{"id":28410,"date":"2019-06-19T09:52:31","date_gmt":"2019-06-19T11:52:31","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28410"},"modified":"2019-06-19T09:52:31","modified_gmt":"2019-06-19T11:52:31","slug":"o-desmoronamento-de-podemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/06\/19\/o-desmoronamento-de-podemos\/","title":{"rendered":"O desmoronamento de Podemos"},"content":{"rendered":"<p><em>Um dos aspectos mais not\u00e1veis \u200b\u200bdas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 o desmoronamento de Podemos. Em 2015 obteve 5,2 milh\u00f5es de votos (apenas 340 mil a menos do que o PSOE) e conquistou muitos dos principais munic\u00edpios. Agora, quatro anos depois, perdeu 1,5 milh\u00e3o de votos ficando sem governos municipais e sem a maioria dos deputados regionais. Este colapso, que se desenvolveu a uma velocidade vertiginosa, n\u00e3o \u00e9 apenas um colapso eleitoral, mas tamb\u00e9m uma crise de degenera\u00e7\u00e3o.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por V\u00edctor Alai<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Podemos: a nova pol\u00edtica convertida em ala esquerda do regime<\/strong><\/p>\n<p>Podemos se tornou conhecido nas elei\u00e7\u00f5es europeias de 2014. Formou-se surfando a onda de indigna\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica desencadeada com o 15-M e denunciando o &#8220;regime de 78&#8221; e seus partidos (&#8220;PSOE, PP, a mesma merda \u00e9&#8221;). Logo, junto com \u00a0Syriza, tornou-se refer\u00eancia internacional de uma nova esquerda que deveria deslocar a velha socialdemocracia, desacreditada e em crise ap\u00f3s estrelar nos planos de ajuste selvagem que se seguiram \u00e0 crise capitalista de 2008.<\/p>\n<p>Os dirigentes de Podemos eram os ap\u00f3stolos de uma &#8220;nova pol\u00edtica&#8221; que substitu\u00eda a luta antiquada entre classes pelo conflito entre &#8220;povo e casta&#8221; e a revolu\u00e7\u00e3o socialista pelo &#8220;aprofundamento da democracia&#8221;. Desta forma, eles prometiam recuperar o Estado de bem-estar social e &#8220;refundar&#8221; a Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/p>\n<p>A primeira apari\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Podemos foi com o manifesto &#8220;Mover Ficha&#8221;, onde mostrou uma face radical. Exigia a revoga\u00e7\u00e3o do artigo 135 da Constitui\u00e7\u00e3o e a morat\u00f3ria sobre o pagamento da d\u00edvida p\u00fablica enquanto se realizava uma &#8220;auditoria cidad\u00e3&#8221;. Reivindicava a nacionaliza\u00e7\u00e3o de bancos privados e empresas de energia e exigia a revoga\u00e7\u00e3o das leis de imigra\u00e7\u00e3o e a sa\u00edda da OTAN.<\/p>\n<p>Este radicalismo inicial, no entanto, durou muito pouco. J\u00e1 no seguinte evento eleitoral os elementos mais rupturistas foram eliminados, em um processo \u00e0 direita que continuou sem descanso. Paralelamente, em seu interior, acentuou-se o caudilhismo de Iglesias, esvaziaram-se os c\u00edrculos e Podemos se convertia em um aparelho eleitoral onde decidiam os chefes e seus afins sem contar com a base. Quando era conveniente, os &#8220;inscritos&#8221;, em uma par\u00f3dia de democracia interna, eram chamados para plebiscitar, pela Internet, as decis\u00f5es j\u00e1 tomadas pelos l\u00edderes. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, Iglesias, que se orgulhava de pertencer a um bairro oper\u00e1rio, mudou-se para sua vila em Galapagar, na serra madrilenha.<\/p>\n<p>O PSOE logo deixou de pertencer \u00e0 &#8220;casta&#8221; inimiga. Quando estava em coma, Podemos veio em sua ajuda e foi fundamental para levantar S\u00e1nchez e permitir a recupera\u00e7\u00e3o do PSOE.<\/p>\n<p>A \u00faltima campanha eleitoral do Podemos tem sido lament\u00e1vel. O eixo do discurso de Iglesias era implorar por um posto no governo de S\u00e1nchez, abandonando todas as cr\u00edticas ao PSOE e ajustando o programa ao que Sanchez podia admitir: tudo tinha que se encaixar no regime e nos ditames da UE. Em cada com\u00edcio, Iglesias reclamou da Constitui\u00e7\u00e3o de 78, mencionando artigos vazios sobre direitos sociais que n\u00e3o exigem legalmente nada. Com uma campanha como essa, por que votar no Podemos, podendo fazer isso no PSOE?<\/p>\n<p>Podemos foi quem desativou a poderosa resposta que emergiu do 15-M e integrou-a no quadro do regime mon\u00e1rquico. Tornou-se a ala esquerda deste e, finalmente, em uma for\u00e7a auxiliar do PSOE.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A perda dos &#8220;conselhos da mudan\u00e7a&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Podemos perdeu os &#8220;conselhos municipais da mudan\u00e7a&#8221;. A raz\u00e3o deve ser buscada no contraste entre as promessas eleitorais e uma gest\u00e3o que n\u00e3o melhorou as condi\u00e7\u00f5es de vida dos setores populares, enquanto os grandes neg\u00f3cios continuaram a prosperar. As mudan\u00e7as impulsionadas foram reduzidas ao &#8220;humor&#8221; e performances menores, geralmente cercadas por muita publicidade. Em nenhum momento enfrentou a legalidade, mas sim a respeitaram escrupulosamente.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m atua\u00e7\u00f5es escandalosas como a da Carmena em Madri, endossando a repress\u00e3o contra os marionetistas, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria da &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Chamart\u00edn&#8221; ou os recentes despejos da Rua Argumosa, no bairro de Lavapi\u00e9s. No caso de Barcelona, \u200b\u200bAda Colau, apesar de perder as elei\u00e7\u00f5es para o ERC, manteve a prefeitura gra\u00e7as a um pacto com o PSC-PSOE e os votos do ex-primeiro ministro franc\u00eas, o reacion\u00e1rio Manuel Valls. A atua\u00e7\u00e3o de Colau constitui, em primeiro lugar, um imenso branqueamento do PSC-PSOE, um c\u00famplice necess\u00e1rio do 155 e algu\u00e9m intimamente associado \u00e0 grande burguesia de Barcelona. Agora o apresentam, por outro lado, como o grande parceiro de um &#8220;governo progressista&#8221;.<\/p>\n<p>Na Comunidade Aut\u00f4noma de Castilla-La Mancha, Podemos se tornou parte do governo regional do PSOE. Com apenas tr\u00eas deputados, seu l\u00edder local foi nomeado &#8220;vice-presidente&#8221; de Page e Podemos tornou-se o c\u00e3o de colo de um governo social-liberal e privatizador. Agora, desapareceu do mapa da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 que tirar li\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O colapso de Podemos requer profunda reflex\u00e3o. Seu desmoronamento provoca confus\u00e3o em muitos e uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia em um setor de ativistas que durante esses anos vieram a depositar sua confian\u00e7a em Podemos como alternativa a uma socialdemocracia\u00a0 corrupta e vendida ao capital.<\/p>\n<p>A vida tem mostrado que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, baseadas na constru\u00e7\u00e3o de aparatos eleitorais e triunfos ef\u00eameros. Que ningu\u00e9m nos economizar\u00e1 o trabalho di\u00e1rio de construir uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria enraizada no movimento oper\u00e1rio e popular e entre a juventude. Uma for\u00e7a para quem a participa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria nas elei\u00e7\u00f5es seja um instrumento a servi\u00e7o das lutas e a defesa de um programa revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma for\u00e7a que lute para construir outro 15M, desta vez mais massivo, mais oper\u00e1rio e popular, democraticamente auto organizado, que n\u00e3o se deixe institucionalizar, mas que confronte o regime mon\u00e1rquico para abrir caminho a um processo constituinte e a uma transforma\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Aqueles que fizeram apologia de Syriza e de Podemos est\u00e3o de luto. Agora eles s\u00f3 t\u00eam o Bloco de Esquerda portugu\u00eas, cujo principal objetivo \u00e9 o mesmo de Iglesias: entrar no governo do PS. O destino final ser\u00e1 semelhante.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Nea Vieira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos aspectos mais not\u00e1veis \u200b\u200bdas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 o desmoronamento de Podemos. Em 2015 obteve 5,2 milh\u00f5es de votos (apenas 340 mil a menos do que o PSOE) e conquistou muitos dos principais munic\u00edpios. Agora, quatro anos depois, perdeu 1,5 milh\u00e3o de votos ficando sem governos municipais e sem a maioria dos deputados regionais. 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