{"id":28958,"date":"2019-08-08T11:14:25","date_gmt":"2019-08-08T13:14:25","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28958"},"modified":"2019-08-08T11:14:25","modified_gmt":"2019-08-08T13:14:25","slug":"hong-kong-a-classe-operaria-entra-em-cena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/08\/08\/hong-kong-a-classe-operaria-entra-em-cena\/","title":{"rendered":"Hong Kong: a classe oper\u00e1ria entra em cena"},"content":{"rendered":"<p><em>Na segunda-feira 5 de agosto, a HKCTU (Confedera\u00e7\u00e3o Sindical de Hong Kong, por suas siglas em ingl\u00eas) convocou uma greve dos trabalhadores desse territ\u00f3rio, reintegrado \u00e0 China em 1997.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>A HKCTU \u00e9 a segunda central de Hong Kong em quantidade de afiliados. O programa da greve continha cinco pontos:<\/p>\n<p><em>\u201ca) Retirada permanente do projeto de \u201clei de extradi\u00e7\u00e3o\u201d <\/em>[apresentado pela governadora Carrie Lam ao Conselho Legislativo)<em>; b)Retirada da caracteriza\u00e7\u00e3o de \u201cmotim\u201d dos protestos de 12 de junho passado; c) Libera\u00e7\u00e3o sem acusa\u00e7\u00f5es dos manifestantes detidos; d) Investiga\u00e7\u00e3o independente da viol\u00eancia policial e o abuso de poder, e e)Implementa\u00e7\u00e3o plena do sufr\u00e1gio universal <\/em>(para a elei\u00e7\u00e3o do Chefe de Governo e do Conselho Legislativo]\u201d [1]<em>.<\/em><\/p>\n<p>A greve teve um forte impacto no setor de transporte, especialmente no sistema metrovi\u00e1rio (essencial para o funcionamento normal do territ\u00f3rio), nos \u00f4nibus e nas companhias a\u00e9reas. Tamb\u00e9m se estendeu aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e ao forte setor financeiro, tanto pela ades\u00e3o de alguns setores de trabalhadores como pelas grandes dificuldades para chegar \u00e0s empresas.<\/p>\n<p>Foi precedida por quatro dias de manifesta\u00e7\u00f5es, iniciadas na sexta anterior com uma mobiliza\u00e7\u00e3o de trabalhadores estatais. Na pr\u00f3pria segunda 5\/8, a greve foi refor\u00e7ada por bloqueios de esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 e de cruzamentos chave de ruas, realizados por grupos de ativistas que se moviam de modo permanente para evitar a repress\u00e3o policial. A cidade se transformou em um verdadeiro caos, cheia de \u201cco\u00e1gulos de tr\u00e1fego\u201d [2].<\/p>\n<p>Esta greve \u00e9 um novo passo em um processo de luta por demandas democr\u00e1ticas que o povo de Hong Kong leva adiante contra o regime chin\u00eas de Beijing, que se iniciou em junho passado em recha\u00e7o \u00e0 \u201clei de extradi\u00e7\u00e3o\u201d proposta pela governadora Carrie Lam e que, desde ent\u00e3o, n\u00e3o se freou [3].<\/p>\n<p>A governadora respondeu novamente com uma forte repress\u00e3o policial: mais de 420 manifestantes foram detidos e a pol\u00edcia reivindicou ter disparado mais de 1.000 cartuchos de gases lacrimog\u00eanios contra o que denominou \u201ct\u00e1ticas de guerrilha urbana\u201d dos manifestantes [4].<\/p>\n<p>A governadora Carrie Lam est\u00e1 cada vez mais d\u00e9bil: os manifestantes exigem sua renuncia, e seu apoio entre a popula\u00e7\u00e3o caiu para menos de 20% [5]. Ante a greve, em uma coletiva de imprensa limitou-se a reiterar sua posi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via: n\u00e3o vai renunciar e ainda mant\u00e9m a suspens\u00e3o do projeto de \u201clei de extradi\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o o retira. Ao mesmo tempo, acusou os manifestantes pela situa\u00e7\u00e3o e justificou a repress\u00e3o policial:<em> \u201calguns elementos radicais mudaram a natureza dos protestos\u201d<\/em>\u00a0[6].<\/p>\n<p>Todo esse processo de luta come\u00e7a a afetar a economia do territ\u00f3rio (baseada no papel de plataforma de investimentos na China continental) e a \u201cconfian\u00e7a\u201d da burguesia local e internacional sobre como resolv\u00ea-lo a seu favor : <em>\u201cO Hang Seng, \u00edndice de a\u00e7\u00f5es de Hong Kong, perdeu na segunda feira 2,85%. Nas duas \u00faltimas semanas, a queda alcan\u00e7ou 5,86%.\u00a0<\/em>[\u2026]\u00a0<em>a semana passada, um informe da C\u00e2mara de Comercio dos Estados Unidos, alertava que muitas das empresas associadas come\u00e7avam a perceber a cidade como um destino de risco para seus investimentos, raz\u00e3o pela qual muitas estavam optando por deslocarem-se para outras plataformas asi\u00e1ticas como Singapura\u201d<\/em> [7].<\/p>\n<p>No contexto de uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais tensa e polarizada, e ante a impossibilidade de controlar ou derrotar o processo de luta, Carrie Lam amea\u00e7ou veladamente com uma poss\u00edvel interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito chin\u00eas para derrot\u00e1-lo. <em>\u201cEstas a\u00e7\u00f5es amea\u00e7am a soberania e podem empurrar Hong Kong para um caminho sem retorno. Queremos utilizar as vidas de sete milh\u00f5es de pessoas e o futuro de Hong Kong como fichas de aposta?\u201d, sentenciou, sem dar mais detalhes a respeito, no que muitos entenderam como uma refer\u00eancia a uma hipot\u00e9tica mobiliza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito chin\u00eas, j\u00e1 insinuada em duas ocasi\u00f5es por Pequim <\/em>[sic]<em>, e para a qual s\u00f3 seria necess\u00e1ria sua aprova\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> [8]<em>.<\/em><\/p>\n<p><strong>Algumas considera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Em um artigo j\u00e1 publicado neste site, analisamos as caracter\u00edsticas espec\u00edficas de Hong Kong (uma col\u00f4nia brit\u00e2nica reintegrada \u00e0 China em 1997) e as profundas contradi\u00e7\u00f5es que este processo de luta gerava para o regime de Beijing:<\/p>\n<p><em>\u00a0\u201cPor sua tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e as caracter\u00edsticas de sua sociedade, Hong Kong representa uma grande contradi\u00e7\u00e3o para o regime chin\u00eas. Esta contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 entre o capitalismo e o \u201csocialismo chin\u00eas\u201d (que h\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o existe). Neste aspecto, o territ\u00f3rio se complementa perfeitamente e \u00e9 muito \u00fatil para o capitalismo, a burguesia e o regime da China. A contradi\u00e7\u00e3o principal se apresenta entre o regime pol\u00edtico chin\u00eas (uma ditadura) e as aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas da popula\u00e7\u00e3o de Hong Kong (trabalhadores, setores m\u00e9dios e a baixa burguesia). O poder de Beijing necessita \u201cdomesticar\u201d Hong Kong, mas n\u00e3o consegue, e isso gera uma situa\u00e7\u00e3o de crise do governo local, e um desafio para o regime chin\u00eas em seu conjunto.\u201d\u00a0<\/em>[9]<\/p>\n<p>Frente a esta profunda contradi\u00e7\u00e3o, no marco de nosso apoio a este processo de ascenso das massas, apresentamos duas propostas centrais para o desenvolvimento da luta do povo de Hong Kong. A primeira: <em>\u201c\u00e9 essencial a entrada da classe oper\u00e1ria com sua for\u00e7a, sua organiza\u00e7\u00e3o e seus m\u00e9todos (algo que j\u00e1 come\u00e7a a se dar), para que passe a ser protagonista da luta\u201d\u00a0[10]<\/em>.\u00a0 A recente greve mostra que esse caminho n\u00e3o somente \u00e9 poss\u00edvel, como deve manter-se e aprofundar-se.<\/p>\n<p>A segunda proposta parte de considerar que <em>\u201ceste enfrentamento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 contra as autoridades locais de Hong Kong e sim, fundamentalmente, contra o regime ditatorial de Beijing, seu verdadeiro apoio. Nestas condi\u00e7\u00f5es, esta luta democr\u00e1tica, necessariamente deve encontrar solidariedade e estender-se \u00e0 China continental. Qualquer que seja a alternativa que se considere correta (autonomia ou independ\u00eancia), ela s\u00f3 poder\u00e1 se concretizar se, junto com os trabalhadores e as massas da China continental, avan\u00e7a para derrubar o regime chin\u00eas <\/em>(\u2018Abaixo a ditadura\u2019<em>)<\/em>\u201d [11].<\/p>\n<p>O desenvolvimento do processo colocou como uma das alternativas poss\u00edveis, uma interven\u00e7\u00e3o militar chinesa em Hong Kong. Para o regime chin\u00eas n\u00e3o \u00e9 simples tomar esta decis\u00e3o, por uma combina\u00e7\u00e3o de raz\u00f5es. Uma delas \u00e9 que o processo de luta no territ\u00f3rio se mant\u00e9m e se radicaliza, e estabelece uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as local totalmente diferente do conjunto da China, muito mais favor\u00e1vel \u00e0s massas.<\/p>\n<p>Entretanto, para o regime chin\u00eas, a quest\u00e3o n\u00e3o se limita s\u00f3 a Hong Kong: <em>\u201c\u00c0 medida que as lutas democr\u00e1ticas no territ\u00f3rio continuam e se aprofundam, esta situa\u00e7\u00e3o pode atuar como um \u2018pavio\u2019 que acenda outros inc\u00eandios na China, atrav\u00e9s dos muitos vasos comunicantes, especialmente com a regi\u00e3o sul mais pr\u00f3xima do territ\u00f3rio\u201d\u00a0<\/em>[12]<em>.<\/em>\u00a0 Por isso, ante a impossibilidade de \u201cdomesticar\u201d o processo, n\u00e3o podemos descartar que a ditadura de Beijing defina intervir com o ex\u00e9rcito para elevar o n\u00edvel de repress\u00e3o da Pra\u00e7a Tiananmen, em 1989. Uma necessidade que, contraditoriamente, se acentua quanto mais forte e radicalizada \u00e9 a luta em Hong Kong e que pode chegar a um \u201climite intoler\u00e1vel\u201d para o regime chin\u00eas se a governadora Carrie Lam for derrubada pela luta e Beijing perder o controle do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u00c9 uma falsa ilus\u00e3o pensar que os pa\u00edses imperialistas e seus governos ser\u00e3o aliados nesta luta. Eles j\u00e1 come\u00e7aram a criticar \u201ca viol\u00eancia\u201d dos manifestantes [13] e, como vimos, s\u00f3 est\u00e3o preocupados pela marcha de seus neg\u00f3cios. A realidade \u00e9 que, para al\u00e9m de suas declara\u00e7\u00f5es \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d, foram e s\u00e3o aliados da ditadura chinesa.<\/p>\n<p>O que queremos expressar \u00e9 que a extens\u00e3o de sua luta ao conjunto da China e aos trabalhadores do continente passou a ser uma tarefa de primeira ordem no desenvolvimento do heroico combate que o povo de Hong Kong vem colocando em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1]\u00a0<u><a href=\"http:\/\/en.hkctu.org.hk\/content\/strive-five-major-demands-calling-workers-strike-5-august\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/en.hkctu.org.hk\/content\/strive-five-major-demands-calling-workers-strike-5-august<\/a><\/u>\u00a0(nossa tradu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>[2]\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/08\/05\/actualidad\/1564985400_228362.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/08\/05\/actualidad\/1564985400_228362.html<\/a><\/p>\n<p>[3] Sobre o processo de conjunto ver:\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/hong-kong\/hong-kong-proceso-movilizacion-democratica-no-se-detiene\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/hong-kong\/hong-kong-proceso-movilizacion-democratica-no-se-detiene\/<\/a><\/p>\n<p>[4]\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/08\/greve-geral-em-hong-kong-gera-caos-no-transito-bloqueia-trens-e-cancela-voos.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/08\/greve-geral-em-hong-kong-gera-caos-no-transito-bloqueia-trens-e-cancela-voos.shtml<\/a><\/p>\n<p>[5] Ver nota [2].<\/p>\n<p>[6] Idem.<\/p>\n<p>[7] Idem.<\/p>\n<p>[8] Idem.<\/p>\n<p>[9] Ver nota [3].<\/p>\n<p>[10]\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/hong-kong\/se-endurece-la-lucha-hong-kong\/\">https:\/\/litci.org\/es\/menu\/mundo\/asia\/hong-kong\/se-endurece-la-lucha-hong-kong\/<\/a><\/p>\n<p>[11] Idem.<\/p>\n<p>[12] Ver nota [3].<\/p>\n<p>[13] Sobre este ponto, ver declara\u00e7\u00f5es de um ministro brit\u00e2nico e da chefe diplom\u00e1tica da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, citadas no artigo de nota [10].<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na segunda-feira 5 de agosto, a HKCTU (Confedera\u00e7\u00e3o Sindical de Hong Kong, por suas siglas em ingl\u00eas) convocou uma greve dos trabalhadores desse territ\u00f3rio, reintegrado \u00e0 China em 1997.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":73323,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[859],"tags":[1551,7688,858,7689],"class_list":["post-28958","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-hong-kong","tag-alejandro-iturbe","tag-carrie-lam","tag-hong-kong","tag-protestos-em-hong-kong"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/china-protest-750x375-2.jpg","categories_names":["Hong Kong"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28958"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28958\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}