{"id":28300,"date":"2019-06-10T10:31:07","date_gmt":"2019-06-10T12:31:07","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28300"},"modified":"2019-06-10T10:31:07","modified_gmt":"2019-06-10T12:31:07","slug":"cabanagem-parte-2-escravos-indios-e-camponeses-pobres-contra-o-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/06\/10\/cabanagem-parte-2-escravos-indios-e-camponeses-pobres-contra-o-imperio\/","title":{"rendered":"Cabanagem (Parte 2): Escravos, \u00edndios e camponeses pobres contra o Imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><em>Mesmo sendo a maior revolu\u00e7\u00e3o popular do Brasil, a cabanagem \u00e9 muito pouco conhecida pelos brasileiros, mesmo na Amaz\u00f4nia. Foi grandiosa pelo n\u00famero de pessoas que mobilizou, pelo territ\u00f3rio abarcado e pela radicalidade de seus protagonistas. A palavra de ordem cabana era: \u201cMorte aos portugueses! Morte aos ma\u00e7ons!\u201d, visto que a ma\u00e7onaria era diretamente associada aos grandes propriet\u00e1rios de escravos e de terras. Neste segundo artigo, mostraremos alguns dos maiores l\u00edderes cabanos e as li\u00e7\u00f5es que essa revolu\u00e7\u00e3o deixa para os trabalhadores pobres da atualidade.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Socorro Aguiar, do PSTU-Brasil<\/p>\n<p><strong>Rebeli\u00e3o nas selvas<br \/>\n<\/strong>Quando Bel\u00e9m foi retomada em 1836, os dois primeiros governadores cabanos estavam mortos e Angelim, o terceiro governador, j\u00e1 n\u00e3o controlava as massas cabanas. Ao trair as principais reivindica\u00e7\u00f5es dos rebeldes, foi abandonado enquanto tentava negociar sua deposi\u00e7\u00e3o. Os cabanos, entretanto, negaram-se a entregar as armas, embrenhando-se nos rios e florestas da Amaz\u00f4nia. Foi assim que se iniciaram anos de lutas intensas e radicais nas grandes v\u00e1rzeas dos rios da bacia amaz\u00f4nica, todas dirigidas por grandes lideran\u00e7as populares.<\/p>\n<p><strong>Escravos negros lutam por liberdade<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_70626\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-70626\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-70626 td-animation-stack-type2-2\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim%C3%B3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?resize=696%2C511&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?w=3864&amp;ssl=1 3864w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?resize=768%2C564&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?resize=80%2C60&amp;ssl=1 80w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?resize=696%2C511&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?resize=1068%2C784&amp;ssl=1 1068w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?resize=572%2C420&amp;ssl=1 572w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?w=1392&amp;ssl=1 1392w, https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?w=2088&amp;ssl=1 2088w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"511\" data-attachment-id=\"70626\" data-permalink=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cabanagem-parte-2-escravos-indios-e-camponeses-pobres-contra-o-imperio\/monjolo-comum-primordios-da-lavoura-paulista_norfini-alfredo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?fit=3864%2C2837&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"3864,2837\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;T\\u00edtulo: MONJOLO COMUM - PRIM\\u00d3RDIOS DA LAVOURA PAULISTA\\rAutor: NORFINI, ALFREDO\\rData: s\\\/d\\rT\\u00e9cnica: \\u00d3LEO SOBRE TELA\\rDimens\\u00f5es (a_cm, a_sm X l_cm, l_sm): 52,5-48,4-69-65\\rCole\\u00e7\\u00e3o:FUNDO MUSEU PAULISTA - FMP\\rFoto: Jos\\u00e9 Rosael-H\\u00e9lio Nobre-Museu Paulista da USP\\rAcervo: Museu Paulista da USPDom\\u00ednio P\\u00fablico&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;Jos\\u00e9 Rosael-H\\u00e9lio Nobre-Museu Paulista da USP&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;MONJOLO COMUM - PRIM\\u00d3RDIOS DA LAVOURA PAULISTA_NORFINI, ALFREDO&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"MONJOLO COMUM \u2013 PRIM\u00d3RDIOS DA LAVOURA PAULISTA_NORFINI, ALFREDO\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?fit=3864%2C2837&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alfredo_Norfini_-_Monjolo_Comum_-_Prim\u00f3rdios_da_Lavoura_Paulista_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg?fit=3864%2C2837&amp;ssl=1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-70626\" class=\"wp-caption-text\">Alfredo Norfini \u2013 Museu Paulista da USP<\/figcaption><\/figure>\n<p>Muitos escravos negros lideraram a cabanagem. De armas nas m\u00e3os, exigiram que Angelim abolisse formalmente o cativeiro. Dirigidos por ex-escravos, como Negro Patriota, Diamante, Felix, Crist\u00f3v\u00e3o e Beliz\u00e1rio, defendiam a ruptura com o Imp\u00e9rio e uma rep\u00fablica negra livre, a exemplo do Haiti.<\/p>\n<p>Domingos On\u00e7a, destemido combatente, notabilizou-se por matar o presidente da prov\u00edncia, Bernardo Lobo de Souza, em 7 de janeiro de 1835. Essa a\u00e7\u00e3o deu in\u00edcio \u00e0 cabanagem.<\/p>\n<p>Joaquim Afonso foi um c\u00e9lebre oficial que formou e comandou uma mil\u00edcia com mais de 500 rebeldes. Ajudou na tomada de Bel\u00e9m e esteve na linha de frente do terceiro governo cabano. Foi fuzilado, a mando de Angelim, por defender o fim da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Francisco Bernardes Cena, era um homem letrado que formou uma mil\u00edcia de 800 homens e invadiu Manaus, que se rendeu sem resist\u00eancia. Alastrou a guerra para os rios Negro, Solim\u00f5es e Amazonas, chegando \u00e0s fronteiras do Peru e da Venezuela.<\/p>\n<p>Pedro Figueiredo foi comandante do destacamento de guardas nacionais, que guarnecia o arsenal de guerra no governo de Francisco Vinagre. Francisco Sipi\u00e3o foi escravo\u00a0<em>\u201cque fora capit\u00e3o dos cabanos e influente nas desordens na cidade e nesse rio\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Negro Patriota, com Joaquim Afonso e \u201cDiamante\u201d, destacou-se como propagandista das ideias revolucion\u00e1rias e combatente do governo cabano de Angelim. Foram acusados de\u00a0<em>\u201cproclamar a liberdade a seu jeito, incluindo a dos escravos em geral\u201d<\/em>. Patriota foi fuzilado junto com Joaquim Afonso a mando de Angelim. Diamante entrou na mata, onde formou um grupo de guerrilheiros.<\/p>\n<p><strong>Militares desertam e ficam ao lado do povo<br \/>\n<\/strong>Maparajuba Firmeza, o Miguel Apolin\u00e1rio, foi um estrategista que comandou a luta em Cuipiranga (baixo amazonas). Teria sido militar e mudou o nome para Maparajuba em refer\u00eancia a uma forte \u00e1rvore amaz\u00f4nica e Firmeza para demonstrar sua convic\u00e7\u00e3o cabana. Construiu um basti\u00e3o de not\u00e1vel intelig\u00eancia nos barrancos do rio Amazonas, com postos de onde os cabanos podiam ter o dom\u00ednio visual completo de qualquer navio que se aproximasse, tanto pela parte do rio Preto (Tapaj\u00f3s) quanto pelos fundos da vila.<\/p>\n<p>Jacob Patacho foi um soldado desertor que atuou nos rios e igarap\u00e9s principalmente no per\u00edodo dos motins. Com ex\u00edmio conhecimento das \u00e1guas, passava de canoa, na companhia de um tapuio, tomando os pequenos vilarejos ribeirinhos. Os libertos o seguiam, ajudando na tomada do pr\u00f3ximo lugar. Ficaram famosas as \u201cfileiras de canoas\u201d amarradas na de Jacob Patacho, causando terror no colono portugu\u00eas e nos grandes propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Ind\u00edgenas contra o exterm\u00ednio<br \/>\n<\/strong>Tr\u00eas grandes na\u00e7\u00f5es participaram ativamente da cabanagem: Maw\u00e9, Mura, Mundurucu. Os Maw\u00e9 lideraram a revolu\u00e7\u00e3o em Parintins e Tupinambarana. Sob o comando do cacique Manoel Marques, atacaram Luz\u00e9a, matando os soldados do destacamento militar e os moradores portugueses, transformando a vila em reduto cabano. Em Tupinambarana e Andir\u00e1, o l\u00edder foi o cacique Crispim Le\u00e3o. Incendiaram Andir\u00e1, obrigando os moradores a se refugiarem em \u00d3bidos. No combate, o cacique foi morto a bala. Em 1840, quando 980 cabanos se renderam em Luz\u00e9a, todos portavam apenas arcos e flechas.<\/p>\n<p>Os Mura abrigavam em suas terras fugitivos tapuios, mesti\u00e7os, negros e brancos pauperizados. Falantes do mura aprenderam o nheenghat\u00fa, a l\u00edngua geral. Guerreiros not\u00f3rios atacavam vilas e povoados, inviabilizando a expans\u00e3o territorial e a amplia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o. A regi\u00e3o do rio Madeira, onde existiam grandes extens\u00f5es de terras mura, foi palco de grandes combates travados com os Mundurucu, da regi\u00e3o do rio Tapaj\u00f3s, que estavam do lado dos legalistas. Seus combates ferozes eram chamados pelos colonos de \u201ca\u00e7\u00f5es desenfreadas dos homens fera\u201d.<\/p>\n<p>Os mura foram vistos como desumanos, brutos e indolentes que deveriam ser pacificados ou aniquilados. Liquidaram Bararo\u00e1, o l\u00edder mais violento e cruel das for\u00e7as oficiais. Ousadia e coragem tiveram um pre\u00e7o alto: de 50 mil que eram em 1826, estavam reduzidos a 6 mil quinze anos depois.<\/p>\n<p>Os Mundurucu eram inimigos hist\u00f3ricos de v\u00e1rias tribos amaz\u00f4nicas. Cooptados pelas tropas legalistas, foram decisivos para a derrota cabana. Em 1838, chacinaram grandes contingentes de Muras e aliados na regi\u00e3o do rio Autaz (Amazonas). Ainda assim, os combates se estenderam por mais dois anos, sendo Luz\u00e9a o local onde se renderam os \u00faltimos grupos de mura, maw\u00e9 e aliados.<\/p>\n<p>REVOLU\u00c7\u00c3O POPULAR<br \/>\n<strong>Afinal, o que foi a Cabanagem?<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-70628 aligncenter td-animation-stack-type2-2\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?resize=696%2C399&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?resize=750%2C430&amp;ssl=1 750w, https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?resize=696%2C399&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?resize=733%2C420&amp;ssl=1 733w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"399\" data-attachment-id=\"70628\" data-permalink=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cabanagem-parte-2-escravos-indios-e-camponeses-pobres-contra-o-imperio\/a-cabanagem-750x430\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?fit=750%2C430&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"750,430\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"a-cabanagem-750\u00d7430\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?fit=750%2C430&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.pstu.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/a-cabanagem-750x430.jpg?fit=750%2C430&amp;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>Numa defini\u00e7\u00e3o mais precisa, foi uma revolu\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou com um programa democr\u00e1tico-burgu\u00eas e de independ\u00eancia. Seus primeiros l\u00edderes (Malcher, Vinagre, Angelim), oriundos das classes dominantes, almejavam uma rep\u00fablica liberal. No entanto, o problema da grande propriedade fundi\u00e1ria concentrada nas m\u00e3os de poucos propriet\u00e1rios rurais e, principalmente, a escravid\u00e3o n\u00e3o eram sequer mencionados no programa dos primeiros l\u00edderes cabanos. A raz\u00e3o \u00e9 simples: a maioria era propriet\u00e1ria de terras e de escravos.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o, no entanto, ganhou uma dimens\u00e3o incontrol\u00e1vel depois que a revolta passou a ter um forte protagonismo popular, formado por ind\u00edgenas, escravos negros e camponeses pobres cansados de s\u00e9culos de opress\u00e3o e genoc\u00eddio.\u00a0<em>\u201cO mais not\u00e1vel movimento popular do Brasil, o \u00fanico em que as camadas pobres da popula\u00e7\u00e3o conseguiram ocupar o poder de toda uma Prov\u00edncia com certa estabilidade\u201d<\/em>, na avalia\u00e7\u00e3o de Caio Prado J\u00fanior.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que foi a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o no Brasil em que a popula\u00e7\u00e3o pobre controlou por muito tempo grandes extens\u00f5es territoriais. Ao se radicalizar a revolu\u00e7\u00e3o, seus primeiros l\u00edderes n\u00e3o conseguiram dar respostas \u00e0s demandas levantadas. Ap\u00f3s sistem\u00e1ticas trai\u00e7\u00f5es, recuos e hesita\u00e7\u00f5es, negros, ind\u00edgenas e camponeses pobres foram assumindo a lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse car\u00e1ter popular fica demonstrado quando se analisa a profiss\u00e3o dos l\u00edderes da Cabanagem presos da Corveta \u201cDefensora\u201d: camponeses (51%); soldados e marinheiros (11%); carpinteiros, alfaiates, sapateiros, pescadores, ferreiros, ourives, marceneiros (20%); negociantes (2%); outros e sem of\u00edcios (16%). A estratifica\u00e7\u00e3o racial tamb\u00e9m \u00e9 evidente nesta amostragem: 52 ind\u00edgenas (38%); 51 negros (38%); e 33 brancos (24%).<\/p>\n<p>A Cabanagem enfrentou a domina\u00e7\u00e3o portuguesa e era contra os brancos que, em geral, eram os ricos e governantes e formavam uma pequena classe dominante. A popula\u00e7\u00e3o do Par\u00e1 era de 119.877 habitantes na \u00e9poca, sendo 32.751 ind\u00edgenas, 29.977 escravos negros, 42 mil mesti\u00e7os.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a Cabanagem foi, na nossa hist\u00f3ria, algo semelhante \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o liderada pelos escravos no Haiti (1791-1804), com a diferen\u00e7a de que, na Amaz\u00f4nia, al\u00e9m dos escravos negros, havia ind\u00edgenas e camponeses pobres que lutaram contra a escravid\u00e3o, o latif\u00fandio e o genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Por esse motivo, a contrarrevolu\u00e7\u00e3o comandada pelo governo regencial sediado no Rio de Janeiro foi particularmente cruel e dizimou aproximadamente 30% da popula\u00e7\u00e3o que vivia nas grandes v\u00e1rzeas amaz\u00f4nicas na \u00e9poca. A etnia Mura foi praticamente dizimada: fala-se de 21 mil mortos na Cabanagem. A repress\u00e3o final \u00e0 Cabanagem foi realizada pelo brigadeiro portugu\u00eas Francisco Soares de Andrea junto com o capit\u00e3o-de-fragata ingl\u00eas John Mariath, que cumpriram sua tarefa com requintes de crueldade.<\/p>\n<p>A Cabanagem sempre foi contada pelos historiadores oficiais como uma a\u00e7\u00e3o de bandidos e criminosos. Depois, tentaram invisibiliz\u00e1-la, raz\u00e3o pela qual muita gente n\u00e3o sabe como foi essa revolu\u00e7\u00e3o, inclusive na pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia. O objetivo sempre foi o de tentar apagar a principal li\u00e7\u00e3o da Cabanagem: a de que os explorados e oprimidos podem, como os cabanos, confiar em suas pr\u00f3prias for\u00e7as e colocar seus destinos em suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o terminou e outras classes sociais surgiram no decorrer da hist\u00f3ria do Brasil, como a classe oper\u00e1ria. Ao lado de todos os outros setores populares e oprimidos da classe trabalhadora, s\u00e3o herdeiros da coragem e do esp\u00edrito rebelde deixados pelos cabanos.<\/p>\n<p>SAIBA MAIS<\/p>\n<p><strong>Livros<br \/>\n<\/strong><em>O negro no Par\u00e1<\/em>\u00a0\u2013 Sob o regime da escravid\u00e3o<br \/>\nVicente Salles<\/p>\n<p><strong>Textos<br \/>\n<\/strong>\u201cHist\u00f3ria e mem\u00f3rias da cabanagem no baixo amazonas\u201d<br \/>\nProf. Dr. Frei Flor\u00eancio Almeida Vaz<\/p>\n<p>\u201cPresen\u00e7as ind\u00edgenas na Cabanagem. Proposta metodol\u00f3gica para a compreens\u00e3o de suas participa\u00e7\u00f5es diferenciadas\u201d<br \/>\nLeandro Mahalem de Lima<\/p>\n<p>\u201cGuerra sem fim: mulheres na trilha do direito \u00e0 terra e ao destino dos filhos (PAR\u00c1 \u2013 1835-1860)\u201d<br \/>\nEliana Ramos Ferreira<\/p>\n<p><strong>Document\u00e1rios<br \/>\n<\/strong><em>A Revolta dos Cabanos<br \/>\n<\/em>Dire\u00e7\u00e3o: Renato Barbiere<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/cabanagem-1835-1840uma-revolucao-radical-no-coracao-da-amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1\u00aa Parte: Uma revolu\u00e7\u00e3o radical no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo sendo a maior revolu\u00e7\u00e3o popular do Brasil, a cabanagem \u00e9 muito pouco conhecida pelos brasileiros, mesmo na Amaz\u00f4nia. Foi grandiosa pelo n\u00famero de pessoas que mobilizou, pelo territ\u00f3rio abarcado e pela radicalidade de seus protagonistas. A palavra de ordem cabana era: \u201cMorte aos portugueses! 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