{"id":28787,"date":"2019-07-24T12:34:22","date_gmt":"2019-07-24T14:34:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28787"},"modified":"2019-07-24T12:34:22","modified_gmt":"2019-07-24T14:34:22","slug":"grecia-primeiras-licoes-da-derrota-politica-do-syriza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/07\/24\/grecia-primeiras-licoes-da-derrota-politica-do-syriza\/","title":{"rendered":"Gr\u00e9cia | Primeiras li\u00e7\u00f5es da derrota pol\u00edtica do Syriza"},"content":{"rendered":"<p><em>A derrota eleitoral de Alexis Tsipras, l\u00edder do partido Syriza, e o consequente retorno ao poder da Nova Democracia [ND] na Gr\u00e9cia, atrav\u00e9s da elei\u00e7\u00e3o para primeiro ministro de Kyriakos Mitsotakis, repulsivo representante de una dinastia pol\u00edtica conservadora<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><em>, deve ser motivo de an\u00e1lise e de esfor\u00e7os para extrair li\u00e7\u00f5es por parte da esquerda mundial. A seguir, algumas notas sobre este espinhoso tema.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Daniel Sugasti<\/p>\n<p>O chamado \u00e0 reflex\u00e3o do caso grego cabe, sobretudo, para o ampl\u00edssimo setor \u201cprogressista\u201d que apoiou o Syriza sem restri\u00e7\u00f5es todo este tempo. Um respaldo que, embora agora possa manifestar-se de maneira mais ou menos t\u00edmida ou vergonhosa em alguns casos, mostrou-se especialmente inflamado quando Tsipras alcan\u00e7ou seu auge eleitoral em 2015. Fen\u00f4meno pol\u00edtico que lhe rendeu uma estrondosa vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares e tornou poss\u00edvel que, pela primeira vez, um partido dito da \u201cesquerda radical\u201d alcan\u00e7asse o governo de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nesse tempo de frenesi para que o \u00eaxito eleitoral do Syriza se espalhasse o mais poss\u00edvel, personagens como Lucina Genro, da corrente MES do PSOL brasileiro, declarava coisas como esta:<em> \u201cEu sou Syriza! E n\u00e3o \u00e9 de hoje\u201d<\/em>. Chegou inclusive a escrever uma carta para Tsipras, ent\u00e3o nov\u00edssimo primeiro ministro, dizendo: \u201c<em>Consideramos uma vit\u00f3ria nossa tamb\u00e9m, do PSOL. O Syriza irradia e alimenta a esperan\u00e7a dos lutadores por toda a Europa e por todo o mundo [&#8230;]<\/em> <em>N\u00f3s do PSOL apoiamos e apostamos em voc\u00eas desde o in\u00edcio [\u2026]<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Na Europa, o convidado especial do ato de encerramento da campanha eleitoral do Syriza em janeiro de 2015 foi Pablo Iglesias, l\u00edder do PODEMOS espanhol.<\/p>\n<p>Ligamos uma coisa com a outra porque consideramos que uma derrota pol\u00edtica do Syriza, assim como o decl\u00ednio eleitoral e a evidente crise que corr\u00f3i o PODEMOS<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, \u00e9 mais que uma \u201cvit\u00f3ria da direita tradicional\u201d. \u00c9 o fracasso de toda a corrente <em>neorreformista <\/em>que tem diferentes express\u00f5es nacionais, mas que na Europa n\u00e3o somente se demonstrou incapaz de oferecer uma alternativa de combate \u00e0 <em>guerra social<\/em> do imperialismo europeu e mundial contra os povos, como atuou e atua com as mesmas pr\u00e1ticas da \u201cvelha direita\u201d. Isto se deve, segundo nossa leitura, ao fato de que sua postula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o passa, nem vai passar de poder para serem gerentes da crise de um capitalismo cada vez mais decadente.<\/p>\n<p><strong>Trag\u00e9dia grega<\/strong><\/p>\n<p>A Nova Democracia ganhou as elei\u00e7\u00f5es parlamentares com 39,8% dos votos [um crescimento not\u00e1vel, se considerarmos que em 2015 teve 27,8%] contra 31,5% do Syriza [36,3 em 2015]. Nas elei\u00e7\u00f5es europeias e municipais realizadas em maio, o Syriza teve quase 25%. Se em julho atingiu 32%, em nossa opini\u00e3o, foi porque em alguma medida pesou a inevit\u00e1vel press\u00e3o e propaganda a favor do \u201cvoto \u00fatil\u201d contra o retorno da \u201cdireita\u201d. Mas, de qualquer maneira, o Syriza teve melhor sorte que os \u201csocialistas\u201d do antigo PASOK<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>; conta com 86 deputados e representa a primeira for\u00e7a de \u201coposi\u00e7\u00e3o ativa\u201d, segundo palavras de Alexis Tsipras<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Mas se vai ser uma \u201coposi\u00e7\u00e3o ativa\u201d, permitimo-nos o benef\u00edcio da d\u00favida.<\/p>\n<p>Mitsotakis governar\u00e1 com maioria absoluta \u2013 a prop\u00f3sito, algo que n\u00e3o ocorria desde 2009 \u2013 contando com 158 dos 300 deputados do Parlamento de c\u00e2mara \u00fanica<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Prometeu <em>\u201cgarantir a reativa\u00e7\u00e3o da economia, com um crescimento ambicioso baseado em investimentos privados, exporta\u00e7\u00f5es e inova\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em> Se necess\u00e1rio for, apressou-se a garantir que honrar\u00e1 seus compromissos com os credores do dinheiro p\u00fablico grego, sempre em troca de um \u201cpacote completo de reformas\u201d <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>O novo primeiro ministro grego contou com a felicita\u00e7\u00e3o de figuras como Putin, Jean-Claude Juncker presidente da Comiss\u00e3o Europeia, o presidente turco Erdogan e claro, com a ben\u00e7\u00e3o de Angela Merkel. Mario Centeno, o presidente do Eurogrupo, fez o mesmo em Bruxelas e, al\u00e9m disso, insistiu em que o novo governante dever\u00e1 \u201crespeitar os compromissos\u201d com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 d\u00edvida assumida por seus antecessores, inclu\u00eddo o pr\u00f3prio Tsipras, como veremos.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora n\u00e3o pode alentar nenhuma confian\u00e7a neste novo governo. Mitsotakis, que foi ministro de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica de Andonis Samar\u00e1s, \u00e9 lembrado por ter despedido milhares de trabalhadores estatais durante o auge da crise grega. Tampouco se salva da sombra da corrup\u00e7\u00e3o. Sua esposa, Mareva Grabowski-Mitsotakis, figurou nos conhecidos Pap\u00e9is do Panam\u00e1 [Panam\u00e1 Papers] como propriet\u00e1ria de 50% de uma empresa com sede nas Ilhas Cayman, administrada por um fundo que operava nas Ilhas Virgens. O mesmo foi julgado por ter aceitado subornos da Siemens em 2008, algo que desnudou sua estreita rela\u00e7\u00e3o com a empresa.<\/p>\n<p>No gabinete de Mitsotakis, al\u00e9m disso, h\u00e1 caras conhecidas. A pasta mais importante, a da Economia, vai ser exercida pelo liberal Christos Staikuras, ex vice ministro deste departamento durante o governo de Samar\u00e1s, quando a Gr\u00e9cia assinou o segundo plano de resgate. Mas os ministros mais pol\u00eamicos s\u00e3o os que prov\u00eam do mundo da extrema direita: Adonis Georgiadis, agora \u00e0 frente de Crescimento e Investimentos, e Makis Voridis, chefe da Agricultura. Georgiadis come\u00e7ou sua carreira no partido ultradireitista Laos, e em 2012 migrou para o ND. Foi ministro da Sa\u00fade com Samar\u00e1s, e durante esse per\u00edodo encarregou-se de aplicar no sistema de sa\u00fade uma reforma que deixou mais de 2,5 milh\u00f5es de desempregados sem assist\u00eancia m\u00e9dica, al\u00e9m de demitir 1.500 m\u00e9dicos. Voridis, na d\u00e9cada de 1980 dirigiu as juventudes do EPEN, uma for\u00e7a fundada pelo l\u00edder do golpe militar de 1967, substituindo Nikolaos Michaloliakos, fundador e atual l\u00edder supremo dos neonazis de Aurora Dourado.<\/p>\n<p>Pois bem, esta trag\u00e9dia grega \u00e9 fonte de muitas li\u00e7\u00f5es e merece toda a aten\u00e7\u00e3o dos\/as lutadores\/as oper\u00e1rios\/as e dos povos explorados: a primeira \u00e9 que foram Tsipras e o Syriza os que, nos \u00faltimos quatro anos, ressuscitaram e aplainaram o caminho para o poder da podre direita ultraconservadora e ultraneoliberal agrupada no ND, que agora incorpora ministros de extrema direita.<\/p>\n<p>E mais, a derrota do Syriza ficou selada quando ganhou as elei\u00e7\u00f5es em 2015 prometendo uma coisa e, uma vez no poder, fez exatamente o oposto.<\/p>\n<p><strong>O \u201cgiro\u201d de 180 graus<\/strong><\/p>\n<p>Em 25 de janeiro de 2015, Tsipras chegou ao poder em meio a uma crise econ\u00f4mica e humanit\u00e1ria catastr\u00f3fica, capitalizando o desgaste e o justo cansa\u00e7o popular com a submiss\u00e3o \u00e0 <em>Troika<\/em> europeia [o Banco Central Europeu, a Comiss\u00e3o Europeia e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional] que haviam demonstrado o governo socialdemocrata do PASOK de Yorgos Papandreu, em 2011, e seu sucessor, o gabinete conservador do ND, Andonis Samar\u00e1s. Eles aplicaram rigorosamente os impiedosos planos de ajuste contra os direitos da classe trabalhadora e materializaram a entrega dos recursos nacionais ao capital imperialista, principalmente o alem\u00e3o. Tsipras, para obter rendimento eleitoral, prometeu claramente que n\u00e3o aplicaria as receitas dos memorandos da Troika.<\/p>\n<p>Em poucos anos, a aplica\u00e7\u00e3o desse roteiro neoliberal, havia praticamente quebrado o pa\u00eds. O grau de destrui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, o aumento dos n\u00edveis de desemprego e a queda do n\u00edvel de vida foram aterradores.<\/p>\n<p>Em 2014, o PIB grego caiu 25%; o desemprego rondava 26%; e 23% da popula\u00e7\u00e3o estava na pobreza. O investimento em sa\u00fade caiu 9%. As aposentadorias foram reduzidas entre 35 e 50%. A d\u00edvida \u201cp\u00fablica\u201d, que em 2008 representava 113% do PIB, saltou para 175%.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que, nesse terr\u00edvel contexto, o discurso do Syriza, de que uma vez no poder enfrentaria os \u201ccredores\u201d da injusta e impag\u00e1vel d\u00edvida grega \u2013 ainda que nunca prop\u00f4s uma ruptura e sim uma firme \u201crenegocia\u00e7\u00e3o\u201d dos tratados \u2013 e que, assim, reverteria o desastre causado pela Troika e seus agentes locais, gerou uma onda de esperan\u00e7a generalizada. O Syriza, al\u00e9m disso, estava associado \u00e0s dezenas de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es que se deram desde o come\u00e7o da crise. ND e o PASOK, ap\u00f3s anos aplicando os ajustes, estavam \u201cqueimados\u201d, e a popularidade de Tsipras n\u00e3o parava de crescer. Para o eleitor, indignado e arruinado, o Syriza representava o \u201cnovo\u201d, uma alternativa \u201cposs\u00edvel\u201d para expressar seu rep\u00fadio \u00e0 Troika\u2026o que mais se podia perder?<\/p>\n<p>Assim, Tsipras ganhou as elei\u00e7\u00f5es e isso repercutiu no mundo inteiro. Entretanto, n\u00e3o passou muito tempo para que essa leg\u00edtima esperan\u00e7a e a compreens\u00edvel confian\u00e7a que a maioria do povo grego depositou no Syriza se transformasse em mal estar e agora, em recha\u00e7o eleitoral. N\u00e3o que o Syriza tenha desaparecido do quadro eleitoral\/parlamentar, nada disso, mas aquela rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com as massas empobrecidas e o peso pol\u00edtico que tinha antes de ser governo, n\u00e3o voltar\u00e3o a ser os mesmos. Inclusive, n\u00e3o se pode descartar que, no futuro e produto da experi\u00eancia das massas com suas medidas, o Syriza sofra uma crise e processo de desintegra\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel ao do PASOK.<\/p>\n<p>Provavelmente, existe uma data emblem\u00e1tica que inverteu a rela\u00e7\u00e3o do Syriza com as massas trabalhadoras gregas: 5 de julho de 2015.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Tsipras convocou um referendo sobre a aceita\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do terceiro \u201cresgate\u201d ou memorando que a Troika europeia queria impor, o que geraria mais ajustes e mais mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>A maioria do povo grego, 62%, apesar de uma campanha de terror cheia de amea\u00e7as apocal\u00edpticas e orquestrada pela imprensa burguesa e pelo capital financeiro, teve a coragem de dar um rotundo<em> Oxi<\/em> (N\u00e3o) \u00e0 continuidade da extors\u00e3o e do ciclo endividamento-austeridade que levou o pa\u00eds \u00e0 beira da ru\u00edna.<\/p>\n<p>Esse <em>Oxi<\/em> foi categ\u00f3rico e valente, j\u00e1 que a arrogante Troika havia emitido em 25 de junho um ultimato amea\u00e7ando a expuls\u00e3o da Gr\u00e9cia do euro. Isto \u00e9, o povo grego sabia que ao dizer n\u00e3o a esse ultimato enfrentava a possibilidade quase certa de um <em>Grexit<\/em>, com tudo o que isso podia implicar.<\/p>\n<p>Pois bem, \u00e9 sabido o que Tsipras fez com esse resultado, mas \u00e9 mais interessante que nos conte Yannis Varoufakis<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> que era ent\u00e3o seu ministro de Finan\u00e7as. Ainda em meio aos festejos nas ruas, e do p\u00e2nico do capital financeiro e da crise quase terminal do ND e dos demais partidos associados at\u00e9 esse momento com os memorandos, <em>\u201cTsipras convocou uma reuni\u00e3o com o l\u00edder interino do Nova Democracia e os l\u00edderes dos outros partidos pr\u00f3 Troika, que ele necessitava no parlamento para aprovar o terceiro resgate (memorando). Foi neste momento que o Nova Democracia se retirou do lixo da hist\u00f3ria e se colocou em um caminho que leva, com precis\u00e3o matem\u00e1tica, \u00e0 vit\u00f3ria eleitoral\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Tsipras traiu a confian\u00e7a da maior parte do sofrido e valente povo grego. A partir da\u00ed \u2013 que tenham ou n\u00e3o votado nele, de novo agora em 2019 \u2013 para muitos gregos o Syriza passou a ser essencialmente \u201cigual aos outros\u201d partidos submissos \u00e0 Troika. No m\u00e1ximo, muitos talvez o vejam como um mero \u201cmal menor\u201d.<\/p>\n<p>Um \u201cgoverno da esquerda radical\u201d traiu a quase \u00faltima esperan\u00e7a da maioria do povo \u2013 imaginemos o estrago que isto deve causar na consci\u00eancia das massas trabalhadoras -, e continuou a\u00e7oitando-o.<\/p>\n<p>Entretanto, o neorreformismo, tomado como corrente mais geral, n\u00e3o esteve e nem est\u00e1 disposto a fazer este balan\u00e7o. Consumada a trai\u00e7\u00e3o monumental de Tsipras, Pablo Iglesias declarou: <em>\u201cinfelizmente \u00e9 a \u00fanica coisa que podia fazer\u201d<\/em>. E acrescentava: <em>\u201cNa pol\u00edtica n\u00e3o contam as raz\u00f5es n\u00e3o, tua capacidade de diagn\u00f3stico, conta o poder e um pa\u00eds do sul tem muito pouco poder\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Errej\u00f3n, ent\u00e3o secretario pol\u00edtico, foi mais longe e afirmou que, em uma situa\u00e7\u00e3o similar, PODEMOS faria o mesmo: <em>\u201cEste acordo, dif\u00edcil, como Tsipras reconheceu, \u00e9 o acordo poss\u00edvel ante a intransig\u00eancia dos l\u00edderes europeus, a melhor solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, ainda que n\u00e3o esteja feito pensando no futuro do euro nem da UE [\u2026] N\u00f3s apoiar\u00edamos o que o Parlamento grego apoiar e ser\u00edamos respeitosos com o que eles apoiaram\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Da mesma forma, ainda que incorporando uma ou outra cr\u00edtica frouxa, os Anticapitalistas espanh\u00f3is \u2013 partido do ex Secretariado Unificado no Estado espanhol, que se dissolveu no PODEMOS -, escreveram depois que Tsipras rasgasse o resultado do referendo que recha\u00e7ou a extors\u00e3o da Troika: <em>\u201cTodo o Syriza <strong>tinha como objetivo expl\u00edcito avan\u00e7ar para o socialismo, tanto o setor de Tsipras como o setor mais radical. <\/strong>Ent\u00e3o que \u00e9 leg\u00edtimo perguntar-se o que impediu de cumprir esse objetivo [\u2026] \u00c9 leg\u00edtimo fazer a pergunta, a n\u00e3o ser que na realidade acreditemos que a dire\u00e7\u00e3o do Syriza somente dizia que o socialismo era seu objetivo para \u2018enganar as pessoas\u2019. Nesse caso cair\u00edamos em um moralismo pr\u00f3ximo do termo \u2018trai\u00e7\u00e3o\u2019\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>O ex SU, assim, faz malabarismos para justificar o injustific\u00e1vel: n\u00e3o somente dissemina a falsidade de que Tsipras e o Syriza como um todo eram \u201csocialistas\u201d como asseguram que nunca quiseram \u201cenganar\u201d o povo e muito menos tra\u00ed-lo! E escreveram esta trapa\u00e7a quando Tsipras jogou no lixo o resultado favor\u00e1vel ao <em>Oxi<\/em> e sentou para \u201cnegociar\u201d com os abutres da Troika para dar uma nova martelada na cabe\u00e7a do povo grego. Se isso n\u00e3o \u00e9 \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d para o ex SU, o que seria?<\/p>\n<p>Este tipo de caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 inaceit\u00e1vel. A verdade \u00e9 que o imperialismo ofereceu o garrote e Tsipras o utilizou com a mesma \u2013 ou talvez maior \u2013 efici\u00eancia que seus antecessores. N\u00e3o somente pisoteou o recha\u00e7o popular ao programa de austeridade da Troika, como imp\u00f4s um mais oneroso.<\/p>\n<p>Seu governo, em coaliz\u00e3o com Gregos Independentes, um partido ultranacionalista e xen\u00f3fobo, foi uma sucess\u00e3o de medidas de austeridade: cortes salariais, aumento de impostos, e uma descarada entrega de riquezas ao imperialismo tanto pela via do pagamento da \u201cd\u00edvida\u201d como por meio de privatiza\u00e7\u00f5es de empresas estatais a pre\u00e7os de leil\u00e3o.<\/p>\n<p>Para este fim, criou o Fundo de Privatiza\u00e7\u00e3o grego (HRADF), que vendeu ao capital estrangeiro 5% da participa\u00e7\u00e3o na empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es OTE; 67% da Autoridade Portu\u00e1ria de Sal\u00f3nica; e 66% do g\u00e1s natural posto em opera\u00e7\u00e3o pelo Estado. A isto se somam 22 milh\u00f5es de euros pela venda do servi\u00e7o de manuten\u00e7\u00e3o da Companhia de Ferros gregos, e outros 1.100 milh\u00f5es de euros em troca da concess\u00e3o do Aeroporto Internacional de Atenas, entre outras empresas ou explora\u00e7\u00f5es p\u00fablicas <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>. Todo o arrecadado desta enorme licita\u00e7\u00e3o serviu ou servir\u00e1 para \u201chonrar\u201d a d\u00edvida com os bancos alem\u00e3es e de outros pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n<p>A esta altura, imaginamos que n\u00e3o faltar\u00e1 quem diga que nem tudo foi t\u00e3o \u201cmal\u201d; que Tsipras sim fez \u201co que pode\u201d para aliviar a crise humanit\u00e1ria do pa\u00eds arruinado que recebeu. Com efeito, foram tomadas t\u00edbias medidas, absolutamente insuficientes para mitigar casos de extrema pobreza.<\/p>\n<p>O Syriza criou, por exemplo, um \u201csubs\u00eddio social\u201d que se viabilizou por meio de um cart\u00e3o para socorros b\u00e1sicos, que concedia de 70 a 220 euros por m\u00eas [entre 9 a 30% do sal\u00e1rio m\u00ednimo grego, um dos mais baixos da Europa] a aproximadamente 32% da popula\u00e7\u00e3o. Como se pode notar, \u00e9 dif\u00edcil acreditar que isto fosse sequer uma \u201creforma\u201d. Na realidade, n\u00e3o passa das conhecidas medidas de assistencialismo social, \u201ccompensat\u00f3rias\u201d, recomendadas pelo mesm\u00edssimo Banco Mundial, pensadas exatamente para conter poss\u00edveis explos\u00f5es sociais e criar, para quem as aplica, uma clientela eleitoral dependente dessas migalhas. Uma esp\u00e9cie de <em>\u201cbolsa fam\u00edlia\u201d<\/em>, se tomarmos o exemplo brasileiro.<\/p>\n<p>Mas o povo, que queria uma mudan\u00e7a radical, n\u00e3o parou de lutar. Tsipras respondeu reprimindo manifesta\u00e7\u00f5es e pelo menos oito greves gerais, considerando que o povo grego n\u00e3o ficou de bra\u00e7os cruzados nem se contentou com migalhas enquanto o saqueio continuava tal como antes do \u201cnovo\u201d <a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. O gabinete do Syriza aceitou o acordo de Merkel com o presidente turco Erdogan para reprimir os refugiados. Tamb\u00e9m fez um acordo com o genocida Benjamin Netanyahu, que selou uma alian\u00e7a entre a Gr\u00e9cia, o Chipre e Israel para que, com o aval de Trump, as multinacionais explorem o Mediterr\u00e2neo oriental.<\/p>\n<p><strong>O Syriza colhe o que semeou<\/strong>.<\/p>\n<p>Concretamente, as massas trabalhadoras n\u00e3o sentiram nenhuma mudan\u00e7a favor\u00e1vel com a chegada de Tsipras ao poder. Pelo contrario, sentiram em seus bolsos, e em seus est\u00f4magos \u2013 talvez com mais dureza \u2013 os efeitos dos planos da Troika que, agora, eram aplicados por um governo \u201cde esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Assim, o descontentamento cresceu, e isso se refletiu no crescimento das lutas nas ruas e nas greves de todo calibre. O descr\u00e9dito tamb\u00e9m se expressou nas elei\u00e7\u00f5es europeias e municipais de maio passado, quando o Syriza obteve s\u00f3 um quarto do voto popular.<\/p>\n<p>Talvez tomando como certo o futuro final de seu mandato, na \u00faltima sess\u00e3o da legislatura o Syriza tentou empregar no aparato do parlamento dezenas de seus correligion\u00e1rios, muitos deles parentes diretos de altos dirigentes do partido. O esc\u00e2ndalo ante semelhante ato de nepotismo, que fortaleceu ainda mais o ND e o resto da direita tradicional, fez com que Tsipras baixasse de 64 para 32 o n\u00famero dessas duvidosas \u201ccontrata\u00e7\u00f5es\u201d, realizadas de forma desesperada e grosseira enquanto o barco afundava.<\/p>\n<p>Antecipadas as elei\u00e7\u00f5es pelo pr\u00f3prio Tsipras para 7 de julho, por mais que provavelmente soubesse que as perderia, o Syriza tratou pelo menos de salvar os m\u00f3veis e fez promessas eleitorais tais como meio milh\u00e3o de empregos e um ligeiro aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, agora situado em 742 euros, menos da metade do alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o foi suficiente. Este reformismo sem reformas n\u00e3o tinha sa\u00edda nem sequer em seu pr\u00f3prio terreno, o eleitoral. A confian\u00e7a que alguma vez recebeu apodreceu h\u00e1 muito tempo. O certo \u00e9 que, para muitos que apoiaram Tsipras em 2014-2015, o Syriza transmutou-se e foi absorvido no \u201csistema\u201d que um dia prometeu enfrentar.<\/p>\n<p>Para selar seu governo com um legado sinistro, em agosto de 2018 o senhor Tsipras concluiu o terceiro memorando com os \u201ccredores internacionais\u201d, o mesmo que o povo havia recha\u00e7ado em julho de 2015. Mas isso n\u00e3o significou nem significar\u00e1 o fim da austeridade. Pelo contrario. Na realidade, poderia se dizer que Tsipras aceitou um quarto memorando, sob a apar\u00eancia de \u201cconcluir\u201d com o terceiro.<\/p>\n<p>A maior parte do \u201cresgate\u201d europeu \u00e0 Gr\u00e9cia agora, em termos t\u00e9cnicos, foi \u201creprogramada\u201d: mais de cem bilh\u00f5es de euros de reembolsos que o Estado grego havia se comprometido a realizar entre 2021 e 2030 foram postergados para depois de 2032 \u2013 n\u00e3o sem que isso fizesse com que os juros tamb\u00e9m aumentassem, com certeza &#8211; . Em troca, o Syriza aceitou um monitoramento da economia grega por parte de Bruxelas e uma austeridade permanente at\u00e9 2060; em outras palavras, comprometeu a Gr\u00e9cia com pol\u00edticas de austeridade \u2013 excedente or\u00e7ament\u00e1rio de 3,5% at\u00e9 2022 e de 2,5% posteriormente \u2013 at\u00e9 essa data. Uma jogada redonda e um gola\u00e7o do capital financeiro. E tudo gra\u00e7as ao Syriza.<\/p>\n<p>De um lado, o novo governo do ND n\u00e3o ter\u00e1 a corda do pagamento da d\u00edvida t\u00e3o apertada em seu pesco\u00e7o \u2013 pois ter\u00e1 \u201cmais tempo\u201d para pagar &#8211; e, assim, ter\u00e1 mais oxig\u00eanio; de outro, a austeridade, sempre em nome de uma d\u00edvida ileg\u00edtima e impag\u00e1vel, continuar\u00e1 \u2013 se o povo trabalhador n\u00e3o o impedir, evidentemente -, durante mais quarenta anos.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a Troika n\u00e3o pode se queixar do trabalho de Tsipras nem do tipo de \u201cesquerda\u201d que o Syriza configura.<\/p>\n<p><strong>Derrotar os planos do imperialismo, o novo governo do ND, e desmascarar o Syriza nas ruas<\/strong><\/p>\n<p>Desde 2010, os governos burgueses gregos aceitaram tr\u00eas \u201cresgates\u201d dos bancos europeus, que juntos somaram 280 bilh\u00f5es de euros. Isso se fez em troca de empreender a mais impiedosa guerra social contra a classe oper\u00e1ria e o povo gregos, como ocorre em toda a Europa em diferentes escalas.<\/p>\n<p>Para a Gr\u00e9cia, os tr\u00eas memorandos significaram, at\u00e9 agora, pelo menos 450 dolorosas leis de austeridade que afetaram quase todos os \u00e2mbitos do Estado e, como mencionamos, a destrui\u00e7\u00e3o de 25% de seu PIB em uma d\u00e9cada. O mais macabro \u00e9 que tudo isto se fez em nome de \u201csalvar\u201d a Gr\u00e9cia do espantalho chamado <em>Grexit<\/em>. Havia que manter a Gr\u00e9cia na Uni\u00e3o Europeia (UE) e no euro, a qualquer custo. A realidade \u00e9 que o povo nunca foi \u201csalvo\u201d. O povo continua passando fome e desemprego. Os que foram salvos foram os bancos e as empresas imperialistas, sobretudo as alem\u00e3s, e um setor da burguesia financeira grega, a fac\u00e7\u00e3o mais parasit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda de Tsipras, o desemprego chega a 19,2%, o maior da Eurozona, mas entre a juventude supera 40%. Os jovens n\u00e3o param de emigrar, e isso tamb\u00e9m incide na t\u00edmida e artificial \u201credu\u00e7\u00e3o\u201d do desemprego total <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. A Gr\u00e9cia se situa no terceiro posto do t\u00e9trico ranking dos pa\u00edses europeus cuja popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais exposta \u00e0 pobreza: est\u00e1 s\u00f3 atr\u00e1s da Rom\u00eania e a Bulg\u00e1ria.<\/p>\n<p>A economia, ainda que sem memorandos oficialmente assumidos, permanecer\u00e1 \u201cvigiada\u201d pelos parasitas internacionais que devoram as riquezas gregas. A d\u00edvida, que quando o Syriza assumiu estava em 175% do PIB, agora representa 181%. Isto \u00e9, a entrega aumentou. Estima-se que o pa\u00eds heleno ter\u00e1 que esperar at\u00e9 2033 para recuperar o n\u00edvel que seu PIB tinha em 2009.<\/p>\n<p>O que acontecer\u00e1 com o Syriza? \u00c9 uma boa pergunta. \u00a0Dimitris Rapidis, seu conselheiro de comunica\u00e7\u00e3o disse recentemente: <em>\u201cSyriza<\/em> <em>\u00e9 Tsipras. O partido perdeu capacidade desde 2015, hoje \u00e9 mais d\u00e9bil que ent\u00e3o, e cabe \u00a0perguntar o que ocorrer\u00e1 se no domingo [7 de julho] perdermos as elei\u00e7\u00f5es por uma diferen\u00e7a maior que em maio. N\u00e3o descarto que possa dissolver-se\u201d<\/em><a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Tal coisa, at\u00e9 agora, n\u00e3o pode ser assegurada, O neorreformismo, com suas diferentes variantes, por apoiar-se em uma determinada situa\u00e7\u00e3o de crise econ\u00f4mica e ainda possuir uma base social, al\u00e9m de haver demonstrado que pode ser muito \u00fatil ao imperialismo, \u00e9 resiliente.<\/p>\n<p>Mas, no caso do Syriza, talvez j\u00e1 n\u00e3o caiba caracteriz\u00e1-lo sequer de neorreformista. Syriza, ap\u00f3s sua passagem pelo governo, converteu-se em uma esp\u00e9cie de novo PASOK, um partido social-liberal completamente adaptado \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas e fiador dos interesses do imperialismo. N\u00e3o \u00e9 casual que o partido de Tsipras desde h\u00e1 muito tempo seja um convidado permanente nas reuni\u00f5es da c\u00fapula socialdemocrata europeia. Sua base social tamb\u00e9m se alterou neste tempo \u2013 tanto sua base partid\u00e1ria como eleitoral \u2013 j\u00e1 que atraiu em grande medida o eleitorado tradicional do PASOK, e foi perdendo muito entre os setores oper\u00e1rios e populares empobrecidos que votaram em Tsipras em 2015. Na c\u00fapula do Syriza, al\u00e9m disso, integraram-se ex dirigentes do PASOK, sobretudo depois da s\u00e9rie de expurgos que Tsipras fez em sua pr\u00f3pria \u201cala esquerda\u201d.<\/p>\n<p>A crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, isto \u00e9, a aus\u00eancia de uma alternativa oper\u00e1ria e socialista \u2013 que pudesse apresentar um programa revolucion\u00e1rio para resolver os problemas das massas gregas diante da guerra social da Troika \u2013 contribuiu para que a raiva contra Tsipras seja agora capitalizada pela \u201cdireita\u201d. Imagine que o ND inclusive deu-se ao luxo de fazer campanha eleitoral prometendo \u201creverter\u201d algumas medidas de austeridade adotadas pelo Syriza!<\/p>\n<p>Mas, essa mesma crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria pode permitir que outra forma\u00e7\u00e3o neorreformista, algo associado \u00e0 \u201cnova pol\u00edtica\u201d t\u00e3o em moda ou o pr\u00f3prio Syriza, lucre eleitoralmente em um futuro com o desgaste do novo governo grego. N\u00e3o. O Syriza n\u00e3o desapareceu. Sua passagem pelos pal\u00e1cios deixaram li\u00e7\u00f5es para aqueles que quiserem analisa-las, mas seu efeito nocivo n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>Perguntamos: como Luciana Genro e todos\/as aqueles\/as que aderiram a essa <em>moda eleitoral<\/em> chamada Syriza em 2014-2015 explicam este processo? Continuam ou continuar\u00e3o \u201csendo Syriza\u201d? O que dizem do fracasso eleitoral, da crise e do desmoronamento do PODEMOS no Estado espanhol? O que dizem das medidas de austeridade, mais ou menos veladas, do governo de Portugal, sustentado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda?<\/p>\n<p>Como colocamos desde 2015, \u00e9 imperativo analisar o car\u00e1ter de classe e o programa de um partido antes de sair semeando ilus\u00f5es nele. A quest\u00e3o que sempre discutimos foi que, pelo car\u00e1ter de classe de seu programa, sua dire\u00e7\u00e3o e sua base social, o Syriza nunca significou uma alternativa real para enfrentar os planos colonizadores do imperialismo, assim como n\u00e3o s\u00e3o o PODEMOS no Estado espanhol nem Fran\u00e7a Insubmissa de Jean-Luc M\u00e9lenchon.<\/p>\n<p>Mais do que nunca afirmamos que continua sendo uma tarefa imprescind\u00edvel dos marxistas \u2013 em se tratando de superar a crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u2013 o combate di\u00e1rio para desmascarar estes reformistas sem reformas, agentes do capitalismo decadente. Estas correntes n\u00e3o somente desmobilizam e desmoralizam nossa classe, como abrem o caminho para a direita tradicional e, em alguns casos, facilitam o trabalho nefasto da extrema direita.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia, afortunadamente, o partido neonazi Aurora Dourada perdeu a metade de seu apoio eleitoral de 2014 e n\u00e3o obteve nenhum mandato parlamentar. Mas, em seu lugar surgiu Solu\u00e7\u00e3o Grega, que se n\u00e3o \u00e9 abertamente neonazi \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o de extrema direita, ultranacionalista e extremamente religiosa. Este setor, abomin\u00e1vel, conseguiu 3,7% e assim, conquistou dez cadeiras parlamentares. Estes partidos neonazis, de extrema direita, racistas, e xen\u00f3fobos, em geral aproveitam o espa\u00e7o aberto pelo abandono da luta contra a UE, o euro e as medidas de austeridade que o neorreformismo realiza, que apregoa que essas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o ou poderiam ser \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d ou \u201cpara o povo\u201d. E isso quando n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio neorreformismo quem aplica as pol\u00edticas de fome que emanam de Bruxelas. Dessa forma, outra li\u00e7\u00e3o \u00e9 que o neorreformismo n\u00e3o \u00e9 capaz de combater e derrotar a extrema direita. Pelo contrario, com sua pusilanimidade e capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 Troika e \u00e0 UE, somente a fortalece.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do Syriza \u2013 a \u00fanica que chegou ao poder central de um pa\u00eds &#8211; mas tamb\u00e9m a do PODEMOS, o Bloco de Esquerda, etc., s\u00f3 reafirma que n\u00e3o existe sa\u00edda para a crise econ\u00f4mica e para a guerra social que os capitalistas empreenderam contra nossa classe que possa dar-se \u201cpor dentro\u201d do sistema; \u201cpor dentro\u201d dos gabinetes e dos parlamentos burgueses; \u201cpor dentro\u201d no caso da Europa, da UE e do euro.<\/p>\n<p>Estes partidos, que chamamos de <em>neorreformistas<\/em>, n\u00e3o tem nada de <em>novo<\/em>. Pior ainda, na medida em que est\u00e3o imersos em uma situa\u00e7\u00e3o de crise econ\u00f4mica muito deteriorada \u2013 quase sem margem para fazer concess\u00f5es duradouras \u00e0 classe trabalhadora -,e que devem lidar com um cen\u00e1rio pol\u00edtico muito polarizado por causa da guerra social infligida pela UE e pelo imperialismo, acabam sendo mais ef\u00eameros como corrente que seus antecessores, os partidos reformistas \u201ccl\u00e1ssicos\u201d do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A \u00fanica sa\u00edda realmente efetiva passa por organizar-nos ou reorganizar-nos; unir-nos nas lutas; enfrentar, com m\u00e9todos de democracia oper\u00e1ria e nas ruas, os planos do imperialismo e de seus agentes diretos em nossos pa\u00edses, os governos burgueses. Tenham estes a m\u00e1scara que tiverem. Sejam de \u201cdireita\u201d ou de \u201cesquerda\u201d.<\/p>\n<p>Mais uma vez, a realidade confirma o veredicto hist\u00f3rico sobre o debate entre reforma do capitalismo ou revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode \u201creformar\u201d nem \u201cdemocratizar\u201d aparatos de guerra contra os trabalhadores como a Uni\u00e3o Europeia e o euro, como afirmou o Syriza ou prop\u00f5e o PODEMOS; a \u00fanica coisa que cabe \u00e9 destru\u00ed-los por meio de uma pol\u00edtica de impulsionamento \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular. N\u00e3o h\u00e1 capitalismo \u201cmais humano\u201d, \u201cmais ecol\u00f3gico\u201d, nem que se interesse pelo \u201cpovo\u201d. H\u00e1 que se entender que s\u00e3o eles ou n\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1 meio termo, em perspectiva estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>No lugar da UE e do euro como instrumentos do capital, a classe oper\u00e1ria e seus aliados explorados e oprimidos devemos lutar por conquistar uma Europa dos trabalhadores e dos povos, os Estados Unidos Socialistas da Europa, como um passo adiante na luta pela destrui\u00e7\u00e3o do imperialismo e pela instaura\u00e7\u00e3o da sociedade sem classes em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Kyriakos Mitsotakis \u00e9 filho de Kostas Mitsotakis, ex primeiro ministro na d\u00e9cada de \u00a0noventa; irm\u00e3o de Dora Bakoyanis, ex prefeita de Atenas e ministra de Cultura e Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, e tio de Kostas Bakoyanis, filho da anterior e rec\u00e9m eleito prefeito de Atenas. Sem d\u00favida, uma fam\u00edlia muito \u201cafortunada\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/brasil\/politica\/luciana-genro-compara-luta-do-psol-a-do-partido-grego,6ff120014a82b410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/brasil\/politica\/luciana-genro-compara-luta-do-psol-a-do-partido-grego,6ff120014a82b410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver: <a href=\"http:\/\/www.corrienteroja.net\/el-desmoronamiento-de-podemos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.corrienteroja.net\/el-desmoronamiento-de-podemos\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O PASOK, o partido socialdemocrata grego, obteve 4,6% [13 deputados] em 2015. Dilacerado pela crise e suas medidas do passado recente, est\u00e1 em decad\u00eancia completa. Em 2019 apresentou-se como Movimento pela Mudan\u00e7a [Kinal, pela sua sigla em grego], e obteve 8,1%.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> A t\u00edtulo de contextualiza\u00e7\u00e3o: Antarsya, uma coaliz\u00e3o anticapitalista que n\u00e3o faz \u00a0parte do Syriza, obteve 23.191 (0,41%) votos. Unidade Popular, uma ruptura com o Syriza que data de 2015, obteve 15.930 (0,28%) votos. Em setembro de 2015 colheu 155.320 (2,86%) votos. Ambos ficaram sem representa\u00e7\u00e3o parlamentar. O KKE [Partido Comunista Grego] manteve-se praticamente no mesmo n\u00edvel de 2015, alcan\u00e7ando 5,3%.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Sempre vale lembrar que, segundo o sistema eleitoral grego, o partido mais votado obt\u00e9m um \u201cb\u00f4nus\u201d de 50 deputados.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.istoedinheiro.com.br\/kyriakos-mitsotakis-toma-posse-como-primeiro-ministro-da-grecia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.istoedinheiro.com.br\/kyriakos-mitsotakis-toma-posse-como-primeiro-ministro-da-grecia\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Atual l\u00edder do DiEM25 [Movimento para a Democracia na Europa 2025], que obteve 3,4% da vota\u00e7\u00e3o, o que lhe valeu nove assentos no Parlamento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/vientosur.info\/spip.php?article14974\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/vientosur.info\/spip.php?article14974<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.eldiario.es\/politica\/Podemos-respalda-Tsipras-Apoyamos-Parlamento_0_409809150.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.eldiario.es\/politica\/Podemos-respalda-Tsipras-Apoyamos-Parlamento_0_409809150.html<\/a>. Ver tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.elmundo.es\/espana\/2015\/08\/21\/55d6f95522601d44058b457a.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.elmundo.es\/espana\/2015\/08\/21\/55d6f95522601d44058b457a.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.anticapitalistas.org\/art%C3%ADculos\/la-izquierda-despues-de-syriza\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.anticapitalistas.org\/art%C3%ADculos\/la-izquierda-despues-de-syriza\/<\/a>. O destaque \u00e9 nosso. Esta nota tamb\u00e9m foi publicada no site Viento Sur, ligado ao ex SU.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.elciudadano.com\/mundo\/grecia-sigue-subastando-sus-empresas-publicas-para-pagarle-al-fmi\/06\/21\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.elciudadano.com\/mundo\/grecia-sigue-subastando-sus-empresas-publicas-para-pagarle-al-fmi\/06\/21\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/www.elmundo.es\/economia\/2018\/05\/30\/5b0eebe646163f9f7f8b4591.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.elmundo.es\/economia\/2018\/05\/30\/5b0eebe646163f9f7f8b4591.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Desde o inicio da crise, \u00a0estima-se que meio milh\u00e3o de jovens com alta forma\u00e7\u00e3o abandonaram o pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ver: <a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/07\/06\/actualidad\/1562444193_323902.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/07\/06\/actualidad\/1562444193_323902.html<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A derrota eleitoral de Alexis Tsipras, l\u00edder do partido Syriza, e o consequente retorno ao poder da Nova Democracia [ND] na Gr\u00e9cia, atrav\u00e9s da elei\u00e7\u00e3o para primeiro ministro de Kyriakos Mitsotakis, repulsivo representante de una dinastia pol\u00edtica conservadora[1], deve ser motivo de an\u00e1lise e de esfor\u00e7os para extrair li\u00e7\u00f5es por parte da esquerda mundial. 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