{"id":27180,"date":"2019-04-15T11:03:00","date_gmt":"2019-04-15T13:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=27180"},"modified":"2019-04-15T11:03:00","modified_gmt":"2019-04-15T13:03:00","slug":"o-novo-e-o-velho-capitalismo-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2019\/04\/15\/o-novo-e-o-velho-capitalismo-parte-2\/","title":{"rendered":"O \u201cnovo\u201d e o \u201cvelho\u201d capitalismo (parte 2)"},"content":{"rendered":"<p><em>O artigo do banqueiro e economista Andr\u00e9 Lara Resende recentemente publicado [Consenso e Contrassenso: deficit, d\u00edvida e previd\u00eancia,Valor, 08\/03\/2019 leia <strong><a href=\"http:\/\/iepecdg.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Consensoecontrasenso.docx...pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a><\/strong>] causou um \u201cdesconforto\u201d na equipe do executivo de fundo de investimentos e atual ministro da Economia, Paulo Guedes. Membro da equipe econ\u00f4mica de FHC e um dos formuladores do Plano Real, Lara Resende questiona os mecanismos de financiamento do d\u00e9ficit no Or\u00e7amento do Governo Federal.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jo\u00e3o Ricardo Soares &#8211; PSTU Brasil<\/p>\n<p>Em que pese a sua defesa da reforma da Previd\u00eancia, a nota dissonante de um dos formuladores do Plano Real, com prest\u00edgio na classe dominante, talvez indique as dificuldades de Guedes em levar adiante o conjunto de sua pol\u00edtica. No entanto, a teoria para esses senhores n\u00e3o passa de justificativa para descarregar a conta da crise e da decad\u00eancia de um capitalismo subordinado sobre a classe trabalhadora e salvar os seus lucros.<\/p>\n<p>Somente a profundidade da crise em que se encontra o capitalismo poderia levar um membro da ortodoxia neoliberal, art\u00edfice de um plano econ\u00f4mico que aprofundou a subordina\u00e7\u00e3o e decad\u00eancia do pa\u00eds alentando o parasitismo financeiro, a alertar aos seus colegas de classe que talvez estejam indo longe demais.<\/p>\n<p>Em que medida as receitas agora propostas por Resende, o financiamento do Estado pela simples impress\u00e3o de dinheiro, poderia resolver o dilema em que se encontra a classe dominante? Se o chamado d\u00e9ficit fiscal, o tamanho da d\u00edvida p\u00fablica e a taxa de juros n\u00e3o tivessem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o dos lucros, e encontrassem uma solu\u00e7\u00e3o em si mesmo, Resende poderia resolver o dilema do \u201cnovo capitalismo\u201d do ministro de Le Marie da Fran\u00e7a, que afirma que falta dinheiro para colocar esse novo capitalismo em marcha (ver artigo <a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-novo-e-o-velho-capitalismo-parte-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">anterior<\/a>).<\/p>\n<p>Apesar de que os dilemas enfrentados pela classe dominante francesa s\u00e3o distintos dos que enfrentam a subserviente burguesia brasileira. Pois, enquanto as multinacionais francesas devem concorrer com as norte-americanas, e lutam uma briga de \u201ccachorro grande\u201d, a \u00faltima empresa instalada no Brasil com alguma capacidade tecnol\u00f3gica de concorrer no mercado mundial, a Embraer, acaba de ser incorporada pela Boeing, uma concorrente direta da Airbus, onde o capital financeiro franc\u00eas tem proemin\u00eancia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, antes de entrar nos temas abordados pelo artigo de Resende, devemos discutir a natureza da crise capitalista no Brasil. N\u00e3o as consequ\u00eancias da crise sobre o Estado, mas as raz\u00f5es que o convertem no aparente epicentro da crise.<\/p>\n<p><strong>A trajet\u00f3ria da decad\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Sem identificar o lugar que o Brasil ocupa e o que j\u00e1 ocupou na Divis\u00e3o Mundial do Trabalho (DIT) n\u00e3o se pode entender nem o processo de industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e tampouco sua decad\u00eancia. Assim como as raz\u00f5es mais profundas do fato de que, divididas ante o que fazer diante da mais profunda recess\u00e3o da hist\u00f3ria do capitalismo brasileiro, as distintas fra\u00e7\u00f5es da classe dominante brasileira sejam un\u00e2nimes na necessidade da destrui\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia p\u00fablica.<\/p>\n<p>A bases sobre a qual se ergueu a urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2013 com a imigra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho para as grandes cidades \u2013 se assentou no investimento dos monop\u00f3lios internacionais \u2013 as multinacionais. O carro chefe dessa industrializa\u00e7\u00e3o \u2013 a ind\u00fastria automotriz \u2013 impulsionou n\u00e3o somente as empresas de autope\u00e7as vinculadas a essa produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e concentrou a\u00ed todo o capital \u201cnacional\u201d. Mas, e tamb\u00e9m, o investimento do Estado na infraestrutura necess\u00e1ria \u00e0 circula\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos, assim como na ind\u00fastria que exigia um volume de investimento alto, como a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o. Ao passo que a urbaniza\u00e7\u00e3o impulsiona toda a cadeia produtiva interna necess\u00e1ria \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho pr\u00f3prio dos grandes conglomerados urbanos, abrindo o espa\u00e7o para a acumula\u00e7\u00e3o do capital local.<\/p>\n<p>Sendo uma industrializa\u00e7\u00e3o dependente dos investimentos externos nos setores de ponta da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, a chamada \u201cind\u00fastria nacional\u201d se desenvolveu \u00e0 margem deste eixo central. Particularmente os setores monopolistas locais importam tecnologia na forma de m\u00e1quinas\/ferramentas, em sua produ\u00e7\u00e3o voltada para o mercado interno e n\u00e3o faz pouco tempo, tamb\u00e9m exportava para Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Em que pese a importa\u00e7\u00e3o de tecnologia, houve margem para a cria\u00e7\u00e3o de uma ind\u00fastria de m\u00e1quinas, atrasada com rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses dominantes, que tinha um importante peso no sistema produtivo nacional que se desenvolvia \u00e0 margem das multinacionais, como a pr\u00f3pria ind\u00fastria de autope\u00e7as.<\/p>\n<p>Na medida em que dependem da importa\u00e7\u00e3o da tecnologia, os d\u00f3lares necess\u00e1rios para compr\u00e1-la foram gerados pela exporta\u00e7\u00e3o, tanto de produtos manufaturados como de produtos prim\u00e1rios \u2013 agro e extrativa.<\/p>\n<p>Assim, os lucros, os juros e a renda da terra expressam uma forte depend\u00eancia dos investimentos das multinacionais e do Estado. Ao mesmo tempo em que esta depend\u00eancia gerou uma industrializa\u00e7\u00e3o subordinada das multinacionais, ela tamb\u00e9m foi superior \u00e0 m\u00e9dia dos pa\u00edses semicoloniais at\u00e9 pelo menos os anos 80, antes que o investimento imperialista se concentrasse no leste de \u00c1sia.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o subordinada \u00e0s multinacionais e ao Estado tamb\u00e9m marcou o seu pr\u00f3prio limite para o capitalismo no pa\u00eds. Limite que se expressa na subordina\u00e7\u00e3o do desenvolvimento capitalista das outras regi\u00f5es do pa\u00eds \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial no Sudeste.<\/p>\n<p>Mas a totalidade deste processo foi e \u00e9 determinado pela subordina\u00e7\u00e3o da classe dominante ao investimento externo nos setores de ponta da produ\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>Dois fatores em tempos diferentes ru\u00edram completamente essa engrenagem: a concentra\u00e7\u00e3o dos investimentos produtivos das multinacionais no leste de \u00c1sia e na China, e em particular e mais recentemente, a reestrutura\u00e7\u00e3o mundial da ind\u00fastria automotiva. O desinvestimento da Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo, \u00e9 somente uma express\u00e3o de que esse modelo de capitalismo dependente entrou em colapso.<\/p>\n<p>Mas, foi substitu\u00eddo por outro ainda mais subordinado, que nos leva aos tempos da col\u00f4nia. Estando fora da rota dos investimentos nos setores de ponta da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, a localiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na Divis\u00e3o Mundial do Trabalho baixa um degrau. De plataforma de exporta\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados para Am\u00e9rica Latina, se concentrou na exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios para China. Ante a crescente urbaniza\u00e7\u00e3o da \u00c1sia (das 30 maiores cidades do planeta 21 est\u00e3o na \u00c1sia) e o \u201cboom\u201d dos pre\u00e7os destas mercadorias, parecia que os efeitos da desindustrializa\u00e7\u00e3o relativa seriam amplamente compensados pela \u201cgrande lavoura\u201d.<\/p>\n<p>Mas o pre\u00e7o do lugar reservado ao Brasil na produ\u00e7\u00e3o mundial de mercadorias cobraria o seu pre\u00e7o. A realidade chega, mais cedo do que tarde.<\/p>\n<p>A profunda recess\u00e3o aberta e a demora na recupera\u00e7\u00e3o expressam a desarticula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial dependente. Na medida em que o investimento exterior voltado para a produ\u00e7\u00e3o industrial secou, e com ele o entorno em que o capital local se alimentava se estreita, e agravado ainda pela abertura das importa\u00e7\u00f5es dos insumos industriais, as multinacionais tamb\u00e9m foram impondo pre\u00e7os menores a fornecedores locais e\/ou diretamente importando.<\/p>\n<p>O investimento externo que impulsionou a produ\u00e7\u00e3o de valor no capitalismo dependente e criou um consider\u00e1vel parque industrial, ao ser interrompido, aliado \u00e0 incapacidade da classe dominante de romper o ciclo de depend\u00eancia, abre o per\u00edodo de decad\u00eancia profunda e prolongada.<\/p>\n<p>Assim, ante \u00e0 queda das taxas de lucro, a ordem \u00e9 a pilhagem, o rentismo e a destrui\u00e7\u00e3o cuja express\u00e3o oculta toma a forma da tortura do desemprego para os trabalhadores. E o rentismo, para fazer dinheiro de dinheiro, necessita da d\u00edvida p\u00fablica e do Estado para impulsion\u00e1-lo. E a\u00ed entrou o Plano Real.<\/p>\n<p><strong>Uma outra maneira de manter a \u201cbicicleta pedalando\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Se a pol\u00edtica de Guedes \u00e9 a express\u00e3o pura e dura da pilhagem e da venda do pa\u00eds a pre\u00e7o de saldo, t\u00edpica dos fundos de investimentos que necessitam mais velocidade no retorno dos seus \u201cativos\u201d, o artigo de um do banqueiro, Andr\u00e9 Lara Resende, colocou em entredito os caminhos de Guedes para a \u201cretomada\u201d do crescimento.<\/p>\n<p>O banqueiro Lara Resende entra no grupo dos economistas que passaram a defender a Moderna Teoria Monet\u00e1ria (MMT sigla em ingl\u00eas) como solu\u00e7\u00e3o dos \u201cdesequil\u00edbrios\u201d do sistema capitalista. O expoente economista do PSDB importa o debate travado por economistas dos pa\u00edses imperialistas que, depois da ru\u00edna da Gr\u00e9cia e dos \u201cplanos de austeridade\u201d na Europa, apresentam solu\u00e7\u00f5es que viabilizem de alguma forma o sistema capitalista.<\/p>\n<p>Tal qual John MacDonnell, membro do Labor Party brit\u00e2nico, ou de Stephanie Kelton, professora da Universidade Stony Brook, ex-economista-chefe dos Democratas na equipe do Comit\u00ea de Or\u00e7amento do Senado dos EUA, e conselheira econ\u00f4mica da campanha presidencial de 2016 do senador Bernie Sanders, estes economistas travam um intenso debate com os defensores do neoliberalismo ou da ortodoxia financeira no tratamento do d\u00e9ficit p\u00fablico.<\/p>\n<p>O artigo de Resende foi respondido pelos defensores de Guedes que, em un\u00edssono, rezam o credo: sem a reforma da Previd\u00eancia o Estado brasileiro estaria em quest\u00e3o. O mesmo tamb\u00e9m pode ser lido de outra forma: a acumula\u00e7\u00e3o baseada no rentismo da d\u00edvida p\u00fablica, ante \u00e0 profunda queda nas taxas de lucros, estaria em uma grande encalacrada.<\/p>\n<p>Resende \u00e9 um defensor da reforma, na medida em que ela seria uma \u201ccondi\u00e7\u00e3o de sustentabilidade da d\u00edvida p\u00fablica\u201d, ou seja, \u00e9 a garantia de que haver\u00e1 super\u00e1vit prim\u00e1rio. Mas, a diferen\u00e7a vem nos limites da d\u00edvida p\u00fablica e da pol\u00edtica fiscal para manter a bicicleta pedalando. O que diz Resende \u00e9 que a ciranda financeira patrocinada pelo Estado pode e deve encontrar outros caminhos para manter-se, talvez mais adequada \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Para o banqueiro, agora partid\u00e1rio da MMT, o governo n\u00e3o necessariamente deveria financiar-se somente pela via da emiss\u00e3o de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica. Reivindicando a recente experi\u00eancia dos Estados Unidos, Europa e Jap\u00e3o, o governo brasileiro poderia simplesmente imprimir dinheiro, pois a experi\u00eancia depois da crise de 2007 demonstrou que mesmo injetando trilh\u00f5es de d\u00f3lares, euros e yens na economia, esse mecanismo n\u00e3o foi inflacion\u00e1rio como diz os manuais em que os gestores da economia capitalista aprendem a conduzir as pol\u00edticas do Estado.<\/p>\n<p>Mas, Resende alerta, sempre e quando a taxa de juros seja \u201cinferior ao crescimento da economia\u201d. Sua tese est\u00e1 ancorada no fato de que, se os juros baixam, e se o governo mant\u00e9m um super\u00e1vit prim\u00e1rio, a d\u00edvida p\u00fablica tende a se equilibrar e n\u00e3o representa um risco, e afirma: \u201ca expans\u00e3o monet\u00e1ria n\u00e3o provoca infla\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o seria somente o resultado da incapacidade da ind\u00fastria de prover a demanda pelos bens que a popula\u00e7\u00e3o necessita e que n\u00e3o existe em quantidade suficiente. Como n\u00e3o haveria nenhuma modifica\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica salarial, e tampouco qualquer modifica\u00e7\u00e3o substancial na taxa de lucro das empresas que impulsione os investimentos, abarrotar os bancos de dinheiro e faz\u00ea-los comprar t\u00edtulos da d\u00edvida a juros mais baixos, manteria intacta a ciranda, sendo menos traum\u00e1tico mexer nos crit\u00e9rios constitucionais de distribui\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento.<\/p>\n<p><strong>Taxa de lucro e parasitismo: as duas faces da acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/strong><\/p>\n<p>O que n\u00e3o diz o banqueiro \u00e9 quais as raz\u00f5es pelas quais as taxas de juros no Brasil est\u00e3o entre as maiores do mundo. Acreditar que a natureza da crise da economia capitalista no Brasil pode ser gerida a partir de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria, seja mediante o controle ou a expans\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, do dinheiro ou do cr\u00e9dito, \u00e9 somente mais uma tentativa de salvar os an\u00e9is.<\/p>\n<p>O sistema capitalista \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social baseado na explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores cujo objetivo \u00e9 acumular capital, isto \u00e9, produzir lucros em uma escala crescente. E isso somente pode ser feito pela via da produ\u00e7\u00e3o de valor, isto \u00e9, pelo crescimento da fatia do trabalho n\u00e3o pago aos trabalhadores.<\/p>\n<p>O capital faz isso tanto pela expans\u00e3o das atividades produtivas \u2013 e a raqu\u00edtica ind\u00fastria brasileira teoricamente teria um amplo espa\u00e7o para se expandir \u2013 ou pelo aumento da produtividade da ind\u00fastria instalada pela intensifica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Em um capitalismo dependente que produz cada vez menos valor, desde o Plano Real arquitetado pelo nosso banqueiro, as altas taxas de juros foi a forma encontrada pelo sistema para passar de uma forma desequilibrada de acumula\u00e7\u00e3o (hiperinfla\u00e7\u00e3o) a outra, a \u00e2ncora cambial.<\/p>\n<p>Quer dizer, com uma moeda, o Real, que representa pouca produ\u00e7\u00e3o de valor e n\u00e3o \u201cvale nada\u201d, desculpe a redund\u00e2ncia, as taxas de juros nas alturas foi a forma encontrada para atrair o capital em d\u00f3lares que preencheu o vazio deixado pela falta dos investimentos que produziam mais-valia.<\/p>\n<p>Mas os efeitos deste processo foi mais al\u00e9m do que a \u201c\u00e2ncora cambial\u201d. Na medida em que o pa\u00eds j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o deposit\u00e1rio de investimentos das multinacionais com for\u00e7a suficiente para arrastar o conjunto da economia, o capital internacional atra\u00eddo pelas altas taxas de juros teve mero efeito especulativo.<\/p>\n<p>Por isso, as taxas de juros sempre foram as maiores do mundo. Mas isso n\u00e3o somente beneficiou o capital de fora, o capital local tamb\u00e9m se locupleta das altas taxas de juros, mantendo o rentismo, o parasitismo como a palavra de ordem da acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O efeito real sobre a produ\u00e7\u00e3o de valor, ou seja, sobre o hipot\u00e9tico desenvolvimento capitalista, para al\u00e9m da estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda, foi nulo. O grande feito foi estabilizar uma moeda sem valor e os lucros desorganizados pela hiperinfla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o efeito de m\u00e9dio prazo foi o impulso da desindustrializa\u00e7\u00e3o, na medida em que a valoriza\u00e7\u00e3o artificial do real ante o d\u00f3lar tornava mais caro os investimentos, j\u00e1 que a tecnologia \u00e9 importada. Para amenizar as perdas da classe dominante, o governo FHC distribuiu, ou nas palavras deles, \u201cprivatizou\u201d v\u00e1rias estatais para os seus amigos. Nesse epis\u00f3dio, o nosso banqueiro perde o seu cargo envolvido em uma negociata da privatiza\u00e7\u00e3o. E estimula o rentismo, iniciando a blindagem do Or\u00e7amento federal para garantir o pagamento dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica e retirando o imposto sobre lucros e dividendos das empresas e bancos distribu\u00eddos aos acionistas.<\/p>\n<p>Mas o inexor\u00e1vel curso da decad\u00eancia se aprofunda, na medida em que a melhora circunstancial e conjuntural da taxa de lucro das empresas n\u00e3o financeiras foi somente o resultado do aumento da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Os dois eixos sobre os quais giravam os investimentos \u2013 as multinacionais e o Estado \u2013 j\u00e1 n\u00e3o cumpririam o mesmo papel de antes. Por isso, as taxas de lucro, ou o retorno na forma de lucro ante o capital investido, manteve sua queda.<\/p>\n<p>\u00c9 o que nos demonstra os estudos de Adalmir Marquetti (PUCRS). A pronunciada queda da taxa de lucro explica a din\u00e2mica das sucessivas crises do capitalismo brasileiro. Tomando o ano de 1955 como refer\u00eancia (=100), a taxa de lucro nas empresas n\u00e3o financeiras representava, em 2015, o equivalente a 40%, uma queda de 60%.<\/p>\n<p>Assim, desde o Plano Real, o rentismo, a acumula\u00e7\u00e3o de dinheiro pela via pura e simples da especula\u00e7\u00e3o, seja pelos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica ou dos mecanismos especulativos, foi ganhando proemin\u00eancia ante a decad\u00eancia econ\u00f4mica. Este mecanismo foi impulsionado n\u00e3o somente pelo Plano real de FHC, mas, e tamb\u00e9m, nos governos Lula, quando converte t\u00edtulos da d\u00edvida externa com baixa remunera\u00e7\u00e3o de juros pela queda da taxa de juros dos Estados Unidos, em D\u00edvida Interna com juros nas alturas.<\/p>\n<p>Todo esse macabro mecanismo deveria ser sustentado por um colch\u00e3o de d\u00f3lares que permitisse a sa\u00edda dos d\u00f3lares que entram no pa\u00eds. Assim, a exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios para \u00c1sia compensa a queda da exporta\u00e7\u00e3o de produtos industrializados para Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O crescimento do PIB de 4% entre 2003-2010, alentando pelo aumento m\u00e9dio de 130% dos produtos b\u00e1sicos exportados, foi uma grande ilus\u00e3o passageira, posto que, quando esses produtos t\u00eam uma queda abrupta, a produ\u00e7\u00e3o industrial j\u00e1 em franca decad\u00eancia n\u00e3o tem como ser o motor da economia capitalista. Os governos Lula somente foi a continuidade do Plano Real durante o boom das mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o mais importante, para entender a din\u00e2mica da crise \u00e9 o que impulsiona a economia capitalista. \u00c9 a rentabilidade do investimento capitalista que impulsiona o crescimento e o emprego, n\u00e3o o tamanho do d\u00e9ficit do governo. E para esse quesito, o artigo de Resende n\u00e3o gasta uma linha.<\/p>\n<p>E como vimos, a queda abrupta desta rentabilidade conduz a estes parasitas manterem os seus lucros via o aumento da explora\u00e7\u00e3o com a reforma trabalhista e a reforma da Previd\u00eancia para manterem a pilhagem do Estado e o parasitismo.<\/p>\n<p><strong>O fetiche do banqueiro<\/strong><\/p>\n<p>O artigo de Lara Resende n\u00e3o deixa de ter o seu lado c\u00f4mico, agora o nosso banqueiro descobriu que:<\/p>\n<p><em>\u2026 a moeda \u00e9 essencialmente um \u00edndice, a unidade cont\u00e1bil oficial para o balan\u00e7o dos ativos e passivos do governo com a sociedade, \u00e9 mais desorganizador das concep\u00e7\u00f5es macroecon\u00f4micas estabelecidas do que se poderia supor. Essa \u00e9 a vis\u00e3o Cartalista, retomada pela Modern Money Theory, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o Metalista\/Quantitativista, que foi dominante at\u00e9 a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.<\/em><\/p>\n<p>Sem resolver o problema essencial da profunda crise do capitalismo dependente brasileiro, o nosso banqueiro advoga pela pura e simples impress\u00e3o de dinheiro pelo Estado, afinal fazer dinheiro de dinheiro \u00e9 a especialidade dos banqueiros. Segundo o nosso autor, est\u00e1 demonstrado empiricamente que imprimir dinheiro n\u00e3o \u201ccausa infla\u00e7\u00e3o\u201d. Afinal, Lula j\u00e1 converteu parte importante da d\u00edvida externa em d\u00edvida interna e o pa\u00eds se endivida em moeda local e soberana, n\u00e3o pode imprimir d\u00f3lar, mas nada o impede de imprimir reais.<\/p>\n<p>Os que insistem que a natureza das crises no capitalismo tem origem nas finan\u00e7as e podem ser resolvidas no \u00e2mbito da quantidade de dinheiro que circula, seja no campo da ortodoxia neoliberal ou da <em>Moderna Teoria do Dinheiro <\/em>est\u00e3o discutindo em como \u201cmanter a bicicleta pedalando\u201d, quer dizer, discutem como \u201csalvar o capitalismo dos capitalistas\u201d.<\/p>\n<p>Mas se \u00e9 verdade que a simples impress\u00e3o de dinheiro \u00e9 a prova emp\u00edrica de que este mecanismo n\u00e3o causaria infla\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que tampouco este foi o fator que determinou a retomada do crescimento econ\u00f4mico, como nos explica o economista brit\u00e2nico Michael Roberts:<\/p>\n<p><em>Iwata foi originalmente o arquiteto do programa de compra massiva de t\u00edtulos pelo banco do Jap\u00e3o conhecido como \u2018flexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa e qualitativa\u2019 (QQE). Seu objetivo era impulsionar a economia atrav\u00e9s de uma inje\u00e7\u00e3o massiva de oferta monet\u00e1ria. Mas, ainda que o governo japon\u00eas seguiu continuamente com deficit or\u00e7ament\u00e1rios anuais, n\u00e3o conseguiu reativar o crescimento nominal do PIB ou da renda dos domic\u00edlios\u201d<\/em><\/p>\n<p>A \u201cprova emp\u00edrica\u201d de que a flexibiliza\u00e7\u00e3o Quantitativa (QE) n\u00e3o causa infla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o resolve o dilema do capitalismo brasileiro, assim como n\u00e3o resolveu no Jap\u00e3o. O desequil\u00edbrios e reequil\u00edbrios do sistema capitalista n\u00e3o s\u00e3o um problema em si mesmo para o capital, \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia de um sistema turbulento onde impera as desigualdades, passando de uma fase desequilibrada \u00e0 outra. A \u00e2ncora de todos esse processo \u00e9 se as taxas de lucro aumentam e o capital segue se acumulando pela explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Quando a taxa de lucro n\u00e3o compensa o investimento, uma fase especulativa se expressa no \u201cdesequil\u00edbrio\u201d na esfera p\u00fablica com o aumento da d\u00edvida e a press\u00e3o para diminuir os impostos que incidem sobre a propriedade e o lucro. Isso n\u00e3o depende da teoria justificativa da moda.<\/p>\n<p>Na medida em que a inexist\u00eancia do super\u00e1vit prim\u00e1rio coloca em risco o pagamento dos t\u00edtulos da d\u00edvida a uma taxa corrente de juros, o nosso banqueiro pode resolver um aspecto do problema: como os bancos em uma fase cr\u00edtica do mecanismo rentista da d\u00edvida p\u00fablica pode trocar esse mecanismo por outro. Mas, os efeitos concretos sobre a produ\u00e7\u00e3o de valor podem no m\u00e1ximo ser indireto, quer dizer, baixar a taxa de juros para permitir o investimento.<\/p>\n<p>Mas os capitalistas permanecem com outro dilema: \u00e9 a rentabilidade do capital o que determina o investimento. Mesmo abarrotados de dinheiro nos bancos, os capitalistas n\u00e3o investem porque a taxa de lucro n\u00e3o compensa, isso foi o que demonstrou a impress\u00e3o de dinheiro no Jap\u00e3o (ou a \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o Quantitativa como \u00e9 conhecida).<\/p>\n<p>Os capitalistas brasileiros responder\u00e3o da mesma forma. As taxas de juros podem atrapalhar ou ajudar, mas elas n\u00e3o determinam, mesmo porque os capitalistas n\u00e3o se financiam pelos juros correntes da Selic que remuneram os t\u00edtulos da D\u00edvida P\u00fablica, eles aplicam seu dinheiro a\u00ed justamente pela queda da taxa de lucro de suas empresas.<\/p>\n<p>As altas taxa de juros no Brasil segue sendo superior \u00e0 taxa m\u00e9dia de lucro, ou como diz o nosso banqueiro, \u00e9 superior \u00e0 \u201ctaxa de crescimento da economia\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 porque ela seja um entrave absoluto ao investimento produtivo dos grandes monop\u00f3lios, ao contr\u00e1rio, ela \u00e9 somente a express\u00e3o da decad\u00eancia do sistema produtivo. E a forma encontrada para manter a acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>A imagem aparece invertida no espelho dos economistas a servi\u00e7o do capital porque o problema central da base te\u00f3rica da <em>Moderna Teoria do Dinheiro<\/em>, \u00e9 negar o fato de que o lucro \u00e9 oriundo da mais-valia extra\u00edda da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. No fetichismo do dinheiro, este substitui o valor em vez de represent\u00e1-lo. Acreditam que o dinheiro \u00e9 o causador da crise e tamb\u00e9m sua solu\u00e7\u00e3o mediante a cria\u00e7\u00e3o de valor. Ignoram de fato a origem e a fun\u00e7\u00e3o do lucro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/o-novo-e-o-velho-capitalismo-parte-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>LEIA O 1\u00ba ARTIGO<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo do banqueiro e economista Andr\u00e9 Lara Resende recentemente publicado [Consenso e Contrassenso: deficit, d\u00edvida e previd\u00eancia,Valor, 08\/03\/2019 leia aqui] causou um \u201cdesconforto\u201d na equipe do executivo de fundo de investimentos e atual ministro da Economia, Paulo Guedes. 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