{"id":28003,"date":"2019-05-17T15:51:09","date_gmt":"2019-05-17T17:51:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=28003"},"modified":"2019-05-17T15:51:09","modified_gmt":"2019-05-17T17:51:09","slug":"michael-roberts-produtividade-investimento-e-rentabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/05\/17\/michael-roberts-produtividade-investimento-e-rentabilidade\/","title":{"rendered":"Michael Roberts: Produtividade, investimento e rentabilidade"},"content":{"rendered":"<p><em>O historiador econ\u00f4mico radical Adam Tooze\u00a0recentemente tuitou que\u00a0\u201csempre que vejo os n\u00fameros da queda da taxa da produtividade das EAs (economias avan\u00e7adas), fico confuso: ser\u00e1 que realmente temos uma explica\u00e7\u00e3o?\u00a0N\u00f3s realmente temos uma explica\u00e7\u00e3o?\u201d<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Michael Roberts<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-1-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28004 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"312\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 1: A produtividade do trabalho nas economias desenvolvidas est\u00e1 desacelerando. Eixo vertical: Crescimento da produtividade do trabalho em economias desenvolvidas (%)<\/p>\n<p>Bem, acho que sim.\u00a0Como descrevi anteriormente,\u00a0nos \u00faltimos 40 anos e, especialmente, nos \u00faltimos 15, houve uma desacelera\u00e7\u00e3o generalizada da produ\u00e7\u00e3o por hora trabalhada nas principais economias.\u00a0Para as principais economias do G11 (que exclui a China), ela est\u00e1 ocorrendo atualmente com uma taxa tendencial de apenas 0,7% ao ano.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-2-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28005 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-2-1.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"292\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 2: Crescimento da produtividade do trabalho (produ\u00e7\u00e3o por hora de trabalho, %). Pa\u00edses: R\u00fassia, It\u00e1lia, Gr\u00e3-Bretanha, Espanha, G11, EUA, Fran\u00e7a, Austr\u00e1lia, Alemanha, Canad\u00e1, Coreia do Sul.<\/p>\n<p>O n\u00edvel de produtividade da R\u00fassia est\u00e1 caindo, enquanto os da It\u00e1lia e do Reino Unido est\u00e3o estacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas, por que a taxa de produtividade nas principais economias est\u00e1 caindo?\u00a0O quebra-cabe\u00e7a da produtividade \u00e9 debatido por economistas tradicionais h\u00e1 algum tempo.\u00a0A explica\u00e7\u00e3o keynesiana do \u201cexcesso de demanda\u201d [demand-pull] \u00e9 que o\u00a0capitalismo est\u00e1 em \u201cestagna\u00e7\u00e3o secular\u201d devido \u00e0 falta de \u201cdemanda efetiva\u201d, necess\u00e1ria para encorajar os capitalistas a investir em tecnologia que aumente a produtividade.\u00a0Essa \u00e9 a vis\u00e3o de keynesianos como\u00a0Larry Summers ou Martin Wolf.\u00a0Tamb\u00e9m \u00e9 promovida de forma semimarxista por\u00a0John Bellamy Foster na revista <em>Monthly Review<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o argumento do &#8220;lado da oferta&#8221;, por outros economistas convencionais, de que n\u00e3o h\u00e1 tecnologias melhoradoras da produtividade suficientemente eficazes nas quais investir\u00a0&#8211; os dias do computador, da internet, etc. \u2013 acabaram-se e n\u00e3o h\u00e1 nada de novo que tenha o mesmo impacto.\u00a0Esta tese \u00e9 fortemente defendida por Robert J. Gordon.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m outra explica\u00e7\u00e3o muito simples.\u00a0H\u00e1 tr\u00eas fatores por tr\u00e1s do crescimento da produtividade: a quantidade de m\u00e3o de obra empregada, o valor investido em maquin\u00e1rio e tecnologia e o fator X da qualidade e habilidade inovadoras da for\u00e7a de trabalho.\u00a0A contabilidade tradicional chama esse \u00faltimo fator de Produtividade Total dos Fatores (PTF), medida como a contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o contabilizada (residual) ao crescimento da produtividade ap\u00f3s o investimento de capital e o emprego de m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias mostram que o crescimento da produtividade \u00e9 impulsionado principalmente pelo investimento de capital, que substitui o trabalho vivo por m\u00e1quinas\u00a0&#8211; \u00e0 medida que as m\u00e1quinas aumentam a produ\u00e7\u00e3o de cada trabalhador usando a mais recente tecnologia, tamb\u00e9m reduzem o n\u00famero de trabalhadores necess\u00e1rios.\u00a0No gr\u00e1fico abaixo, o <em>Conference Board<\/em> dos EUA mostra que, nos 20 anos anteriores ao colapso financeiro global, a principal contribui\u00e7\u00e3o para o crescimento da produtividade veio do investimento de capital (32% + 18%);\u00a0enquanto a m\u00e3o-de-obra contribuiu com 23% e a PTF com 26%.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28006 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-3.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-3.jpg 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-3-300x139.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-3-150x70.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 3: Gr\u00e1fico da esquerda; antes da crise financeira (1997-2006): a import\u00e2ncia do crescimento da produtividade mundial em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento do PIB (contribui\u00e7\u00e3o da produtividade (%) ao crescimento m\u00e9dio mundial do PIB) \u2013 Capital n\u00e3o-TI, Crescimento pelo PTF, Trabalho, Capital TI, Qualidade do trabalho. Gr\u00e1fico da direita; tend\u00eancias da produtividade global de 1997 a 2013 (Crescimento da PTF por pa\u00edses e regi\u00f5es: EUA, Europa, Jap\u00e3o, Economias desenvolvidas, China, \u00cdndia, Am\u00e9rica Latina, Pa\u00edses emergentes, Mundo).<\/p>\n<p>O crescimento da PTF diminuiu ap\u00f3s a Grande Recess\u00e3o na maioria das economias, com exce\u00e7\u00e3o da China e da \u00cdndia.\u00a0Nos Estados Unidos, todos os tr\u00eas fatores que impulsionam o crescimento da produtividade estavam no m\u00e1ximo na d\u00e9cada de \u201calta tecnologia\u201d dos anos 90, mas, na d\u00e9cada de 2000, todos os tr\u00eas fatores desaceleraram acentuadamente.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28007 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-4.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"291\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-4.jpg 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-4-300x194.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-4-150x97.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 4: Setor privado dos EUA exceto o agr\u00e1rio: contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 produ\u00e7\u00e3o real (% a.a.). Verde: PTF; vermelho: Capital; azul: Trabalho.<\/p>\n<p>De fato, a desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento da produtividade nas economias avan\u00e7adas come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1970.\u00a0E isso n\u00e3o \u00e9 um acidente.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28008 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-5.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"416\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-5.jpg 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-5-300x277.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-5-150x139.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 5: Crescimento global de longo prazo da PTF para economias avan\u00e7adas (EA) e emergentes (EE). Azul: EA; vermelho: EE.<\/p>\n<p>Decompor os fatores que impulsionam o crescimento da produtividade esclarece as coisas.\u00a0A desacelera\u00e7\u00e3o do investimento em ativos produtivos, particularmente em alta tecnologia, levou a uma desacelera\u00e7\u00e3o na produtividade do trabalho.\u00a0Abaixo h\u00e1 um gr\u00e1fico gerado por economistas do JP Morgan.\u00a0Houve uma queda de longo prazo no investimento em ativos fixos [pr\u00e9dios, m\u00e1quinas, etc.] em rela\u00e7\u00e3o ao PIB nas economias avan\u00e7adas nos \u00faltimos 50 anos, ou seja, a partir dos anos 70.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-6.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28009 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-6.png\" alt=\"\" width=\"358\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-6.png 358w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-6-300x171.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-6-150x85.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 6: Investimento em ativos fixos, economias desenvolvidas em rela\u00e7\u00e3o ao PIB. Linha preta: Tend\u00eancia de 1970 ao presente; linha laranja: m\u00e9dia m\u00f3vel de 5 anos.<\/p>\n<p>Parte do decl\u00ednio do investimento em capital e m\u00e3o-de-obra nos EUA pode ser atribu\u00eddo \u00e0 crescente globaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que as empresas norte-americanas deslocaram suas f\u00e1bricas e atividades para o exterior.\u00a0Mas o investimento em rela\u00e7\u00e3o ao PIB diminuiu em todas as principais economias, com exce\u00e7\u00e3o da China.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/figura-7.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28010 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/figura-7.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/figura-7.png 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/figura-7-300x195.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/figura-7-150x98.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 7: Investimento em rela\u00e7\u00e3o ao PIB (%) 1980-2018. Linha marrom: EA; linha roxa: EE exceto China; linha azul: Mundo exceto China; linha laranja: China.<\/p>\n<p>Em 1980, tanto as economias capitalistas avan\u00e7adas como as capitalistas &#8220;emergentes&#8221; (exceto China) tinham taxas de investimento em torno de 25% do PIB.\u00a0Agora, a taxa m\u00e9dia \u00e9 de cerca de 22%, ou um decl\u00ednio de mais de 10%.\u00a0A taxa caiu para 20% nas economias avan\u00e7adas durante a Grande Recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Os economistas do JP Morgan observam que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 se tornando s\u00e9ria.\u00a0O crescimento do investimento empresarial global em novos equipamentos est\u00e1 estacionado pela terceira vez desde o t\u00e9rmino da Grande Recess\u00e3o, em 2009.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-8.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28011 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-8.png\" alt=\"\" width=\"368\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-8.png 368w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-8-300x172.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-8-150x86.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 368px) 100vw, 368px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 8: Gastos globais com equipamentos (%).<\/p>\n<p>E os economistas do JPM comentam\u00a0<em>: \u201cAinda mais preocupante \u00e9 que os dados mais recentes da pesquisa sugerem que a desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento do capex [investimentos em bens de capital] ainda n\u00e3o encontrou o fundo do po\u00e7o\u201d. A<\/em> previs\u00e3o do modelo aproximado (linha azul da figura 8) \u00e9 de crescimento zero em 2019.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-9-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28012 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-9-1.png\" alt=\"\" width=\"382\" height=\"221\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 9: Capex aproximado (%PIB). Linha laranja: EE exceto China.<\/p>\n<p>Portanto, a desacelera\u00e7\u00e3o de longo prazo do crescimento da produtividade \u00e9 consequ\u00eancia da desacelera\u00e7\u00e3o em investimentos em ativos geradores de valor produtivo.\u00a0A pr\u00f3xima pergunta \u00e9 a seguinte: por que os novos investimentos em tecnologia come\u00e7aram a cair a partir da d\u00e9cada de 1970?\u00a0\u00c9 realmente uma &#8220;falta de demanda efetiva&#8221; ou falta de tecnologias geradoras de produtividade?\u00a0O mais prov\u00e1vel \u00e9 que seja a explica\u00e7\u00e3o marxista: os neg\u00f3cios nas principais economias sofreram uma queda de longo prazo na lucratividade do capital e, assim, os capitalistas come\u00e7aram a pensar que n\u00e3o era suficientemente lucrativo investir muito em novas tecnologias para substituir o trabalho vivo.<\/p>\n<p>A magnitude do decl\u00ednio a longo prazo do investimento em ativos fixos oferecida pelo JP Morgan equipara-se perfeitamente com o decl\u00ednio a longo prazo da rentabilidade do capital nas principais economias (ver gr\u00e1fico abaixo).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-10-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28013 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-10-2.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"293\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 10: Taxa mundial de lucro &#8211; m\u00e9dia de 14 principais economias (lucros como % do ativo fixo)<\/p>\n<p>Isso ficou muito claro no per\u00edodo p\u00f3s-recess\u00e3o.\u00a0Em muitas grandes economias, como os EUA, Reino Unido, Jap\u00e3o e Europa, as empresas preferiram manter sua for\u00e7a de trabalho e ent\u00e3o empregar novos trabalhadores em contratos mais prec\u00e1rios, com menos benef\u00edcios e contratos tempor\u00e1rios ou de tempo parcial.\u00a0Isso se revela em taxas de desemprego oficiais muito baixas, juntamente com baixas taxas de investimento.\u00a0Assim, o crescimento da produtividade \u00e9 fraco e o crescimento real do PIB est\u00e1 abaixo do esperado.<\/p>\n<p>E a parcela de investimento no setor criador de valor produtivo das principais economias tamb\u00e9m diminuiu devido ao aumento do investimento em trabalho e setores improdutivos, isto \u00e9,\u00a0marketing, com\u00e9rcio, finan\u00e7as, seguros, im\u00f3veis, governo (particularmente gastos com armas, etc.).\u00a0Esses setores absorveram uma maior parte da mais-valia, diminuindo assim a lucratividade dos setores produtivos.<\/p>\n<p>Abaixo h\u00e1 um gr\u00e1fico produzido pelo economista marxista australiano Peter Jones, de seu novo livro,\u00a0<em>The Falling Rate of Profit and the Great Recession<\/em>,\u00a0que decomp\u00f5e os fatores que afetam a taxa de lucro nos setores produtivos da economia dos EUA: (s-u)\/C.\u00a0Os fatores que reduzem a lucratividade s\u00e3o: 1) uma crescente composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital conforme a an\u00e1lise marxista cl\u00e1ssica (barras verdes);\u00a0e 2) o aumento da participa\u00e7\u00e3o do trabalho improdutivo (barras azuis claras).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-11-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28014 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-11-2.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"307\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 11: Influ\u00eancias em (s-u)\/C. Barra azul clara: (s-u)\/C; laranja: ROSV; cinza: rotatividade; amarela: revaloriza\u00e7\u00e3o; azul escura: barateamento de novo C; verde: Composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital<\/p>\n<p>A longo prazo, esses fatores superam quaisquer fatores contr\u00e1rios que aumentem a rentabilidade, como uma taxa crescente de explora\u00e7\u00e3o do trabalho ou os efeitos de barateamento da nova tecnologia.\u00a0N\u00e3o \u00e9 de admirar que as taxas de investimento em capital fixo tenham diminu\u00eddo e, portanto, o crescimento da produtividade.<\/p>\n<p>Os economistas do JP Morgan tamb\u00e9m observam que a desacelera\u00e7\u00e3o no investimento produtivo \u00e9 impulsionada pela menor lucratividade (o que leva a uma falta de confian\u00e7a empresarial para investir):\u00a0<em>\u201ca desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento do investimento em bens de capital (capex) deve-se inteiramente \u00e0 falta de confian\u00e7a e a um menor crescimento do lucro em rela\u00e7\u00e3o aos anos anteriores\u201d. <\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-12-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28015 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-12-1.png\" alt=\"\" width=\"437\" height=\"236\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 12: Lucros globais e confian\u00e7a do investidor. Linha laranja: Confian\u00e7a do investidor (desvio padr\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a 1990); azul: Lucros (%).<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outro fator-chave que levou a um decl\u00ednio do investimento em trabalho produtivo: a prefer\u00eancia dos capitalistas pela especula\u00e7\u00e3o em capital fict\u00edcio, na expectativa de que os ganhos com compra e venda de a\u00e7\u00f5es nas bolsas e de t\u00edtulos governamentais e corporativos proporcionem retornos melhores do que o investimento em tecnologia na produ\u00e7\u00e3o ou em servi\u00e7os.\u00a0Como a rentabilidade do investimento produtivo caiu, o investimento em ativos financeiros tornou-se cada vez mais atraente.<\/p>\n<p>O crescimento do capital fict\u00edcio tem sido uma caracter\u00edstica de longo prazo desde o aumento da lucratividade do capital no in\u00edcio dos anos 80.\u00a0A participa\u00e7\u00e3o dos lucros do setor financeiro nos lucros totais nos EUA e em outras economias capitalistas cresceu a uma taxa crescente at\u00e9 o crash financeiro global &#8211; note-se que essa participa\u00e7\u00e3o s\u00f3 disparou realmente a partir dos anos 80.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-13.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28016 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-13.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"294\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-13.png 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-13-300x196.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-13-150x98.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 13: A participa\u00e7\u00e3o dos lucros do setor financeiro nos lucros totais nos EUA (%)<\/p>\n<p>E muito desse investimento \u00e9 fict\u00edcio (como Marx o chamava), j\u00e1 que os pre\u00e7os de a\u00e7\u00f5es ou t\u00edtulos podem n\u00e3o ter rela\u00e7\u00e3o com os lucros subjacentes dos ativos das empresas, e esses pre\u00e7os podem se dissolver em qualquer crash financeiro.<\/p>\n<p>Peter Jones, em seu livro, fornece uma medida da magnitude dos lucros financeiros fict\u00edcios.\u00a0Mas, uma medida grosseira, mas simples, do tamanho do capital fict\u00edcio pode ser baseada no \u00edndice <em>Q de Tobin<\/em>.\u00a0\u00a0Batizada em homenagem ao economista James Tobin, na d\u00e9cada de 1970,\u00a0ele mede a rela\u00e7\u00e3o entre o pre\u00e7o de mercado das a\u00e7\u00f5es e o valor cont\u00e1bil (ou pre\u00e7o) do ativos fixos das empresas.\u00a0O \u00edndice, ent\u00e3o, expressa a parte fict\u00edcia dos ativos financeiros.<\/p>\n<p>Podemos ver\u00a0que no mercado de a\u00e7\u00f5es em alta do in\u00edcio dos anos 80 at\u00e9 o estouro da crise dot.com, em 2000, o valor de mercado das empresas norte-americanas era cerca de 70% acima do valor em dinheiro dos ativos da empresa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-14.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-28017 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-14.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"327\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-14.png 450w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-14-300x218.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Figura-14-150x109.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Figura 14: \u00cdndice Q desde 1900. Linha verde: dados anuais; azul: dados trimestrais; preta: m\u00e9dia (70%).<\/p>\n<p>Dado que o \u00edndice Q m\u00e9dio \u00e9 de cerca de 70% e n\u00e3o de 110%, como agora, pode-se avaliar a magnitude da parte fict\u00edcia da compra de ativos financeiros.<\/p>\n<p>Assim, enquanto o mercado de a\u00e7\u00f5es cresce, com a ajuda de taxas de juros pr\u00f3ximas a zero e flexibiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, a rentabilidade do capital produtivo permanece baixa \u2013 e, junto com isso, o baixo crescimento do investimento e o baixo crescimento da produtividade.<\/p>\n<p>Fonte: Roberts, M, <em>Productivity, Investment and Profitability<\/em>, <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2019\/05\/11\/productivity-investment-and-profitability\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2019\/05\/11\/productivity-investment-and-profitability\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador econ\u00f4mico radical Adam Tooze\u00a0recentemente tuitou que\u00a0\u201csempre que vejo os n\u00fameros da queda da taxa da produtividade das EAs (economias avan\u00e7adas), fico confuso: ser\u00e1 que realmente temos uma explica\u00e7\u00e3o?\u00a0N\u00f3s realmente temos uma explica\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":28018,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[32,3789],"tags":[954,341,7486,34,7487],"class_list":["post-28003","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","category-sem-categoria","tag-capital-ficticio","tag-economia-capitalista","tag-investimento-produtivo","tag-michael-roberts","tag-produtividade"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/5c87e8f24275f-evento_produtividade_portal_733x458.jpg","categories_names":["Economia","Sem categoria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28003"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28003\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28018"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}