{"id":28505,"date":"2019-06-27T15:07:22","date_gmt":"2019-06-27T17:07:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28505"},"modified":"2019-06-27T15:07:22","modified_gmt":"2019-06-27T17:07:22","slug":"eleger-bernie-sanders-em-2020-ajuda-na-luta-pelo-socialismo-sobre-a-historia-e-as-contradicoes-da-politica-eleitoral-reformista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/06\/27\/eleger-bernie-sanders-em-2020-ajuda-na-luta-pelo-socialismo-sobre-a-historia-e-as-contradicoes-da-politica-eleitoral-reformista\/","title":{"rendered":"Eleger Bernie Sanders em 2020 ajuda na luta pelo socialismo? Sobre a hist\u00f3ria e as contradi\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica eleitoral reformista"},"content":{"rendered":"<p><em>A campanha presidencial do senador Bernie Sanders para 2020 tem gerado muito entusiasmo entre progressistas liberais, assim como em parcela significativa de autodeclarados socialistas democr\u00e1ticos. Estes t\u00eam como sua dire\u00e7\u00e3o os Socialistas Democr\u00e1ticos da Am\u00e9rica (DSA) e publica\u00e7\u00f5es como a revista Jacobin, que dedicou toda sua edi\u00e7\u00e3o do inverno de 2019 a defender a ideia de que a campanha de Sanders \u00e9 um instrumento para o avan\u00e7o da luta pelo socialismo.<\/em><!--more--><\/p>\n<p><em>Escrito por Orlando Torres<\/em><\/p>\n<p>Em artigos como \u201cO Exerc\u00edcio do Poder\u201d de Bhaskar Sunkara, \u201cO Estado que precisamos\u201d de David Broder, \u201cManejando a presid\u00eancia imperial\u201d de Meagan Day, e \u201cUm plano para o socialismo na Am\u00e9rica\u201d de Peter Gowan, o DSA e a <em>Jacobin <\/em>articulam tr\u00eas linhas de argumenta\u00e7\u00e3o para convencer a esquerda a apoiar completamente Bernie em 2020. Em primeiro lugar, apontam que a campanha representa a perspectiva mais promissora e realista de a esquerda dos EUA \u201cexercer o poder\u201d e implementar uma s\u00e9rie de reformas social-democratas (universaliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, gratuidade nas universidades, um sal\u00e1rio m\u00ednimo de $15 por hora, um New Deal \u201cverde\u201d, etc), ao mesmo tempo em que \u201cenfraquece a direita\u201d. Em segundo lugar, defendem que vencer elei\u00e7\u00f5es e aprovar reformas \u00e9 necess\u00e1rio para criar as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que permitiriam lutas mais radicais no futuro. E em terceiro lugar, argumentam que, mesmo que Bernie n\u00e3o ganhe, sua campanha e plataforma ainda assim avan\u00e7ariam a consci\u00eancia socialista em uma escala de massas. N\u00f3s discordamos profundamente com cada uma dessas teses e iremos refut\u00e1-las. As primeiras duas partes desse artigo ir\u00e3o examinar o papel hist\u00f3rico do reformismo na implementa\u00e7\u00e3o de reformas e contrarreformas sob o capitalismo, baseada no trabalho do historiador marxista Robert Brenner. A terceira parte utiliza essa an\u00e1lise hist\u00f3rica para avaliar a campanha Bernie 2020 sob uma perspectiva socialista.<\/p>\n<h6><strong>Como as reformas na verdade s\u00e3o (e sempre foram) conquistadas<\/strong><\/h6>\n<p>O apelo principal da campanha de Sanders \u00e9, sem d\u00favida, sua plataforma de reformas social-democratas de senso comum, que, se implementadas, realmente aprimorariam as condi\u00e7\u00f5es materiais e pol\u00edticas dos trabalhadores dos Estados Unidos. Mas o que a estrat\u00e9gia do DSA assume de forma err\u00f4nea e a-hist\u00f3rica \u00e9 que eleger pol\u00edticos com plataformas \u201cprogressistas\u201d ou social-democratas \u00e9 o m\u00e9todo prim\u00e1rio, ou pelo menos um elemento central, da estrat\u00e9gia da conquista de reformas. Essa \u00e9 uma premissa cl\u00e1ssica do reformismo, que, <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/2508-the-paradox-of-social-democracy-the-american-case-part-one\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nas palavras de Robert Brenner<\/a>, falha em<\/p>\n<p><em>\u201cdistinguir entre os legisladores imediatos das reformas e os criadores das ofensivas pol\u00edticas das massas que realmente tornam poss\u00edveis legisla\u00e7\u00f5es reformistas. Eles tipicamente, e desastrosamente, ignoram os movimentos de massas combativos que transformaram, querendo ou n\u00e3o, o que at\u00e9 ent\u00e3o eram pol\u00edticos reformistas e agentes da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/em>\u201d<a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Como Brenner demonstra em seu cl\u00e1ssico ensaio \u201c<a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/2508-the-paradox-of-social-democracy-the-american-case-part-one\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Paradoxo da Socialdemocracia: o caso estadunidense\u201d<\/a><a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/2508-the-paradox-of-social-democracy-the-american-case-part-one\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">,<\/a><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>\u00a0\u00e9 a intera\u00e7\u00e3o entre dois fatores fundamentais que determina as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para reformas progressistas dentro do capitalismo propenso a crises: 1)uma altera\u00e7\u00e3o na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes, resultante de um ascenso das mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das massas prolet\u00e1rias que desafie o capital e o Estado atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es diretas nos locais de trabalho e nas ruas; e 2) os ciclos de expans\u00e3o e crise da economia capitalista. Por um lado, movimentos prolet\u00e1rios de massas acendem a fa\u00edsca tanto da transforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia pol\u00edtica e uma rachadura dos e amea\u00e7a aos lucros capitalistas necess\u00e1rios para arrancar reformas da classe dominante. Por outro, os ciclos de expans\u00e3o e retra\u00e7\u00e3o do capitalismo (as condi\u00e7\u00f5es de lucratividade capitalista) determinam com quanta for\u00e7a a classe capitalista provavelmente resistir\u00e1 a press\u00e3o do movimento por reformas. Quando a economia est\u00e1 em crescimento e a lucratividade est\u00e1 alta, os pode ser do interesse dos capitalistas fazer concess\u00f5es para evitar instabilidade pol\u00edtica e perturba\u00e7\u00f5es na produtividade e nos lucros. Mas durante \u00e9pocas de contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e lucros baixos, reformas raramente s\u00e3o conquistadas s\u00e3o n\u00edveis extremamente altos de organiza\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia da classe trabalhadora. Al\u00e9m disso, sob o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, o pleno emprego e o estado de bem-estar social dependem de alto n\u00edvel de investimentos e receitas dos impostos, que por sua vez dependem do crescimento econ\u00f4mico e da lucratividade capitalista. Assim, em \u00e9pocas de crises, que s\u00e3o inerentes ao capitalismo e, portanto, n\u00e3o podem ser impedidas por um estado capitalista, governos social-democratas se tornam agentes da classe dominante ao restaurar lucros e crescimento atrav\u00e9s de medidas de austeridade anti-oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise surge a partir dos desenvolvimentos hist\u00f3ricos dos \u00faltimos 100 anos. Como o <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/2517-the-paradox-of-social-democracy-the-american-case-part-two\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ensaio de Brenner<\/a> descreve em detalhes, houveram duas grandes ondas de reformas nos Estados Unidos \u2013 uma nos anos 30 e 40 e outra nos anos 60. Essas reformas s\u00f3 se tornaram poss\u00edveis por causa de uma explos\u00e3o de movimentos populares e prolet\u00e1rios independentes orientados para a a\u00e7\u00e3o direta e contr\u00e1rios ao eleitoralismo e \u00e0s for\u00e7as sociais do reformismo: as burocracias sindicais, as lideran\u00e7as de classe m\u00e9dia das organiza\u00e7\u00f5es progressistas, e os pol\u00edticos do Partido Democrata. Nos anos 30 houve uma onda sem precedentes greves e mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias militantes (nosso jornal escreveu sobre elas em <a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/the-1934-strikes-the-historic-struggles-that-got-us-union-recognition-rights-and-social-welfare-programs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">outras edi\u00e7\u00f5es<\/a>), que se desenvolveram por fora e contra a dire\u00e7\u00e3o reformista e burocr\u00e1tica da Federa\u00e7\u00e3o Americana do Trabalho (AFL). Ap\u00f3s passivamente tolerar uma ofensiva antissindical brutal nos anos 20, a lideran\u00e7a da AFL sabotou as greves de 1933 ao pressionar os sindicatos a fazerem os trabalhadores voltarem a seus postos e a dependerem das mesas de media\u00e7\u00e3o de Roosevelt, que quase sempre ficavam ao lado dos patr\u00f5es. No entanto, o dinamismo do movimento vinha de trabalhadores de base cada vez mais combativos e organizados, que estavam dispostos a romper com a burocracia e formaram os Trabalhadores Automotivos Unidos (UAW) e eventualmente o Congresso das Organiza\u00e7\u00f5es Industriais (CIO) como alternativa \u00e0 AFL. Durante essa \u00e9poca, a for\u00e7a do movimento oper\u00e1rio era t\u00e3o grande que arrancou concess\u00f5es significativas (por exemplo, as leis <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/National_Labor_Relations_Act_of_1935\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wagner<\/a> e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Social_Security_Act\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">da Seguridade Social<\/a>), mesmo durante uma depress\u00e3o econ\u00f4mica.\u00a0 Mesmo assim, a burocracia sindical e pol\u00edticos progressistas como Franklin D. Roosevelt fizeram tudo que podiam para conter a milit\u00e2ncia sindical e canaliz\u00e1-la para o Partido Democrata, que, apesar de ter uma maioria enorme no parlamento, aprovou uma s\u00e9rie de leis (especialmente as leis antigreve <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Smith\u2013Connally_Act\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Smith-Connally de 1943<\/a> e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Taft\u2013Hartley_Act\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Taft-Harley de 1947<\/a>) que pavimentaram o caminho para a grande queda no movimento sindical nas d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Nos anos 60, os movimentos dos Direitos Civis e do Black Power dependiam principalmente de a\u00e7\u00f5es diretas para enfrentar estruturas econ\u00f4micas e racistas, causando uma onda de organiza\u00e7\u00e3o militante que incluiu enormes mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis, de mulheres e anti-imperialistas. Combinado a esse desafio real aos interesses da classe dominante, houve um salto correspondente na consci\u00eancia (tanto liberal quanto radical), que, unido \u00e0s prosperidade e lucratividade capitalista in\u00e9ditas do per\u00edodo 1945-1970, permitiram uma s\u00e9rie de reformas durante os governos Johnson e Nixon (as v\u00e1rias leis dos Direitos Civis, os Programas Contra A Pobreza, a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental, e outras). Por\u00e9m, uma vez mais as for\u00e7as sociais do reformismo \u2013 nesse caso a lideran\u00e7a das organiza\u00e7\u00f5es negras oficiais como a Associa\u00e7\u00e3o Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP) \u2013 n\u00e3o apenas fizeram tudo que puderam para canalizar a energia da luta do povo negro para as elei\u00e7\u00f5es ao organizarem uma movimenta\u00e7\u00e3o de registro eleitoral para\u00a0 Lyndon Johnson, mas aberta <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/j.1540-6563.2007.00174.x\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">denunciaram<\/a> o movimento Black Power combativo como <em>\u201cpai e m\u00e3e da viol\u00eancia\u201d<\/em>.<a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftn3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a>\u00a0Conforme os movimentos diminu\u00edram sob a repress\u00e3o estatal e a economia capitalista entrou em crise no in\u00edcio dos anos 70, o capital lan\u00e7ou um ataque total contra as vit\u00f3rias da classe trabalhadora com a cumplicidade ativa do Partido Democrata, que desde ent\u00e3o n\u00e3o aprovou uma \u00fanica reforma social significativa.<\/p>\n<p>Para encurtar, as burocracias sindicais e as lideran\u00e7as de classe m\u00e9dia das organiza\u00e7\u00f5es progressistas dos oprimidos historicamente atuaram para conter e obstaculizar o desenvolvimento movimentos combativos de a\u00e7\u00e3o direta, ao mesmo tempo que trabalhavam para domestic\u00e1-los e canalizar sua energia para a pol\u00edtica eleitoral burguesa. Ao mesmo tempo, pol\u00edticos reformistas se beneficiaram eleitoralmente de saltos na consci\u00eancia gerados por movimentos radicais e ocasionalmente, sob a correla\u00e7\u00e3o certa entra a press\u00e3o dos debaixo e a lucratividade capitalista, atuaram como os \u201clegisladores imediatos\u201d das reformas que se tornaram poss\u00edveis atrav\u00e9s da luta classista e combativa \u2013 ou seja atrav\u00e9s dos m\u00e9todos que o reformismo sabota, direta ou indiretamente. De fato, pol\u00edticos reformistas que ganham o cr\u00e9dito pol\u00edtico por reformas arrancadas pelos de baixo usam essas vit\u00f3rias legislativas para criar a depend\u00eancia pol\u00edtica e eleitoral que enfraquece os movimentos e abre caminho para contrarreformas.<\/p>\n<h6><strong>O papel do reformismo nas contrarreformas<\/strong><\/h6>\n<p>A quest\u00e3o hist\u00f3rica remanescente \u00e9 qual o papel que as for\u00e7as sociais do reformismo cumpriram durante per\u00edodos de pouco ativismo ou de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Novamente, os registros hist\u00f3ricos s\u00e3o iluminadores. Nos Estados Unidos, desde o fim do boom do p\u00f3s-guerra no in\u00edcio dos anos 70, a assim chamada Esquerda do Partido Democrata, a lideran\u00e7a burocr\u00e1tica estabelecida dos sindicatos, as lideran\u00e7as de classe m\u00e9dias das organiza\u00e7\u00f5es \u201cprogressistas\u201d (por exemplo, a <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/MoveOn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MoveOn<\/a>, a <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/CREDO_Mobile#CREDO_Action\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Credo<\/a>, o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Indivisible_movement\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Indivisible<\/a>, etc.) foram completamente incapazes de liderar qualquer resist\u00eancia efetiva (dentro ou fora das institui\u00e7\u00f5es de Estado) contra a onda de ataques capitalistas contra os n\u00edveis historicamente altos de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza junto com precariedade, sal\u00e1rios reais em queda e baixa sindicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como regra, quando governos reformistas est\u00e3o no poder durante per\u00edodos de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou baixa milit\u00e2ncia, n\u00e3o apenas eles n\u00e3o implementam seu pr\u00f3prio programa como inclusive aprovam ataques contra a classe trabalhadora para restaurar a lucratividade capitalista. Isso ficou evidente quando governos trabalhistas e social-democratas em pa\u00edses como Inglaterra, Fran\u00e7a, Espanha, e mesmo Su\u00e9cia implementaram cortes e pol\u00edticas de austeridade nos anos 70, 80 e 90. Mas h\u00e1 exemplos mais recentes, como o governo do Syriza na Gr\u00e9cia, que chega ao poder com uma plataforma radicalmente anti-austeridade em 2015 e imediatamente come\u00e7a a aplicar um pacote humilhante de medidas de austeridade exigidas pela Uni\u00e3o Europeia. Talvez mais dramaticamente, o recente colapso da assim chamada \u201cOnda Rosa\u201d de governos na Am\u00e9rica Latina completou um ciclo completo da pol\u00edtica reformista: uma onda de movimentos sociais combativos e antineoliberais gerou uma mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes nos anos 90 e no in\u00edcio dos anos 2000; pol\u00edticos e l\u00edderes reformistas conseguiram canalizar a crescente consci\u00eancia radical e a energia do movimento para dentro das institui\u00e7\u00f5es da democracia burguesa, tendo vit\u00f3rias eleitorais; durante um per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico (2002-2014), com os pre\u00e7os internacionais de commodities como petr\u00f3leo, ouro e carv\u00e3o extraordinariamente altos, governos reformistas surfaram na onda de crescimento e aplicaram uma s\u00e9rie de reformas moderadas enquanto mantinham a lucratividade capitalista; quando os pre\u00e7os das commodities previsivelmente entraram em colapso e o boom se tornou uma crise, esses mesmos governos reformistas \u2013 de Dilma Rousseff no Brasil a Daniel Ortega na Nicar\u00e1gua e Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela \u2013 removeram reformas que j\u00e1 haviam sido conquistadas e implementaram o mesmo tipo de medidas anti-povo (como ataques \u00e0s aposentadorias e aos servi\u00e7os p\u00fablicos, ataques \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva, repress\u00e3o a mobiliza\u00e7\u00f5es populares) que foram eleitos para reverter.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que esses l\u00edderes reformistas, que supostamente t\u00eam um compromisso de avan\u00e7ar os interesses da classe trabalhadora, se tornam agentes da burguesia durante per\u00edodos de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e\/ou baixa atividade militante? Uma parte da resposta foi resumida por Brenner, que explica que \u201c<em>as for\u00e7as sociais que dominam a pol\u00edtica reformista, principalmente o oficialato sindical e os pol\u00edticos de partidos social-democratas\u2026. n\u00e3o s\u00e3o eles mesmos parte da classe trabalhadora\u201d, <\/em>apesar de dependerem, para seu sustento, de organiza\u00e7\u00f5es mantidas pela classe trabalhadora.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201c\u2026acima de tudo, eles est\u00e3o fora do ch\u00e3o da f\u00e1brica [\u2026] [e] tem sua base material, seu sustento, na pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o sindical ou partid\u00e1ria [\u2026]. Na medida em que a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel, eles podem ter uma forma vi\u00e1vel de sustento e uma carreira razo\u00e1vel [\u2026]. J\u00e1 que a resist\u00eancia militante ao capital pode provocar rea\u00e7\u00f5es por parte do capital e o Estado que ameacem as condi\u00e7\u00f5es financeiras ou a pr\u00f3pria exist\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o[\u2026], os sindicatos e partidos reformistas [&#8230;] [buscam] aparar os ataques do capital atrav\u00e9s de concilia\u00e7\u00f5es com ele.<\/em>\u201d<a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftn4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a><\/p>\n<p>A segunda parte da resposta tem a ver com estrat\u00e9gia. Como j\u00e1 mencionado, durante \u00e9pocas de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, os capitalistas n\u00e3o concedem facilmente reformas que diminuam ainda mais seus lucros, e tendem a reter investimentos (ou seja, uma \u201cgreve de capital\u201d) e criar um caos econ\u00f4mico para impor seus interesses de classe. Assim, como regra, os governos reformistas se veem perante duas op\u00e7\u00f5es: 1) implementar medidas de austeridade anti-povo para restaurar a lucratividade do capital e o crescimento econ\u00f4mico, ou 2) de fato desafiar as rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalistas. O problema \u00e9 que adotar a segunda de forma bem-sucedida \u2013 desafiar e derrotar os propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 requer um n\u00edvel de auto-organiza\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia e milit\u00e2ncia da classe trabalhadora que n\u00e3o pode ser constru\u00eddo por via eleitoral. \u00c9 necess\u00e1ria uma acumula\u00e7\u00e3o gradual de lutas de a\u00e7\u00e3o direta que minem a legitimidade do Estado capitalista e assim ameacem a viabilidade tanto de campanhas eleitorais de curto prazo quanto de governos reformistas que dependem de institui\u00e7\u00f5es do Estado. Assim, mesmo se l\u00edderes capitalistas que administram Estados capitalistas tivessem a vontade pol\u00edtica de lutar pelo socialismo em momentos de crise (algo muito improv\u00e1vel pelas raz\u00f5es apresentadas por Brenner), a classe trabalhadora provavelmente estaria despreparada para esse n\u00edvel de luta. Como veremos, as estrat\u00e9gias necess\u00e1rias para \u201ctomar o controle do Estado capitalista\u201d atrav\u00e9s das elei\u00e7\u00f5es burguesas est\u00e3o geralmente em contradi\u00e7\u00e3o com as necess\u00e1rias para construir o ativismo e a consci\u00eancia socialista de massas.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas li\u00e7\u00f5es chave que trabalhadores e socialistas precisam aprender com essas experi\u00eancias hist\u00f3ricas. Primeiro, o reformismo e a pol\u00edtica eleitoral na verdade n\u00e3o ganham reformas que beneficiem a classe trabalhadora. Ao inv\u00e9s disso, movimentos combativos de a\u00e7\u00e3o direta, que se organizem independentemente de e frequentemente diretamente contra as for\u00e7as pol\u00edticas do reformismo, podem arrancar concess\u00f5es por parte da classe dominante ao gerar perturba\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as na consci\u00eancia que alterem o panorama pol\u00edtico. Essas concess\u00f5es frequentemente (mas nem sempre) s\u00e3o legisladas por pol\u00edticos reformistas, mas s\u00f3 podem ser conquistadas pela luta independente. Segundo, conquistar reformas e eleger pol\u00edticos reformistas para mandatos n\u00e3o cria, por si s\u00f3, as condi\u00e7\u00f5es para uma mudan\u00e7a mais profunda do capitalismo. Na medida em que a energia de movimentos radicais \u00e9 canalizada para a pol\u00edtica eleitoral burguesa e para longe da a\u00e7\u00e3o direta militante que foi o que conquistou as reformas, e na medida em que os trabalhadores s\u00e3o pressionados pelos governos reformistas a conter suas lutas a limite aceit\u00e1vel pelo capital, as condi\u00e7\u00f5es da possibilidade de uma mudan\u00e7a radical v\u00e3o se deteriorar ao inv\u00e9s de se aprimorar. De fato, em \u00e9pocas de crise, governos reformistas tendem fortemente a eles mesmos atacarem os trabalhadores para retomar o crescimento e a lucratividade.<\/p>\n<h6><strong>Que papel uma campanha (ou presid\u00eancia) de Bernie 2020 pode cumprir na luta pelo socialismo?<\/strong><\/h6>\n<p>Dado o papel hist\u00f3rico do reformismo, uma das quest\u00f5es centrais da esquerda nos Estados Unidos \u00e9 que rela\u00e7\u00e3o ter com a campanha de Bernie 2020. Embora para socialistas hajam vantagens evidentes em uma campanha de grande visibilidade que possa falar a milh\u00f5es de trabalhadores, tamb\u00e9m h\u00e1 enormes custos pol\u00edticos a ser pagos por ser candidato por um partido veementemente capitalista, limitar nosso programa a reformas social-democratas, e abra\u00e7ar uma estrat\u00e9gia com foco nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que a campanha de Bernie em 2016 teve um enorme impacto na pol\u00edtica dos EUA. Sua m\u00e1quina de levantamento de fundos e imensa exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica ajudou a popularizar uma s\u00e9rie de reformas social-democratas de senso comum, como a sa\u00fade universal, ensino superior gratuito, aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, universaliza\u00e7\u00e3o das creches, taxa\u00e7\u00e3o progressiva, e reformas ambientais. Nesse processo, a campanha gerou expectativas sobre quais pol\u00edticas s\u00e3o de fato politicamente vi\u00e1veis e construiu uma nova base eleitoral que rejeita explicitamente a ortodoxia neoliberal e abertamente desafia o establishment de direita do Partido Democrata. Al\u00e9m disso, a autoidentifica\u00e7\u00e3o de Sanders como um \u201csocialista democr\u00e1tico\u201d levou a uma explos\u00e3o do n\u00famero de membros do DSA, que tornou as campanhas presidenciais de Sanders em 2016 e 2020 sua prioridade m\u00e1xima. Assim, a lideran\u00e7a do DSA e sua publica\u00e7\u00e3o central, o <em>Jacobin, <\/em>t\u00eam colocado a campanha Bernie 2020 como uma oportunidade hist\u00f3rica indispens\u00e1vel de conquistar reformas importantes, criar as bases para lutas mais avan\u00e7adas, e (mesmo se a elei\u00e7\u00e3o for perdida) aumentar a consci\u00eancia socialista.<\/p>\n<p>Muitos trabalhadores e ativistas que buscam uma alternativa \u00e0 pol\u00edtica tradicional s\u00e3o, compreensivelmente, atra\u00eddos por essa vis\u00e3o. Infelizmente, ela \u00e9 baseada em uma compreens\u00e3o equivocada do capitalismo, do Estado, e da din\u00e2mica da luta de classes, que a torna n\u00e3o s\u00f3 inadequada como, em \u00faltima an\u00e1lise, contraproducente na luta pelo socialismo. Primeiro, Bernie Sanders n\u00e3o \u00e9 e nunca foi controlado pelo ou leal ao DSA, ou a qualquer organiza\u00e7\u00e3o socialista ou de esquerda. Ao contr\u00e1rio, Bernie monta chapa com os Democratas no Senado, assinou um <a href=\"https:\/\/www.nbcnews.com\/politics\/2020-election\/bernie-sanders-signs-dnc-loyalty-pledge-i-am-member-democratic-n979696\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">juramento de fidelidade<\/a>, afirmando que \u201cconcorrer\u00e1 como um Democrata&#8230; e presidir\u00e1 como um Democrata\u201d, e, como demonstrou em 2016, apoiar\u00e1 Democratas das corpora\u00e7\u00f5es em elei\u00e7\u00f5es gerais. Portanto, no prov\u00e1vel caso de Sanders n\u00e3o conseguir ser eleito com as regras escancaradamente antidemocr\u00e1ticas das elei\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias internas, pode-se esperar que ele apoie qualquer candidato que os Democratas lancem, assim dando de m\u00e3o beijada sua base eleitoral antineoliberal, arduamente constru\u00edda, aos representantes da burguesia. Isso sabota num n\u00edvel fundamental a tarefa central dos socialistas de construir uma base para um futuro partido prolet\u00e1rio, pois refor\u00e7a, na pr\u00e1tica, os princ\u00edpios de colabora\u00e7\u00e3o de classes e \u201cmal menor\u201d que sustentam a capacidade de coopta\u00e7\u00e3o e desmobiliza\u00e7\u00e3o da democracia burguesia.<\/p>\n<p>Apoiadores de Sanders, naturalmente, tem a esperan\u00e7a de que ele derrote a ala direita do Partido Democrata e seja eleito presidente. Nesse cen\u00e1rio improv\u00e1vel, mas n\u00e3o imposs\u00edvel, as contradi\u00e7\u00f5es da estrat\u00e9gia reformista seriam expostas claramente, come\u00e7ando com uma press\u00e3o enorme e in\u00e9dita tanto por parte dos Democratas quanto da m\u00eddia burguesa para que Sanders recue ainda mais em seu j\u00e1 limitado programa e fique com algo que o Congresso \u201cesteja disposto a aprovar\u201d. De fato, a press\u00e3o para evitar o enfrentamento com eleitores \u201cmoderados\u201d e a m\u00eddia corporativa de formas que possam colocar em risco a maioria no Congresso em 2022, junto \u00e0 press\u00e3o para fazer concess\u00f5es pol\u00edticas que demonstrem que o governo pode ultrapassar as barreiras do Congresso e aprovar alguma coisa (qualquer coisa!) nos seus primeiros dois anos seriam, muito provavelmente, poderosas o suficiente para domesticar a presid\u00eancia de Sanders e torn\u00e1-la algo inteiramente inofensivo para o status quo. Se e quando isso acontecesse, os trabalhadores e as comunidades oprimidas se mobilizariam contra o governo \u2013 seja porque est\u00e3o sendo jogado aos le\u00f5es em concess\u00f5es ao establishment, seja porque suas necessidades nunca estiveram representadas no programa limitado de Sanders \u2013 e imediatamente seriam pressionados fortemente a ficar na linha (nesse caso pelas for\u00e7as reformistas que apoiam Sanders) com o argumento de que criticar um \u201cpresidente socialista\u201d divide a esquerda e ajuda a direita a retomar o poder.<\/p>\n<p>Mas mesmo que um futuro presidente Sanders milagrosamente transformasse o Partido Democrata em uma organiza\u00e7\u00e3o social-democrata militante e enfrentasse um ataque frontal por parte da m\u00eddia, seu governo ainda enfrentaria a realidade de que, sob o capitalismo, todas as reformas pr\u00f3-trabalhadores s\u00e3o financiadas com a receita de impostos e que a capacidade do Estado de coletar impostos depende de crescimento econ\u00f4mico \u2013 ou seja, da lucratividade capitalista. Isso quer dizer que ou uma contra\u00e7\u00e3o c\u00edclica da economia, ou uma reten\u00e7\u00e3o politicamente deliberada dos investimentos por parte dos capitalistas geraria recess\u00e3o econ\u00f4mica, minando a legitimidade pol\u00edtica do governo e for\u00e7ando um abandono das reformas e um retorno a pol\u00edticas anti-prolet\u00e1rias para retomar a lucratividade e o crescimento. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria estabelecida do reformismo e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para achar que ser\u00e1 diferente em um projeto reformista que carrega os fardos adicionais de ser parte de uma institui\u00e7\u00e3o capitalista, em uma \u00e9poca em que os movimentos independentes da classe trabalhadora n\u00e3o s\u00e3o nem de perto t\u00e3o poderosos quanto foram nos anos 30 e 60.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do poder estrutural do capital, qualquer desafio profundo \u00e0 classe dominante por parte de um futuro governo Sanders tamb\u00e9m seria enfrentado pelo que Charlie Post chama de \u201cgoverno permanente n\u00e3o-eleito \u2013 o servi\u00e7o civil \/ ag\u00eancias executivas, o Judici\u00e1rio e, em \u00faltima an\u00e1lise, as For\u00e7as Armadas.\u201d Como Post v\u00e1rias <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/02\/socialist-organization-strategy-electoral-politics\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vezes apontou<\/a>,<\/p>\n<p>\u201cessas institui\u00e7\u00f5es, popularmente conhecidas como &#8216;deep state&#8217;, historicamente foram o centro da resist\u00eancia a tentativas da esquerda socialista de &#8216;utilizar&#8217; posi\u00e7\u00f5es eleitas no Estado capitalista para implementar reformas significativas, quanto mais romper com a l\u00f3gica do capital&#8230; Apenas uma ruptura decisiva na estrutura institucional do Estado \u2013 o desmantelamento do velho Estado e a constru\u00e7\u00e3o de um contrapoder prolet\u00e1rio \u2013 podem fazer com que a classe trabalhadora conquiste reformas significativas e comece a constru\u00e7\u00e3o do socialismo.\u201d<a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftn5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Vencer esses obst\u00e1culos exigiria maci\u00e7os movimentos independentes da classe trabalhadora para orientados taticamente para a\u00e7\u00f5es diretas e com disposi\u00e7\u00e3o para, se necess\u00e1rio, descumprir a lei e lutar contra o Partido Democrata, a burocracia sindical, e a lideran\u00e7a de classe m\u00e9dia das ONGs progressistas. Os defensores mais sofisticados da estrat\u00e9gia do DSA reconhecem tanto as barreiras estruturais que confrontam um poss\u00edvel governo Sanders quanto a centralidade das lutas das massas para super\u00e1-las. Por isso apelam a uma assim chamada estrat\u00e9gia \u201cinterna-externa\u201d que tenta produtivamente combina construir as lutas das massas com chegar ao governo por meio de elei\u00e7\u00f5es e assim administrar o Estado capitalista. <a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2019\/03\/bernie-sanders-movements-not-me-us?fbclid=IwAR0Xk2wKUeEVw_ZAYw66V-v8sr6vqI3p7MLURIObEhVsJqmLXGnI5psBN_4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Apontam <\/a>repetidamente para o suporte ret\u00f3rico de Sanders a causas trabalhistas e sociais e convocam um \u201cmovimento de massas de pessoas ordin\u00e1rias que exer\u00e7a sua pr\u00f3pria press\u00e3o sobre pol\u00edticos, que rivalize com a press\u00e3o exercida pelos capitalistas [atrav\u00e9s] de greves pol\u00edticas que derrubem os lucros ou paralisem as fun\u00e7\u00f5es normais da sociedade.\u201d[<a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftn6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">6]<\/a>\u00a0Isso, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 novo \u2013 a maioria dos projetos reformistas foram sedutores para as mobiliza\u00e7\u00f5es populares, frequentemente com uma ret\u00f3rica bem mais radical (por exemplo o Syriza ou Ch\u00e1vez), como um complemento necess\u00e1rio \u00e0 atividade parlamentar. E como os reformistas de ontem, socialistas apoiadores de Bernie 2020 n\u00e3o enfrentam nem resolvem as tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es inerentes entre o eleitoralismo e a luta de massas.<\/p>\n<p>O conflito mais \u00f3bvio entre os dois objetivos \u00e9 sobre prioridades. Se, como a hist\u00f3ria mostra, \u00e9 o poder perturbador dos movimentos militantes das massas e n\u00e3o o dos pol\u00edticos reformistas eleitos que cria as condi\u00e7\u00f5es para conquista de reformas, ent\u00e3o a l\u00f3gica diz que construir esses movimentos \u00e9 a tarefa central dos socialistas (tanto reformistas quanto revolucion\u00e1rios) de hoje. Por\u00e9m, quando socialistas s\u00e3o enredados pelo jogo da democracia capitalista, que requer um investimento extraordin\u00e1rio de tempo e energia em campanhas que come\u00e7am meses ou anos antes da vota\u00e7\u00e3o acontecer, \u00e9 dif\u00edcil imaginar como v\u00e3o haver recursos para construir uma base militante em locais de trabalho e vizinhan\u00e7as. Cada hora que um socialista gasta angariando votos para Bernie 2020 \u00e9 uma hora que n\u00e3o \u00e9 gasta construindo movimentos independentes orientados para a a\u00e7\u00e3o direta nas ruas e nos locais de trabalho. A atual dire\u00e7\u00e3o do DSA pode argumentar que o elemento \u201cexterno\u201d de sua estrat\u00e9gia \u00e9 t\u00e3o importante quanto sua cruzada para ganhar elei\u00e7\u00f5es mas, considerado o escopo de suas atividades pr\u00e1ticas desde 2016, qualquer um que esteja prestando aten\u00e7\u00e3o sabe que muito mais tempo e energia est\u00e3o sendo investidos em garantir recrutas para candidatos progressistas (dos quais muitos sequer s\u00e3o membros do DSA e s\u00f3 compartilham de uma parte de seu programa) do que em reformar o movimento sindical ou organizar a classe trabalhadora imigrante.<\/p>\n<p>Mais importante ainda \u00e9 o fato de que ganhar elei\u00e7\u00f5es sob o capitalismo envolve uma l\u00f3gica fundamentalmente diferente da utilizada para construir movimentos de massas. Como Robert Brenner explicou, ganhar elei\u00e7\u00f5es requer duas coisas b\u00e1sicas: ser atraente para 50% mais 1 e fazer com que os apoiadores realizarem o ato relativamente passivo de ir \u00e0s urnas votar. Portanto, para ganhar, candidatos de esquerda precisam at\u00e9 certo ponto aceitar e se adaptar \u00e0 consci\u00eancia atual do eleitorado. \u00c9 um jogo de canalizar energia da esquerda nas prim\u00e1rias e ent\u00e3o lentamente se mover para o centro enquanto se distancia de ideias consideradas radicais demais para ganhar mais votos de moderados. N\u00f3s j\u00e1 estamos vendo essa din\u00e2mica em jogo com Bernie Sanders. Em 23 de fevereiro, Sanders chamou a Venezuela a aceitar a assim chamada \u201cajuda humanit\u00e1ria\u201d, orquestrada por Trump e governos de direita da Am\u00e9rica Latina para apoiar materialmente a tentativa de golpe da direita venezuelana, mas tem mantido um sil\u00eancio palp\u00e1vel sobre as violentas san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelos EUA \u00e0 economia da Venezuela como parte de uma campanha aberta para for\u00e7ar uma mudan\u00e7a no regime. Mais recentemente, numa C\u00e2mara de Vereadores em Iowa, Sanders respondeu a uma pergunta sobre suas posi\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o dizendo que <em>\u201co que precisamos \u00e9 de uma reforma completa da imigra\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea abrir as fronteiras, meu Deus, h\u00e1 muita pobreza nesse mundo, e voc\u00ea vai ter gente de todo o mundo. E n\u00e3o acho que seja algo que possamos fazer nesse momento. N\u00e3o d\u00e1. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 minha posi\u00e7\u00e3o.\u201d <\/em>Se Bernie vencer as prim\u00e1rias, pode-se esperar que tanto seu programa quanto sua imagem se movam ainda mais \u00e0 direita conforme ele se foca nos estados indecisos; e tamb\u00e9m pode-se esperar que seu n\u00facleo duro de apoiadores na esquerda, incluindo o DSA, v\u00e1 aceitar isso sem cr\u00edticas, pois entendem que \u00e9 necess\u00e1rio para vencer.<\/p>\n<p>Por sua vez, greves e outras a\u00e7\u00f5es militantes de massas exigem n\u00e3o s\u00f3 grandes quantidades de pessoas participando, mas um comprometimento muito mais profundo. Para vencer em uma batalha contra patr\u00f5es, trabalhadores precisam, nas palavras de Brenner,<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cdesenvolver a mais poderosa solidariedade; precisam aceitar riscos, fazer sacrif\u00edcios, estar preparados para cometer a\u00e7\u00f5es ilegais e usar a for\u00e7a, e no fim, precisam desenvolver as id\u00e9ias que expliquem e justifiquem essas a\u00e7\u00f5es para si mesmos e para os outros. Tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio para vencer, porque o que est\u00e1 envolvido \u00e9 um teste direto de for\u00e7as com os empregadores e\/ou com o Estado.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Naturalmente, a\u00e7\u00f5es militantes frequentemente alienam eleitores moderados e de classe m\u00e9dia, que est\u00e3o super-representados no eleitorado. Quanto mais militante e independente um movimento se torna, maior \u00e9 a tens\u00e3o entre a constru\u00e7\u00e3o do poder estrutural da classe trabalhadora e a vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es para administrar o Estado capitalista. Mais ainda, como descrito acima, os movimentos militantes com frequ\u00eancia precisam confrontar as for\u00e7as sociais do reformismo: a burocracia sindical e a dire\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia das organiza\u00e7\u00f5es progressistas. Se a dire\u00e7\u00e3o dos sindicatos e ONGs progressistas abra\u00e7ar Berne 2020, como algumas fizeram em 2016 e muitas mais provavelmente far\u00e3o agora, um ascenso na milit\u00e2ncia de base for\u00e7aria outra escolha central: ser\u00e1 que a campanha e seus apoiadores na esquerda jogariam seu peso pol\u00edtico e material incondicionalmente na tarefa de reformar o movimento oper\u00e1rio? Ou se equivocariam e cumpririam um papel conciliador para evitar alienar apoiadores poderosos na burocracia sindical? Se a hist\u00f3ria for um indicativo, eles capitulariam \u00e0s press\u00f5es de um \u201cpragmatismo\u201d f\u00fatil e derrotista.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente o tipo de profundas solidariedade, criatividade e autogoverno coletivo necess\u00e1rio para vencer greves e a\u00e7\u00f5es do g\u00eanero que constr\u00f3i uma consci\u00eancia socialista genu\u00edna. Desafiar os patr\u00f5es e o Estado d\u00e1 aos trabalhadores a experi\u00eancia concreta de seu poder e capacidade de a\u00e7\u00e3o. D\u00e1 significado \u00e0 id\u00e9ia de que, como trabalhadores, n\u00f3s temos a chave de nossa pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o e precisamos depender uns dos outros e de nosso poder organizador para transformar o mundo. Como Florence Oppen defendeu em uma edi\u00e7\u00e3o anterior dessa revista, a autodetermina\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica dos trabalhadores est\u00e1 no centro da consci\u00eancia socialista. Portanto, sua ascens\u00e3o requer uma ruptura<\/p>\n<p>\u201c<em>com as ilus\u00f5es e a depend\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es do governo burgu\u00eas, que incluem todos os espa\u00e7os da democracia representativa (legislativos municipais, estaduais e o Congresso federal) assim como os partidos estabelecidos. A independ\u00eancia de classe n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser simplesmente proclamado e impresso num panfleto. Ela significa a cria\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia concreta de luta e dire\u00e7\u00e3o da nossa classe pela nossa classe, com democracia, independ\u00eancia e responsabilidade<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de seu papel em popularizar elementos do programa socialista (educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade gratuitas, entre outras), a campanha Bernie 2020 n\u00e3o servir\u00e1 como um ve\u00edculo efetivo para construir a consci\u00eancia socialista porque abra\u00e7a de forma acr\u00edtica o sistema eleitoral capitalista, seu poder de coopta\u00e7\u00e3o, e a ilus\u00e3o de que o socialismo pode ser alcan\u00e7ado sem luta revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como socialistas comprometidos, n\u00e3o podemos apoiar a campanha Bernie 2020, n\u00e3o por causa de alguma promessa dogm\u00e1tica de pureza ou maximalismo, mas porque ela faz parte de uma estrat\u00e9gia que certamente ir\u00e1 cooptar e por fim minar as lutas da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que reconstr\u00f3i a base social e a legitimidade do Partido Democrata e da democracia capitalista. Ao inv\u00e9s disso, apresentamos uma estrat\u00e9gia socialista alternativa \u2013 uma em que o centro de gravidade \u00e9 incontestavelmente a constru\u00e7\u00e3o das lutas democraticamente auto-organizadas da classe trabalhadora e a gradual unifica\u00e7\u00e3o e encaminhamento delas para a a\u00e7\u00e3o direta. Isso n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que socialistas n\u00e3o devam participar em elei\u00e7\u00f5es. Significa que n\u00f3s participamos de campanhas eleitorais independentes de oposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com o objetivo central de ganhar mandatos (embora isso seja uma possibilidade em determinados contextos), mas sim de construir, fortalecer e conectar movimentos em torno a um programa transicional que esclare\u00e7a a necessidade de romper com o Estado e mover-se para al\u00e9m dos limites do que \u00e9 poss\u00edvel sob o capitalismo. Essa estrat\u00e9gia n\u00e3o s\u00f3 tem muito mais chance de conseguir reformas, como de conquist\u00e1-las de uma maneira que construa a independ\u00eancia e o poder organizativo da nossa classe, ao inv\u00e9s de montar o palco para a desmobiliza\u00e7\u00e3o e a contrarreforma.<\/p>\n<p>Bernie Sanders l\u00edder eficiente e carism\u00e1tico que construiu uma impressionante base eleitoral na classe trabalhadora, de pessoas que querem construir uma sociedade diferente, est\u00e3o fartas do status quo, e est\u00e3o em busca de uma alternativa real. Se ele realmente se comprometesse com essa plataforma, ou sequer com o socialismo, ele romperia com o Partido Democrata, convocaria uma conven\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias, socialistas e de justi\u00e7a social, e poria sua candidatura sob o controle democr\u00e1tico dos trabalhadores. N\u00e3o temos nenhuma ilus\u00e3o de que isso v\u00e1 acontecer \u2013 afinal, Bernie foi o primeiro a assinar um <a href=\"https:\/\/www.thedailybeast.com\/bernie-sanders-first-to-sign-pledge-to-rally-behind-whoever-wins-democratic-primary?fbclid=IwAR2c8C3_UEyZYIj5l6P1ZOsml_GQK58l6sx4SUKOTEt2acYk4Rh3rAukvGs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">compromisso<\/a> de <em>\u201capoiar o candidato escolhido pelos Democratas, seja quem for \u2013 ponto final.\u201d<\/em> Mas se Sanders passasse a agir a s\u00e9rio e colocasse seu estrelato a servi\u00e7o das lutas da classe trabalhadora, considerar\u00edamos apoi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftnref1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/2508-the-paradox-of-social-democracy-the-american-case-part-one\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/2508-the-paradox-of-social-democracy-the-american-case-part-one<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/solidarity-us.org\/atc\/43\/p4958\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/solidarity-us.org\/atc\/43\/p4958\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftnref3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a>\u00a0Hall, S. (2007), The NAACP, Black Power, and the African American Freedom Struggle, 1966\u20131969. Historian, 69: 49\u201382.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftnref4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/solidarity-us.org\/atc\/43\/p4958\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/solidarity-us.org\/atc\/43\/p4958\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftnref5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/02\/socialist-organization-strategy-electoral-politics\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/jacobinmag.com\/2018\/02\/socialist-organization-strategy-electoral-politics<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavozlit.com\/can-bernie-2020-advance-the-struggle-for-socialism\/#_ftnref6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a><a href=\"https:\/\/jacobinmag.com\/2019\/03\/bernie-sanders-movements-not-me-us?fbclid=IwAR0Xk2wKUeEVw_ZAYw66V-v8sr6vqI3p7MLURIObEhVsJqmLXGnI5psBN_4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/jacobinmag.com\/2019\/03\/bernie-sanders-movements-not-me-us?fbclid=IwAR0Xk2wKUeEVw_ZAYw66V-v8sr6vqI3p7MLURIObEhVsJqmLXGnI5psBN_4<\/a><\/p>\n<p><em>Traduzido por Miki Sayoko<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campanha presidencial do senador Bernie Sanders para 2020 tem gerado muito entusiasmo entre progressistas liberais, assim como em parcela significativa de autodeclarados socialistas democr\u00e1ticos. Estes t\u00eam como sua dire\u00e7\u00e3o os Socialistas Democr\u00e1ticos da Am\u00e9rica (DSA) e publica\u00e7\u00f5es como a revista Jacobin, que dedicou toda sua edi\u00e7\u00e3o do inverno de 2019 a defender a ideia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":73078,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3519,49],"tags":[493,4734,144,192],"class_list":["post-28505","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eua","category-polemica","tag-bernie-sanders","tag-eua","tag-reformismo","tag-socialismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/7e46114e-54ef-4729-a1f8-5ac7eaad97e5-1.jpg","categories_names":["Estados Unidos","Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28505"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28505\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73078"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}