{"id":28407,"date":"2019-06-18T10:19:41","date_gmt":"2019-06-18T12:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28407"},"modified":"2019-06-18T10:19:41","modified_gmt":"2019-06-18T12:19:41","slug":"futebol-e-coisa-de-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/06\/18\/futebol-e-coisa-de-mulher\/","title":{"rendered":"Futebol \u00e9 coisa de mulher!"},"content":{"rendered":"<h6><em>Para aquelas que escolheram o esporte, a luta contra o machismo \u00e9 di\u00e1ria.<\/em><\/h6>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por Helena N\u00e1huatl<\/p>\n<p>O ano \u00e9 1983. Depois de 40 anos proibido, o futebol de mulheres \u00e9 regulamentado no Brasil.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o, que data de 1941, na verdade estava em gesta\u00e7\u00e3o d\u00e9cadas anteriores, quando do surgimento do futebol. Sendo um esporte trazido pela Inglaterra e praticado pelas elites como um hobby, n\u00e3o s\u00f3 as mulheres como tamb\u00e9m os trabalhadores eram coagidos a n\u00e3o pratic\u00e1-lo. Outra rejei\u00e7\u00e3o expl\u00edcita era a participa\u00e7\u00e3o das pessoas negras nos clubes. Nos anos 30, no entanto, come\u00e7a essa regulamenta\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 profissionaliza\u00e7\u00e3o dos homens no futebol. Na contram\u00e3o desse processo j\u00e1 durante os anos 20, o futebol de mulheres passa a ser atra\u00e7\u00e3o de circos e de todo e qualquer espa\u00e7o que n\u00e3o o caracterize como esporte.<\/p>\n<figure id=\"attachment_70750\" class=\"wp-caption alignright\" aria-describedby=\"caption-attachment-70750\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-70750 td-animation-stack-type2-2\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1941.png?resize=300%2C272&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1941.png?w=496&amp;ssl=1 496w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1941.png?resize=463%2C420&amp;ssl=1 463w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"272\" data-attachment-id=\"70750\" data-permalink=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/futebol-e-coisa-de-mulher\/attachment\/1941\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1941.png?fit=496%2C450&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"496,450\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1941\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1941.png?fit=496%2C450&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1941.png?fit=496%2C450&amp;ssl=1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70750\" class=\"wp-caption-text\">Jogo de futebol feminino em 1941<\/figcaption><\/figure>\n<p>Proibido na era Vargas e com legisla\u00e7\u00e3o endurecida a partir da Ditadura Militar, jogar futebol sendo mulher era caso de pol\u00edcia. Ainda com toda essa repress\u00e3o as mulheres n\u00e3o pararam de jogar. Fato curioso \u00e9 que a pr\u00f3pria Pol\u00edcia Militar tinha seu time de futebol entre as mulheres. Outro fator que impedia o avan\u00e7o da modalidade \u00e9 a repress\u00e3o cultural ao esporte, na qual se julgava pejorativamente a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nos ambientes familiares e de trabalho.<\/p>\n<p>Com a press\u00e3o internacional para o avan\u00e7o da modalidade (que tamb\u00e9m foi impedida por d\u00e9cadas em pa\u00edses como Inglaterra, Alemanha e Fran\u00e7a) o Brasil regulamenta, mas s\u00f3 passa a ter sua primeira sele\u00e7\u00e3o de mulheres em 1988.<\/p>\n<p>De 1991 (primeira) at\u00e9 hoje, o Brasil esteve em todas as edi\u00e7\u00f5es do Mundial. Mas, ao contr\u00e1rio do futebol dos homens, o reconhecimento \u00e0 modalidade ainda est\u00e1 longe de ser satisfat\u00f3rio no pa\u00eds. Em tempos de Mundial aberto em rede nacional, ao ver nossa sele\u00e7\u00e3o jogando de igual para igual com grandes equipes do mundo, pode parecer que n\u00e3o existe um abismo entre homens e mulheres. Mas ele est\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n<p><strong>O abismo da desigualdade<br \/>\n<\/strong>Se os sal\u00e1rios s\u00e3o sabidamente incompar\u00e1veis entre o futebol para homens e para mulheres, coisas mais b\u00e1sicas, como o pr\u00f3prio uniforme, esse ano apresenta uma vers\u00e3o in\u00e9dita. Isso mesmo, no pa\u00eds do futebol a sele\u00e7\u00e3o das mulheres jogava com sobras de material e design dos homens. Mas esses pequenos \u201cdetalhes\u201d s\u00e3o s\u00f3 a ponta de um iceberg de desigualdade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_70751\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-70751\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-70751 td-animation-stack-type2-2\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/3265_brasil-vice-campeao-mundial-2007.jpg?resize=640%2C360&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" data-attachment-id=\"70751\" data-permalink=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/futebol-e-coisa-de-mulher\/3265_brasil-vice-campeao-mundial-2007\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/3265_brasil-vice-campeao-mundial-2007.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,360\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"3265_brasil-vice-campeao-mundial-2007\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/3265_brasil-vice-campeao-mundial-2007.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/3265_brasil-vice-campeao-mundial-2007.jpg?fit=640%2C360&amp;ssl=1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70751\" class=\"wp-caption-text\">Sele\u00e7\u00e3o foi vice-campe\u00e3 mundial em 2007<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 2017, Cristiane, j\u00e1 estrela do time ao lado de Marta e Formiga, decidiu abandonar a sele\u00e7\u00e3o brasileira ap\u00f3s a primeira t\u00e9cnica mulher ser demitida. Tempo recorde se comparado aos homens, todos com no m\u00ednimo um ano de trabalho. O movimento come\u00e7ado por Cristiane levou ao total de 5 jogadoras pra fora da sele\u00e7\u00e3o em sinal de protesto. Naquele momento reivindicavam condi\u00e7\u00f5es de trabalho dignas e mais visibilidade para o futebol feito por elas. O protesto iniciado por Cristiane teve eco. Alguns elementos estruturais foram alterados e melhores condi\u00e7\u00f5es estabelecidas. No ano passado a jogadora resolveu ceder aos in\u00fameros pedidos de volta \u00e0 sele\u00e7\u00e3o e justificou a decis\u00e3o com as mudan\u00e7as que ela considera insuficiente, mas importantes.<\/p>\n<p>Se a n\u00edvel nacional a sele\u00e7\u00e3o brasileira sempre ouviu que s\u00f3 existe porque \u201co masculino sustenta\u201d a modalidade, nos estados ainda \u00e9 tratada como amadora, tendo poucas equipes organizadas e estruturadas. Hoje para todo clube da s\u00e9rie A do futebol brasileiro \u00e9 exigido a cria\u00e7\u00e3o das equipes de mulheres. Mas essa defini\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o garante a profissionaliza\u00e7\u00e3o, ou seja, que as mulheres possam ter o futebol como \u00fanica profiss\u00e3o. Essa defini\u00e7\u00e3o, longe de ser um pioneirismo da CBF, na verdade responde \u00e0s exig\u00eancias internacionais para os times profissionais dos homens, prevendo puni\u00e7\u00f5es caso n\u00e3o sejam cumpridas.<\/p>\n<p><strong>Ser m\u00e3e e atleta<br \/>\n<\/strong>Se no mercado de trabalho em geral \u00e9 dif\u00edcil tomar a decis\u00e3o de ter um filho, para as mulheres do futebol isso \u00e9 algo quase impens\u00e1vel. Estamos acostumados a ver os filhos dos jogadores, afinal, pouco se transforma em sua rotina de atleta ao ter um filho. Quando se \u00e9 mulher, por\u00e9m, a realidade \u00e9 bem diferente. Em toda a sele\u00e7\u00e3o, a \u00fanica jogadora que tem um filho \u00e9 Tamires. Ele nasceu logo no in\u00edcio da sua carreira profissional e ela deixou o esporte por duas vezes, a segunda priorizando o trabalho do marido, tamb\u00e9m futebolista. S\u00f3 nos \u00faltimos anos \u00e9 que conseguiu conciliar o futebol com a maternidade, atuando num time dinamarqu\u00eas e levando com ela toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Futebol para supera\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>Se nas equipes de futebol dos homens vemos muitos casos de supera\u00e7\u00e3o e sa\u00edda da pobreza, no futebol feminino essas hist\u00f3rias tamb\u00e9m acontecem. Apesar da pouca profissionaliza\u00e7\u00e3o, muitas meninas veem no esporte uma carreira e forma de mudar de vida. A maior barreira segue sendo a mesma: o investimento nelas. Marta, ap\u00f3s o fim do time de mulheres do Vasco se viu sem clube, at\u00e9 receber o apoio de uma treinadora do interior de Minas Gerais que a convidou para jogar l\u00e1, isso no in\u00edcio dos 2000. Ludmila, jovem atacante promissora, utilizou o esporte para driblar a marginalidade \u00e0 qual foi lan\u00e7ada, pela incapacidade da m\u00e3e de cri\u00e1-la e a morte prematura da irm\u00e3 por depend\u00eancia qu\u00edmica.<\/p>\n<p>A luta dentro e fora de campo deve seguir como fez Cristiane em 2017 e ir al\u00e9m. Dignidade nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, combate ao machismo e respeito \u00e0s profissionais que dedicam completamente suas vidas ao esporte e s\u00e3o vistas como um produto pelos clubes, patrocinadores e federa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O esporte como atividade emancipadora<\/strong><br \/>\nDefender a liberdade das mulheres para praticar qualquer atividade esportiva, principalmente aquelas as quais a sociedade recrimina ou at\u00e9 mesmo pro\u00edbe \u00e9 tamb\u00e9m uma luta por igualdade de direitos. Sabemos que no capitalismo tudo aquilo que pode dar lucro se transforma em produto e \u00e9 assim tamb\u00e9m no futebol. Se hoje a modalidade est\u00e1 tendo mais investimentos, principalmente pela luta de todas as mulheres que ousaram jogar bola e serem reconhecidas no passado, as grandes empresas as veem como um investimento promissor e um mercado imenso a ser gerado.<\/p>\n<p>O esporte, o lazer em geral e a cultura s\u00e3o direitos dos seres humanos por excel\u00eancia. As atividades humanas que desenvolvem corpo, mente e criatividade s\u00e3o aquelas que caracterizam nossa ess\u00eancia. Al\u00e9m disso, a coopera\u00e7\u00e3o, o trabalho em equipe e a confraterniza\u00e7\u00e3o que podem e devem ser caracter\u00edsticas do esporte \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de construir seres mais humanos.<\/p>\n<p>Numa sociedade igualit\u00e1ria, longe da busca pelos doentios limites do corpo e da competi\u00e7\u00e3o (que lesiona e mata muitos atletas), deixando de lado as diferen\u00e7as de sexo e g\u00eanero, o esporte pode ser direito de todos, assim como a forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e art\u00edstica de todos.<\/p>\n<p><strong>Para se aprofundar<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/ciencias\/ciencias-humanas\/mulheres-passaram-40-anos-sem-poder-jogar-futebol-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Livro: Mulheres Impedidas: A proibi\u00e7\u00e3o do futebol feminino na imprensa de S\u00e3o Paulo, Giovana Capucim e Silva, Editora Multifoco.<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0cK6jcPFc3Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gera\u00e7\u00e3o Peneiras \u2013 curta metragem sobre jovens jogadoras do esporte, 2019 \u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para aquelas que escolheram o esporte, a luta contra o machismo \u00e9 di\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":28408,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3493,3523],"tags":[7576,3494],"class_list":["post-28407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-mulheres","category-opiniao","tag-futebol-feminino","tag-mulheres"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1039007-19.08.2016_rrs-5004.jpg","categories_names":["Brasil","Mulheres","Opini\u00e3o"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}