{"id":27209,"date":"2019-04-17T11:07:41","date_gmt":"2019-04-17T13:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=27209"},"modified":"2019-04-17T11:07:41","modified_gmt":"2019-04-17T13:07:41","slug":"uma-nova-primavera-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/04\/17\/uma-nova-primavera-na-africa\/","title":{"rendered":"Uma nova primavera na \u00c1frica?"},"content":{"rendered":"<p><em>Hoje na \u00c1frica vemos presidentes autorit\u00e1rios, bonapartistas e ditatoriais, que governaram seus pa\u00edses por d\u00e9cadas, deixando o poder. Todos como resultado de mobiliza\u00e7\u00e3o popular e descontentamento generalizado.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>Recentemente, na Arg\u00e9lia, Abdelaziz Bouteflika ap\u00f3s quase 20 anos no poder, pressionado por dois meses de manifesta\u00e7\u00f5es populares foi obrigado a renunciar. Em seguida, depois de quatro meses de protestos contra o governo, o ex\u00e9rcito do Sud\u00e3o se viu obrigado a depor e prender o ditador Omar al Bashir, no poder h\u00e1 30 anos.<\/p>\n<div id=\"attachment_27211\" style=\"width: 1610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Argelia-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-27211\" class=\"wp-image-27211 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Argelia-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1066\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27211\" class=\"wp-caption-text\">Protesto na Arg\u00e9lia<\/p><\/div>\n<p>Alguns analistas, jornalistas e historiadores come\u00e7am a falar em uma \u201c<em>nova era africana<\/em>\u201d que se inicia com revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e ditadores que n\u00e3o v\u00e3o resistir por muito tempo.<\/p>\n<p>O que poder\u00edamos chamar de \u201c<em>Primavera Africana<\/em>\u201d, ou \u201cPrimavera \u00e1rabe 2.0\u201d. Segue o caminho dos protestos que tomaram h\u00e1 mais de um ano a Tun\u00edsia, Marrocos e Jord\u00e2nia, mas, em uma conjuntura que pode ser muito mais explosiva para a regi\u00e3o, ao se combinar com a instabilidade gerada pelos conflitos militares na L\u00edbia, S\u00edria e I\u00eamen.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que at\u00e9 agora, na maioria dos pa\u00edses \u00a0 que est\u00e3o vivendo este processo, os regimes bonapartistas se livram dos ditadores mais odiados na tentativa de manter o regime. Isso ocorreu em Angola onde Jo\u00e3o Louren\u00e7o substituiu o conhecido corrupto Jose dos Santos; no Zimb\u00e1bue onde Robert Mugabe, de 93 anos, foi substitu\u00eddo pelo sanguin\u00e1rio Emmerson Mnangagwa; no Congo com Joseph Kabila realizando elei\u00e7\u00f5es fraudulentas e empossando o opositor <em>Felix Tshisekedi<\/em>; em Bukira Faso que elegeu o primeiro presidente civil em 50 anos; e agora no Sud\u00e3o e na Arg\u00e9lia. De certa maneira \u00e9 o mesmo processo que ocorreu na \u00c1frica do Sul onde o poder passou a Cyril\u00a0<em>Ramaphosa<strong>,<\/strong><\/em> das m\u00e3os de Jacob Zuma. Todos dos mesmos partidos que os antecessores. Concretiza-se o \u201cceder os an\u00e9is para n\u00e3o se perder os dedos\u201d, forjando um processo revolucion\u00e1rio incompleto, mas que ainda est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p><strong>Ditadores e regimes autorit\u00e1rios est\u00e3o assustados\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esses governantes tem medo, mas querem permanecer no poder, e se utilizam em primeiro lugar de uma violenta e brutal repress\u00e3o para isso. Quando n\u00e3o d\u00e1 certo e se chocam com a resist\u00eancia das massas, passam para as manobras pol\u00edticas.<\/p>\n<p>No Sud\u00e3o o ministro da Defesa, general Awad Ibn Auf disse que, com a derrubada do governo, o pa\u00eds ser\u00e1 comandado pelos pr\u00f3ximos dois anos por um \u201c<em>governo militar de transi\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Na Arg\u00e9lia o legislativo anunciou um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o que se iniciar\u00e1 em 4 de julho, com elei\u00e7\u00f5es gerais e a reforma da constitui\u00e7\u00e3o, conduzido pelo presidente do Senado,\u00a0Abdelkader Bensalah,\u00a0que a partir de agora ser\u00e1 o chefe de Estado interino. Uma transi\u00e7\u00e3o que vai durar, pelo menos, um ano.<\/p>\n<p>O plano \u00e9 retirar os governantes mais desgastados, mas manter regime, e conduzir uma transi\u00e7\u00e3o de nada para lugar nenhum, mudando somente as moscas.<\/p>\n<p>Essas propostas n\u00e3o est\u00e3o agradando ningu\u00e9m, no Sud\u00e3o os l\u00edderes dos protestos rejeitaram o \u201c<em>golpe de Estado liderado pelo regime<\/em>\u201d. Na Arg\u00e9lia, j\u00e1 se iniciaram as manifesta\u00e7\u00f5es, tendo a frente os estudantes, contra a nomea\u00e7\u00e3o de Bensalah acusado, corretamente, de \u201ccontinu\u00edsmo\u201d, assim como o chefe do ex\u00e9rcito, general Ahmed Ga\u00efd Salah. Manifesta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo reprimidas pela pol\u00edcia com g\u00e1s e golpes de cassetetes.<\/p>\n<p><strong>Uma nova primavera<\/strong><\/p>\n<p>Desde a Primavera \u00c1rabe no final de 2010, tem imperado a repress\u00e3o massiva aos protestas em quase todos os pa\u00edses da regi\u00e3o. Seja o matiz pol\u00edtico do governo ou bloco. \u00c9 assim na Republica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3 de Hassan Rohani; no Reino da Ar\u00e1bia Saudita do pr\u00edncipe Mohammad bi Salman, no Emirado do Qatar de Tamin bin Hamad al-Thani; na Republica semipresidencialista da Tun\u00edsia de B\u00e9ji Caid Essebsi e na Turquia de Erdogan e do Egito de Abdel al-Sissi.<\/p>\n<p>Por outro lado o que distingue esta Primavera da anterior \u00e9 que esta come\u00e7a com reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, que exigem mais liberdades para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o, mas logo se liga com as reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de uma classe trabalhadora jovem, miser\u00e1vel e sem perspectiva. Exigem mudan\u00e7as radicais nas pol\u00edticas econ\u00f4micas, contra governos que continuam aplicando as antigas receitas do Fundo Monet\u00e1rio Internacional com suas pol\u00edticas de austeridade e de retirada de investimentos, fruto da heran\u00e7a colonial imperialista. Todos com altos \u00edndices de corrup\u00e7\u00e3o que ocasionam p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida para seu povo, apesar das imensas riquezas naturais e potencial econ\u00f4mico, levando a popula\u00e7\u00e3o a ter diretamente \u00f3dio de seus governantes.<\/p>\n<p>Esses protestos t\u00eam tamb\u00e9m em comum, a idade avan\u00e7ada de seus governantes e a juventude e composi\u00e7\u00e3o feminina dos manifestantes. O continente africano \u00e9 o mais jovem do mundo, com mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o com menos de 25 anos. A m\u00e9dia de idade dos manifestantes \u00e9 de 19 anos, sua comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 via redes sociais. Enquanto isso, em 15 pa\u00edses, os governantes tem mais de 70 anos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1548609737_843084_1548610051_noticia_normal_recorte1-990x604@2x-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-27212 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1548609737_843084_1548610051_noticia_normal_recorte1-990x604@2x-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1960\" height=\"1196\" \/><\/a><\/p>\n<p>As mulheres e os jovens est\u00e3o desempenhando um papel de vanguarda em todos os pa\u00edses, se entusiasmando novamente em uma cadeia rec\u00edproca. Uma nova gera\u00e7\u00e3o, depois de uma d\u00e9cada dos protestos na Pra\u00e7a Tahrir.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-27213 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85.jpeg\" alt=\"\" width=\"1214\" height=\"697\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85.jpeg 1214w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85-300x172.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85-1024x588.jpeg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85-768x441.jpeg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85-150x86.jpeg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85-696x400.jpeg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/5cae2fbbcaa85-1068x613.jpeg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1214px) 100vw, 1214px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Aprender com os erros e as derrotas<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode somente reivindicar o aspecto altamente positivo e massificado das mobiliza\u00e7\u00f5es da Primavera \u00c1rabe, \u00e9 preciso aprender tamb\u00e9m com os erros, reveses e derrotas.<\/p>\n<p>Os generais argelinos e sudaneses, seguindo o exemplo eg\u00edpcio, entregaram seus ditadores para aplacar a ira dos manifestantes, e se manter no poder. Lembrando que, no Egito, os generais que ajudaram a derrubar Hosni Mubarak foram celebrados como guardi\u00e3s da revolu\u00e7\u00e3o e depois foram os principais agentes para implantar o novo regime ditatorial. Agora os generais argelinos falam expressamente em evitar \u201c<em>a situa\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia<\/em>\u201d. Mas eles s\u00e3o o verdadeiro perigo, pois este governo interino est\u00e1 cheio de aliados de Buteflika, incluindo o primeiro ministro.<\/p>\n<p>Na L\u00edbia, o general Jalifa Hafter quer se aproveitar da crise estabelecida pelo imperialismo, depois da estrondosa vit\u00f3ria das massas em derrubar Kadafi, para estabelecer uma nova ditadura, seguindo o exemplo de Assad na S\u00edria e da interven\u00e7\u00e3o da Ar\u00e1bia Saudita no I\u00eamen. \u00a0Os governos imperialistas que tentam aparecer como democr\u00e1ticos, seguidos por muitas organiza\u00e7\u00f5es que se reivindicam dos trabalhadores, tentam apresentar que os levantes da regi\u00e3o, em 2011, s\u00f3 levaram ao caos e \u00e0 desordem, e mais opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Os trabalhadores destes pa\u00edses t\u00eam o desafio de continuar se enfrentando com estes regimes arraigados na corrup\u00e7\u00e3o, na submiss\u00e3o imperialista e na superexplora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. As jovens prolet\u00e1rias e os jovens prolet\u00e1rios do norte da \u00c1frica e da \u00c1frica Austral t\u00eam que entender que n\u00e3o basta somente derrubar o ditador, deve-se colocar por terra todo o regime. E para isso \u00e9 fundamental e necess\u00e1rio construir as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores que sejam aut\u00f4nomas e independentes dos patr\u00f5es, do imperialismo e de todos os seus representantes pol\u00edticos, conduzidas de maneira democr\u00e1tica em suas assembleias e plen\u00e1rias.<\/p>\n<p>As for\u00e7as de seguran\u00e7a j\u00e1 mataram dezenas de manifestantes no Sud\u00e3o e atacam indiscriminadamente na Arg\u00e9lia. Mas alguns soldados come\u00e7aram a proteger os que protestavam da repress\u00e3o pol\u00edtica e dos grupos paramilitares. E fundamental que os oper\u00e1rios se juntem a estes soldados e montem grupos de autodefesa para continuar a proteger e velar pelos manifestantes.<\/p>\n<p>Nesta nova Primavera os manifestantes argelinos e sudaneses, assim como os angolanos, zimbabuanos e congoleses n\u00e3o podem somente celebrar ou se conformar com a queda de seus ditadores, devem aproveitar esta vit\u00f3ria para avan\u00e7ar mais, neste momento que seu inimigo de classe est\u00e1 golpeado pelas mobiliza\u00e7\u00f5es. Devem seguir nas ruas apostando em sua auto-organiza\u00e7\u00e3o exigindo mudan\u00e7as profundas nos regimes e no \u201csistema\u201d em que vivem, organizando os locais de trabalho para os enfrentamentos. Se conseguirem avan\u00e7ar nisso estaremos frente a uma Primavera vitoriosa e que se alastrar\u00e1 por toda a regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje na \u00c1frica vemos presidentes autorit\u00e1rios, bonapartistas e ditatoriais, que governaram seus pa\u00edses por d\u00e9cadas, deixando o poder. 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