cairo de 1969, uma nova rela\u00e7\u00e3o foi estabelecida entre palestinos e libaneses. Os campos de refugiados n\u00e3o mais pertenciam \u00e0s institui\u00e7\u00f5es libanesas e com isso adquiriram certa autonomia, o que n\u00e3o se concretizaria sem a solidariedade do povo liban\u00eas a sua causa. Mas depois a guerra civil levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma nova rela\u00e7\u00e3o entre palestinos e o Estado liban\u00eas, especialmente com a sa\u00edda do Fatah do L\u00edbano e o fim da guerra civil; a burguesia libanesa adotou ret\u00f3rica contr\u00e1ria aos palestinos, apelidando-os de \u201cespantalhos dos campos\u201d e estimulando publicamente a xenofobia para impedir a concess\u00e3o de direitos civis e econ\u00f4micos a eles.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o direito ao trabalho para os palestinos passou a ser o primeiro passo para o reconhecimento de sua cidadania. A campanha contra os campos teve consequ\u00eancias. Em 3 de abril de 2001, o Parlamento liban\u00eas aprovou a Lei n\u00ba 296 especificamente para impedir o direito \u00e0 heran\u00e7a e propriedade aos palestinos. Mas nas \u00faltimas d\u00e9cadas as organiza\u00e7\u00f5es progressistas palestinas e libanesas buscaram combater a viol\u00eancia cotidiana contra os refugiados palestinos. Talvez isso seja o que falta a n\u00f3s hoje, uma vis\u00e3o comum de solidariedade em um trabalho de organiza\u00e7\u00e3o de base genu\u00edno.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o s\u00e3o privil\u00e9gios!<\/strong><\/p>\n<p>Em 2010, o Estado liban\u00eas reconheceu parcialmente os direitos dos trabalhadores palestinos. Isso se deu cinco anos ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea de Di\u00e1logo Liban\u00eas-Palestino e tr\u00eas anos depois da guerra que destruiu o campo de Nahr al-Bared. O Estado emitiu a Lei n\u00ba 128, que prev\u00ea direitos trabalhistas em caso de demiss\u00e3o e acidente de trabalho. Mas n\u00e3o garante nenhum aux\u00edlio doen\u00e7a, licen\u00e7a-maternidade, fundo de pens\u00e3o ou outros benef\u00edcios \u00e0 fam\u00edlia. Mant\u00e9m uma conta de aposentadoria em separado para os palestinos, em que somente eles contribuem. A Lei n\u00ba 129 exclui os palestinos da reciprocidade, isentando-os de pagar taxas para ter a permiss\u00e3o de trabalho.<\/p>\n<p>Os partidos libaneses descrevem essas leis de &#8220;privil\u00e9gios&#8221; dos palestinos. At\u00e9 o momento essas leis sequer foram implementadas, servindo apenas para for\u00e7ar as empresas a declararem o n\u00famero de funcion\u00e1rios estrangeiros. A Comiss\u00e3o de Di\u00e1logo Liban\u00eas-Palestino, constitu\u00edda por mais de 80 organiza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o teve nenhuma de suas demandas atendidas.<\/p>\n<p>As recentes medidas tomadas pelo Ministro do Trabalho contra as mulheres refugiadas n\u00e3o podem ser separadas desse hist\u00f3rico de nega\u00e7\u00e3o dos direitos. S\u00e3o dificultados os direitos de propriedade, de ir e vir, de construir em seus campos, estabelecimento de associa\u00e7\u00f5es civis e \u00e9 imposto cerco aos campos. Os campos s\u00e3o cercados com altos muros e arame farpado, e os palestinos s\u00e3o tratados como &#8220;geneticamente predispostos ao terrorismo&#8221;. Essas recentes medidas do Ministro do Trabalho s\u00e3o resultado dessa campanha dos partidos libaneses, com seus discursos de \u00f3dio e a localiza\u00e7\u00e3o dos palestinos como \u201cespantalhos\u201d.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica do sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n<p>Os partidos no L\u00edbano est\u00e3o divididos em torno dessa \u00faltima medida, mesmo dentro do Minist\u00e9rio do Trabalho. N\u00e3o apenas os partidos de direita, mas tamb\u00e9m entre os partidos de esquerda, especialmente a Coaliz\u00e3o 8 de Mar\u00e7o (liderada pelo Hezbollah). At\u00e9 o momento, nenhuma declara\u00e7\u00e3o foi feita, exceto a do presidente do Parlamento, Nabihh Berri, que declarou que a situa\u00e7\u00e3o deve ser tratada segundo a lei para que se evitem dist\u00farbios no futuro.<\/p>\n<p>Importante dizer aqui que o Ministro do Trabalho n\u00e3o reverteu sua decis\u00e3o, mas come\u00e7ou a implementar uma resolu\u00e7\u00e3o antiga contra os refugiados palestinos, que se insere numa campanha maior contra os s\u00edrios. Para os palestinos poderem obter suas permiss\u00f5es de trabalho precisam declarar resid\u00eancia, o que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel de se fazer nos campos de refugiados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os refugiados palestinos no L\u00edbano s\u00e3o proibidos de trabalhar em mais de 21 setores, incluindo medicina, transporte p\u00fablico e pesca, o que torna dif\u00edcil conseguir um emprego. Essa realidade se combina com a ideologia difundida constantemente pela m\u00eddia de que os palestinos s\u00e3o &#8220;concorrentes&#8221; no mercado de trabalho, ainda que n\u00e3o haja n\u00fameros que sustentem essa afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos maiores empregadores de palestinos no L\u00edbano \u00e9 a UNRWA (Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Assist\u00eancia aos Refugiados Palestinos), para trabalhos administrativos. Desde 1949, ano da funda\u00e7\u00e3o da UNRWA, existe essa propaganda dos &#8220;concorrentes&#8221; no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio dos aliados pol\u00edticos \u00e9 preocupante, mas n\u00e3o \u00e9 novo. Costuma-se dizer que &#8220;amam a Palestina e odeiam os palestinos&#8221;. \u00c9 preciso compreender que a luta pelos direitos b\u00e1sicos dos refugiados \u00e9 insepar\u00e1vel da luta por liberta\u00e7\u00e3o e pelo retorno. O direito fundamental de resistir ao inimigo e o acolhimento aos palestinos \u00e9 a espinha dorsal da causa palestina. O que os palestinos precisam agora n\u00e3o \u00e9 de ret\u00f3rica. Declara\u00e7\u00f5es por si s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o suficientes se n\u00e3o forem acompanhadas de a\u00e7\u00e3o concreta em defesa dos palestinos refugiados, incluindo os palestinos-s\u00edrios. Os repetitivos discursos j\u00e1 est\u00e3o na mem\u00f3ria dos nossos pais.<\/p>\n<p>Portanto, a quest\u00e3o permanece diante das for\u00e7as que se dizem &#8220;progressistas&#8221;, incluindo os partidos de esquerda que lutam contra a austeridade. Por que n\u00e3o h\u00e1 lugar em sua lista de prioridades para a luta contra a viol\u00eancia econ\u00f4mica que sofrem os refugiados palestinos? Por que n\u00e3o h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o que concretize o a solidariedade que dizem ter?<\/p>\n<p><strong>Os novos atores<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPodemos dizer que a rea\u00e7\u00e3o dos palestinos no L\u00edbano tem sido o eixo do movimento, dentro e fora dos campos de refugiados. Desde o fechamento do primeiro com\u00e9rcio palestino, os moradores dos campos passaram a organizar manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas, especificamente em Ain al-Hilweh (o maior campo de refugiados palestinos no L\u00edbano, com mais de 70 mil habitantes). Esse movimento n\u00e3o tem \u00e0 frente nenhum partido palestino, ao contr\u00e1rio do que a m\u00eddia afirma.<\/p>\n<p>Dois dias depois do in\u00edcio dos protestos, a Autoridade Palestina em Ramallah disse que instruiu os palestinos a n\u00e3o fazerem nenhum protesto fora dos campos. \u00c9 importante notar que os palestinos j\u00e1 tentaram convocar marchas at\u00e9 o Parlamento liban\u00eas, organizadas pela coaliz\u00e3o pelo direito ao trabalho. Mas as for\u00e7as de seguran\u00e7a impediram a marcha de acontecer e restringiram a mobiliza\u00e7\u00e3o ao local de concentra\u00e7\u00e3o, na ponte de Cola.<\/p>\n<p>A Autoridade Palestina, assim como as autoridades libanesas, teme a transfer\u00eancia dos movimentos palestinos independentes do espa\u00e7o privado palestino para o espa\u00e7o p\u00fablico liban\u00eas. Do invis\u00edvel ao vis\u00edvel, do isolamento \u00e0 integra\u00e7\u00e3o. \u00c9 o medo de que se reconhe\u00e7a o peso hist\u00f3rico do &#8220;outro&#8221;. \u00c9 nesse esp\u00edrito que se deu o movimento em 2015 contra os cortes dos servi\u00e7os prestados pela UNRWA. Na ocasi\u00e3o, partidos pr\u00f3-Palestina tentaram silenciar esse movimento organizado por palestinos independentes.<\/p>\n<p>Os protestos de palestinos duraram seis dias em todos os campos, utilizando m\u00faltiplas estrat\u00e9gias, como marchas, protestos, tendas e greves. \u00c9 importante dizer que houve uma comunica\u00e7\u00e3o entre os campos, com organiza\u00e7\u00e3o de base real, provando que as tentativas de isolar uns dos outros falharam.<\/p>\n<p>O chamado para essas a\u00e7\u00f5es se deu entre as pessoas, atrav\u00e9s das redes sociais ou das organiza\u00e7\u00f5es de bairro entre os campos. Contudo, ONGs e institui\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a participar. Organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, como Najda e Solidariedade, assim como organiza\u00e7\u00f5es de palestinos-libaneses, como a Coaliz\u00e3o pelo Direito ao Trabalho, grupos independentes e v\u00e1rios grupos estudantis e culturais, dentro e fora dos campos.<\/p>\n<p>Por exemplo, a iniciativa de escrever Palestina nas notas de dinheiro liban\u00eas se espalhou rapidamente dentro e fora dos campos, logo ap\u00f3s algumas pessoas divulgarem essa ideia no Facebook. Tamb\u00e9m as palavras de ordem em v\u00e1rios campos eram surpreendentemente parecidas. Geralmente, para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 preciso uma organiza\u00e7\u00e3o comum nos diversos campos. Mas essa coordena\u00e7\u00e3o se d\u00e1 de forma org\u00e2nica, atrav\u00e9s do WhatsApp.<\/p>\n<p>Isso nos leva a pensar na continuidade do movimento independente. Em 2015, a mobiliza\u00e7\u00e3o contra os cortes na UNRWA, iniciado pelos grupos independentes, encerrou-se em dez dias por influ\u00eancia dos partidos palestinos. Hoje, a mobiliza\u00e7\u00e3o continua, apesar das diversas tentativas de fre\u00e1-la, seja atrav\u00e9s da Embaixada Palestina chamando as mobiliza\u00e7\u00f5es dentro dos campos e pedindo calma aos palestinos para que n\u00e3o se expanda para al\u00e9m deles, seja por n\u00e3o chamar nenhuma mobiliza\u00e7\u00e3o fora do L\u00edbano. Outra forma \u00e9 por limitar o alcance dos discursos dos ativistas palestinos, que exigem direitos civis e econ\u00f4micos, e para que as autoridades libanesas estabele\u00e7am uma legisla\u00e7\u00e3o mais clara em favor dos refugiados palestinos no L\u00edbano.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo hoje nos campos palestinos no L\u00edbano aponta para uma poss\u00edvel reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento, que pode partir dessas lutas e dirigir-se a quest\u00f5es mais pol\u00edticas. Isso permitiria a unifica\u00e7\u00e3o de palestinos em v\u00e1rios lugares diferentes, com um discurso por liberdade mais abrangente e enraizado nos diversos campos.<\/p>\n<p><strong>Os desafios do momento hist\u00f3rico<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAs organiza\u00e7\u00f5es libanesas frequentemente classificam os palestinos como visitas que n\u00e3o s\u00e3o bem-vindas. Eles s\u00e3o o &#8220;outro&#8221; que todo mundo teme, mas ao mesmo tempo buscam de alguma forma acomod\u00e1-los. S\u00e3o vistos como &#8220;sem p\u00e1tria&#8221; e como &#8220;benefici\u00e1rios&#8221; de organiza\u00e7\u00f5es internacionais. Com os cortes da UNRWA na educa\u00e7\u00e3o e em servi\u00e7os, n\u00e3o fica claro onde est\u00e3o todos esses &#8220;benef\u00edcios&#8221;. Nesse contexto, os refugiados est\u00e3o se tornando um grupo pol\u00edtico, com o objetivo de manter viva sua identidade, lutar pelo direito \u00e0 terra e pela manuten\u00e7\u00e3o de um fr\u00e1gil &#8220;benef\u00edcio&#8221; do qual s\u00e3o dependentes. E ainda sofrem chantagem pol\u00edtica pelas estruturas que os financiam.<\/p>\n<p>Todas essas rela\u00e7\u00f5es, por mais que tenham se modificado na hist\u00f3ria, n\u00e3o alteraram a identidade do povo palestino no L\u00edbano. \u00c9 verdade que em alguns contextos ser palestino n\u00e3o passa de uma express\u00e3o da opress\u00e3o. Contudo, a sociedade reconhece seu direito de retorno, assim como as lutas de seu povo contra a opress\u00e3o que ora refor\u00e7a ora esconde o peso hist\u00f3rico da identidade.<\/p>\n<p>Por fim, acredito que \u00e9 necess\u00e1rio dar visibilidade para o que acontece dentro e fora dos campos de palestinos no L\u00edbano. O atual movimento \u00e9 pol\u00edtico, come\u00e7ando por reafirmar a identidade hist\u00f3rica, o que \u00e9 evidente nas palavras de ordem &#8220;Nenhuma expuls\u00e3o ou reassentamento, queremos retornar \u00e0 Palestina&#8221; e &#8220;Depois da humilha\u00e7\u00e3o e do cerco voc\u00ea vai se curvar a essa decis\u00e3o?&#8221;.<\/p>\n<p>Possivelmente esse \u00e9 o momento hist\u00f3rico que lemos. Aquele que nos unifica e cobra de n\u00f3s reconhecermos a legitimidade do movimento dentro e fora dos campos. Que nos cobra atuarmos com solidariedade pra al\u00e9m das palavras vazias repetidas tantas e tantas vezes. Que vai al\u00e9m de tratar os refugiados como meras &#8220;v\u00edtimas&#8221; que expressam sua raiva porque passam fome. Eles, ou melhor, n\u00f3s, somos ativistas de um movimento pol\u00edtico contra o racismo e a marginaliza\u00e7\u00e3o contra todos os refugiados e estrangeiros. Contra o califado e o trabalho escravo. Contra a ideologia do &#8220;refugiado bom&#8221;\/ &#8220;refugiado mau&#8221;. Contra a autoridade de Oslo que repete hoje com os palestinos do L\u00edbano o que fez no passado com os palestinos do Iraque. Contra os regimes \u00e1rabes que se beneficiaram da nossa opress\u00e3o por mais de 71 anos. E contra a ocupa\u00e7\u00e3o da nossa terra e todos os seus instrumentos.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcel Wando<\/p>\n<p>Postado em 21\/7\/2019<br \/>\nDispon\u00edvel em \u00e1rabe em <a href=\"https:\/\/www.litci.org\/arab\/archives\/1862\">https:\/\/www.litci.org\/arab\/archives\/1862<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dois meses, partidos de direita libaneses est\u00e3o competindo para saber quem \u00e9 o mais patriota. Em outras palavras, quem \u00e9 o mais racista. O Ministro do Trabalho come\u00e7ou a implementar seu plano contra os trabalhadores imigrantes ilegais. O foco dos ataques eram os refugiados s\u00edrios. 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